Rampage e a dura missão de encarar a realidade

Renato Rebelo | 25/01/2013 às 15:08

Apagando Ricardo Arona no Pride (foto: Susumo Nagao)

Quinton Jackson sempre foi um dos meus lutadores favoritos.

Das incontáveis e empolgantes batalhas no Japão até o carisma propagado nos Estados Unidos por duas das mais divertidas temporadas do TUF já gravadas, “Rampage” é mestre em unir poder de nocaute com diversão extra-octógono.

Entre suas façanhas, podemos destacar, na parte técnica, a conquista do cinturão dos meio-pesados do UFC.

No setor comercial, vale lembrar do lendário papel de B.A Baracus no “blockbuster” “The A Team”.

Conta-se nos dedos de uma mão os atletas de MMA com currículo mais extenso e expressivo do que o do americano nascido no estado do Tennessee.

Wallpaper promocional do filme “The A-Team”

Hoje, milionário e pai de quatro filhos, o negão de 34 anos começa a apresentaras chagas de 42 lutas profissionais.

E a realidade é dura: ele não quer mais.

Em 2009, Rampage já tinha ensaiado uma saída à francesa – deixando Dana White de calças curtas ao anunciar que se afastaria para gravar a produção hollywoodiana.

Posteriormente, veio à público dizer que retornaria apenas para acertar contas com Rashad Evans e, em seguida, penduraria as luvinhas.

Hábil, o carequinha convenceu um de seus maiores vendedores de pay-per-view a continuar na labuta e firmou um lucrativo contrato de mais seis apresentações.

De lá pra cá, três derrotas e duas vitórias (uma contestadíssima contra Lyoto Machida) em performances que nem de longe lembraram aquele maníaco dos “slams” de outrora.

Essa semana, escutei uma frase muito interessante de um wrestler que apresentarei a vocês na próxima segunda-feira:

Acho que a grande motivação de um lutador é encher a geladeira. Quando a geladeira está cheia, é mais difícil levar esse tipo de vida.

Seria uma grande vergonha para um “macho alpha” abrir seu coração e revelar que não gosta mais do que faz?

Neste caso, parece que sim.

Extremamente sentimental, ao invés de lançar a real, Rampage adota uma postura que, às vezes, beira a infantilidade.

De vídeos de péssimo gosto sobre estupro até uma série de desculpas sem sustentação alguma, culpar terceiros pelo apagar de sua chama parece ser mais conveniente.

Abaixo, cinco reclamações recorrentes:

1. UFC não trata bem seus lutadores
2. Não quero lutar contra wrestlers chatos
3. Eles não me deixam usar Reebok (marca que o patrocina)
4. Não sou pago o suficiente (skatistas ganham mais que eu)
5. Não quero fama. Quero dinheiro, mas com privacidade

Vamos analisa-las.

Como toda empresa privada, o UFC depende de lucro para sobreviver.

Através dessa motivação legítima, milhares de empregos são gerados mundo afora e o esporte que tanto amamos tornou-se um colosso.

Ele também nunca escondeu a predileção pela vida noturna

Acreditem, os Fertitta e Dana White não trabalhariam dia e noite se não houvesse recompensa.

Em um simples “trade off”, eles pagam e seus empregados lutam.

A cláusula “carinho” não existem faz parte do pacto comercial.

Esse caso me remete ao de Adriano em seu retorno ao Flamengo.

Com um salário na casa de 500 mil reais, o “Imperador” faltava aos treinos e se apresentava lento e acima do peso.

Questionado, o atacante reclamava de perseguição da imprensa e pedia abrigo ao clube – que encobria seus excessos.

É óbvio que o caso não terminou bem e o retorno que o Rubro-Negro teve com tamanho investimento foi patético.

Se o UFC realmente tratasse tão mal seus empregados, seria essa a melhor empresa do ramo para se trabalhar?

Por que é o sonho de 12 entre 10 lutadores assinar contrato com os caras?

Em entrevista ao repórter Ariel Helwani no metrô de Nova Iorque, ele disse que considera ter seu próprio evento:

Eu trataria bem os lutadores. Daria para eles todo o dinheiro que ganhasse – disse.

Obviamente, Rampage ignora o enorme custo de produção de um show deste porte.

Staff, logística, equipamentos de transmissão própria, manutenção de sedes mundo afora, lidar com legislações de países diferentes, atender quase 500 lutadores e suas equipes, entre outras contas não são pagas pelo Espírito Santo, certo?

E se falarmos de grana, a chiadeira também soa estranha:

De 2007 a 2012, o UFC pagou 15,2 milhões de dólares a ele – revelou ontem Dana White.

15, 2 milhões de dólares equivalem a 31 milhões de reais.

Em conta rápida, é como se Jackson tivesse recebido um salario mensal de 400 mil reais por seis anos consecutivos para fazer 11 lutas no período.

Rampage encara Glover Teixeira, sua última missão no UFC

Esses números para um esporte com cerca de duas décadas de existência são exorbitantes – ainda mais para um cara que só manteve o cinturão por um ano e um mês.

E estamos falando só de bolsas. Patrocínios por fora não entraram na conta.

Até no secular futebol é seguro dizer que menos de 1% dos jogadores desfrutam de tal bolada durante tanto tempo.

E aí chegamos nos wrestlers. Em 1999, quando fez sua primeira luta, o meio-pesado sabia que o esporte se chamava vale-tudo.

Quando as regras ensaiadas há 13 anos passam a incomodar é sinal claro que o fim da linha se aproxima.

Ganhar dinheiro por aparecer na televisão para o entretenimento de centenas de milhões de pessoas e querer privacidade é algo tão absurdo que prefiro me abster.

O pipoqueiro da esquina vive em um tranquilíssimo anonimato, mas, certamente, não tem oito carros na garagem – incluindo uma Lamborghini de 1 milhão de mangos.

Enfim, para se tornar um homem livre das “mãos opressoras” da Zuffa e seguir seu caminho, Rampage ainda tem que sair na mão com o faminto Glover Teixeira.

O minério de Sobrália, que nada tem a ver com o cenário pintado acima, vem para o UFC on Fox 6 com a faca nos dentes. Afinal, Quinton Jackson é seu tíquete dourado para o estrelato:

Não sei se ele está motivado ou afim de continuar lutando. Eu sei que eu quero –e muito – disse Glovão.

O ex-campeão até 93 kg garante – como de costume- estar animado e em ótima forma física.

É bom que seja verdade, do contrário, além de uma longa e dolorosa noite, infelizmente, veremos um ídolo do esporte cair de forma melancólica.

O veredito vem sábado.

Abraços.

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