Como Renan Barão e Thomas
Almeida caíram em Las Vegas

Fernando Cappelli | 30/05/2016 às 20:40

Os brasileiros que subiram ao octógono do UFC Fight Night 88 na noite de domingo, em Las Vegas, acabaram superados por representantes do Tio Sam.

Entre os destaques, Cody ‘No Love’ Garbrandt carimbou a primeira derrota no cartel até então impecável de Thomas Almeida e Renan Barão teve começo indigesto na jornada entre os penas frente ao potente Jeremy Stephens.

Como diz o clichê lutadorístico, ‘não há atalhos para a vitória, não há desculpas para a derrota’. Vamos analisar os destaques da vez.

Sem amor

Thomas Almeida é um lutador de fundamentos limpos em pé e com senso apurado para combinar mãos, pés, joelhos e cotovelos.

O volume de golpes não é apenas funcional, mas bastante contundente e do tipo que ganha em calibre conforme as sequências se estendem. O ‘problema’ é que no meio disso é inevitável ficar mais exposto.

Na colisão agressividade x agressividade da vez, o adversário trouxe um antídoto baseado em detalhes específicos – e cada vez mais necessários – para fazer a diferença.

UnequaledMildBufeo-size_restrictedO grande fiel da balança para o norte-americano foram as angulações precisas nos instantes de trocas mais intensas, facilitadas pela postura retilínea em demasia do brasileiro, que se limitou a cobrir o rosto com os antebraços, movimentando pouco a cabeça e cintura para tentar amenizar ou escapar da ofensiva contrária.

Com ênfase em aproveitar o lado esquerdo da guarda de Almeida com as bombas de direita características, o norte-americano usou golpes de carga bruta acertando a posição lateralmente, tirando o tronco e a cabeça da reta.

Isso configura uma ação defensiva/ofensiva única, já que a movimentação do tronco simultânea ao soco proporciona mais potência, e ao mesmo tempo ajuda a criar movimentos evasivos.

No lance cabal, Garbrandt acuou o oponente contra as grades com um direto e tentou um cruzado de esquerda com passo simultâneo (à la Dominick Cruz).

ezgif-696474181Daí aproveitou o embalo para angular para a esquerda, acertou o corpo e disparou um forte cruzado de direita em cheio.

O timing no ajuste da posição criou um contrapé/finta instantâneo que burlou o tempo de defesa do paulista. Foi fatal.

Feeling de luta geralmente sobressai à conduta tática.

É o instinto mais primal e complexo de ser controlado nos esportes de combate, sobretudo em momentos com carga psicológica nas alturas e nível técnico parelho ao extremo.

Existem acertos fantásticos e erros insanos dentro disso? Sempre. Thominhas desenvolveu uma fórmula que lhe rendeu 21 vitórias seguidas, algo que a ser sempre lembrado. Com a primeira derrota decretada, vem algumas lições e reflexões.

E conforme o nível competitivo sobe, a demanda por evoluções se torna cada vez mais necessária.

Pode ser a hora certa para abrir a mente e apostar em intercâmbios para criar novos âmbitos que colaborem para reforçar o talento nato do atleta da Chuteboxe. Sempre faz bem.

Recomeço

A tática de Jeremy Stephens contra Renan Barão era declarada: fazer valer potência frente ao volume de golpes. O brasileiro fez bom primeiro assalto, obediente taticamente e com evolução técnica visível e traduzida em low kicks precisos e fintas, além de mudanças de base e de nível.

Até mesmo a postura de luta estava modificada.

A partir da segunda parcial, forçar clinches e tentar quedas com mais afinco trouxe nova realidade para Barão. Acostumado a ser um peso galo grande, teve a primeira lição prática de que não será mais tão fácil assim contar com esse handicap na nova divisão.

Ele até conseguiu equiparar ações nessa situação contra um adversário (bem) maior fisicamente, mas teve de redobrar o esforço para isso. O desgaste bagunçou o senso de distância. Ele começou a projetar o tronco para frente de forma perigosa e telegrafada nas tentativas de diminuir a distância.

tumblr_o7z1de7aTg1rofocqo1_500Confiante nos uppercuts, Stephens então usou e abusou do recurso clássico do boxe para brecar essas entradas mais ‘secas’ do brasileiro. E o fez de duas formas: como golpe inicial, simplesmente ajustando a postura e soltando a bomba, ou angulando dentro do raio de ação para executar o soco.

