Manutenção de distância: a mágica de Jon Jones

Renato Rebelo | 17/09/2013 às 20:22
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Belfort acuado contra as grades

Ontem à noite, li mais um brilhante artigo da série “Matando o Rei” do jornalista americano Jack Slack.

Para criar minha própria versão, reassisti quatro lutas do monarca Jon Jones – que defende seu reinado contra o invasor viking Alexander Gustafsson no UFC 165.

E já começo curto e grosso: Jones venceria Mauricio Shogun numa luta de muay thai, Quinton Jackson no boxe, Rashad Evans no wrestling ou Vitor Belfort no submission?

A resposta para essa pergunta é, provavelmente, negativa.

Então, podemos entender que o sucesso do monstro do pântano se deve à bem-sucedida mistura dessas artes marciais e a fatores psicológicos (frieza, paciência e concentração, por exemplo)?

Na real, o fenômeno João Jonas não se resume a “apenas” isso.

Seu maior trunfo pode, muito bem, ser fruto de uma simples observação que proponho a vocês:

O que ele tem que nenhum outro meio-pesado tem?

Afinal, há muitos outros cidadãos talentosos que treinam igualmente pesado…

A resposta é uma só: 2,15m de envergadura.

O cerebral Greg Jackson, à la Rolando Lero, captou a mensagem assim que o jovem longilíneo passou pela porta da Jacksons MMA há seis anos.

A partir daí, com o auxílio do ex-campeão mundial de kickboxing Mike Winkeljohn, o careca montou um jogo sob medida para o pupilo gozar da vantagem que Deus lhe deu.

Caso contrário, o grappler poderia – a exemplo de Stefan Struve, Kendall Grove e outros Professores Girafales – acabar dominado em pé por caras 10, 15, 20cm mais baixos.

A mágica manutenção de distância

Para batê-lo, é fundamental entender como um wrestler sem tanto poder nas mãos consegue, vez após vez, frustrar “strikers” em pé.

É exatamente por isso que digo que Jon Jones está para o MMA assim como Roger Gracie está para o jiu-jítsu.

Quem acompanhou a carreira do decacampeão mundial no pano sabe que seu jogo é baseado em meia-dúzia de posições simples – perfeitamente alavancadas por sua estrutura corporal.

No cage, Jones se faz valer do tamanho logo de cara – ao impedir que o rival caminhe pra frente.

JONES

Jabs, pisões no joelho, chutes diversos e quedas: as armas de Jones para manter controlar o meio-campo

Sempre que alguém ensaia um ataque – transferindo o peso do corpo do pé de trás para o pé da frente-, o estraga prazeres dispara dolorosos tiros de advertência em forma de chutes rodados, chutes altos, pisões, jabs – ou até bota pra baixo.

Ou seja, se você deseja nocauteá-lo, boa sorte tentando adentrar seu raio de ação.

Caso a presa retraia – ou já comece jogando no contra-golpe-, o trabalho do lenhador acaba sendo facilitado.

Machadada a machadada, o jovem criativo vai ceifando a árvore – preferivelmente próximo à grade, onde joelhadas e cotoveladas aterrizam e as quedas “greco-romanas” estão lá a qualquer momento.

Defensivamente, a envergadura também salva sua pele.

Ao menor sinal de perigo, “Bones” procura manter o rival à ponta dos dedos –esticando o braço- e se evade lateralmente.

Gustafsson, baseado na agilidade, e Glover Teixeira, no poder de fogo, podem, sim, botar uma pá de cal sobre o Cabuloso.

Mas a dupla precisa estudá-lo de forma bem mais meticulosamente (notem que as palavras ground and pound sequer foram citadas).

Pois, caso o velho discurso “vou focar no meu jogo e não no dele” seja adotado, dificilmente montarão quebra-cabeça tão complexo.

Acho que posso usar melhor minha envergadura, além de ser rápido. Gustafsson será muito atingido, de formas diferentes. Ele pode me acertar, mas já fui atingido por caras como Rampage Jackson e Lyoto Machida. Só que sou bem menos atingido do que ele. Quando ouço alguém nos comparando, penso: “O que estão falando?”. Olhem mais de perto.

Abraços.

  • Erick Tavares

    Antigo, mas ótimo artigo. Gostaria de ler mais desses “insights” sobre lutadores de mma aqui =D

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