Morte pela balança: como evitar essa tragédia?

Renato Rebelo | 02/10/2013 às 16:36

Como o assunto é delicado, demorei um pouco para me manifestar – mas, agora que a notícia está digerida, é hora de botar a cara.

A primeira versão que chegou a mim sobre a trágica morte de Leandro Feijão foi que o lutador estava dentro de uma sauna quando começou a passar mal.

Desidratação severa, perda sanguínea repentina (hemorragia), insuficiência renal, um abraço – pensei pesarosamente.

Venho cortando peso minha vida inteira. Acho que comecei com 13 anos e, desde sempre, fiz da maneira errada. Passava a semana inteira antes da luta com aquele macacão plástico pra sugar toda a água que podia. Mas seu corpo só aguenta até certo ponto e o machuquei tanto que fui parar no hospital com insuficiência renal – disse o ex-wrestler Daniel Cormier que viu a morte de perto em 2008, quando tentou atingir a marca de 95kg para competir nos Jogos Olímpicos de Pequim.

Alguns dias depois, no entanto, veio à tona o atestado de óbito o Instituto Médico Legal apontando morte por acidente vascular cerebral hemorrágico.

Em entrevista ao repórter Ivan Raupp, do Combate.com, Rubens Gagliardi, vice-presidente da Academia Brasileira de Neurologia, descartou prontamente a desidratação e o uso de diuréticos como causas do AVC.

A perda de peso em si não seria um problema. Pode ser um aneurisma por mera coincidência. O problema é que a gente não sabe o que ele eventualmente tomou. O anabolizante pode, sim, causar o AVC hemorrágico. Eles mais frequentemente causam o AVC isquêmico, mas pode ser o hemorrágico também. Pode causar inflamação na artéria, e a artéria inflamada pode sofrer uma crise hipertensiva e se romper. Tem que ver o que ele estava tomando. Alguns remédios de redução de apetite podem favorecer o sangramento cerebral. É possível que esse atleta tenha tomado alguma droga desse tipo – explicou.

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Descanse em paz!

Até a apresentação de um laudo mais detalhado, não dá pra cravar se estamos falando de alguma anomalia arterial não detectada (que pode ser até genética) ou do consumo de substâncias danosas.

De qualquer forma, no caso de desidratação excessiva, anabolizantes, diuréticos, moderadores de apetite e outros vilões, o objetivo é o mesmo: vencer a balança.

E a pergunta que tenho mais escutado nos últimos dias é: o que fazer para que a “malvada” não encerre outras carreiras?

Muita gente é a favor de transferir a pesagem para o dia da luta – obrigando atletas a atuarem em categorias mais compatíveis com seus biótipos.

Tal mudança mataria o brusco processo de desidratação pelo qual 9 em cada 10 porradeiros passam na semana do evento – uma vez que ninguém em sã consciência entraria na jaula debilitado, certo?

Há controvérsias.

Primeiro, reforço que nem Feijão nem nenhum outro lutador que se tem notícia no MMA morreu por desidratação.

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Feijão em ação. Sua morte forçou o cancelamento do Shooto 43

Segundo, admito que a novidade convenceria a maioria a iniciar o processo dietético com maior antecedência – ou a fazê-lo de forma mais saudável.

Acontece que não vivemos num mundo perfeito e o padre só é capa de jornal quando abusa do coroinha – e não quando reza missa.

Com a pressão de bater o peso poucas horas antes da luta – sob pena de ter o evento cancelado ou perder a bolsa- negligentes (ou desinformados) podem acabar ingerindo substâncias ainda mais violentas ou até mesmo lutar desidratados.

Já imaginaram a publicidade negativa de uma fatalidade dentro da jaula?

Anderson Silva, Jon Jones, GSP e outros figurões certamente fariam tudo de forma científica, mas e aqueles sem nenhum tipo de acompanhamento que aceitaram o compromisso em cima do laço em busca de uns trocados?

E a enxurrada de cancelamentos que ceifariam eventos menores a torto e direito?

Que fique claro: não estou me posicionando contra a pesagem no dia da luta, apenas não acredito que há um Messias salvador do esporte.

Pra mim, somente uma receita é capaz de diminuir efeitos colaterais.

Prontos? Podem anotar:

Untem a panela com bom senso, adicionem três colheres de responsabilidade, cinco mil xícaras de paciência e força de vontade a gosto.

Enquanto o ser humano buscar atalhos para diminuir o trajeto, infelizmente, novas fatalidades são inevitáveis – com pesagem no dia, na véspera ou uma semana antes.

Existem vários procedimentos e isso é completamente desestimulado por nós. Mesmo assim, alguns atletas tentam burlar isso achando que terá um ganho de performance. Nós incentivamos o atleta que não consegue lutar na categoria de seu peso, lutar na categoria que consegue bater o peso. Mas, muitos, infelizmente tentando tirar proveito, fazem isso de uma maneira indiscriminada. Não é recomendado por nós, mas é uma realidade – disse o diretor-médico da Comissão Atlética Brasileira de MMA (CABMMA), Márcio Tannure.

Muitos dedos são apontados na direção de eventos, academias e comissões, mas, prefiro manter a responsabilidade na esfera do indivíduo.

A noção de que precisamos de regulamentações mis para nos protegermos de nós mesmos não me agrada.

Se cada um advogasse a favor da própria longevidade em detrimento do curto-prazismo teríamos um esporte infinitamente mais seguro do que com mil canetadas de burocratas.

Até lá, mantenham seus lenços em mãos.

Abraços.

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