Flashback: Quando Nate era
apenas o irmão mais novo de Nick

Fernando Henriques | 24/03/2016 às 16:29

Depois de podar o hype de Conor McGregor pela raiz, Nate Diaz alcançou status de estrela do esporte nos EUA.

Caras fechadas desde sempre

Caras fechadas desde sempre

Ele já era um lutador relevante e conhecido, assim como seu irmão Nick Diaz, que sedimentou o caminho para a Família Diaz no mundo das lutas – quando Nate estreou no MMA profissional, em 2004, Nick já estava no UFC e já havia imposto o único nocaute da carreira de Robbie Lawler.

O estilo badass de ambos sempre chamou atenção e criou interesse por suas lutas. Mas nada que se compare ao status de “algoz de Conor McGregor” – o atleta mais rentável do MMA.

Nate pode até ter ultrapassado o irmão em popularidade após sua última vitória, mas não perdeu o respeito por quem começou a escrever o nome da família na história do esporte.

Em declaração recente, ele se mostrou desinteressado em buscar grandes lutas no meio-médio justamente por esse ser o peso do irmão, que voltará a lutar em agosto.

Belo e moral, diria. Até por que, mesmo antes de chamar atenção de Justin Bieber por abater seu ídolo no octógono, Nate Diaz já não era mais apenas o irmão mais novo de Nick.

Vale-tudo a portas fechadas

Fora a pancadaria que certamente rolava em casa com seu irmão (quem nunca?) e possíveis brigas de rua (rapaz de pavio curto, residindo em área não muito pacífica), Nate começou a lutar bem cedo.

Há registro de lutas que fez a portas fechadas (dentro da academia) quando ainda tinha 15/16 anos. Aluno de jiu-jitsu de Cesar Gracie, não espanta que tenha aderido a certa altura ao antigo modelo de vale-tudo da família: sem luva, sem tempo e quase sem regras limítrofes.

No Youtube encontramos facilmente uma luta sua nestes moldes, realizada em 2002, contra o desconhecido Robert Limon. Nate – ainda Nathan – venceu facilmente, com um armlock.

Nick também protagonizou combates do gênero, o que nos ajuda a entender porque os irmãos são tão duros. Apesar de jovens, foram forjados marcialmente com a cultura da geração que inventou o esporte e o praticou quando ainda era assunto para poucos corajosos.

WEC, Strikeforce e Japão

Em 2004 Nate começou sua trajetória profissional no MMA. Para quem trocava soco de mão limpa, não deve ter sido um susto assim tão grande.

Diaz sendo finalizado

Diaz sendo finalizado

Ele tinha 19 anos quando lutou contra Alejandro Garcia no WEC 12 e conquistou sua primeira vitória oficial. Em sua segunda luta, porém, deu um passo largo demais e conheceu a derrota.

Apenas em sua segunda experiência no MMA profissional, ele viajou ao Japão para enfrentar o local Koiji Oishi no Pancrase. O japonês, que havia sido nocauteado por seu irmão dois meses antes no UFC, era mais experiente e levou a luta na decisão.

Na sequência, Nate se recuperou e obteve quatro vitórias seguidas (duas no WEC, uma no Strikeforce e outra por um evento menor), credenciando-se a disputar o cinturão peso-leve do WEC, que à época pertencia ao brasileiro Hermes França.

Era novamente um combate em que a experiência favorecia o adversário. Além disso, Hermes era versado na mesma arte que Nate, o jiu-jitsu, e o suplantou neste jogo, obtendo a vitória através de um armlock no segundo round.

Campeão do TUF

Depois de um início promissor no circuito americano e uma passagem pelo Japão, Nate conseguiu uma vaga no TUF 5, fato que marcaria uma guinada definitiva em sua carreira.

Os capitães desta edição eram os antigos rivais BJ Penn e Jens Pulver, que se enfrentariam novamente após o programa. E Nate botou ainda mais lenha nessa rivalidade ao expor publicamente que gostaria de estar em equipe oposta a que lhe escolheu.

Escolhido por Pulver (primeiro campeão peso-leve do UFC), ele dizia sem nenhum pudor que gostaria de ter ido para o time de BJ Penn – talvez pela afinidade de serem ambos oriundos do jiu-jitsu Gracie (BJ foi aluno de Ralph Gracie por muitos anos).

No TUF conhecemos a personalidade aparentemente explosiva, porém deveras sincera, do mais novo irmão Diaz. E tecnicamente esta foi uma das edições mais estreladas do reality show, lotada de bons grapplers.

104nw9zAlém de Nate, participaram do show Joe Lauzon, Cole Miller, Matt Wiman, Manny Gamburyan, Gray Maynard… Todos grapplers de bom nível, além de outro irmão mais novo, Brandon Melendez.

