Zuenir Ventura e o modismo da violência

Renato Rebelo | 09/01/2013 às 18:03

Uma das fotos que chocaram Zuenir Ventura (Marcelo Russio / SporTV.com)

Um burburinho em fóruns e grupos no Facebook dos quais participo me levou, no último domingo, ao “Blog do Noblat”, no site do jornal “O Globo”.

Nele, o conceituadíssimo jornalista e escritor Zuenir Ventura se posiciona contra o MMA de forma, digamos, incisiva.

Pra sermos justos, vamos botar em prática aquela aula de interpretação de texto dada pela tia do primário. Zuenir, em nenhum momento, compara o esporte ao crack.

O mineiro de Além do Paraíba apenas disse que o fato do MMA ser popular não o torna automaticamente aceitável ou fantástico.

E ele está certo. Popularidade não é, nem nunca será sinônimo de qualidade.

Se fosse, poderíamos concluir que o governo Lula foi o melhor da história do Brasil, Luan Santana e Gustavo Lima são os maiores cantores do país e “Gangnam Style” é a música mais sensacional já gravada.

Ele até poderia ter sido mais polido, mas não foi. E não precisava ser. A liberdade de expressão é uma dádiva e deve ser respeitada até mesmo quando fere nossa opinião.

Como o autor dos ótimos “Cidade Partida” e “Chico Mendes” não apresentou números, também não vou me dar ao trabalho de expor aqueles dados batidos que ninguém aguenta mais.

Seria chato ter que dizer, por exemplo, que o badminton profissional tem mais mortes e lesões graves do que o MMA regulamentado (é sério!!!).

Essa velha discussão me remete à polêmica acerca do porte de armas nos Estados Unidos.

Congressistas americanos querem proibir a comercialização de rifles no país.

Acontece que, por lá, há mais mortes anuais por marteladas do que a tiros deste tipo de arma!

Nem sempre aquilo que impressiona mais causa os maiores danos.

Espero não ter desapontado o leitor desse humilde blog que, por ventura, pode ter entrado aqui esperando ataques diretos a um senhor de 80 anos.

A mesma arte marcial que me faz ver “beleza” nesse ballet violento também me tornou tolerante, confiante, trouxe melhorias físicas e me ensinou respeito.

Tenho certeza que, caso a luta tivesse cruzado o caminho de Zuenir, também teria feito maravilhas.

A segunda foto que incomodou o autor

Tenho só uma diferença com o que foi escrito pelo vencedor do Prêmio Esso de jornalismo de 1989: a palavra violência.

No meu defasado Michaelis, o significado é: “qualquer força empregada contra a vontade, liberdade ou resistência de uma pessoa ou coisa; constrangimento físico ou moral, exercido sobre alguma pessoa para obriga-la a submeter-se à vontade de outrem”.

Fica claro que que tal palavra nada combina com o nível de profissionalismo que atingiu o MMA.

Exames físicos cada vez mais rigorosos, limites de tempo, divisão por peso, testes de tudo que se imagina, regras protetoras, material de segurança…

Tudo isso dá o respaldo necessário a atletas que sobem no ringue no estado da arte do condicionamento físico.

No texto do Blog, Zuenir também compara a luta aos festivais romanos em que gladiadores eram devorados por leões para o divertimento das massas.

E, novamente, ele não deixa de estar certo. É uma evolução, uma alternativa mais civilizada, eu diria.

Mas por que será que em 2 mil anos ainda não eliminamos esse tipo de entretenimento?

É aí é que não dá para negar: a atração pelo conflito corre em nossas veias. Dana White não poderia resumir melhor:

O MMA transcende qualquer barreira cultural. Não me importa qual é a sua cor, qual língua você fala ou de qual país você vem, no fim das contas, somos todos seres humanos e a luta está no nosso DNA. Entendemos e gostamos.

Me lembro, com muito carinho, do meu saudoso avô.

Seu Manoel de Almeida Rebelo era absolutamente contra essa “rinha humana”, mas assinava o canal Combate!

Após cada evento do UFC, ele vinha me contar como estava “enojado” por aquela violência gratuita. Mas não perdia um…

Eu mesmo sou um que critico a futilidade da televisão brasileira e me pego assistindo “Big Brother” e na última segunda-feira, por exemplo, “Mulheres Ricas”. Sou hipócrita também.

É muito curiosa essa necessidade que temos de negar instintos primitivos e camuflar a qualquer custo características socialmente imperfeitas.

Pode ser que Zuenir seja um ser evoluído, daqueles que nunca passou mais devagar ao ver um acidente na rua para dar uma espiadinha, nunca mentiu para justificar um atraso no trabalho, jamais furou fila ou sinal vermelho…

Será que ele não corre para a televisão quando o Jornal Nacional anuncia uma briga durante um jogo de futebol?

Caso ele seja apenas mais uma contradição humana, como todos nós, o convido a tomar um chopp no próximo pay-per-view.

Afinal, seria frustrante descobrir que um ídolo não pratica o que prega.

Não sei por que me lembrei de Jean-Jacques Rousseau, um dos filósofos condecorados da história.

E se o colunista do “Globo” tivesse assistido BJ x Sanchez?

O suíço de Genebra foi conhecido como o pai o “Iluminismo” francês.

Seus textos o transformaram em um dos maiores humanistas de todos os tempos. Um cara romântico, benevolente, altruísta…

Só que deixou cinco filhos na porta de um convento pois não os queria criar.

Quanto a nós, não entendo por que ficamos tão ofendidos e agimos como divas quando nosso esporte é criticado ou incompreendido.

Em primeiro lugar, não precisamos esconder as emoções que o MMA nos proporciona.

Exatamente pelo fato de o termos abraçado como forma de entretenimento que milhares de empregos mundo afora foram criados, centenas e centenas de crianças deixaram zonas de risco para seguir o caminho da disciplina e muitos atletas foram capazes de proporcionar condições melhores às suas famílias…

O fato de que cada evento do UFC injeta de 60 a 90 milhões de dólares na economia do local é apenas a cereja do bolo.

Enfim, as melhorias trazidas por esta atividade são tantas que me atrevo a dizer que, quanto mais adeptos o MMA tiver, menor será a popularidade do crack.

Abraços.

  • Fernando

    Muito bom!!

  • zagolee

    Excelente texto!

  • Hélio

    Pra variar mais um excelente texto Renato, parabéns, mesmo com o crescimento e a popularização do esporte no país, infelizmente essa discussão vai permanecer ainda por muitos anos e ainda haverá pessoas como este jornalista com esse pensamento negativo sobre este esporte, parece que as cenas chocantes só existem no MMA e esquecem de mencionar os outros esportes, principalmente no esporte mais popular do Brasil.

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