O respeito voltou? Cigano
2.0 deixa boa impressão

Fernando Cappelli | 11/04/2016 às 20:39

Após turbulências e diversas sobrancelhas levantadas nas atuações recentes, Júnior “Cigano” dos Santos brecou, por ora, as desconfianças e despachou Ben Rothwell por pontos no main event do Fight Night Croácia.

Com atuação coesa e consciente, o atleta catarinense mostrou evolução técnica dentro do próprio estilo e renovou o fôlego para empreitadas mais cascudas que podem vir pela frente em breve.

Coerente

giphyCigano adotou tática longa e escolheu de forma consciência os melhores golpes a serem usados para retardar o oponente durante cinco assaltos.

Ele ainda demonstrou certas ‘panes’ ao ser encurralado contra as grades – a defasagem técnica mais persistente – mas a falta de pujança e controle do adversário em tais situações evitaram maiores problemas nesse sentido.

Maior fisicamente, com handicap na envergadura e com potência de golpes visceral até a tampa, Rothwell tem o cacoete de lutar com os braços esticados praticamente o tempo todo, mantendo-os assim inclusive após os momentos em que golpeia no vazio.

Além da capacidade de criar um ‘medidor de distância’, esse tipo de postura também desenha uma barreira segura para atrapalhar as investidas contrárias, mas ao mesmo tempo cria aberturas perigosas na guarda.

Em momentos mais incisivos, Cigano teve feeling para desenvolver timing específico para lidar com isso.

giphy (1)Ele atacava o adversário de forma leve, esquivava, pendulava ou angulava o mínimo para não ser tocado e disparava algum golpe de carga. Um ‘beabá’ básico de três tempos do boxe usado de forma bem pensada em diversas ocasiões.

Marcas registradas intensas no estilo do brasileiro, os jabs e diretos no plexo tiveram papel fundamental e foram as técnicas mais frequentes do combate.

Desde o primeiro assalto, Cigano usou o recurso de forma metódica para aproveitar as brechas deixadas por Rothwell e criar alternativas ofensivas, com destaque para os overhands ou cruzados de esquerda que finalizavam o combo.

giphySocos retos na boca do estômago são técnicas seminais nas artes marciais em pé. De simples execução e por também serem eficazes para deter investidas, carregam a característica de ataque/defesa implícita.

Além de minar a resistência gradativamente, a natureza de mudança de nível (altura) também abre brechas e cria setups (preparos) que facilitam os ataques seguintes.

Quando usados dessa maneira, os golpes com os punhos ganham em solidez, são potencializados pela força acentuada e ‘seca’ da rotação do quadril proveniente da base ancorada ao solo conforme o lutador se abaixa para executar a manobra.

giphyA contrapartida fica por conta do risco dobrado no momento da execução, em virtude de o atleta ter de encurtar muito a distância e aproximar demais a cabeça, expondo aos contragolpes.

Conforme Rothwell reduziu a marcha ao ser atingido sucessivamente no tronco, Cigano variou mais nos golpes de carga bruta.

E aí os chutes também apareceram, com destaques para frontais e laterais que atingiram pesado o alvo e desnortearam o norte-americano.

Conclusão

Se a luta for de risco, atue com segurança. Parece óbvio, mas este é o senso comum que muitos atletas do UFC têm de adotar em situação de corda no pescoço. É o eterno dilema show x resultado.

Captura de Tela 2016-04-11 às 20.28.06O combate contra o norte-americano esteve longe de ser uma das atuações de gala que marcaram a trajetória de Cigano pela organização em outros tempos. Mas o fator ‘convincente’ deu o ar da graça e o recolocou no páreo para possíveis empreitadas mais cascudas.

Rothwell fez frente nos primeiros minutos, mas logo acionou o modo de sobrevivência e assistiu de (muito) perto o monólogo técnico e tático executado pelo outro lado. Seguro, Cigano colocou em prática um plano de ação condizente com as características do adversário.

Ele lutou menos afoito na ofensiva e mais prudente defensivamente. Era isso, justamente, o que se esperava do catarinense nos desafios importantes em que acabou dominado e severamente derrotado de anos atrás.

Mas como em todo esporte, no MMA o que vale é o momento. E a impressão deixada contra Ben Rothwell foi bastante satisfatória buscar novos – e altos – voos entre os pesados.

  • Lucas Corrêa Braz

    Sempre ótimas análises aqui no SR!
    Cigano nao tem q inventar moda, é jab direto campeão, e sair da grade! Rss

    • Bruno

      E viva a volta do Dórea!

