"McDiaz" mudou a história do
MMA. Vamos dizer não à trilogia?

Felipe Paranhos | 24/08/2016 às 22:02

Como muitos de vocês, eu também não queria que McGregor vs Diaz 2 fosse marcado. E como quase todos vocês, eu também assisti à luta. Então, é a partir de uma reflexão que começamos este texto: qual é a real importância do muxoxo que a gente faz quando uma luta considerada caça-níquel é marcada?

E mais: quanto da torcida de cada um influencia as previsões para um combate polêmico como este?

O argumento número 1 que vi por aí para que nós, fãs e especialistas, rejeitássemos a segunda luta entre os dois detentores do cinturão dos pesos-língua foi a suposta grande probabilidade de vermos um replay do combate de março, vencido pelo mais talentoso dos irmãos Diaz.

Conor-McGregor-defeats-Nate-Diaz-ufc-202-2

McGregor se impôs no UFC 202

Mas vale ressaltar que um revisionismo histórico atrapalhou muito a percepção geral das pessoas sobre o que seria o duelo do sábado passado: a ideia de que Nate dominou ou foi muito superior a Conor. Ora, o irlandês massacrou Diaz até cansar brutalmente, lá pelo segundo minuto do 2º round. E não havia qualquer surpresa nisso, uma vez que, apesar da grave deficiência no chão, é mais lutador que o rival — o que ficou claro no último embate entre os dois.

Some-se a isso a supervalorização do bom boxe de Nate, que nunca foi páreo para nenhum striker que usasse ângulos e chutes, e temos uma história virada do avesso — e não tô sendo engenheiro de obra pronta, disse isso antes da luta. Assim, realmente, o 202 não parecia ter qualquer graça. Mas havia muitos motivos para que quiséssemos ver o duelo — e o resultado, diferente do anterior, provou que os que diziam “já vimos esta luta” estavam errados.

Além disso, creio que a rivalidade entre os dois e a intensa promoção do combate minimizou a razão esportiva dele.

Como eu falei neste texto, se a gente pensasse em impacto imediato para a articulação dos rankings e dos cinturões do UFC, realmente McGregor vs Diaz 2 não tinha qualquer razão de ser. Mas se o encarássemos como a possível redenção de um lutador que decidiu aceitar um desafio negado por quase todos os grandes da história, tinha muita.

Ao subir para os leves desafiando Rafael dos Anjos e topar enfrentar Nate 11 kg e duas categorias acima da sua, McGregor deu a Diaz o cargo de franco-atirador. Como perdeu a luta, todo mundo olhou para as condições do americano no duelo: fora de forma, bebendo em Cabo alguns dias antes do duelo, também fora de sua divisão…

Mas pouca gente atentou para o fato de que Conor havia se preparado para um lutador completamente diferente. E, como vimos em recentes episódios com atletas de alto nível, como em Tony Ferguson vs Landon Vannata ou Daniel Cormier vs Anderson Silva, muitas vezes a troca de adversário com poucos dias de antecedência atrapalha mais o melhor.

Arrogantemente acreditando que eu ajudei a desconstruir as principais razões de vocês contra uma eventual trilogia — mesmo que seja daqui a uns anos —, chego a outro ponto da minha reflexão.

A esse ponto depois da primeira luta eu já tinha aceitado a revanche. Descanse. Estou chegando pra te pegar”, mandou Diaz hoje mesmo no Instagram.

Podemos dizer não a uma luta que conseguiu dois dos três maiores pay-per-views da história do UFC? Detalhe: a quarta maior audiência de PPV é de Conor também, contra José Aldo.

É inegável que McGregor mudou o jogo. Em 2016, assistimos a uma alteração de postura tão profunda entre os lutadores do UFC que vemos gente como Ronaldo Jacaré fazendo provocações a adversários e campeões como Tyron Woodley e Michael Bisping pedindo money fights em suas primeiras defesas de cinturão.

Como toda grande mudança, ao baque inicial se sucede um equilíbrio maior das ações e das intenções.

Sendo assim, Nate e McGregor estão reescrevendo parte da história do MMA, ainda que muitos de nós viremos a cara hoje. Aos poucos, os frutos da promoção e dos resultados de tanta propaganda vão surgindo em lutadores dos quais não esperávamos nada e ensinando futuros atletas a se venderem melhor.

Melhor que eu, fala Mike Tyson:

No jogo da luta temos muito poucas oportunidades. A janela para se aproveitar é muito pequena. Não adianta ser campeão há 20 anos se ninguém quer te ver lutar. Você tem que ser excitante, tirar emoções das pessoas pra ter algum sucesso nesse negócio”, disse, no programa Jimmy Kimmel Live.

