Parceiros se enfrentando:
o fim de um dilema no MMA

Mario Filho | 16/06/2016 às 20:26

Captura de Tela 2016-06-16 às 20.05.02Dudu Dantas e Marcos “Loro” Galvão, depois de uns 3 adiamentos, finalmente se reencontram na tão aguardada disputa de cinturão dos galos no Bellator desta sexta-feira – ao vivo no Fox Sports 2.

A luta continua a ser vendida e explorada como um confronto passional, cheio de emoções conflitantes, já que põe frente à frente dois ex-parceiros de treino.

Dois ex-colegas de academia, uma vez que Loro não representa mais o time da Nova União e, o que dizem, é que a opção do manauara por não fazer mais parte da equipe veio logo após o primeiro duelo entre eles 3 anos atrás.

Hoje mesmo, Dedé Pederneiras, líder da NU, treinador do Dudu e, durante duas décadas treinador do Loro, me disse:

É uma tendência sim cada vez maior dois lutadores que treinam juntos se enfrentarem. Menos eventos e mais atletas. Mas tomando o boxe como referência, que os sparrings costumam desafiar os campeões, o que acontece é que no MMA um dos dois costuma deixar de representar a academia antes da luta”.

E como ele lidaria com uma hipotética situação caso o Renan Barão e o José Aldo venham a colidir futuramente entre os penas? O ex-campeão dos galos do UFC se desligaria da Nova União?

O maior campeão pena do Ultimate não seria mais o representante número 1 da equipe? Dedé jamais permitiria isso, e faria os ajustes necessários para manter o time unido, coeso e completo, mesmo que precisasse manobrar um lutador para uma divisão acima ou abaixo.

Dedé sabe que o que está em jogo é a realização profissional deles. Eles se propuseram a dedicar uma vida inteira a um objetivo que é ser campeão.

Eu não poderia impedir que o Loro buscasse a realização do sonho dele quando ele enfrentou o Dudu em 2013. E agora eu não posso impedir que o Dudu recupere o título que já foi dele”.

"Time novo, vida nova", postou Fúria

“Time novo, vida nova”, postou Fúria

Ou seja, se a Nova União fosse uma equipe de F1, Dedé não interferiria no resultado dando a ordem de permitir a ultrapassagem para nenhum de seus pilotos.

Patricky Pitbull, que na sexta-feira da semana que vem disputa o cinturão vago dos leves contra o ex-campeão Michael Chandler, conhece, como ninguém, a vida de sacrifícios, renúncias e comprometimento de um lutador profissional.

E concorda com Dedé Pederneiras quando reconhece a oportunidade que não pode ser negada a ninguém.

E esse reconhecimento já é uma visão moderna, mas era “política e eticamente” incorreta para a geração anterior dos campeões de MMA que não aceitariam sob nenhuma circunstância lutar profissionalmente contra um companheiro .

Toninho Fúria é a nova contratação da equipe Pitbull Brothers, justamente na categoria dos pesos leves:

Somos da mesma equipe agora e estamos batalhando juntos e nos ajudando pra alcançar nossos sonhos. Enquanto pudermos evitar isso vamos evitar, até porque estamos em lugares diferentes na divisão. Mas não vou impedir o Toninho de brigar pelo sonho dele. “

A realidade atual já prepara os novos lutadores para a inevitável certeza: Times grandes têm mais de um excelente representante numa determinada categoria, e a chance deles se esbarrarem dentro do evento existe.

Hoje em dia, o aluno já se inscreve na academia para aprender a mistura completa de artes marciais, e não mais uma modalidade prioritariamente. A mentalidade deles também é trabalhada de maneira diferente, aceitando a possibilidade de enfrentar um parceiro de treinos.

Arlovski e Overeem se enfrentaram

Arlovski e Overeem se enfrentaram

A lógica pragmática e menos emotiva mostra que, de um jeito ou do outro, a vitória vai permanecer em casa. Um dos colegas perde, é verdade. Mas os dois trabalham, os dois ganham dinheiro fazendo o que escolheram pra vida.

Os mais românticos que ainda resistem a essa tendência vão dizer que os lutadores que têm se enfrentado são do mesmo time mas de filiais diferentes e que, por isso, não têm convivência e intimidade suficientes.

Recentemente, num caso bem curioso, a luta entre Alistair Overeem e o Andrei Arlovski ficou polarizada entre Mike Winkeljohn de um lado do córner, e Greg Jackson do outro.

O clima entre todos, antes e depois do nocaute do Overeem foi meio que uma tentativa deles parecerem neutros e imparciais, mas deu para perceber um certo constrangimento, até mesmo por ainda não ser uma situação tão comum.

E a luta não era válida pelo cinturão, diferentemente do confronto entre Robbie Lawler x Tyron Woodley, ambos da ATT. Ou seja, o casamento dessa disputa de título dá a entender que a American Top Team tem hoje em dia os dois melhores meio-médios do UFC.

