Flashback: Quando Lombard
era "o cara" a bater o Spider

Fernando Henriques | 17/03/2016 às 18:51

O reinado de Anderson Silva no peso médio durou tanto que ao longo dos anos diversos nomes foram apontados, mesmo fora do UFC, como capazes de batê-lo.

Alguns, que à época faziam todo sentido, como Paulão Filho, podem despertar nos fãs atuais certa incompreensão.

“Como que o Paulão Filho, que sofreu contra Ronny Markes no Brasil, Norman Paraisy, entre outros, já foi apontado como possível carrasco de Anderson Silva?”.

Paulão: soberano no WEC

Paulão: soberano no WEC

Pois é. A vida dá voltas. Em 2007 Paulão era o campeão peso médio do WEC, evento que se destacava como o segundo em importância internacional, após o fim do Pride. Além disso, estava invicto após 16 lutas de MMA e tinha o perfil que se acreditava ideal para derrotar o Spider – bom de quedas e ótimo no chão.

Bastou um wrestler superior (Chael Sonnen) e (muito infelizmente) alguns remédios viciantes entrarem em cena para o hype de Paulão ir por água abaixo.

Alguns anos mais tarde, status similar foi criado em cima de outro lutador do peso médio, baixinho e troncudo, canhoto, com ótimo jogo de quedas e pressão.

Paulão, que hoje já está aposentado (mesmo que ainda lute), passou o bastão de “ameaça a Anderson Silva fora do UFC” para o cubano Hector Lombard, que em 2010 era campeão inconteste do Bellator.

Lombard iniciou sua carreira no MMA de forma discreta. Judoca, disputou as Olimpíadas de 2000, em Sidney, Austrália, representando as cores de Cuba.

Ao fim dos jogos, seguiu o exemplo de outros atletas cubanos de ponta e desertou, não retornando ao seu país natal, que possui rígidas regras quanto à emigração.

Ele se naturalizou australiano e se estabeleceu no país, passando a treinar jiu-jitsu. Quatro anos mais tarde estrearia no MMA com vitória pelo tímido Spartan Reality Fight.

Lombard: 8-0 no Bellator

Lombard: 8-0 no Bellator

Dali em diante ele massacrou alguns desconhecidos (com exceção de Daiju Takase e James Te Huna), já apresentando seu estilo pujante, em pé ou no solo.

Lutando basicamente eventos na Ásia e na Oceania (só veio a lutar no ocidente em 2009, quando estreou pelo Bellator), Lombard fez seu nome na região, conquistando 18 boas vitórias e o título peso médio do Cage Fighting Champioship – defendido por sete vezes, a última contra Joe Doekersen quando já estava no Bellator.

O sucesso nas longínquas terras foi intercalado por uma passagem decepcionante pelo Pride. Em 2006 o cubano tentou a sorte no então maior evento do mundo, mas foi parado por Gegard Mousasi e Akihiro Gono. Saiu do Pride com 0-2 de score.

Talvez tenha se precipitado em lutar num grande evento apenas dois anos depois de estrear no MMA. Teoria que se confirma quando nos lembramos que ele só veio a perder novamente no UFC.

No Belllator, sua ascensão continuou e seu nome passou a ser considerado também no ocidente. Lombard foi o primeiro campeão do peso médio da organização, depois de vencer um torneio com três lutas – em dias diferentes-, superando na final que valeu o título o americano Jared Hess.

Chegada ao UFC com status de estrela

Chegada ao UFC com status de estrela

Entre 2009 e 2011, foram quatro defesas de título no Bellator, o recorde de nocaute mais rápido da organização (seis segundos, contra Jay Silva na primeira defesa) e a conquista de novo cinturão, também do peso médio, do Australian Fighting Championship.

Durante estes três anos vitoriosos, onde se destacou pelo jogo de potência em pé, fazendo até seu grappling de selo olímpico ficar sem segundo plano, Anderson Silva seguiu sobrando no UFC.

A associação entre os dois era inevitável, visto serem os campeões dos eventos mais relevantes. A falta de adversários a altura do brasileiro, inclusive, fez Dana White mover mundos e fundos para trazer Lombard para o UFC, fato confirmado em 2012.

Foi um golpe e tanto no Bellator, que viu seu maior campeão e garoto propaganda, construído dentro da organização, ir embora.

Ninguém poderia imaginar, porém, que mais um combate ideal envolvendo Anderson Silva que não se realizaria. Bastou uma luta no UFC para todos os planos serem revistos.

Logo na estreia, Lombard se viu diante de um adversário mediano (Tim Boetsch), sem muita expressão no peso dentro do UFC, porém maior e mais forte, que fez um jogo de manutenção de distância e cozimento do cubano suficiente para a vitória – contestável sim, mas uma vitória.

Vitória de Okami: balde de água fria

Vitória de Okami: balde de água fria

Foi um baita banho de água frio no obstinado australiano (se desertou, é melhor que o referenciemos pela bandeira nova), que não desistiu de buscar mais um cinturão no peso médio.

