Flashback: os altos e baixos
na carreira do Pitbull

Fernando Henriques | 06/05/2016 às 14:53

Nesse final de semana, o ex-campeão Andrei Arlovski terá uma boa chance de se recuperar da última derrota para Stipe Miocic e ficar em alta novamente.

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Mas os seus cabelos…

Apesar de improvável, uma vitória sobre um Alistair Overeem, que acabou de nocautear o ex-bicho papão do peso, Júnior Cigano, é representativa e suficiente para reconduzir o bielorrusso ao posto de virtual contender dos pesados.

Na vitória ou na derrota, porém, observaremos um movimento comum na inconstante carreira do Pitbull, feita de idas e vindas desde o início.

Arlovski já não é nenhum menino (37). Sua trajetória começou ainda na década de 90, quando enfrentou em 1999 o folclórico “melhor lutador do mundo”, Viacheslav Datsik (5-7), e perdeu!

Conheço Datsik há muito, quando vídeos bizarros com peripécias suas em ringues e octógonos circulavam em fóruns undergrounds. No vídeo abaixo temos uma compilação:

Não é exagero cogitar que Datsik, primeiro algoz do então futuro campeão do UFC, tenha alguns “parafusos a menos”. Mas ele tinha um golpe característico, sua marca registrada de presepada, com o qual iniciava todas as lutas: uma cambalhota em direção ao adversário na tentativa de projetar o calcanhar sobre ele.

Um movimento bizarro, sem dúvida, que dificilmente funcionava, a não ser quando diante de Andrei Arlovski em sua estreia. O KO não veio deste golpe, mas de um one punch knockout tão inesperado quanto.

Azar não existe, mas se existisse, seria invocado para explicar essa.

Enfim, adiante.

Depois do revés inicial, que seria normal não fosse o adversário estupendo, o bielorrusso emendou uma sequência de três vitórias contra lutadores não tão conhecidos que lutavam no circuito russo – Roman Zentsov, que anos depois nocautearia Pedro Rizzo no Pride, Michael Tielrooy, que perdeu para Rizzo no WVC 2, no Brasil, e John Dixson, que nunca lutou com o brasileiro.

Foi o suficiente para gabaritar Arlovski a ser o primeiro de seu país a lutar no UFC, onde estreou com vitória sobre Aaron Brink.

tumblr_nwb6zccjUk1r89qoso1_400Mas o primeiro nome mais conhecido que pegou no evento americano, Ricco Rodriguez, o parou. Assim como o segundo… Pedro Rizzo!

(A brincadeira com Rizzo é para mostrar que a escassez no peso vem desde quando se aceitava “qualquer um” na categoria, pesando mais que 120kg ou algo próximo de 100kg, o que configura um meio-pesado hoje).

Estávamos em 2001 e Arlovski ainda não era o Pitbull que conhecemos. Porém, nas duas derrotas mostrou bom repertório em pé, principalmente contra o brasileiro, fato que o garantiu na organização que conquistaria em breve.

Podemos dizer que a experiência no UFC talhou, aos poucos, o bielorrusso. Depois dos reveses ele entrou na fase que podemos considerar facilmente a melhor de sua carreira até aqui, com seis vitórias seguidas onde conquistou e defendeu o cinturão interino e linear dos pesos-pesados.

Ele enfileirou dois porteiros da divisão – Ian FreemanVladimir Matyushenko e o freak Wesley “Cabbage” Correia – antes de encarar e vencer de maneira inusitada Tim Sylvia pelo título interino do UFC.

Achilles Lock2_zpsbxdpadpbO primeiro encontro destes que monopolizaram a categoria (para desgraça de Dana White, pois eram fracos tecnicamente, sim, e impopulares) por dois anos aconteceu em 2005, por ocasião do grave acidente sofrido por Frank Mir, que deixou o título vago e em disputa entre os dois.

A vitória de Arlovski veio de forma inédita, salvo engano, até hoje em disputas de cinturão no UFC, através de uma chave de pé reta. Chamada de “botinha” pelos atletas de jiu-jitsu, achilles lock pelos americanos e de chave de pé mesmo, pelos praticantes de luta livre como eu.

Arlovski usou sua base de sambo (hoje já esquecida) para vencer no primeiro encontro, mas nos confrontos seguintes, quando foi derrotado por duas vezes, a luta transcorreu basicamente em pé.

