Como o boxe olímpico
tirou um cinturão do Brasil

Fernando Cappelli | 16/05/2016 às 20:08

O evento de gala do UFC em Curitiba cumpriu o que o card bem elaborado prometia: lutas parelhas, surpresas e estreias de peso. Cris Cyborg iniciou uma jornada que tem tudo para dar muito pano pra manga.

Na atração principal, o cinturão dos pesados mudou de dono mais uma vez após um nocaute no primeiro round, e novos precedentes foram abertos.

Sem mais delongas, a seguir a olhada clínica em algumas das muitas assinaturas técnicas em destaque.

Precoce

IYB6XVb - ImgurNo main event, Fabrício Werdum começou a impor o ritmo variando chutes. Mas logo passou a caçar Stipe Miocic pelo octógono de forma aleatória.

Para ‘matar’ espaços rapidamente, usou uma técnica característica dos atletas da Kings MMA: avançar com troca de base e golpes.

A intenção é criar um fator-surpresa com passadas simultâneas aos socos, geralmente executados com os braços contrários às pernas que estão na frente para facilitar a mecânica e ganhar em contundência.

Versado no boxe olímpico, o norte-americano/croata mantém o feeling típico de antecipar ações dos oponentes com reações instantâneas, como manda um dos fundamentos mais peculiares desse estilo.

ReflectingGleamingAmazonparrot-size_restrictedMiocic mantinha-se ativo com variações de fintas aliadas à jabs e chutes por dentro da perna.

Nos momentos em que o brasileiro correu a seu encontro, manteve a postura e se afastou milimetricamente para sair do raio de ação.

Na terceira investida de Werdum – com golpes a esmo e bastante desequilibrado -, acompanhou o movimento contrário recuando algumas vezes até ancorar os pés na lona e disparar o cruzado de direita que desligou o gaúcho.

O novo rumo para o cinturão da categoria estava decretado.

Sobrou

16 - 2Cris Cyborg finalmente fez a estreia na organização e já deixou claro que é a cereja do bolo ideal para coroar evolução e expectativa das categorias femininas nos últimos anos.

A vitória ao melhor estilo ‘cheiro de sangue’ sobre Leslie Smith mostrou amadurecimento técnico mais que interessante da brasileira, com boas doses de agressividade polida traduzidas em cruzados ao invés de mãozadas e mais golpes com variações de níveis.

Basta dar um jeito na questão do peso para cair dentro de vez frente a adversárias mais parelhas.

Culatra

Em Warlley Alves x Bryan Barberena, o suposto favoritismo em massa do brasileiro caiu por terra com uma decisão apertada. O norte-americano é um canhoto clássico, e com isso carrega o poder de entortar destros tirando proveito da posição ‘espelhada’ da situação.

Para isso, evita perder o controle das distâncias tocando constantemente o punho da frente (da postura de luta) dos oponentes, abusa dos diretos de esquerda como golpes iniciais e usa chutes baixos com a perna da frente (da posição de luta) para criar volume ofensivo.

giphyUm dos prospects do país de maior potencial entre os meio-médios, o brasileiro é um golpeador visceral, técnico e preciso, mas que ainda cai nas tentações do imediatismo.

Isso foi a chave do cansaço precoce e consequente derrota, ainda mais contra um oponente tecnicamente inferior, mas também conhecido pela capacidade de suportar castigo e praticar táticas mais longas. Os golpes de confiança de Warlley eram chutes médios, que surtiam efeito até o gás começar a acabar.

Durante a luta, o que chamou atenção em Barberena foram detalhes típicos dos clinches do muay thai, que consistem em travar o adversário na frente do pescoço (ou rosto) com o antebraço, para daí deslizar cotoveladas curtíssimas com o mesmo braço que faz a pegada.

É uma técnica potencializada naturalmente devido à proximidade do alvo e o reflexo de encontro ou para trás que o oponente faz para aliviar a pressão.

Surpresa!

Patrick Cummins quis prolongar as trocas em pé contra Rogério Minotouro e desvirtuou, pra valer, a meada tática mais usual de seu estilo.

ezgif-2753651604O gringo mostrou evolução nesse sentido, mas sua parte em pé segue mais funcional do que propriamente eficiente quando usada de forma isolada e sem pretensões de facilitar o grappling. Foi um dos grandes enganos estratégicos da noite em Curitiba.

Muito mais confiante e coeso na movimentação do que nas últimas apresentações, o canhoto Minotouro iniciou a sonora vitória com um combo básico composto por direto de esquerda e cruzado de direita, uma das lições mais básicas – mas que nunca perde a validade – do poder monstruoso do impulso conseguido com a rotação da cintura, ombros e punhos no boxe.