  • Heitor de Assis Ramos

    Muito boa luta do cigano , se fizer mais duas boas lutas pode merecer o TS e espero q ele consiga

  • Tomé

    A categoria de pesos pesados é disparada a mais fraca no quesito técnico. Lutares que estão lá embaixo no ranking de outras categorias têm mais habilidade do que os tops dos pesados. Se o Jon Jones realmente subir, vai dominar a categoria com extrema facilidade. Cigano lutou correto, mas os buracos no seu jogo são impressionantes. É preciso achar novos lutadores para a categoria urgentemente.

    • Rapaz, acho que não. Joan Jones é bom, mas dominar os pesados são outros 500.

      • Isso que eu ia dizer rs. JJ é o melhor da atualidade, mas aguentar as porradas desses brutamontes é completamente diferente.

    • A sua falta de fé nos pesados é espantosa.

      * eu precisei fazer isso, me perdoa.

    • Francisco Júnior

      Cada categoria tem suas peculiaridades e isso é que torna cada uma interessante. Não dá para querer que lutadores com mais de 100 quilos executem os mesmos golpes de lutadores de 60. Força e velocidade são características diretamente ligadas ao peso do lutador.

      • Tomé

        Jon Jones tem quase o mesmo peso fora de luta que os pesados mais leves e possui todas as técnicas de um peso leve. Veja a explosão, variedade e movimentação de lutadores grandes, embora não pesados, como Cormier, Gustafsson e Johnson. Não há comparação com os pesados.

        A categoria de pesados é tão mais fraca tecnicamente que é a que menos se renova. Grande maioria dos destaques são veteranos. O mais técnico deles, Cain Velasquez, já mostrou também que tem um jogo cheio de buracos. É basicamente um wrestler com grande vigor físico e uma trocação nota 6. O Cigano é outra comprovação. Lutador top que, basicamente, tem um boxe ofensivo de bom nível, embora o defensivo deixe a desejar. Sua grande diferença sempre foi a velocidade e parece que a perdeu um pouco. Não chuta bem, não derruba bem, não tem bom jiu-jitsu e é top na categoria. Mark Hunt é top, for Christ´s sake!! E olha que sou fã dele! Certamente não por sua diversidade técnica.

        Não se trata de depreciar gratuitamente ou de analisar objetivamente as diferenças naturais de cada categoria, mas sim de constatar um fato. É uma categoria na qual lutadores unidimensionais ainda podem fazer grande barulho. Isso não quer dizer que as lutas não me agradem.

    • Lucas Corrêa Braz

      Não generalizemos amigo, se ao invés do Belfort fosse Werdum ou Mir no auge, o negão tava sem braço. Mas será bem divertido ver o Jones nos pesados.

      • Tomé

        Perder, qualquer um pode. Surpresas acontecem. Mas falo aqui de uma questão lógica comparando níveis técnicos. Com preparos iguais, a tendência é o lutador mais técnico, com maior arsenal, vencer a luta. Estilos podem dificultar ou facilitar lutadores em determinados casamentos, mas a tendência não muda. E JJ é mais técnico do que qualquer peso-pesado de longe!

        • Lucas Corrêa Braz

          Concordo contigo, JJ sem dúvidas no geral é mais técnico de pelo menos umas 4 categorias juntas. Citei acima que seria divertido velo tentando usar tais técnicas contra sujeitos que matam bois com socos.
          Abs

    • Victor

      Rapaz….se o JJ tomar os “uper” do cigano, como tomou do “DC”… Não sei mal… Mas ele cai

      • Tomé

        Se acertar, provavelmente sim. A questão é conseguir acertar. Contra o Cigano, o JJ simplesmente encurtaria, derrubaria e ia passar a navalha com as cotoveladas. Ele derrubou o DC que é um wrestler nível olímpico. Por que não conseguiria derrubar o Cigano? Ainda mais agora que o Cigano está mais lento do que era 4, 5 anos atrás. Claro que poderia entrar um golpe e acabar a luta, mas a diferença técnica é muito visível.

  • Victor Cutrale

    Bela atuação do Cigano, bela análise!

  • Thorens Acchuphase

    Parabéns pela excelente leitura da luta Capelli, sua visão técnica muitas vezes clareia a visão leiga de torcedores fervorosos que se atentam mais para show das investidas do que a detalhes não tão brilhantes como a abertura da guarda defensiva e outros pequenos detalhes que passam despercebidos. Realmente me surpreendi com a performance do Cigano nessa luta e até apostei no palpite do Tannuri com uma vitória por KO do americano. Depois de ler a sua análise, me pergunto: Como podemos medir as habilidades técnicas de um lutador? As vezes tenho a impressão que o casamento de características dos oponentes muitas vezes conta mais do que a habilidade individual de cada um. Tive a impressão que o estilo do Rothwell favoreceu o desempenho do Cigano e não posso acreditar numa evolução tão rápida a partir da ultima luta dele contra o Overeen. Não sei se estou sendo claro, mas o que tendo dizer é que numa possível revanche do Cigano contra o Overeen, o holandês poderia vence-lo novamente exatamente como foi na ultima luta! Cigano sempre se deu bem contra lutadores de movimentação lenta e pouca habilidade de esquiva, ao contrário de Velasquez, Overeen e Mioc por exemplo…