Para se sagrar campeão Nate precisou despachar três duros oponentes dentro da casa: Rob Emerson, Corey Hill (nem tão duro) e Maynard.

Na final, contou também com a sorte, pois Gamburyan, que estava em ótima fase, se contundiu durante a peleja e facilitou o título para o garoto de Stockton.

Sina contra wrestlers

Y5lRHnDSe dentro do TUF Nate pareceu lidar muito bem com um bom wrestler como Gray Maynard, finalizando-o, em sua sequência no UFC este perfil de lutador lhe deu um pouco mais de trabalho.

Depois do TUF, Nate vinha muito bem e havia conquistado quatro boas vitórias, sendo três por finalização (uma delas o histórico triângulo comemorado antes da hora em Kurt Pellegrino) e uma decisão dividida contra Josh Neer.

Foi então que ele esbarrou num wrestler mais forte, que entrou na luta para amarrá-lo e não para fazer o combate franco que estava acostumado desde os tempos de vale-tudo dentro da academia.

Guida frustrando Nate

Guida frustrando Nate

Clay Guida foi para a luta para evitar que Diaz lutasse. E conseguiu. Porém a decisão dividida anunciada ao fim do combate sinaliza que não foi tão fácil assim amarrar o irmão mais novo de Nick Diaz – que no UFC sofreu contra o mesmo perfil de lutador anos antes.

Em seguida, Nate teve problemas similares com Joe Stevenson, que estava em seu auge (acabara de disputar o cinturão). Nova derrota.

Deram-no então o displicente Melvin Guilhard, que à época era 200 vezes mais perigoso que é hoje.

Boa vitória por finalização do aluno de Cesar Gracie, que não conseguiu engatar nova sequência de vitórias diante de uma antiga vítima.

Gray Maynard carimbou a má fase de Nate Diaz ao vencê-lo na revanche que fizeram, em 2010, dessa vez valendo para o Sherdog (foram três rounds, não dois como no reality show).

Foram três derrotas diante de quatro wrestlers em sequência. O mau retrospecto fez o californiano tentar a sorte na categoria de cima.

Experiência no meio-médio

Diaz x Mkham

Diaz x Markham

Com Nick Diaz longe do UFC, a experiência entre os meio-médios era válida para Nate. E tudo começou muito bem.

Diante do carateca Rory Markham e do boxer Marcus Davis, duas belas vitórias. A primeira por TKO e a segunda com um estrangulamento poderoso que apagou Davis e confirmou para ambos o bônus de “Luta da Noite”.

Mas… Ele não poderia chocar-se com o miolo da categoria o tempo todo. Era preciso pegar algum lutador mais próximo do topo e com vontade de trocar força isométrica com ele, para sabermos suas reais condições na categoria.

E isto aconteceu logo na sequência, contra Dong Hyun Kim. O resultado foi uma previsível decisão em favor do coreano, apesar de Diaz mais uma vez ter lutado bem mesmo por baixo, fazendo guarda.

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Rory arremessando Diaz

Lembro que à época fiquei um pouco irritado por constatar pela enésima vez o pouco valor dado a uma guarda ativa e perigosa.

E como se quisessem mandá-lo de volta ao seu peso, deram-no desafio ainda maior depois da primeira derrota no novo peso: Rory MacDonald.

O canadense é um dos maiores do peso, corpulento, e com ótimo nível em todas as áreas.

Foi uma péssima luta para o guerreiro Diaz, que foi arremessado de um lado para o outro, em certo momento, como se fosse um boneco. Decisão unânime para MacDonald e Diaz de volta ao peso-leve, para o bem dos fãs.

Vitória sobre Takanori Gomi

Nick recebendo knockdown de Gomi

Nick recebendo knockdown de Gomi…

O adversário escolhido para o retorno ao peso leve não era também nenhuma baba. Takanori Gomi era um antigo rei do peso, que migrara para o UFC após o fim do Pride e tentava se firmar.

Quatro anos antes, seu irmão havia descido de peso para enfrentar Gomi na segunda incursão do Pride nos EUA. A luta valeu pelo peso leve do Pride, até 73kg, e entrou para a história como um memorável combate.

Nick saiu vencedor, mas sofreu um tanto em pé, até encontrar uma gogoplata (!) salvador no segundo round – posteriormente o resultado da luta foi revertido para no contest por Nick ter sido flagrado por de maconha.

Contra Nate, em 2011, o contexto foi outro. Gomi não viu a cor da bola e praticamente não acertou nenhum soco no Diaz mais novo.

Nate aplicando knockdown em Gomi

…Nate aplicando

Depois de tomar dois knockdowns, foi finalizado por um belo armlock.

Foi uma vitória simbólica para Diaz, que saiu de vez da sombra do irmão (se é que um dia realmente esteve).

Mesmo que o Gomi que ele enfrentou não fosse mais o Gomi do Pride (em 2007, no Pride USA, também já não era), o peso da vitória se dá pela forma dominante com que ela veio. Foi um baile.