Título durou pouco

Reinado durou pouco

O resultado da trilogia foi péssimo para o legado de Arlovski e confirmou sua trajetória inconsistente.

Tim Sylvia não possuía estilo vistoso, apesar de eficiente, e em todas as três oportunidades Arlovski, o elo mais técnico, era esperado como vencedor.

A decepção com o placar final (2 a 1 para o americano) é inevitável, principalmente com o declínio de Sylvia depois que saiu do UFC.

Arlovski, por sua vez, se reergueu depois de Sylvia. Encarou o novato Márcio “Pé de Pano”, campeão mundial de jiu-jítsu que vinha embalado depois de vencer Frank Mir, em seu retorno, e mostrou a este que o MMA não era sua praia.

Venceu o também novato – à época – Fabrício Werdum em uma luta que não achei ruim, ao contrário da maioria, em que rolou até tapa do brasileiro pra cima dele – Werdum sempre foi brigador, faltava-lhe a técnica que possui hoje em pé.

Na sequência, despachou outro que poderíamos considerar um novato, Jake O’Brien, mas apesar de acumular três vitórias seguidas, saiu do UFC para realizar um tour desastroso por outros eventos.

Tapão de Werdum

Tapão de Werdum

No começo, duas ótimas vitórias sobre dois bons lutadores fora do UFC, Roy Nelson e Ben Rothwell, para logo em seguida retornar à sua sina de altos e baixos.

Como vinha de cinco vitórias seguidas, Arlovski encaixou logo quatro derrotas acachapantes, naquela que é facilmente apontada como sua pior fase.

Foi ali, entre 2009 e 2011, que seu “queixo de vidro” foi descoberto por fãs de todo mundo e, a cada nova luta, esperávamos sua técnica costumeira aparecer até a primeira mão do adversário entrar.

Entre estas quatro derrotas, a mais emblemática foi para o russo Fedor Emilianenko em uma luta que vinha dominando em pé, até tentar uma bisonha joelhada e ser nocauteado de pronto.

A desastrosa joelhada

A desastrosa joelhada

Porém, a derrota mais dolorida foi para o borracheiro Brett Rogers, no Strikeforce, em apenas 22 segundos. Este que até então não tinha expressão alguma, conquistou sua vitória mais sonora até hoje. Foi brutal.

Os outros dois que o superaram nesta época foram Sergei Kharitonov e Antônio “Pezão”.

Para muitos, encerrava ali o auge do bielorrusso, que jaz incapaz de trocar porrada com os gigantes do seu peso, devido ao seu frágil queixo.

Mas Arlovski ainda tinha garrafas para vender e deu a volta por cima, confirmando mais uma vez o vai e vem de sua carreira. E o caminho dessa vez seria mais tortuoso.

Antes de retornar ao UFC em 2014, completamente desacreditado para fins de cinturão, e encaixar quatro boas vitórias – inclusive uma revanche contra Pezão – para mudar este quadro, Arlovski penou em eventos menores.

Se vingando de Sylvia

Se vingando de Sylvia

Com exceção para o WSOF, onde venceu dois lutadores medianos e perdeu para o ex-meio-médio Anthony Jhonson, e do One FC, onde tentou uma frustrada (no contest) revanche contra Tim “Baleia” Sylvia.

Na verdade, ele não estava tão mal quando retornou ao UFC. Depois a fase negra, estava com 6-1.

Mas esta única derrota era para um cara que não era nem peso-pesado e as vitórias contra lutadores inexpressivos ou pouco conhecidos.

Por isso o espanto geral a cada obstáculo superado no retorno ao UFC, desde a amarrada vitória sobre Brendan Schaub (que sempre merecerá ser amarrado depois do papelão contra Roberto “Cyborg” no Metamoris) até a insana troca de golpes com Travis Browne, no UFC 187.

No 191, porém, contra Frank Mir, vimos seu hype diminuir, apesar da vitória. E contra o top 4 legítimo Stipe Miocic, vimos sua sina mais uma vez se confirmar.

Em tempo, gostaria de dizer que perderam a chance de tê-lo casado com Werdum enquanto ele ainda vencia para A) dar uma boa oportunidade de revanche ao campeão e B) coroar uma bela volta por cima.

  • Tiago Nicolau de Melo

    Joelhada no Fedor = um dos maiores vacilos da história do MMA?