    • Savio Cardoso

      Concordo, ele lutou ( com a mesma postura ) exatamente como lutou com o Rino, só que não sobreviveu, ainda anda pessimamente para trás e acredito que ainda não ia dar contra um bom westler, como por exemplo, Velásquez.

    • Fernando Cappelli

      Valeu como sempre, Thorens. E muito boa a sua visão do combate também (como sempre). O casamento de estilos realmente acaba favorecendo um lado ou outro, isso vai ser sempre assim. Acho que o Cigano deu um primeiro passo importante pra recuperar o moral, mas gostaria de ter visto um Rothwell fazendo mais frente para testá-lo melhor. Vamos ver como será daqui pra frente.
      abs!

      • Thorens Acchuphase

        Obrigado pelo elogio e pelo retorno Cappelli! Quando vc citou a brecha defensiva quando se aplica socos no corpo, com a projeção e exposição demasiada da cabeça na execução desse golpe, pensei comigo: Durante os cincos rounds, o Cigano abusou desse golpe e em nenhum momento o Rothwell pensou em antecede-lo!? Faltou percepção? Reflexo? Visão dos corners? Acho que foi um conjunto de tudo que concedeu a vitória ao brasileiro, porém, mesmo a dominância do Cigano sobre o Rothwell não é capaz de mudar minha opinião sobre o equilíbrio técnico de mma do brasileiro, que para mim continua tendo suas skills voltadas quase todas para damage, quando a complexidade do mma, similar a um jogo de RPG, onde o equilíbrio em torno de 75% de eficiência (damage, defense, velocity, accuracy e recovery) será sempre favorável a quem pretende enfrentar toda a gama de adversários. Também quero ressaltar que encontrar esse equilíbrio na categoria dos Marauder/barbarian seria querer demais, né?! Por esse motivo, as categorias entre os leves e meio-pesados são sempre as mais dinâmicas e emocionantes! Abraços e sucesso ao 6Round!

  • abner albuquerque

    curto e grosso

  • Diogo Ferreira

    Capelli, você pensa que a falta de combos mais longos se deram pelo fato do adversário ser uma jamanta como o Rothwell, pq vi algumas pessoas falando que faltou sequência mais longas do cigano, de que foram muitos golpes isolados, eu entendo isso pelo adversário que ele enfrentou, ninguém vai querer ficar lancando combos de 4, 5 golpes num cara que tem um queixo de adamantium e que com um golpe te.manda pro cemitério!! E estou certo??

    • Fernando Cappelli

      Isso, Diogo. Acho que ficou claro que a ideia ali era dosar bastante o volume de golpes, justamente pela desvantagem de tamanho e envergadura, além do fato de ser uma luta de recuperação. Não havia muito espaço pra dar mole, não.
      abs

  • Pedro Duarte

    Sempre fera, Cappelli! Essa vitória traz o mais importante ao meu ver: Volta da confiança. Desde a segunda surra aplicada pelo Velasquez que vimos um Cigano perdido na carreira, vivendo uma crise de identidade em relação ao seu estilo. A volta do Dórea é uma clara mensagem de que ele vai voltar a focar no boxe e as demais artes serão somente complementares. Sua declaração no fim da luta mostra quanto ele e o mundo estavam cobrando para que ele evoluísse em outras áreas, e isso acabou mais atrapalhando do que ajudando. Acredito que essa volta às raízes, somada à estrutura de treinos da ATT, pode ser determinante pro Cigano quem sabe voltar a ser campeão.

  • Dênnys Dias

    Soh nao entendo porque ele parou de usar o upper e fica soh no jab,direto e overhand.O upper faz mta falta pra ele

    • Fernando Cappelli

      Ele poderia ter usado alguns uppers como complemento nos momentos em que o Rothwell começou a dobrar com aquelas pedradas na boca do estômago mesmo. Mas faltou feeling. Luta é complicado.
      abs

  • Rodrigo

    talvez o cigano possa voltar a ser o cigano de antes, acho que o que afetou ele foi deixar de lado o boxe e treinar jiu jitsu e wrestling, agora ele viu que o negócio dele é boxe e está voltando a ser o velho cigano

  • Jonas

    Excelente texto pra variar. Fica imaginando se o Cigano conseguiria lidar com os top 3

  • Ícaro Nogueira

    Muito bom o footwork do Cigano. Posso estar falando bobagem, mas contra grapplers e de mão pesada, o Cigano, pode beber um pouco, se já não bebeu, da fonte do estilo Lyoto Machida; movimentação intensa e uniforme, o que o ajuda muito para evitar quedas, e também investidas.