Lutando em casa (na Austrália, claro), ele passou por cima de Rousimar Toquinho com uma facilidade que espantou – mais por demérito do brasileiro que por mérito seu – e rumou para um combate com toda pinta de title eliminator contra o ex-desafiante Yushin Okami.

Assim como Boetsch, Okami era um adversário maior e mais forte, que obteve também uma vitória por decisão dividida.

O novo revés foi suficiente para empurrar o cubano para a categoria de baixo e gerar, talvez, um dos maiores choques de realidade que já vimos no esporte.

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O respeito volta contra o Magnyfico?

De lá (2013) para cá o vimos vencer dois bons adversário no novo peso, Nate Marquadt e Jake Shields, lutando bem.

Mas o doping constatado após a luta contra Josh Burkman foi outro balde de água fria nas pretensões do cubano, que se vê cada vez mais distante de uma disputa de cinturão numa categoria abaixo daquela em que se destacou internacionalmente.

No próximo final de semana Lombard retorna, depois de um ano, para enfrentar o encardido Neil Magny no UFC Fight Night 85 deste sábado (advinha aonde?).

Para quem há três anos estava em vias de pegar Anderson Silva, deve ser duro encarar alguém recém-dominado por Demian Maia.

  • Bruno carrer

    Eu lembro das noticias da epoca, era igual rounda vs cyborg kkkkkk doce ilusão passando mal pro okami

    • Xand

      agora decisão dividida é passar mal?

      • Foi uma luta dura, mas para quem tinha o hype que ele tinha, perder pro Okami, seja como for, acaba virando um “passar mal”. Rs.

  • Gabriel Carvalho II

    Lembro que o Boetsch ia disputar um title-eliminator contra o Chris Weidman no UFC 155 no final de 2012. É nessas horas que você vê que a aquisição do Strikeforce foi uma das melhores coisas que aconteceu no UFC.

    • Jacaré, Rockhold, Romero… E quando estavam no Strikeforce não os víamos (pelo menos eu não) tão bem quanto vieram a ficar no UFC.

  • Luis Coppola

    Lombard só foi tão cobiçado á época pq a categoria peso médio do UFC era bem fraca, com Anderson enfrentado alguns adversários do meio-médio atual, outros caras unidimensionais e que não lhe trariam perigos, exceto pelo Franklin (bom lutador, mas não casa com o jogo do spider), Henderson (na época novo e vindo campeão do pride) e Belfort.
    -Travis Lutter (que não bateu o peso na época e só disputou o cinturão pq venceu o tuf)
    – Marquardt (desceu pro meio médio, foi campeão do Strikeforce, voltou pro médio mas nem perto do ranking)
    – Coté (meio-médio nem rankeado)
    – Thales (não era do nível atual)
    – Demian (meio-médio, excelente lutador de 77, mas na época não tinha o nível atual de aproximação e queda)
    – Chael (excelente wrestler, com jogo fraco de sub e sem punch mesmo lutando aditivado)
    – Okami (meio-médio, lutador fraco)

    E ainda dizem que esse cara é o maior de todos os tempos..

    • Não exagera. Todos estes são bons lutadores, que no contexto da época faziam jus a uma disputa de cinturão.

      • Luis Coppola

        ok, respeito à sua opinião, poderiam fazer jus à época (que nem se compara com a atual) mas bons lutadores nem todos: Demian (no peso dele), Hendo (quando tinha idade de competição), Thales, Franklin e Belfort realmente ótimos lutadores.
        Só acho que endeusaram demais a carreira desse cara!

        • No caso, os mais fracos são Lutter e Coté. Realmente, indignos de disputar cinturão e vencíveis para a grande maioria do peso (Lutter nem tanto) à época. Os demais, talvez fossem adversários mais duros se não tivessem encarado um Anderson Silva inspirado e abusado.

          Sobre o Demian, mesmo no peso médio, não era de se jogar fora. Não ia ser campeão nunca, era nitidamente menor que os caras (não é o maior nem no meio-médio), mas tem bom retrospecto e só perder para tops.

          Hendo em 2008 ainda dava um caldo e não achou nada. Franklin teria sido campeão mais tempo não fosse o Anderson… Enfim, é um bom cartel o do brasileiro.

      • Matheus V.

        Na minha opinião, ‘Ace’ é TOP 10 melhores médios do MMA fácil, fácil.

    • Lincoln Souza Venuto

      Marquardt era foda nessa época cara.

    • Silas Rodrigues

      Na boa, quem vc queria que o Anderson enfrentasse nesse período ?

      • Quem tinha ele enfrentou, no entanto que trouxeram o Lombard de outro evento, só que ele perdeu, e quem o venceu (Okami) pegou o Anderson e deu no que deu.
        Eu acredito que o Anderson de 2006/2007 bateria tanto Weidman quanto Rockhold. Mas estamos em outros tempos, o esporte evoluiu e ele envelheceu. ¯_(ツ)_/¯

        • Davidzão, o Okami já tinha pego o AS quando lutou com o Lombard. No texto, digo que tinha pinta de title eliminator sim, mas só para o Lombard.

        • Seu Pupunha

          Concordo contigo, é que tem uma galera que viaja, não vê que esses lutadores era oque tinha na época, pra ser hater do Anderson vale tudo, até usar esses argumentos sem sentido.