Tyson sabe o que diz. Quando foi preso por estupro, o campeão do mundo era Evander Holyfield. Mas ninguém falava do Real Deal. O sensacional Chasing Tyson mostra isso: Evander só virou um verdadeiro campeão aos olhos do público quando venceu Tyson em 1996.

Claro, sabemos que carisma não se cria. Ou tem, ou não tem. Mas a marca de McGregor vai fazer um estrago muito positivo no futuro próximo. Quanto mais for promovido e mais obtiver resultados, mais o esporte cresce. E quanto mais o esporte cresce, mais espaço para os gênios teremos. Assim, ao contrário do que parece de cara, uma importância maior à promoção deve levar também Andersons Silvas — craques pouco afeitos às palavras, que brilham e calcam sua carreira em nocautes e finalizações — a outros patamares.

Quanto mais McGregors, mais McGregors, Andersons, Fedors, Jones, Belforts, Aldos, Edgars…

  • Jp Mikelane

    Texto top cara.

  • Rudá Costa

    Discordo de algumas coisas… Não acho que é verdadeiro essa ideia de que o Holyfield só foi visto como verdadeiro campeão depois do Tyson. Sei lá, na verdade era uma luta que a galera queria ver mesmo antes do Tyson ser preso.

    • Dow Jones

      Acho que ele quis dizer para as grandes massas, passou a ser largamente reconhecido.

  • Renato Rebelo

    A julgar pelos números, vai ter trilogia sim. E se reclamar, vai ser pelo cinturão dos leves (vai q o McMoney deita um Alvarez da vida e chama o Nate…)

    • Hyuriel Constantino

      Era o que o Kavanagh tava falando, o que vai ser uma baita merda, estilo situação dos médios e meio-médios.
      Imagine Khabib, RDA, Ferguson, Barboza, Cerrone e o próprio Alvarez sendo preteridos por um Nate Diaz vindo de derrota e de um grande hiato?
      É uma pena que os caras não tenham colhões ainda o bastante (e nem o Scott Coker dinheiro o suficiente) para se concretizar uma verdadeira “Hégira” dos tops dessas três categorias (médios, meio-médios e leves) para o Bellator.
      Se isso acontecer, serão três categorias no UFC completamente travadas por espalhafatosidades de seus campeões, além da devastação provocada nos penas se derem pro Aldo o cinturão linear na base da canetada e não ter o tira-teima com o irlandês.

  • Thiago Batista

    Eu concordo com tudo, porém o UFC tem que ver o outro lado. Se o Bellator consegue pegar uns dois caras desses insatisfeitos, em final de contrato, a coisa pode mudar de figura.

  • Sexto Empírico

    Diremos NÃO! mas mesmo assim assistiremos.

    • Hyuriel Constantino

      Direi sim, só pra ver nessa negada fanfarrona apanhando. kk

  • Muito louco essa coisa de troca de xingamentos e garrafas d’água ser mais atrativo que a própria luta. Só não posso discordar quem achar que é coisa de brigão e só violência, já que a promoção é baseada em pancadaria e palavrões.

  • Marcelo

    Eu também assisti esse documentário Chasing Tyson, é muito bom, eu recomendo.
    No final ele nos relembra como o Mike Tyson continua, até hoje, sendo uma figura muito mais reconhecida, participa ativamente de campanhas de marketing, aparece em programas de TV, tem participações em filmes, todo mundo reconhece ele, enquanto o Evander Holyfield que foi um lutador sempre humilde, um campeão, só é reconhecido mesmo por derrotar Mike Tyson uma vez e ter tido parte da sua orelha arrancada na segunda luta.

    E olha que o Mike era outro tipo de personalidade. Ele estava envolvido com gangues, foi pra cadeia por estupro, por agressão, ameaçava seus adversários de morte nas coletivas de imprensa.
    E é idolatrado até hoje, acho que entre lutadores, só o Ali é mais do que ele e esse também era outro que tinha muita personalidade fora do ringue.

  • Mateus Elias

    Todo sucesso tem seu preço. O sucesso do McGregor é muito lucrativo, agora o preço a ser pago por isso vc pode perguntar para qualquer um do top 5 dos penas. Agora, não tenha dúvidas que se o Mcgregor ganhar o cinturão dos leves, dificilmente ele defenderá o cinturão(mesmo contra o Diaz), pois vai mirar fazer história e tentará a sorte nos pesos meio médios.

    • Thiago_NCO

      Não creio nisso. Nos meio-médios ele é só mais um tentando a sorte nos top 10. A vitória burocrática e pouco convincente contra Diaz, com camp completo e tudo mais, já mostra que ele faria figuração – e isso ele não aceitaria.