O brasileiro absorveu bem o primeiro golpe do tipo que explodiu no queixo, mas sua expressão mudou na hora e ele ‘tirou o pé do acelerador’ de forma visível, passando a ter de lidar com outro ‘modo automático’ semelhante a do primeiro confronto com TJ Dillashaw.

O norte-americano passou então a dominar as trocas e crescer em volume de golpes frente a um adversário que responder aos ataques sem pressão por recuar demais e responder aos ataques sem pressão pelo fato de estar desequilibrado.

Stephens manteve-se preciso nas ações até o fim e mereceu a vitória. E Barão? Deve insistir na jornada entre os penas? Com alguns ajustes, pode ser que seja a melhor pedida. Veremos.

Quais outras lutas do card vocês gostaram? Como sempre, que comece o papo aí embaixo!

  • Hyuriel Constantino

    É precipitado dizer que Barão tá no peso errado, como eu vi alguns falarem. Pra mim, o cara tem que lutar no peso onde ele achar melhor. Se ele se habituar com os caras da categoria, tem condições de ir longe e começar a pegar as pedreiras.

    Almeida tb é promissor, mas precisa fazer alguns ajustes e se tornar mais versátil. Sua guarda de peekaboo tem veracidade de uma nota de três reais e antes ele decidisse lutar com uma guarda mais extensa de onde ele pudesse aparar os golpes sem estes se aproximarem de áreas comprometedoras.

    • Willian Matos

      O Dana tava querendo fuder o Barão mesmo, podia ter casado um luta mais fácil e recuperar o Barão. A NU só vai pegar pedreira agora, os dias de glória acabaram.

      • Vinicius Maia

        Exato, por isso que eu acho leviano falar que caiu o rendimento por causa da USADA. Pessoal gosta de olhar o retrospecto da NU sem levar os adversários.

      • Idonaldo Gomes Assis Filho

        Tenho medo do que vai rolar na luta do Aldo por isso.

    • Matheus V.

      Concordo com relação ao Barão, ele me pareceu bem essa noite. Aguentou as pancadas duríssimas do Stephens, se movimentou bem e até encaixou bons golpes.
      Agora, precisa de mais ritmo e sequências (vale treinar um boxe, aê), massa muscular (tava muito magrinho), sem falar em confiança para tirar golpes fora da caixinha como nos áureos tempos…

      • Vinicius Maia

        Eu achei bizarro a diferença de tamanho entre os dois veio. Foda que se Barão ganhar muita massa seu cardio pode ir pro saco.

        • Matheus V.

          Mas pelo menos ele ganharia a oportunidade de finalizar seus combates. É muito difícil de imaginar que ele nocauteando qualquer lutador do TOP 10, mesmo tendo técnica para isso.
          Acho que vale essa experiência para a próxima luta.

        • Luiz Henrique

          Acho que essa discrepância se deve ao fato de o Stephens ser um peso leve de origem. Ele é o maior e mais forte pena entre os top 10.

  • abner albuquerque

    [OFF] alguma noticia da alexis davis?

    • RWillians

      o que houve?

      • Vinicius Maia

        Rapaz, ela tava grávida. Acho que ela engravidou lá pra agosto do ano passado. Já deve ter nascido a criança e ela ta de licença maternidade creio eu.

        • RWillians

          A ta, achei q tinha acontecido algum problema com ela.

        • abner albuquerque

          tx

  • RWillians

    Infelizmente Thominhas foi mais um que caiu num discurso convencido e menosprezou um adversário com boa trocação e poder de k.o.. Garbrandt tem todos os méritos devido ao seu talento, mas Thominhas tb ajuda na sua prepotência de “eu tenho queixo de aço”. Sobre Barão, simplesmente é outro, que até mais que Thominhas deveria procurar novos ares, acho que ele pode ir bem nessa categoria, mas tem que adaptar seu jogo.

  • Edson Mariano

    Incrivel ver thominhas cair desse jeito… poderia tr sido de várias formas….isso é MMA… lutador com todas as artes a sua disposição… e cair e insistir naquilo q nao tava dando certo!!!! Vi thominhas tomando umas das últimas pancadas fortes… e ao invés de arrumar a casa… foi pra cima q nem loko (ao meu ver) …

  • Fernando Reporta

    Pergunta ao Cappelli

    Supondo que num combate os lutadores se propõem em lutar em pé. Considere que ambos tem nível equivalente na trocação. Desconsidere quaisquer tentativa de levar a luta baixo.

    A minha questão é: na trocação, seria o boxe mais efetivo que outras artes (como o Muay thai, o Karate, etc) que se desenrolam em pé ?