  • Leonardo Neves

    Na minha opinião a melhor coluna do site. Deve dá trabalho…
    Parabéns, FHC!

    • Também adoro.
      A bagagem do FH’s faz toda a diferença para montar todo esse material e nos entregar desta forma tão prazerosa de apreciar. 🙂

      • Grande David, seu elogio vale muito. Valeu mesmo. Para alguma tem que servir este meu pioneirismo em acompanhar o esporte, desde o ginásio.

    • Rapaz, dá um trabalho danado mesmo. Acho que é uma das maiores colunas por aqui, mas o retorno da galera compensa todo o suor derramado.

    • Coelho Bruno

      Rapaz, li FHC, automaticamente pensei em política e cheguei a escrever um parágrafo contra a bandalheira petralha, mas aí me dei conta da minha loucura e já me acalmei. Juro! Kkkkkk

      • Gostei do “bandalheira petralha”. E realmente, o espaço aqui não é para isso. Do contrário, eu até reclamaria de ser chamado de FHC (ele é de esquerda e eu não).

  • Vinicius Maia

    Rapaz, eu sempre achei o Lombard baixinho pros médios da época, agora então com esse monte de brutamontes na categorias ele tem que ficar nos meio médios mesmo.
    Eu não acompanhei a carreira do Hector no Bellator e fiquei ate espantado quando vi no texto que ele já tinha lutado com o Mousasi pelo pride.
    Excelente texto FH. Sempre aprendendo coisas novas com sua coluna.
    Com relação a luta de sábado, quem você acha que leva? (adiantando o palpite kkk).
    Eu acho que o Magny leva, pois o cubano, ops australiano, já não é nenhum garotão e sem o aditivo não creio que vai conseguir vencer a gigante envergadura do Magny.
    Abraços.

    • Minha torcida é para o Magny e estou confiante, mas acho que vou fazer o palpite seguro no Lombard, que no papel tem mais ferramentas.

  • Ramon Borges Figueira

    Isso sim é um flashback,. Parabéns Fernando!.
    Eu lembro muito bem do Hector, na época do bellator uma foto emblemática dele era com uma mão encima da testa tipo procurando alguém que poderia batelo. Ele realmente chegou com um hype gigantesco na época, as lutas dele no bellator era porrada e sangue pra tudo quanto é lado.
    O cara era muito bom.!
    Algo que eu me pergunto até hoje, é por que ele caiu muuuito de ritmo!?
    Não consigo ter ou pensar um real motivo para tal. Já pensei no nível dos lutadores, pressão por estar no UFC e etc.. Não tenho respostas. Más, a que eu mais acredito é o uso de substâncias indevidas, más sei lá…

    • A meu ver, o fator principal foi realmente o nível dos lutadores do peso médio ser mais alto do que ele estava acostumado — ainda que Okami e Boetsch não sejam nada demais –, o que faz pesar diferenças de envergadura e força.

      • Ramon Borges Figueira

        envergadura pode ser uma boa!.,
        Más que o cara decaiu muito isso é fato. O teu texto reflete muito isso.
        Obs.: Vamos esperar a luta com o magnífico e ver as entre linhas.

  • Lincoln Souza Venuto

    Desde quando ser alguém alguém recém-dominado por Demian Maia é demérito? HAhaha
    Me lembro bem de quando Lombard perdeu para o Tim Boetsch, depois veio cheio de mimminy falando que estava com costela trincada, quero ver como será seu desempenho agora vindo de tanto tempo parado, com essa idade e sem o suquinho rs.

    • Então, não é demérito nenhum ser dominado pelo Demian na 77kg. Na verdade, é quase um padrão, seja qual o adversário, levar passeio pelo menos em um round. A questão aqui é que, para que já foi cotado para parar Anderson Silva no auge, Magny é pouco.

  • guilherme champz

    Enquanto o cara está afastado, como o Lobard estava, eles não deixam de testa-lo né?

  • Coelho Bruno

    A diferença entre os shapes “Lombardi 8-0” e “Lombardi UFC” é impressionante! Mas o que mais me impressiona na trajetória do cubano é o fato de ninguém ter dito que ele seria o melhor da história. Ainda. É um dos poucos que escapou da hábito tão desagradável da leva de comadr… de fãs que toda semana teimam em tentar eleger um novo deus do esporte. 😉

  • Lucidio Gomes

    Nada como um dia apos o outro, pois o mundo não para de rodar! Eu me lembro dessa luta contra o Gono, o Lombard explodiu para cima do japonês, mas cansou e perdeu no final

  • Thorens Acchuphase

    Parabéns pelo excelente texto! A trajetória toda do Lombard contada de forma resumida e ao mesmo tempo enriquecida com pequenos e precisos comentários!

  • KRS Porlaneff

    Derrotas no PRIDE são coisas que não podem e nem devem abalar um atleta, afinal de tantos nomes que já passaram pelo lendário evento, tivemos somente quatro que lutaram lá por um tempo considerável e nunca perderam: Fedor, Aoki, Paulão e Shogun (que não considero tão derrota assim a luta contra o Coleman).

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