      • Carlos Portela

        Concordo. O próprio discurso dele foi que subiu para uma categoria que não é a dele. E falou em title shot dos leves.

  • Diogo Barbosa

    Concordo com a maior parte, mas vejo que a maioria das pessoas observam as mudança dos Irlanda com um ar de heroísmo, o que disso não tem nada.
    1) “Subir para enfrentar Rafael” : Subir de categoria era inevitável pra ele, basta olhar a dificuldade que este tem de voltar pros penas e ainda o histórico pré UFC onde já lutava nos leves. O que ele fez foi simplesmente juntar o útil ao agradável. Se for pra subir, vou subir direto no topo.
    2) “Enfrentar Nate 11 kg acima de sua categoria de origem”. São 7 kg, uma vez que ele não partiu do peso pena para o meio médio e sua categoria de origem seria a qual ele estava treinado pra lutar e não a que ele é campeão.
    Não é desmerecer, mas não dá pra comparar caras que batiam o peso com total tranquilidade, e que nunca tiveram lá grandes problemas com a balança como os outros campeões com o McGregor. Duas situações totalmente diferentes.
    Silva e Jones. Subir de categoria para pegar monstros em uma categoria que não tem esforço nenhum pra bater o peso.
    McGregor, subir para uma categoria onde está sendo expurgado pela própria balança.

    • Carlos Felix

      Concordo com a questão do peso:
      “Subir de categoria era inevitável pra ele, basta olhar a dificuldade que este tem de voltar pros penas”

  • Thiago_NCO

    O jeito é assumir que o UFC é 60% entretenimento/money e 40% esporte, seguir a vida e ser feliz. Reclamei pra kct da segunda luta, mas foi uma das lutas que mais me emocionou nos últimos tempos, cheguei até a roer as unhas quando o Nate pressionou o Irlanda na grade em certos momentos.
    No mundo ideal, existe ranking, existe mérito, existem casamentos coerentes… mas, no mundo real, o que temos são Vovôs banguelas e Irlandas. Paciência… pra quem gosta de MMA, ainda não existe alternativa viável.
    MEU VEREDITO: Detestaria a terceira luta, acho um desperdício de tempo, acho uma sacanagem com os penas, blablabla… mas vou parar na frente da TV pra assistir, fissurado.

    • Hyuriel Constantino

      Minha única ansiedade era ver o McGregor massacrado. Na minha visão, todos esses fanfarrões têm que tomar uma surra homérica.

  • Marcio Rodrigues

    Discordo. Quanto mais McGregors, menos Aldos, DJs, RDAs…

    Esse cara ta escancarando que o que se faz dentro do cage vale menos do que se faz fora. Um lutador tecnico, mas introvertido terá cada vez menos espaço e muitos nem tentem a carreira pois, como dito no texto, carisma não se cria.

    Podemos, com o tempo, ser privados de muitos lutadores geniais (dentro do cage).

    • Dow Jones

      Discordo. Quanto o Dos Anjos ganhava antes de ter uma luta marcada com o McGregor? Quanto vai ganhar agora? Os bons lutadores, como o Jacaré, não ficarão sem oportunidade. Podem, no máximo, serem preteridos em alguma luta específica, como tem acontecido, mas se o cara vence as lutas ele continua sendo atrativo para o evento, como é o caso do Holloway. O havaiano ainda não teve a chance do cinturão, mas você acha que se não houvesse o McGregor ele seria hoje o campeão e ganhando mais, com mais fãs? Eu acho que não. Ele fez seu dever de casa na surdina e se não for na próxima, na outra ele estará disputando a cinta. Graças ao McGregor, possivelmente muito mais gente o veja.

    • Victor Souza

      Excelente texto.
      O trash talk pode servir de aprendizado se usado da forma correta. Acho que com o tempo surgirão outros Aldos, DJs e RDAs… Mas a diferença é que eles saberão usar a mídia a seu próprio favor. Hoje em dia grande parte dos lutadores de elite ainda não tem assessoria de imprensa e são praticamente desconhecidos para o publico médio (que representa grande parte do mercado). Realmente carisma não se cria, eu não acho que todo mundo vai virar um McGregor ou um Sonnen, mas esses caras tem que colocar na cabeça que eles tem 10,15, no máximo 20 anos de carreira e precisam aproveitar cada oportunidade para conseguir lucrar, ainda mais em um esporte que cobra uma conta tão cara depois da aposentadoria.

  • Gabriel Viana

    Felipe Paranhos escreve bem d+ da conta! Sempre com bons argumentos escritos de forma brilhante!

    Parabéns!

