Sonnen, Shogun e o cruel imediatismo do MMA

Renato Rebelo | 20/08/2013 às 20:54

Dentre todos os esportes que acompanhei mais atentamente ao longo de 26 primaveras, no MMA, o imediatismo humano me parece especialmente cruel.

Não que nós, fãs, sejamos mais ou menos desmemoriados, mas, por aqui, erros e acertos ecoam por meses a fio – até o cristão retornar à jaula.

No futebol, por exemplo, o filho de chocadeira que entregou a partida na quarta-feira pode muito bem virar o craque selecionável no domingo.

Dana White costuma repetir uma frase bem pertinente:

No MMA, você é tão bom quanto a sua última luta.

O “main event” do UFC Fight Night 26 não me deixa mentir.

Em fóruns e redes sociais, Chael Sonnen foi de nitrato de excremento suíno a atleta formidável em cerca de quatro minutos.

Como se uma guilhotina tivesse apagado magicamente as surras que o americano levou de Anderson Silva e Jon Jones.

Surras que, aliás, camuflaram feitos bem relevantes no peso-médio.

Ou já esquecemos que Yushin Okami, Michael Bisping (ambos ainda top 5), Brian Stann, Dan Miller e Paulão Filho (amplamente considerado o segundo melhor do mundo na época) sucumbiram para o wrestler?

E o maior de todos os tempos que comeu o pão que o diabo amassou por cinco rounds em sua mão?

A opinião de Daniel Sarafian faz bastante sentido pra mim:

Ele não é mediano. Se ele for mediano, bom é só o campeão?

shogun-cinturoes

Será que ainda veremos esse Shogun?

Acontece que Sonnen é um comunicador de mão cheia e cria uma pá de inimizades com sua controversa estratégia promocional.

Quem não curte o jeitão, acaba atacando diretamente o interlocutor.

Lembram de Enéas Carneiro?

Por mais que suas ideias e atos pudessem ser sensatos (não estou dizendo que eram), a barba Talibã e a gritaria televisiva sempre os sobrepujariam.

Agora, o “novo craque”, que trabalha como poucos e espreme eficientemente cada gota de sua arte-mãe, vai surfar a maior onda da carreira até o próximo compromisso.

E do outro lado?

Maurício Shogun merece levar uma surra de vara de marmelo em praça pública por ser pior que Giant Silva?

Claro que não.

O curitibano, a meu ver, cometeu alguns erros que lhe custaram a luta:

1- Não entrou esperto e se tornou alvo fixo assim que Sonnen avançou. Poderia ter, imediatamente, se movimentado para os lados soltando golpes
2- Teve duas chances de empurrar Sonnen para se afastar e trocar. Mas tentou a sorte no jogo de isometria – que não lhe favorece
3- Deixou a cabeça exposta na baiana e, mesmo com Sonnen telegrafando a guilhotina, não esboçou nenhuma reação de defesa em pé ou no chão

Todos eles circunstanciais e de atenção/estratégicos. Nenhum evidencia que, aos 31 anos, Shogun está acabado para o MMA – muito menos implodem carreira tão rica.

Pelo contrário, com o orgulho ferido por tantas críticas e o talento que Deus lhe deu, não me espantaria se o ex-campeão encaixasse uma bela série de vitórias.

Mas, claro, mais uma vez, vai depender da fabricação – em escala industrial- de água benta (suor).

Até a redenção (se houver), não tem jeito: será mais malhado que os glúteos de Gracyanne Barbosa.

Abraços.

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