Kimbo: Nelson Rodrigues
e Mario Filho interpretam

Mario Filho | 09/06/2016 às 15:48

Kevin Anthony Ferguson morreu. Uma perda devastadora para Antoinette, que agora cuida sozinha dos seis filhos. Todos com K. Kevlar, o mais novo entre os meninos, sofre de autismo e era levado todo dia para treinar com o pai.

Kimbo Slice morreu. O sul da Flórida, Miami, os Estados Unidos, Bahamas, a comunidade mundial do MMA ficou em choque.

O coração não deu conta. Coração grande demais para aquele corpo bruto. E um coração cada vez maior.

Eu tinha essa impressão que o Kimbo tava amolecendo, perdendo em fúria e ímpeto, e se tornando um quarentão com uma sensibilidade maior. O resto se mantinha igual como tinha que ser, era parte do espetáculo.

Captura de Tela 2016-06-09 às 15.03.29As perninhas escandalosamente fininhas contrastavam com um físico escandalosamente musculoso, parecendo uma esfirra de ponta pra baixo. Dois low-kicks ali, e Kimbo implodia.

Até hoje eu não sei, mas o significado dessa seta capilar aí na foto ao lado (à la Brian Ebersole) apontando pra cima deve ser qualquer coisa do tipo “espanca a minha cara mas não chuta as canelas”.

Rede na careca, muito ouro nos dentes e um colar tão pesado que já reduzia em um terço a resistência dele antes de chegar no cutman. Personagem, caricato, cheio de particularidades, fácil de descrever e fácil de desenhar.

Mas era essa identidade crua, poluída, ostentadora e gangster-rapper que garantia a Kimbo, e diretamente ao show, certeza de entretenimento. Afinal, convenhamos, a pretensão dele não era o cinturão peso-pesado.

O trabalho do Kimbo era atrair a atenção da mídia e a curiosidade dos fãs e haters. E a missão era entregue. Às vezes abaixo das enormes expectativas, mas na maioria das aparições superando o que se espera de um freak show.

Porque, no caso dele, expressões como “freak” ou “bizarrice” não tinham a mesma conotação que nós compreendemos. O underground e o lado B sempre foram o caminho do sucesso para Kimbo Slice.

Antes de se tornar um medalhão do entretenimento no MMA, Kevin Ferguson tinha que sobreviver e sustentar sete bocas. Clandestinidade na indústria pornô era tão legítima quanto briga de fundo de quintal, desde que pagasse as contas. Isso era sucesso para Kevin Ferguson.

Captura de Tela 2016-06-09 às 15.31.59

Do quintal a 6,5 milhões de telespectadores na CBS

A popularidade no Youtube levou Kimbo a uma realidade que teria condenado 11 entre 10 lutadores ao deslumbramento e estrelismo no pior dos sentidos. E o que todos nós vimos foi um Kimbo Slice humilde, despretensioso e respeitador quando foi projetado mundialmente ao cenário do MMA ao entrar na inigualável décima temporada do TUF.

Tecnicamente, o Kimbão não merecia nem mesmo a faixa-branca, e talvez por isso ele tenha reconhecido a inferioridade dele em meio aos tubarões. Mas essa percepção por si só já nos mostrava que a fama não afetou o discernimento dele. Zero prepotência, zero arrogância.

A única coisa que os dois técnicos da incomparável temporada, Rashad Evans e Rampage Jackson, tiveram em comum foi a simpatia pelo Kimbo.

Olhando os fóruns póstumos, eu enxerguei uma unanimidade no choque, na comoção, e indistintamente nos mesmos elogios ao Kimbo: gentil, atencioso, trabalhador, exemplar pai-de-família… todos se referiram ao KS com pelo menos uma dessas adjetivações.

Kimbo trouxe o público médio ao MMA como poucos. Virou até fantasia de Halloween!

Kimbo trouxe o público médio ao MMA como poucos. Virou até fantasia de Halloween!

Existe uma expressão de Nelson Rodrigues que diz que “o mineiro só é solidário no câncer”, e significa que existem pessoas que só enaltecem aqueles que já morreram ou estão à beira da morte.

Na verdade, a frase é tão cruel e vergonhosa que o próprio Nelson Rodrigues dizia que o autor era o Otto Lara Rezende hahahaha!! Então, pela ótica rodriguiana, o ser-humano dificilmente dá o crédito a quem está vivo e pode ser um rival.

Mas, quando a morte é iminente, o ser-humano “tem a nobreza” de reconhecer as qualidades do outro. O que espanta é que o Kimbo não tinha um milionésimo do carisma, da virtuosidade, da influência e do ativismo do Muhammad Ali, mas até os supostos desafetos se pronunciaram em respeito ao brigador.

De Dana White a Dada 5000 todos se sensibilizaram. Pelo Instagram, Dhafir Harris admitiu:

Se não tivesse existido um Kimbo Slice, não existiria um Dada 5000″.

E concluiu o post dizendo que o Kimbo era a prova viva que um Zé-Ninguém dos quintais-de-casa pode se tornar um astro nos esportes profissionais.

Enfim: Se ainda estivesse vivo, o Kimbão ia precisar de novos haters, porque os antigos já estavam simpatizando com ele.

Dan Lambert é o Homem por trás da American Top Team. E o brasileiro Ricardo Libório, faixa-preta de Carlson Gracie, é o mais realizador e competente funcionário do Dan Lambert. O Libório me escreveu pelo messenger:

Ele era muito mais do que a figura do Street Fighter. Ele era inteligente, amigo e um pai amado por todos os filhos. Ele entrou na ATT e nunca mais saiu. Será sempre lembrado. Foi muito jovem. Um ícone da briga de rua que pôs a cara para aprender dentro de uma das maiores equipes do mundo. Aprendeu a pressão, e com uma idade avançada. Foi humilde o suficiente para entender o que precisava. E fez pela família dele e pelo amor ao MMA, pois ele tinha outras opções de fazer dinheiro”.