  • Bruno

    O Rothwell é assustador! Ele parecia um Frankenstein indo para cima do Cigano, passos lentos braços estendidos para cima. E ainda entrou com musica de filme de terror!

  • Fernando Chaves

    Como esse mundo véi dá voltas……..

  • Danyel P Lorenzo

    Cigano no melhor estilo. THIS IS SPARTAAAA. Apesar do Mi mi mi após o fim da luta, vou com o Cigano, fez o q precisava p vencer sem sustos. Não podia perder e não se arriscou. Mas eu ainda acho q ele precisa evoluir mais como lutador, melhorar o jogo de grade, arrumar alternativas para quedas, conseguir pontuar com maior facilidade, nunca vi um treino de completo do Cigano, mas dizem que seu Jiu Jitsu é bem Old School, bruto e eficaz. Excelente analise.

  • leo nunes

    impressionante o preparo físico do cigano!!!!!!!manteve a movimentação até o final!!!!!!!!deu pra ter uma noção do esforço quando tentou subir a grade para comemorar e quase “deu ruim”!!!!!!!!lutou com disciplina, cautela e eficiência!!!!!!!merecia um nocaute, mas a parada era dura!!!!!!!!!!

    • Sam

      Acho que foi o que mais impressionou foi esse gas pra um pesado,nem tanto a vitoria ou a nova postura, que achei cheia de buracos

  • Sam

    E o melhor,a mãe o reconheceu quando voltou do trabalho

  • Willian Matos

    Eu gostaria de ver o Cigano usando mais o clinch e cansando o adversário na grade, como o Velásquez faz. Aprender coisas novas é fundamental nesses esporte. Uma pena ele ser teimoso.

    • Lero

      Isso seria mudar completamente o estilo dele. Ele poderia melhorar no clinch sim, mas o carro chefe tem que ser o boxe mesmo. Só o Velásquez para fazer o Velásquez faz. Convenhamos o Cain não é um humano comum, Ou não era na época pre-Usada.
      Cigano poderia aprender de strikers tipo o Barbosa e o Pettis como lutar contra wrestlers. Tá, Barbosa e Pettis não são craques anti wrestlers, mas muitas vezes tem o mesmo problema do Cigano quando enfrentam pessoas que mudam muito bem de base.

  • douglas karpinski

    Parabens!!! a Luta foi regrada as regras do Cigano, sua condição fisica esta igualada a de outros tempos mais gloriosos, lembrando que Big Ben é um lutador perigoso com maior envergadura e com um poder de absorção enorme de golpes, Luta muito importante para Cigano, para recobrar seu potencial, agora é esperarmos mais evolução desse lutador que alem de jovem é muito talentoso….

  • Ivan Dias Marques

    Achei a luta bem segura, a não ser no quinto round, quando ele expôs um pouco a guarda naquele ritmo de “comemoração”. Percebi que faltou, além do upper citado por um usuário, Cigano aproveitar um cacoete de Rothwell que é dar cruzado abaixando a cabeça. Tenho impressão que Dórea chegou a gritar para ele cruzar por cima do braço do americano, mas Cigano não pegou esse “tempo”. Talvez tenha faltado um pouco mais de estudo do rival, mas nada que tire a ótima impressão da luta. Aliás, vale ressaltar que Dórea melhorou como HC tb. Estava fazendo uma leitura boa da luta. Nada de ficar dizendo “você é o campeão, lute com o coração!”.

    Infelizmente, tenho o mesmo receio de alguns sobre ele enfrentando um cara de maior movimentação e com o jogo que “não case” com o dele.

    Outra observação interessante é que o córner de Rothwell pediu para ele jogar Cigano pro chão desde o 3º round, mas o americano não conseguiu nem se aproximar para isso.

  • Marcos Andre Marujo de Andrade

    atuação convincente? pra muitos venceu é ótimo, perdeu está acabado! não mostrou nada de novo alem de pouquíssimos chutes que adversário estava pedindo para levar pois caminhava? ou melhor se arrastava para cima do cigano , cigano continua como antes 100% unidimensional, só tem boxe mesmo e uma guarda ridícula, no umbigo se pegar alguém mais em forma disposto a lutar mesmo levar pro chão usar westling mesmo, toma outro arraso . lutador mediano para baixo

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