Até onde pode ir a carreira do bravo Nick Newell?

Renato Rebelo | 12/08/2013 às 16:59
Newell-choking-Caldwell1-500x550

Nick apertando o pescoço de Caldwell no último sábado

Matança de focas na Islândia, caça predatória de baleias no Japão, maus tratos a cãezinhos em petshops… Nada é capaz de me comover tanto quanto uma bela história de superação humana baseada na força de vontade.

Sei que essa introdução soa meio gay, mas fazer o que se qualquer vídeo do “Team Hoyt” me quebra ao meio.

Tendo escolhido o MMA como tema preponderante na minha vida, escuto a torto e direito – principalmente em nosso subdesenvolvido país- como homens emergem da pobreza e dominam seus demônios.

Recentemente, fiquei muito impressionado com a força de vontade do garçom-lutador José Maria Tomé, o “Sem Chance” – que faz das tripas coração para dividir-se entre dois empregos e os treinos na RFT.

Mas há casos ainda mais extremos. O de Nick Newell é um deles.

Como alguém com amputação congênita – que fez seu braço esquerdo parar de se desenvolver no cotovelo- pode vislumbrar carreira num esporte tão rigoroso?

No último sábado, o “Notório” abocanhou sua décima vitória consecutiva ao finalizar Keon Caldwell com uma guilhotina no World Series of Fighting 4.

Nick Newell é um indivíduo incrível que combina força com espírito e o tipo de coragem e determinação que as artes marciais demandam. Então, fico muito empolgado em tê-lo no elenco do World Series of Fighting. Espero que ele possa inspirar nossa audiência – lançou Ray Sefo, seis vezes campeão mundial de kickboxing e presidente do WSOF.

Apesar de mais essa esclarecedora performance, uma pergunta óbvia acerca do futuro do peso-leve paira no ar: até onde ele pode ir?

Para início de conversa, não estamos falando de um pobrezinho blindado pelo handicap que Deus lhe deu.

Seus dois últimos rivais, por exemplo, alcançam 26 vitórias 34 lutas (somados).

Nick-Newell-wins-belt-iconic-mma-moments

Nick recebendo o cinturão do XFC

Nick é de verdade, mas há três grandes pedras em seu caminho:

1- Vontade alheia
Não há tanta recompensa para aqueles que topam enfrentá-lo. Se perder é achincalhamento certo, se surrar Nick, provavelmente, será odiado.

2- Discrepâncias
Nick conhece seu corpo como ninguém e, no cage, transforma limitações óbvias em armas. Quando não se espera muito de seu membro superior esquerdo, ele gruda o camarada na jaula e desce a lenha. “Cada golpe com o braço prejudicado é como se fosse uma cotovelada”, comentou um americano no fórum do Sherdog. Há também o fato de ser difícil controlar seus avanços no chão – uma vez que não há punho esquerdo pra ser dominado. Essas diferenças podem criar problemas entre eventos e comissões atléticas no futuro.

3- A derrota
Estamos prontos pra ver o grappler Nick tomando socos no rosto em pé com a guarda aberta? Qual seria a sensação se ele fosse brutalmente nocauteado por um chute alto – que não pôde ser defendido? E quando ele pegar um faixa-preta de jiu-jítsu cascudo que, ao passar sua guarda, precisará dominar apenas um braço para golpeá-lo livremente?

Homens como Dana White, que precisam driblar organizações ultraconservadoras como a “Culinary Union” para massificar o esporte, dificilmente dariam o braço a torcer nesse caso:

É difícil lutar aqui com dois braços. É muito duro. Tem caras tops que trazemos no “Ultimate Fighter” que não conseguem se destacar e chegar ao UFC. Será que o estado de Nevada vai deixar ele lutar? Será que o estado da Califórnia deixaria? As grandes comissões atléticas o liberariam? Sei lá, lutar com um braço é loucura pra mim – declarou o careca no início do ano.

Confesso achar improvável que a carreira do bravo Nick vá muito além do WSOF, mas, internamente, torço pra estar equivocado.

No passado, o presidente do Ultimate também reduziu a pó as chances de mulheres atuarem no octógono – e olha onde estamos agora.

Sonhar não deve ser novidade pra quem já nasceu em desvantagem.

Abraços.

Tags: ,