O golpe explodiu no queixo e mudou na hora a expressão do rosto de Cummins. O castigo que veio na sequência culminou em um triunfo de peso para o veterano brasileiro.

Para fechar: Demian Maia segue grão-mestre especializado em fazer caras renomados parecerem iniciantes em um mundo predatoriamente competitivo quanto o do MMA atual. Hall da Fama do UFC pra ele em breve. Pode ser ainda na ativa como competidor. E pra ontem.

  • RicardoVivas

    Eu sei que marra (provavelmente) não interfira na técnica, mas Warlley precisa tirar essa pegada de fodão. Não precisa isso… Por isso que admiro caras como Demian, Lyoto e até o Thomas (que tá botando pra fuder e nem por isso é marrento). Não pegou a guilhotina, o gás foi embora… já era.

    • RWillians

      Warlley é o cara que aparenta mta técnica, mas se não guilhotinar, fica sem recurso, esperando um golpe entrar, não tem cardio nenhum, sorte que tem um queixo melhor q o Erick Silva, pq de resto tá igual a ele, alguma coisa de errado tem na X-Gym, sobra técnica, mas falta preparo físico.

      • Francisco Júnior

        Curioso é que os lutadores da X-Gym sempre levam o Rogerão (preparador físico) para o córner. Por que será? Qual a contribuição dele ali?

        • RWillians

          Já pensei n vezes nisso. Mto estranho. Os caras são talentosos, mas não emplacam. E um outro problema q eu vejo é a supervalorização. Qdo vc vê as entrevistas desses caras, da para assustar, são mto convencidos. Ai qdo perdem ficam com cara de tacho.

          • Paulo de Tarso Lins

            O Jaca tá no limite extremo entre a auto confiança e a arrogância, acha que vai atropelar todo mundo e não é bom assim, Romero pode até ter segurado na grade mas que o Jacaré não conseguiu fazer nada na luta isso não fez.

          • Igor Martins

            verdade! que então ganhasse sem a decisão dos juizes, com o jaca é sempre assim quando perde “perdi mas ganhei”! do rockhold ele não passa

          • Renan Oliveira

            Também acho que ele não vence o Rockhold. Aliás, o jogo ruim tanto pra ele quanto pro Weidman.

          • RWillians

            Gosto dele, acho que já merecia o ts a mais tempo, mas concordo com vc, e ele tem que esquecer a derrota pro Rockhold, corre o risco de ser engolido por um trash talk, sendo que Rockhold ainda é um cara atlético que não vai dar os moles que Belfort deu.

        • Fernando Cappelli

          Pedir pro lutador respirar durante os intervalos.

      • Fernando Cappelli

        Cardio tem. Precisa saber segurar a onda durante a luta e atuar com menos ansiedade de definir logo.

        • RWillians

          Acho que as vezes essas promessas enganam a gente. Talento existe ali, mas se não se prepararem melhor, físico, técnico e psicológico, esses caras vão ficando unidimensionais.

  • RWillians

    Werdum caiu na mesma cilada da Ronda, achou que era melhor na principal especialidade do adversário e pagou caro. Devia ter esquecido a idolatria que queria conquistar, e lembrado que um campeão não entra pra dar show, mas mostrar que é o melhor. Se pegar o Cigano e cair de novo, vai ficar mal na fita.

    • Paulo de Tarso Lins

      Uma das melhores análises que li até agora amigo, querer ser melhor na especialidade do adversário; Werdum caiu exatamente nesse engano, deve tomar o Jacaré como exemplo, se o mesmo tivesse tentado trocar com o Vitor poderia ter tido o mesmo fim, mas foi inteligente e venceu, fica a dica pros dois nada de tentar trocar com Cigano e Rockhold em eventuais combates, não tem necessidade de se expor.

      • RWillians

        Com certeza. Jacaré foi na boa, pra definir. Vitor ficou esperando. Uma coisa é ser cauteloso, outra é ser passivo. Jacaré foi pra definir. Para geração que acompanha mma a menos tempo, o Vitor que conhecem é o que treme qdo vai decidir. Acho q Demian tb é um bom exemplo, todas as lutas que ele fugiu do BJJ e se preocupou com trocação ou não cadenciou seu cardio, ele perder, vide Weidman e Rory.

        • Paulo de Tarso Lins

          Conor Macgregor como diz o Rafael dos Anjos não sabe nem amarrar a faixa kkkkkkkk, ou seja, seu chão é patético, e o que que o Aldo me faz? Vai que bem um louco pra cima do cara, outro bom exemplo.