  • Vinicius Maia

    O único impacto que Mc gregor fez no esporte é em campeões das categorias preocupados em enfrentar estrelas de cinema que respeitar o próprio ranking da categoria. Estamos vivendo uma época em que Bisping vai lutar com Hendo e Mc gregor sem ter feito 1 luta no peso leve no UFC vai provavelmente disputar o cinturão bypassando todos os contenders dos leves.
    Uma categoria dos meios médios cheios de lutadores top sendo ventilada uma luta que graças a deus não vai acontecer que era Wodley x Nick Diaz ( um cara que não vence uma luta se não me engano a 4 anos).
    Pra mim MMA nunca vai ser esporte totalmente devido a este motivo.

  • Gabriel Fareli

    Gostem ou não, mas é incrivel como o McGregor literalmente mudou o jogo, mudou a forma de se fazer lutas.

    Parabens pelo Texto, Paranhos !

  • Ayrllys Allan

    É curioso como a galera ainda insiste em achar o Conor apenas um fanfarrão. Essa faceta é apenas o plus do baita lutador que ele se transformou.

    Apoio sem sombra de dúvidas a terceira luta (agora pfv, nos leves), mas não iria já de cara, acho que o Conor pode reacender a rivalidade com o Aldo e levar a luta para irlanda. E digo mais, depois da derrota para a primeira luta contra o Nate, acho que ele seria ainda mais cascudo para o brasileiro, ia ser uma lutaça, os dois lutadores mais frios da categoria, pra assistir na ponta do sofá.

  • Gefferson Nesta

    Chega de McDiaz feliz, dois já foi o suficiente! Seria um resultado idêntico ao da primeira ou segunda luta. Então já deu! Mas sei que o dinheiro é tão bom que se eu estivesse envolvido iria querer lutar umas 5 vezes por ano! Diaz matou 3 milhões em 5 meses, que lutador não iria querer um McDiaz feliz desses?

  • Carlos Felix

    Não sou defensor do McGregor, mas antes de dizermos que ele está destruindo o “mérito esportivo” do UFC

    temos de analisar o histórico do cara.

    1) McGregor virou um desafiante legítimo ao cinturão do peso pena. Venceu 6 lutas seguidas. 5 por nocaute.

    2) Venceu o campeão mais dominante do UFC. Nocaute. 13 segundos.

    3) Virou a maior estrela do UFC. É o campeão legítimo do peso pena. Havia dizimado seus últimos 5 adversários com nocautes devastadores. Subiu de categoria. Seria a primeira vez que o UFC faria uma disputa entre dois campeões. Claro que ele iria subir de categoria enfrentando o campeão. Tinha todo o direito.

    4) Aí que a merda acontece. Dos Anjos se machuca à 2-3 semanas da luta. Para “salvar” o evento. (Entenda “salvar” como ganhar muita grana) Connor aceita enfrentar Diaz, na categoria de cima, e…. perde.

    5) Conor não podia ficar com essa derrota. Ele não consegue mais bater o peso pena. Ele não teria relevância nos leves vindo de derrota para o Nate.
    Não havia outra opção para McGregor a não ser vingar a derrota para o Diaz.

    6) Com a revanche e a vitória ele conseguiu voltar ao item (3).

    7) Com a vitória, Conor tem a opção de lutar novamente pelo título dos leves. Se ele vencer Alvarez, ele larga a cinta dos penas.

    8) Aldo ficou 14 meses sem defender o cinturão dos penas. McGregor está à 8 meses com o cinturão dos penas. E nesse tempo já fez duas lutas.

    9) Se somarmos (méritos esportivos) + (méritos contábei$$$)+ (manter-se ativo), não há contender mais legítmo que Conor.

    10) Lógico que a grana fala alto, quando o assunto é McGregor. Mas dizer que o cara está destruindo o esporte, ou que ele não é um verdadeiro atleta… é complicado.
    Principalmente quando temos/tivemos tantos campeões que não lutam por doping, lesão, confusão, medo…

  • Lero

    Agora com a lesão do McGregor vai ser muito interessante ver quem é o próximo adversário do Alvarez. A luta do Ferguson vs o Rafael vai ser só até novembro. E o único na frente deles no ranking é o Nurmagomedov.
    Se marcarem Alvarez vs o Dagestani para… dezembro? e o Khabib ganha o titulo, acho que o McGregor vai preferir lutar boxe contra o Mayweather, fazer a trilogia com o Nate, intentar sorte no metamoris ou até (Imagina!!) defender seu titulo dos penas contra o Aldo, antes de matar o russo no peito.
    Os futuros meses vão ser bem interessantes mesmo. O Eddie como malandro velho que é, imagino que vai intentar esperar a sua noite da calcinha vermelha o máximo tempo possível antes de colocar seu titulo em jogo contra qualquer outro.

Tags: , ,