Daí ele caminhou para o topo, onde surrou Cerrone mental e tecnicamente e quase foi campeão.

  • Romulo Aleixo Faria

    Mais um texto excelente e detalhista pra conta do Sexto Round. Parabéns Fernando Henriques!
    Sempre gostei muito das lutas dos irmãos Diaz, principalmente do Nick, mas foi após a vitória do Nate sobre o Cerrone que virei fã. Por mais lutadores assim no UFC e no MMA em geral. Sem pragmatismo, provocadores, e mesmo ganhando ou perdendo fazem a luta ser emocionante. Stockton está bem representada no esporte.

  • KRS Porlaneff

    Até eu, que não sou fã dos irmãos Diaz, sou obrigado a dizer que o texto está excelente.

    Mas um flashback de Nate Diaz que parou em Donald Cerrone numa luta de 4 anos atrás? Alguns dos pontos mais altos da carreira de Nate foram justamente nesses 4 últimos anos: ser o primeiro lutador a finalizar o até então ultra-temido Jim Miller, disputar o cinturão LW do UFC (mesmo tomando o maior pau), o fim de uma trilogia contra Gray Maynard, a grande volta por cima contra o totalmente favorito à época Michael Johnson e a redenção vencendo o novo queridinho do UFC Conor McGregor.

    Repito: o texto está excelente. Mas ficou aquele ar de “parou na metade”, Fernando Henriques.

    • Renato Rebelo

      Mas intenção era essa msm, amigo KRS. A partir da surra no Cerrone, ele saiu debaixo do guarda-chuva do irmão e assumiu identidade própria perante o grande público. Dps, é a história que o pessoal que chegou a menos tempo conhece = )

    • Como Renato já explicou o “parou na metade, me limito a agradecer o elogio ao texto. 🙂

  • Thiago_NCO

    “Aluno de jiu-jitsu de Cesar Gracie, não espanta que
    tenha aderido a certa altura ao antigo modelo de vale-tudo da família:
    sem luva, sem tempo e quase sem regras limítrofes.”

    Respeito eterno aos irmãos Diaz. Figuras em extinção no MMA atual.

    • Não sei se todo lutador de MMA atual aguentaria uma luta de 5 ou 10 minutos ao estilo “Rio Heroes”. Estas regras mais “selvagens” forjam lutadores totalmente diferentes.

  • Jonas

    Excelente texto! Sempre curti os irmãos Maconha e ja acho a um tempo o Nate mais lutador que o Nick

  • Thiago de Carvalho

    Muito bom o texto.

  • Sam

    Esse Japa era um lutador que so dava show

  • Luiz Henrique

    Ótimo texto! Melhor dupla de irmãos no MMA. Quem pode me citar outras boas assim?

    • Minotauro e Minotouro? Gilbert e Brandon Melendez? Anthony e Sergio Pettis?

      • Thiago Pikisius

        Anderson Silva e Kid Bengala…Tirando que AS sempre puxa pra guarda, enquanto KID “trabalha” dentro da guarda… Não, pera! kkkkkkkkkkkkkkkkk

      • Luiz Henrique

        Nem Big e LittleNog se comparam a Diaz Brothers, hahaha

  • Thiago Pikisius

    Será que teremos a revanche de Conor “El Chapo” McGregor e Nate “El Chapado” Diaz? Não gostaria de ver essa revanche, penso que McGregor no UFC 200 e Nate (que agora tem tudo pra vender bem), poderia estar no UFC 199 ou 201, que são eventos que podem passar em branco perto do evento numerado 200.

    • Se rolar, será a revanche mais desnecessária do esporte, e olha que não faltam revanches assim.

      • Thiago Pikisius

        Lendo novamente meu comentário, percebi que ele ficou sem concordância alguma kkk. Mas, reforçando o que quis dizer (sem dizer), é melhor colocá-los em eventos separados, Nate nos eventos 199 ou 201 pra alavancar as vendas desses, se Nate vencer, colocá-lo na disputa de cinturão depois, valorizaria o combate ($), e valorizaria ele, ou quem for o campeão. McGregor pode lutar com qualquer um no UFC 200 que vai ter muita Venda de PPV. Acho dificil que ele volte aos 66kg. Se voltar, pra fazer mais um ou duas lutas. O UFC não pode ser tão bobo a ponto de queimar um dos dois, ao invés de aproveitar e fazer mais dinheiro…

  • Heitor de Assis Ramos

    puta texto o/

  • Tiago Nicolau de Melo

    Tenho visto o Nate mais falante e participando de programas… essa vitória sobre o Conor fez um bem danado! Espero que ele continue nessa crescente e volte a incomodar com os Tapas.
    Favoritaço contra o Irish, caso role esse embate sem pé nem cabeça.

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