          • Thiago Pikisius

            Só que Aldo venceu quase todas últimas lutas antes na base da trocação. Ainda não dá pra mensurar se, ou quanto McGregor é melhor trocador que Aldo, pelo menos teríamos que ter um Round inteiro pra analisar. Lógico que MsGregor venceu merecidamente. Aldo não entrou com a cabeça no lugar. E na minha humilde opinião, 90% do sucesso do lutador no octógono tem que ser baseado em um bom psicológico. Porque treinar, todos treinam, agora precisa ter a cabeça boa pra colocar em prática, e de forma inteligente o que foi treinado. Coisa que o Aldo deixou de fazer. Mas Werdum é um cara bom, assim como Aldo, Warlley, e outros mais. As vezes é bom um choque de realidade… Excelente exemplo é GSP pós Matt Serra…

  • Ícaro Nogueira

    Grande, Cappelli! Mais uma vez: ótima análise. Entretanto, senti a falta de uma análise da luta do Shogun. Abraço, Oss!

    • Fernando Cappelli

      Valeu, Ícaro. Escolho alguns destaques em cada texto, realmente não dá pra falar sobre todas as lutas. Mas o Shogun estava consciente e com golpes calibrados. Os cruzados de esquerda foram os fiéis da balança, e o brasileiro conseguiu dosar o ritmo a seu modo por mais tempo. Achei que o Anderson demorou um pouco pra entrar na luta. Isso provavelmente acabou pesando na visão interpretativa dos árbitros na decisão final, que realmente foi polêmica..

      • Ícaro Nogueira

        Concordo em gênero, número e grau.

  • Francisco Júnior

    Grande Capelli! Ótima análise mais uma vez. Aqui vão algumas observações minhas:

    1) Li em algum lugar que Werdum foi pra cima com tudo porque aparentemente achou que tinha conectado um golpe duro e feito Miocic balançar. Preciso rever a luta. Acho que faltou concentração para o gaúcho, o que não tira o mérito do americano, que teve concentração de sobra.

    2) Quer vencer o Vitor Belfort? Coloque-o de costas para o chão. Comece a bater que acaba rapidinho.

    3) Lutar contra Demian Maia é como lutar contra Anthony Johnson, guardadas as devidas proporções. A sua paciência e técnica devem ser proporcionais ao seu receio em ser “pego”.

    4) Não consigo mais imaginar o Shogun vencendo uma luta com domínio pleno. É como se a partir de agora, ele precisasse sempre de um pouco de sorte. Basta lembrar que ele quase foi nocauteado pelo Minotouro na luta anterior, e agora venceu com um discreto garfo.

    5) A derrota do Warlley Alves automaticamente nos faz lembrar do Erick Silva. Eles apresentam sempre muito menos do que se espera.

    • Fernando Cappelli

      Francisco, meu camarada. Grande olho clínico. Só calma com o Warlley. Ele é muito bom, só precisa de ajustes. O ideal pra esses caras, todos eles, é rodar mais lá fora, buscar novos treinos e novas visões de treinadores. No MMA atual, quem fica parado é poste.
      abs

  • Thiago Augusto

    Nenhuma menção ao grande mestre do massaratame, massaranduba? Lutaça comtra o yancy medeiros!

    • Fernando Cappelli

      Merece todos os créditos, com certeza. O Marreta também. Tomara que a organização enxergue isso de vez.

    • flavio israel

      bem lembrado cara, o Massara fez um lutão com Yancy que aguentou muita pancada, fiquei até impressionado!

    • Thorens Acchuphase

      Foi bem legal ele ter ganho o premio de luta da noite, merecidíssmo!

  • Bruno

    Cappelli, você acha que a falha do Werdum foi deixar-se levar pela emoção? Para mim parece que sim, pois ele se transformou em um bom striker de uns anos para cá e sempre parecia muito técnico e estrategista, o que vi na luta foi um erro que não poderia ser cometido nenhum lutador, quanto mais um striker do calibre do Miocic.

    • Fernando Cappelli

      Acho que o excesso de festa deu uma contaminada sim, Bruno. O Werdum já disse que usa o bom humor pra esconder o nervosismo. Isso é algo bem pessoal e válido, mas desde que tenha um limite.
      abs

      • Eugenio

        Verdade! Era um tal de fazer “happy face” para as câmeras a todo momento. Quando a luta começou, era nítido o nervosismo, a apreensão. O Werdum não parecia concentrado na luta.

  • Anderson Tomaz

    seguem frente, tem outros trofeu
    (e na mesma semana! e em julho! amem! )

  • Matheus V.