O legado continua: Baby Slice nocauteou na estreia

O legado continua: “Baby Slice” nocauteou na estreia

O Rei das Ruas tá vivíssimo e se chama Marco Ruas. Mas a referência número 1 em porrada de fundo de quintal se foi.

Não sei se ser “a referência número 1 em porrada de fundo de quintal” é exatamente a melhor maneira de elogiar alguém, ou deixar escrito na lápide do túmulo, mas foi como Kimbo Slice – com dignidade – saiu da pobreza com uma enorme família.

E isso é uma vitória muito mais representativa que um cinturão.

As duas maiores audiências do Bellator no Fox Sports Brasil foram nas lutas do Kimbão. Muito cedo para afirmar, mas Kevin “Baby Slice” Ferguson vem aí, lutando pela família e levando adiante o legado deixado pelo pai.

  • Caíque Matheus

    Que crônica top!

    • Mario Filho

      Obrigado, Caíque!! abs!

  • Juan

    Grande texto para um grande cara.

    Mesmo assim, não custa lembrar: MMA e esteróides são duas coisas que, tanto juntas quanto separadas, podem encurtar aposentadorias.

    • Mario Filho

      corretíssimo!! obrigado!

  • Thiago_NCO

    Excelente texto/homenagem.
    E, confesso, ri alto aqui “espanca a minha cara mas não chuta as canelas”.
    RIP, guerreirão.

    • Mario Filho

      obrigado, Thiagão!

  • Jonas

    Excelente texto. Nem acho que é uma questão de termos preconceito com o Kimbo, mas sim da forma que ele foi vendido (impulsionada pelo look do cara). Era um pai de família que dançava conforme a música. E era a maior estrela do Bellator.

    • Mario Filho

      concordo em tudo!! Obrigado!

  • Álvaro

    Um pai que tenta honestamente botar um prato de comida na mesa de sua família sempre terá minha reverência. Pra mim o Kimbo será sempre aquele negão ainistro que sai de um furgão escuro para sair na porrada com quem encontrasse pela frente , e acho isso.muito foda. RIP Street Fighter

    • Mario Filho

      exato!!

  • KRS Porlaneff

    Texto excelente, e que retrata aparentemente muito bem as duas facetas de uma mesma pessoa – o ser humano Kevin Ferguson e o personagem brigão caricato Kimbo Slice.

    E também uma homenagem muito bonita.

    • Mario Filho

      obrigado, amigo!

  • Renan Oliveira

    Lenda!!!

  • felipe

    Belo texto. Muito triste esse desfecho do kimbao!!!! R.I.P.

  • Ótimo texto, Mario Filho.

    • Mario Filho

      Obrigado, David! Muito obrigado pelo meu desenho! Minha filha adorou!!

  • Thiago de Carvalho

    Bela homenagem ao Kimbo! #6R

    • Mario Filho

      Obrigado, Thiagão!

  • Fabricio Alves

    R.I.P Kimbo

    • Mario Filho

      RIP!

  • Fabricio Alves

    Tem que escrever um texto sobre o Ali também.

    https://www.youtube.com/watch?v=EYoh62jUFpk

    • Mario Filho

      quero!! 😉

  • diego

    numca gostei do estilo dele, mas é uma perda lastimavel para a família que vai viver sem o progenitor em casa.

    • Mario Filho

      com certeza!!!

  • Vi muitos vídeos dele antes de entrar no TUF 10. Assisti o TUF 10 e simpatizei muito com o Kimbo, que se mostrou completamente diferente do que eu assistia nos vídeos. Torcer pra que a família dele não sofra depois dessa perda do bastião.

    Vamos ver no futuro como será esse Baby Slice rs.

    • Mario Filho

      Nocauteador com pedigree o Baby Slice. Ele é o Kevin Ferguson Jr. Tem ainda o Kevin Ferguson II. abs!!

  • Luiz Sanson

    Belo texto, Marinhão!

    • Mario Filho

      obrigado, Luizão!!! abs!!

  • Marcelo Pituca

    Excelente texto! Rico, poético, agregou cultura e fez um retrato fiel desse Macunaíma Made in USA.

    • Mario Filho

      Valeu, Pituca!! Advogado, músico e PAIzão!! abraçOSS!!

  • HQ

    Muito bom o texto!!! Parabéns Marinho. Sinistro é que vi ao vivo a ultima luta dele… e achei no dia que o Dada é quem teria mais chances de ter problemas de coração.
    RIP Kimbo.

    • Mario Filho

      concordo, HQ! obrigado, amigo!

  • Gustavo

    Lindo texto! Parabéns Marião!

    • Mario Filho

      valeu, Gustavão! obrigado, amigo!

  • Danyel P Lorenzo

    Marinho meu Brother, como é bom te ver por aqui. Infelizmente tivemos um começo de mês pesado para os fãs de luta. Qndo conheci o Kimbo pelas suas lutas undergrounds, não imagina o ser humano que iria se revelar no TUF. O cara era demais. Excelente texto. Abração.

  • Ridelson Medeiros

    – Kimbo: o freak que n dava pra hatear… por mais “personagem” que ele fosse, pareceu sempre ser alguém humilde e feliz por ter conseguido sair de uma realidade difícil. Como odiar um cara desses? Rip.

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