Entenda a receita californiana que triturou Júnior Cigano

Fernando Cappelli | 22/10/2013 às 14:59

O terceiro combate entre Cain Velásquez e Júnior Cigano não foi propriamente rico em estratégias mirabolantes.

Mas trouxe um campeão peso-pesado bastante minucioso no que faz de melhor, com tática direta ao ponto, sem extravagâncias.

Consequentemente, promoveu outra noite de pesadelos para o lutador brasileiro.

Com a pane psicológica que tomou de assalto o catarinense (acredite, isso não é uma desculpa e pode acontecer com qualquer um), o desafio logo se tornou um massacre unilateral.

Vamos analisar alguns detalhes que garantiram a segunda defesa de cinturão bombástica para o produto da American Kickboxing Academy.

O terror do clinch bem feito

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Cigano tentando se desvencilhar

Muitas modalidades de combate ensinam diversas maneiras de escapar dos clinches.

Geralmente, nas lutas em pé, tudo é feito simplesmente para travar ações ou facilitar a aplicação de golpes – como as joelhadas.

Rasteiras, varreduras ou rotações de corpo no timing correto tiram o lutador das cordas (ou grade, no caso) e invertem posições de vantagem, geralmente com braços travando braços, para impedir os socos, ou algum outro trabalho.

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Assédio ininterrupto

É muito mais força contra força, sem tanta preocupação com fatores como estabilidade (já que em algum momento o árbitro intervém e separa os competidores).

Grapplers de alta estirpe, como Velásquez, porém, conseguem usar as regras do MMA e elevar isso a outro patamar, muito mais letal e doloroso, ao travar apropriadamente os braços do oponente e projetar a força do quadril para frente, com as pernas plenamente estabilizadas (o que muita gente chama de báscula).

Isso muda o foco de gravidade e dificulta o giro e boa parte das tentativas de escapes ou esgrimas do adversário.

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Raro momento de descanso do campeão

Todo jogo de Velásquez é moldado para tirar a vantagem do alcance alheio (uma vez que, com 1,85m de altura e 109kg, ele não é um peso-pesado grande).

No UFC 166, ele não se preocupou muito nas virtudes da zona de striking.

Simplesmente esperava qualquer esboço de iniciativa de Cigano para aproveitar o impulso e tentar o clinch.

No momento em que fazia contato com o adversário, sempre jogava o peso em cima e controlava a postura com a cabeça, para soltar algum golpe curto (geralmente um cruzado ou upper de esquerda ou joelhadas na perna) e ocupar o assustado brasileiro enquanto trabalhava a melhor forma de seguir no abafa sem ser atingido.

Junior dos Santos, Cain Velasquez

Se levantar a guarda, termina no chão

Velásquez tem se tornado um mestre em domar a curta distância a seu modo.

As variações vêm também ao ‘desengatar’ os clinches, quando aproveita algum ângulo para usar empurrões (ou puxões) com socos chutes variados com o adversário ainda se recompondo ou levantando a guarda.

Passivo em demasia também (diga-se de passagem), o brasileiro ficou com as costas na grade do octógono praticamente o combate todo, sem conseguir dar algum passo lateral para tentar se desvencilhar ou mesmo tentar manter a distância antes de o adversário ‘grudar’.

Direto ao ponto

Outro ponto que tem de ser levado em conta recai na obediência tática impecável de Velásquez.

Ele fez o que é particularmente mais simples e natural, sem extravagâncias.

Quando percebeu que a receita seria o suficiente, não arriscou um pêlo, sob pena de ser taxado de burocrático – porém, não menos incisivo.

A virtude estava nos detalhes de se manter ativo, mesmo em momentos anti-luta mais naturais que recaem na luta agarrada.

Foram sequências e mais sequências sistemáticas de pêndula/cruza, direto/esquiva, finta/single legs, mais e mais clinches.

Para tal padrão surtir o efeito desejado, fica também o adendo de que Velásquez conta com um dos cardios mais fora de série já vistos para pesos-pesados (possivelmente em todos os tempos).

Ele não chega a ser um espécime físico diferenciado, mas sabe muito bem manter o nível explosivo de golpes e habilidades em alta o tempo todo, o que é fisiologicamente complexo para qualquer atleta com mais de 100 kg.

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