    Pode até parecer exagerado falar em já de Hall da Fama para o Demian, mas ele é o brasileiro com mais vitórias no UFC, 17, tendo tudo para se isolar ainda mais nessa posição – está na frente de Anderson e Tibau, ambos com 16 – e até chegar no primeiro lugar geral do Matt Hughes com 19. Realmente impressionante.
    Quanto às lutas, fiquei bem impressionado com a evolução do Barbarena. Tanto o clinch parecia bem perigoso quanto o boxe em dia. Aliás, tem um jeitão largado que parece mais cria do Richard Perez do que do Bendo, hehe.

  • Rafael Fiori

    Alguém se habilita a falar um pouco da técnica de Cyborg? Sempre a vejo no infight soltando bombas e terminando no Ground and pound.

    • Thorens Acchuphase

      A técnica dela se chama “hulk smash” kkk. Brincadeiras a parte, ela tem muito mais o que mostrar, mas as adversárias sucumbem à sua primeira blitz! Quando você diz técnica, primeiramente é preciso entender a diferença entre as habilidades/variações de golpes e a efetividade/resultado. São fórmulas diferentes, temos muitos exemplos disso no mma. A luta entre a campeã do invicta Tonya Evinger vs Irene Aldana é um bom exemplo disso e recentemente do Warlley vs Barberena, tem vários outros exemplos como Lawler vs Rory, etc.. A Cris Cyborg não tem uma movimentação e boxe sofisticado como a Joanna Jędrzejczyk por exemplo, mas a precisão de seus golpes é excelente e ela tem uma boa variação deles como golpes na linha de cintura, clinch’s de muay thai com joelhadas no corpo e cotoveladas, excelente preparo físico com uma gás interminável e sabemos que isso é imprescindível para qualquer bom striker e condicionamento é motivo de críticas quando se falta: Warlley, Erick Silva, Amanda Nunes são exemplos de ótimos strikers que perdem a eficiência conforme vão perdendo o gás durante as lutas. Se olharmos o tempo de carreira da Cris e o resultado de suas lutas, podemos ranqueá-la facilmente como um(a) dos(as) strikers peso-por-peso mais eficientes da história com dezesseis vitórias e 14 nocautes + 1 non contest! Agora, ser fã dela ou não é outra coisa diferente também, o que não podemos é negar os fatos.

      • Rafael Fiori

        Boa análise. Eu não assisti a luta de muay thai contra a Baars, mas sempre tive essa ideia que você apontou sobre Cris não conseguir mostrar tudo que sabe.

        • Thorens Acchuphase

          Cris perdeu para Jorina Baars, campeã mundial de Muay Thai num duelo puro da modalidade e por menciona-la você deve saber bem disso. Lembrando que essa luta foi uma aventura da Cris no Lion Fight quando ela já detinha o cinturão do Invicta FC, e mesmo assim a brasileira não sucumbiu a golpes duríssimos que recebeu (a luta está aberta no Youtube). Apesar da derrota para Jorina, Cris venceu dois do três combates que disputou no evento. Por outro lado, Jorina também tentou ingressar no mma e desistiu após três derrotas em quatro lutas. Agora imagine qualquer lutadora do UFC no lugar da Cris nessa luta contra a Jorina Baars de 1,80cm e campeã absoluta na modalidade dela. Eu não daria nem um round até mesmo pra Holly Holm.

  • Daniel Piva

    Apesar do Werdum ter ido para cima de maneira equivocada, destaco a forma como entrou o soco do Miocic. Mesmo andando para trás entrou limpinho…são poucos que conseguem ser eficaz nesta situação.

  • Werdum foi muito no oba-oba, eu acho, e esse lance de mascarar nervosismo com bom humor é válido mas não pode ser exagerado. Lutar com torcida a favor é uma faca de 2 gumes, ajuda a moralizar, mas também atrapalha pelo fato de se controlar e seguir estratégia e não se expor muito. Não que isso tenha sido o fator decisivo pra luta, mas acho que teve sua parcela sim.

  • StrikingTruth

    Excelente a analise mestre, como sempre. Só uma coisa, seria impressão minha ou de fato seus textos tem estado mais enxutos? Um abraço.

    • Fernando Cappelli

      Hmm, não sei, meu amigo. Mas tenho de tomar cuidado para as análises não ficarem muito repetitivas todas as semanas. É difícil pinçar novidades o tempo todo com quase 100 textos desse tipo escritos aqui no Sexto. Então depende bastante do que acontece em cada evento…
      abs!

      • StrikingTruth

        É não deve nada facil mesmo! Mas independente disso, a qualidade continua única. Parabéns, e obrigado.

  • Ridelson Medeiros

    – Werdum fez tudo o que não podia fazer.
    – Cyborg fez o que já era esperado.
    – Warlley não fez.
    – Minotouro fez até d+.
    – Porem ninguém supera o lutador prefeito.