Dois pupilos de Carlson medindo forças...

Pupilos de Carlson medindo forças…

Os exemplos são cada vez mais frequentes, desde Lyoto Machida x Mark Muñoz da Black House aos melhores amigos Chad Mendes e Urijah Faber que se enfrentariam sim se houvesse necessidade: “money talks”, eles disseram, sem levantar a menor questão ideológica.

E tinha ainda o TJ Dillashaw que na época também era Alpha Male e também lutaria profissionalmente com o mentor e patrão Faber.

No Brasil, a oposição a enfrentar parceiros de treino é atribuída à Escola Carlson Gracie nos tempos de jiu-jítsu, década de 80 e 90. E essa cultura se perpetuou para o vale-tudo e MMA.

No ano passado, dois dos maiores nomes do time Carlson Gracie quebraram o tabú e se encararam na superluta do ADCC. “Ah, mas era submission e tal…”

Eu arrisco dizer que, por uma bolsa de 7 dígitos, Ricardo Libório e Zé Mário Sperry sairiam na mão nas regras do Rizin.

  • Renan Augusto

    por uma bolsa de 7 digitos eu dava tapa na cara ate do meu pai

    • Hyuriel Constantino

      kkkkkkkk… Rapaz exagerado… kkkkkkk…

    • Renato Rebelo

      Hahahahahahha

    • Mario Filho

      hahahah!!! E com certeza o seu pai ia até incentivar!!

    • hahahahah… Segura aqui meu Like, chapa!!

  • KRS Porlaneff

    Olha, nem li o texto ainda mas tenho uma posição bem firme em relação a essa fuleragem de caras da mesma academia não se enfrentarem: a não ser que seja seu irmão biológico/adotivo, pai, filho, neto ou algum parentesco do tipo, você sendo lutador vai ficar “sifu” vendo o outro cheio de glórias de campeão até quando?

    • Mario Filho

      especialmente a vida útil do lutador que é tão curta. A nova geração já tem que vir com esse desapego sentimental

    • Ben Fodor, mas conhecido como o “héroi” Phoenix Jones, vai enfrentar o próprio irmão (e ex Ufc) Caros Fodor pelo WSOF.

      • Mario Filho

        pois é… esse caso aí, e até mesmo os “meio-irmãos” Ken e Frank Shamrock eu deixei pra rapaziada se manifestar

        • KRS Porlaneff

          Mário e Dan

          Comecei a acompanhar MMA com o PRIDE, então não posso afirmar nada a respeito dos irmãos Shamrock. Mas pelo que eu li, a convivência dos dois nunca foi amistosa.

          E no caso dos irmãos Fodor, acho que tem algum problema de família mal resolvido entre eles pra luta sair com essa facilidade.

          • Sobre os irmão Shamrock não posso opinar, mas vindo dessa família, não é bizarro rs. Mas sobre os Fodor, eu acho que li em algum lugar que o Ben foi adotado, mas não que isso seja motivo, mas por eles acho que não estavam com clima tenso não. Acho que li em algum site gringo até o contrario, o Phoenix tava super de boa inclusive fez até uma brincadeira que a mãe deles não poderia assistir à luta.

  • Jonas

    Conhecia o Marinho pelo Sensei, mas nunca tinha lido um texto dele. Acho que já é um dos meus colunistas do SR favoritos. Excelente artigo e trabalho.

    • Mario Filho

      Obrigado, Jonas! Eu comecei mesmo na mídia escrita. E mesmo no Sportv e no Fox Sports eu sou redator e editor de texto tb. abs!

  • Renato Rebelo
    • Mario Filho

      Dessa vez eles estão sem o menor espírito de amizade. Ah, aproveitando o tema: no jiu-jitsu é outra realidade, sem dúvida. Não tem remuneração profissional e tal… mas tb não tem soco na cara. Eu discordo da postura dos finalistas não se enfrentarem. Era uma frustração para as nossas coberturas televisivas e para o público quando os finalistas da mesma academia fechavam. Imagina se a gente tivesse conseguido o tão difícil espaço de, sei lá, uma hora de transmissão ao vivo, e aí três finais não rolassem. O buraco que ficaria na transmissão. É uma discussão que tb existem inúmeros argumentos para que defende e para quem discorda.

      • Sexto Empírico

        Essa coisa de “fechar finais” no Jiu Jitsu é das coisas mais antidesportivas e abomináveis que eu já escutei falar. É uma tradição esdrúxula que os competidores e mestres defendem como um rito sagrado. Enfim, ridículo e brochante.