    Comecei a me atentar o para as lutas que se aproximam da ‘condição ideal’ supracitada acima. Percebi que, na maioria dos combates, lutadores com o melhor boxe levavam vantagem em pé mesmo perdendo a luta.

    Num casamento de estilos como Boxe Vs Muay thai, por exemplo, um representante da arte tailandesa tinha maior probabilidade de levar vantagem quando incrementava sua trocação com elementos do boxe, ainda que não tivesse o mesmo nível de um boxeur de origem.

    Seria o boxe o “meio-campo” (ou a base) na área da trocação assim como o Wrestling é o “meio-campo” no desenrolar da luta ?

    • Bernardo Oliveira

      Conor x Aldo, Cody x Thominhas e tem mais exemplos recentes que estão me fugindo agora. Boxe tem levado vantagem mesmo contra o Muay Thai.

      • Sempre foi o contrário, mas de uns cinco anos para cá o footwork do Boxe tem feito a diferença nestes octógonos enormes. Cappelli pode falar muito melhor, mas o Muay-Thai não foi feito para lutar com essa evasão toda. Quando a peleja era em ringue, no Pride, o estilo prevalecia nitidamente. Vide o sucesso da adaptação que fez a Chute Boxe. Mas no octógono gigante do UFC, a movimentação tem sido o grande diferencial.

        • Willian Matos

          Fala isso pro Overeen, ele continua com seu muay-thai brilhando. À próxima vítima vai ser o bóxer campeão.

          • Ele não lutado com postura e movimentos tradicionais do Thai. Diria que depois de passar pela dupla Jackson-Winklejon, seu jogo é mais de kickboxing padrão americano.

        • Fernando Cappelli

          Com certeza, Fernandão. Muay thai segue a arte mais contundente de todas, mas o padrão de movimentação da forma mais tradicional é bastante rústico se comparado ao do boxe. Footwork trabalhado e ambidestria são o futuro técnico do MMA.
          abs

        • Glauco Lopes

          Excelente amigo! Posso falar por experiencia. Treino Muay Thai faz6 anos, já competi e hoje treino apenas por prazer. Mas minha paixão sempre foi o boxe, tanto que confio mais nas minhas mãos que nos chutes, sendo que meus nocautes sempre foram com chutes. Já lutei em cage e psso dizer que o MT realmente é plantadão, é complicado trocar com um cara com essa evasão todo, sendo que o mt clásscio é bem plantado. Sempre que faço sparring em tatame sinto falta das cordas e do espaço restrito do ringue. Excelente comentário

      • Lucas Corrêa Braz

        Cigano x Overeem ponto pro thai
        Acho que nao tem essa de melhor arte.

    • Fernando Cappelli

      Acho isso relativo. Na parte de punhos, o boxe realmente é a arte mais eficiente quando comparado a qualquer outra modalidade de striking que use socos, na minha opinião. Não sei se é o meio-campo como você disse, mas com certeza é a base de striking mais confiável e direta que um lutador pode ter.
      abs

      • StrikingTruth

        Excelente o texto Cappelli, como sempre, parabéns. Sobre o debate, ñ da pra negar a efiencia e contundencia do muay thai, principalmente em combates nas regras puras de trocação, k1 e etc, com luvas maiores, mas no mma, onde é muito mais facil conseguir um ko, pelas luvas de 3oz, a movimentaçao, com angulos, pendulos aliados ao footwork muito mais leve e fluido e golpes mais rapidos e precisos do boxe, se sobressai e de forma belissima. Acho essa postura do mt muito estatica, ereta, quase sempre se movendo em linha reta, tanto na ofensiva quanto na defesa. O thomas e o vithai foram nitidos exemplos disso. Seria isso reflexo de metodos ultrapassados de treinamento, visto os estilos de mt aplicados pelo rda que treinou na evolve, ou de dillashaw com ludwig, ou até do might mouse, muito mais fluidos e eficientes? E vcs acham que um pouco de dedicação a nobre arte e seus fundamentos, resolveria isso, ou iria descaracterizar seus estilos?

        • Fernando Cappelli

          Não sei se é método ultrapassado, é realmente difícil mudar parâmetros para atletas que aprenderem e sempre lutaram dessa forma. Mas o striking no MMA está ganhando muita personalidade e estilo próprio, e cada vez mais há a necessidade de se adaptar a isso.