    Curto o Andrei, tem boa técnica na vertical e na horizontal (ui!)… a carreira é bastante instável, mas nunca me aprofundei pra saber se teve algum problema pessoal mais grave que fez(e fez) oscilar tanto.

    • Matheus V.

      Já foi tema de um texto aqui no site que o problema entre o Sylvia e o Arlovski envolvia uma ex-namorada (#okok) e ainda que não justifique a oscilação em toda a carreira, dá para entender que o ‘Pitbull’ era um cara um tanto instável pessoalmente.
      http://sextoround.com.br/1733-barraco-entre-sylvia-e-arlovski-caminha-para-o-quinto-capitulo/

      • Tiago Nicolau de Melo

        haha, quase cuspi paçoquinha no monitor com o “okok”.

        Valeu.

      • KRS Porlaneff

        E reza a lenda que Tim Sylvia uma vez tomou um pau feio em um bar de um cara chamado Glenn Thomas Jacobs. Só não vou dizer o nome pelo qual o cara GTJ é conhecido e o que ele faz da vida porque quero que as pessoas tenham a mesma surpresa que eu tive.

    • Thorens Acchuphase

      Também sempre fui fã do Arlovski, seu estilo e técnica de trocação não condizem com uma carreira tão osciloscópica. Na lutra contra o Fedor, minha torcida era pro Andrei e estava enxergando sua vitória clara e legítima até aquele infeliz momento da joelhada, talvez a única explicação seja mesmo o queixo fraco. Duas lutas que me lembro dele ter absorvido bem foi contra o Humble onde tomou vários golpes limpos e contra o Mir, que chegou até a cair.

      • Beto Magnun

        O Rumble quebrou o maxilar do Arlovski no primeiro round.

        • Thorens Acchuphase

          E ele aguentou até o final da luta!? Deve ter sido aí que as sequelas comprometeram o futuro do sei queixo!

          • Beto Magnun

            Não. A grande surpresa foi ele não ter sido nocauteado. O pessoal lá do MMA Brasil até zuou depois da luta com o Browne, dizendo que o AJ tinha concertado o queixo do Andrei. Mas aí veio o Miocic. . .

    • Beto Magnun

      Ele era baladeiro.

  • Matheus V.

    Pelo jeito esse queixo já veio vencido de fábrica, mas tenho que admitir que gosto do Arlovski – os embeddeds passam que ele é bem boa praça – e estava na torcida em todos os seus confrontos recentes, assim com vou estar nesse domingo.

    Curioso que não acho um casamento tão ruim para o bielorusso. Ele tende a ceder principalmente diante de adversários que o pressionam, o que não chega a ser uma característica do Overeem. Vai que a mão passa pela usual guarda baixa do multicampeão e atinge seu queixo tbm sensível.

  • Renan Oliveira

    Sei não, mas acho que não vai dar pro russo. Acho que ele só leva essa se tirar um nocaute da cartola, fora isso Overeem tem mais recursos.

    • Lero

      Bielo-

  • KRS Porlaneff

    Eu acho que dá Arlovski por “queixo menos mole” via mata-cobra de cima pra baixo, quase uma braçada de natação.

    Mas que dificilmente a luta passa do primeiro round (igual eu pensava de Bomba VS Lesnar), isso eu tenho certeza. A não ser que alguém ali resolva bancar o amarrão…

  • Beto Magnun

    Foda que no 1ºround p AJ quebrou o maxilar do Arlovsky e ainda assim ele aguentou mais dois rounds. Lembro que antes do UFC 195 um maluco no facebook dizendo que eu era uma merda que não sabia nada de MMA (nessas palavras) por que apostei num KO do Miocic. E ainda expliquei que a única luta que ele convenceu nesse retorno foi contra o Browne o resto… Pô contra o Mir foi uma vergonha. Depois da vitória do Miocic o cara saiu do grupo aí nem deu pra zoar.
    Gosto do estilo dele, mas parece que ele se contém demais pra não expor o queixo de Cézar Mutante.

  • Ridelson Medeiros

    – #TodosSomosDatsik

  • Ramon Borges Figueira

    Bacana o FLASHBACK sobre o Pitbull., Parabéns fernando.
    Eu – particularmente – sempre gostei do pitbull.
    Eu gostaria de ter as possibilidades A e B do texto. Más não dá para torcer contra o Werdum. O cara é muito bacana.,
    Para as luta de domingo eu não tenho favorito – creio que dara Overeem. Curto os dois lutadores e creio que os dois mereciam o TS.

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