        • Thiago_NCO

          O Jiu-Jitsu é cheio de tradições pra lá de dispensáveis. Amo a arte suave, sou praticante, mas se eu trocar de equipe por uma razão qualquer (é um direito meu, cacete!) , viro em creonte e as reações podem variar de uma simples zoeira até mesmo o fim de amizades… sem contar que eu nunca vi uma arte marcial pra graduar gente sem nível como acontece no JJ. Numa das equipes que eu treinei, tinha um roxa lá que puxava treino pros brancas,e o mestre, por amizade e reconhecimento, acabou graduando o cara pra marrom. Pensa na situação ridícula, quando tinha rola de graduados, que era ver o marrom sendo tratorizado por roxas ou mesmo tomando canseira dos azuis mais encardidos….

  • Henrique Santos

    Quem ganha amanhã pra vcs Galvão x Dantas

    • Sexto Empírico

      Dantas.

    • Felipe Lemes

      Rafinha Bastos

  • Sexto Empírico

    Toda a vez que vem esse assunto à tona, lembro-me da fuleragem do Belfort, no TUF 1, casando a luta do Gasparzinho conta o Jason, que eram amigos, e depois negando pro Wand: “Não, Wanderley, eu não sabia!” e a edição mostrando a falcatrua do Pastor. Foi engraçado.
    Em minha opinião, o atleta tem que lutar com qualquer um, tratando-o como um adversário e não inimigo, como já fazem tão dignamente Cerrone, Machida, Ben Henderson entre outros. Mas, penso que vai algum tempo ainda até que as mentalidades comecem a evoluir.

    • KRS Porlaneff

      Engraçado que o Cachorro Louco fez tanto auê por causa de Jason e Gasparzinho – que só treinavam juntos e dividiam alojamento, pelo que eu soube – mas no TUF 3 casou a luta do Vitor Lex Luthor contra o Antônio Montanha, sendo que esses sim eram grandes amigos.

      E também veio com o papo de “eu não sabia” depois.

      • Sexto Empírico

        Verdade! Daí vc vê que não dá pra acreditar nem um pouco quando eles vêm com aquelas conversas moralistas.

  • William Terres

    Uma coisa que eu acho ridiculo é o fechamento de chave no jiu-jitsu. No nível que o esporte está hoje, fatalmente os melhores vão acabar se enfrentando e que vença o melhor. Depois da luta vamos tomar um açai e já era. Acho que gera polêmica muito mais pelo ego dos lutadores do que por não serem parceiros de equipe.

    • Jp Mikelane

      exatamente

  • Victor Cutrale

    por 4 bilhões, joe warren venderia os filhos dele kkkkk

  • Mauricio

    Eu já enfrentei um amigo e é ruim cara, mesmo sendo boxe amador é uma coisa meio estranha… e eu perdi ainda por cima

    • Jp Mikelane

      Mas a sua luta valia posto de número, um algo do tipo??
      pq no esporte de alto nível, particularmente acho uma atitude nobre
      do campeão aceitar um amigo como “desafiante”… Pitbull foi bem lúcido
      com as palavras…

  • negreiros

    Que diferença faz 7 digitos para Libório?? (cheio de lutadores e academia entre as melhores do mundo)
    motivação teria q ser outra..

  • Julio Arao

    Eu só assistiria outra luta entre Ricardo Libório e Zé Mário Sperry se me dessem 7 dígitos.

    • Fernando Batista Lima

      Boa. Hahaha! Disputa de pescotapa…

  • Igor Martins

    lembro da época do belfort enfrentar o AS, malharam o belfa , pq já tinham treinado junto e tal e ele saiu da team nogueira, estava mais que certo, é muito mimimi, amiguinho..amiguinho..amiguinho é o caraleo! é um esporte individual, só existe um campeão. A mentalidade tem que ser essa, agora se chegar a não ter clima na academia que um dos dois saia, imagina eu sabendo do meu potencial de poder ser campeão e “deixar quieto” por que meu “amiguinho” é o campeão, e meus sonhos e objetivos com ficam?

  • Felipe Lemes

    acho q essa luta o Rafinha Bastos não vai aguentar..

  • Vinicius Maia

    Excelente texto, muito bom. Gostei dessa retrospectiva de lutadores amigos e da mesma academia se enfrentando. Excelente. Minha torcida hoje é pelo Loro, que é muito humilde e que ganhou minha torcida após a entrevista que ele deu aqui no sextoround.

  • Ridelson Medeiros

    – Eu compreendo totalmente o sentimento de não querer enfrentar um amigo… infelizmente, se tratando de esporte profissional, a gente tem que abrir a mente pra essa possibilidade, pois é uma tendencia natural nos dias de hoje. Eu evitaria ao maximo enfrentar um companheiro de equipe, mas se fosse o jeito… se existir mesmo uma amizade, e for uma conversa de homem pra homem, não vai ser a paixão dos dois (a luta) que vai destruir o negocio. É lutar limpo e vida que segue.
    Obs: entendo casos como Diaz Brothers ou coisa do tipo… tudo tem uma exceção.

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