    • Juan

      Existem muitos fatores envolvidos. O que é certo, é que striking do MMA é regulado exatamente pelas possibilidades de queda.
      Quem tiver um jogo mais versátil sempre vai levar vantagem.

  • Silas K

    O poder de absorção do Barão aumentou, essa bomba no queixo que ele absorveu foi sobrenatural, acho que é melhor ficar nos penas, ele cometeu um erro fundamental quando faltava pouco mais de um minuto pra terminar a luta, ao invés de pegar as costas do Stephens, ficou perguntando pro corner o que deveria fazer, deve ser a falta de confiança batendo, um casamento com Siver seria fundamental para o brasileiro recuperar a confiança e trilhar seu caminho até o cinturão dos penas.

    • Álvaro

      Fazer justiça, o Barão naquele momento não perguntou ao córner o que fazer, como disse o povo do Combate, mas sim quanto tempo faltava para terminar o round.

  • Jonas

    Excelente texto. Capeli vc acha q o Cody tá pronto pro Cruz ou pro o TJ?

    • Fernando Cappelli

      Pro TJ seria legal, e ainda teria o apelo ‘creonte Alpha Male’ de novo reativado. Pro Cruz acho que o buraco é (sempre) mais embaixo, e seria melhor ter mais algumas.
      Abs

      • Matheus V.

        Posso estar muito movido pelo hype, mas acho que Cruz nunca enfrentou um lutador que aliasse tantas skills de trocação a um ótimo punch como o Garbrandt.
        Claro que nada disso adianta se você simplesmente não atinge seu adversário – o campeão seria definitivamente favorito -, mas já vi o Dominator tomar knockdown do Faber e na mesma posição o seu pupilo poderia muito bem finalizar o combate.

  • Willian Matos

    O Demian devia abrir um academia e treinar o Barão, o Aldo, o Erick Silva, o Thomás é mais uma renca de “Gênios” brasileiros. Lembra do lema? Só o jiu-jítsu salva! Com um pouquinho de wresteling né.

    • Gefferson Nesta

      O que o Demian faz, mais ninguém consegue fazer!

    • Lucas Corrêa Braz

      Demian tem a academia vila da luta em SP

  • Luis Felipe Fabricio

    O primeiro Upper do Stephens o Barão absorveu e foi bem parecido com o que mandou o RDA pra lona.

  • Daniel Estrella

    Grande Capelli, sempre vejo suas análises e todas são excelentes, porém nunca tive tempo/oportunidade de comentar.
    A diferença de velocidade, potência e precisão do Garbrandt em relação ao Thomas foi algo assustador na minha opinião. E o que não consegui entender é porque diabos o thomas quis boxear com um boxer daquele calibre ? Porquê foi pro infighting sabendo disso ? O Pouco de luta que teve e que pude analisar, thomas perdeu todas as trocas (se não me engano foram duas). Outra coisa que não entendi e queria saber é se realmente essa era a estratégia de luta dele, pois foi completamente equivocada.

    No mais, Garbrandt tem um grande futuro nesta categoria, e com a queda de Thomas e Sterling, ele caminha a passos largos pra futuramente ganhar o TS.

    Mestre Capelli, caso tenha algum erro na minha visão, me informe, pois estou sempre por aqui aprendendo contigo.

    • Fernando Cappelli

      Boa, Daniel. E não tem essa de erro na minha visão não. Comente sempre! O Thomas tem esse estilo brigador, faz parte da natureza dele como atleta. Ele tinha conseguido bons nocautes no UFC até então trocando pesado e valorizando os socos. Mas contra o NoLove faltou pensar um pouco melhor em dosar o ritmo e combinar mais mãos, pés e cotovelos mesmo.
      abs

      • Daniel Estrella

        Exatamente Mestre, pensei a mesma coisa quando terminou a luta. Thomas tem um Muay Thai excelente e poderia combinar melhor socos, chutes, cotovelos e joelhos, circular bastante pra não ficar de alvo fixo pro No Love, mas infelizmente ele somente quis trocar boxe, e este foi um erro crasso que resultou no nocaute.

        Thomas também precisa urgentemente rever sua guarda, caso contrário poderemos vê-lo nocauteado novamente. Mas torço muito pra que ele evolua e nos dê alegrias futuramente.

        Abs.

  • Luiz Henrique

    Sinto que Barão ainda pode fazer barulho nessa categoria, só acho que deveria melhorar o boxe e quem sabe ganhar um pouco de massa muscular.

  • Ridelson Medeiros

    – Como o Barão n apagou nesse upper? Nunca saberemos…

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