Cholish: o cara que pagou para ser finalizado no Brasil

Renato Rebelo | 23/05/2013 às 22:20
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Cholish em Wall Street com cinturões conquistados pré-UFC

Logo após ser finalizado por Gleison Tibau no UFC no Combate 2, John Cholish, à la 06, pediu pra sair.

O aluno de Renzo Gracie se antecipou à colisão da bota de Joe Silva com o seu traseiro e veio publicamente dizer que se dedicaria, em tempo integral, ao emprego na bolsa de valores de Nova York.

Mas, antes de bater a porta, o caboclo tratou de jogar groselha no ventilador.

Sem timidez, Cholish explanou o perrengue financeiro que passou para lutar no Brasil.

E a situação é mais feia que encoxar avó no tanque…

Vamos a alguns números do camp de dois meses:

– Academia com técnico renomados, todos os suplementos necessarios e alimentação: de 4 a 6 mil dólares
– Como o UFC só banca as passagens aéreas e a hospedagem do lutador e mais um técnico, se quiser levar mais alguém, é por conta própria. Cholish botou mais duas cabeças no avião e bancou hotel e encargos dos vistos brasileiros. Total: quase 4 mil dólares
– Exames medicos pre-luta cobertos pelo plano de saúde pessoal: mil dólares
– Pra finalizar, o leão da receita brasileira morde 27% da bolsa na fonte: mais 2 mil dólares

O contrato assinado com a Zuffa previa 8 mil verdinhas para aparecer e mais 8 mil em caso de vitória.

Se a matemática fuleira do primário não me falha, a conta fecha na casa dos 10 mangos.

Em outras palavras, o malandro pagou pra receber uma guilhotina em Jaraguá do Sul!

Nick Lentz e o próprio Tibau já vociferaram sobre trabalhar em solo tupiniquim.

No Brasil, o cheque já vem descontado, então são 50 mil reais que eu deixo de receber. É uma taxa muito pesada. A gente paga a taxa, não tem problema, mas o dinheiro não vai para a saúde, não gera benefício para o público. Se fosse uma taxa que você paga, mas vê o benefício, tudo bem… A política no Brasil é uma roubalheira muito grande, isso me deixou muito triste – disse Gleison, que reside na Flórida, EUA.

Não existe mágica

Primeiro, é óbvio que o UFC nada pode fazer a respeito da colossal usurpação salarial que atende pelo nome de impostos.

Segundo, por que há uma fila de profissionais querendo trabalhar para Dana White?

É porque o UFC garante, através da meritocracia, um lugar ao sol a longo prazo.

E outra, a grama não é mais verde na casa do vizinho.

Muito se fala na criação de uma união de lutadores para reinvindicar melhorias.

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Tibau na ofensiva

Acho válido, mas acontece que o MMA é um esporte individual (não diga!) e, dificilmente, milionários no topo da cadeira alimentar vão botar a cara pra bater.

Em atividades coletivas, é mais fácil haver mobilização.

E outra: pensemos em sindicatos.

Em muitos setores, eles mordem parte do seu salário e só servem para gerar burocracia e atravancar o dinamismo das atividades.

Então, Renato, será que o governo deveria regular a forma como são pagos os atletas – com leis trabalhistas, etc?

Pelo amor de Deus, não!

Se forçarem a iniciativa privada a aumentar salários e conceder benefícios, o dinheiro sairá de algum canto.

É batata. Muita gente vai para o olho da rua, a quantidade de eventos cairá e a qualidade do produto será afetada.

O MMA, portanto, daria um passo atrás. Gente, nosso esporte é novo, muito novo.

Há alguns anos, Tito Ortiz, campeão de faturamente ao lado de Chuck Liddell, embolsava 800 mil por luta.

Quem diria que pouco tempo depois teríamos popstars recebendo cheques de 10, 15 milhões?

Todos sonham em se tornar um Anderson Silva ou um GSP, mas a caminhada é longa e o início é espinhoso.

Qual é a porcentagem de jogadores de futebol no Brasil que ganham mais de 10 mil reais por mês?

Dois, três, cinco por cento?

Além de aguardar o crescimento gradual do setor – que certamente aumentará a receita dos atletas e trará patrocinadores, só há uma coisa a fazer: torcer pro sucesso de novos eventos.

A concorrência é fundamental para o bom funcionamento de qualquer mercado.

Vimos recentemente o UFC perder um peso-galo top.

Bibiano Fernandes não curtiu a bolsa inicial paga pelos americanos e decidiu fechar com o One FC.

Gostaria de dizer também que antes de mais nada, sou um pai de família, um atleta profissional e vivo do esporte, de onde eu tiro o meu sustento e de minha família, já que eu e o UFC não chegamos a um acordo que beneficiasse a mim e minha família, não assinei o contrato que permitiria fazer parte desta grande organização – declarou o faixa-preta.

Esse pode ser um caso isolado, mas deixa um recado importante: se a concorrência começar a se apoderar do talento, abrir a carteira torna-se inevitável.

Certamente chegaremos à terra prometida, só precisamos de um pouco de paciência.

Abraços.

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