Matt Serra, o verdadeiro “Buster” Douglas do MMA

Fernando Henriques | 19/11/2015 às 15:16
Etihad Stadium cheio para ver as moças

Etihad Stadium cheio para ver as moças

O UFC 193 não me chamava muita atenção de início. Main e Co-main event com lutas femininas? “Onde os matchmakers estavam com a cabeça”, foi o que pensei.

Nada contra. Aliás, as duas campeãs até então são lutadoras estupendas. Mas tudo no MMA feminino é ainda muito novo. A inexperiência é uma constante no lado feminino do esporte e para mim, que não entendo de business tão bem quanto os mandachuvas do UFC, soava arriscada a estratégia para esse evento (uma lesão de Ronda Rousey, por exemplo, botaria a empresa de joelhos).

Todas as quatro envolvidas nas duas principais lutas do UFC 193 são relativamente novas no MMA (nenhuma com mais de 15 lutas, por exemplo), daí o meu receio, que ao fim da noite se provou descabido.

Foi um bom evento, salvo exatamente pelas meninas.

(Vamos falar de Ronda Rousey x Holly Holm de novo sim, pode reclamar aí nos comentários).

Findado o reinado da judoca que melhor adaptou a arte japonesa para o MMA, via patada de esquerda, depois deu um baile de movimentação, o burburinho pós-evento taxava o feito de Holly Holm como uma sonora zebra.

A começar por Dana White, sempre ele, que declarou ter visto a maior zebra da história do UFC naquela noite, em Melbourne, Austrália.

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Douglas chocando o mundo contra o “Homem de Ferro”

Na internet, fãs resgataram, da primeira derrota de Mike Tyson, outro fenômeno que demolia os adversários tão rápido quanto Ronda (na verdade, nem tão rápido), o nome de James “Buster” Douglas, o primeiro a nocautear-lhe.

Para muitos, Holm seria o Buster Douglas do MMA (!).

Vamos devagar, pessoal, foi uma zebra sim – não pela qualidade técnica de Holm, que se mostrou suficiente, mas pelo contexto inteiro ao redor da luta-, porém, bem distante de ser a maior que já vimos.

Esta coluna existe exatamente para lembrar-lhes quem foi o verdadeiro Buster Douglas do MMA.

Matt Serra, lembram dele?

Em 17 de agosto de 2006, Matt Serra começou sua inesperada caminhada rumo ao cinturão do UFC. Na época, creio eu, nem sua mãe ou seus técnicos acreditavam ser possível a conquista do objeto mais cobiçado do mundo marcial.

Talvez o próprio tivesse vaga confiança em si. E só. Qual era a chance do baixinho, ex-peso leve do UFC, vencer o TUF 4 (acreditem, a parte mais fácil dessa história) na categoria de cima e, posteriormente, tomar o cinturão das mãos do inconteste Georges St. Pierre?

SerraNinguém imaginava, mas foi exatamente isto que aconteceu. A quarta edição do TUF americano, iniciada em agosto e finalizada em novembro de 2006, bem antes do UFC pensar em estender o formato para fora do país, trouxe algumas novidades.

Ao invés de lutadores iniciantes, que aspiravam uma oportunidade no UFC, a ideia do programa foi reunir lutadores que já haviam lutado pela maior organização do mundo, mas que não conseguiram chegar ao título – ou mesmo perto disso.

Ex-integrantes do famoso “miolo” das categorias.

O contexto em relação aos treinadores foi distinto também, uma vez que tínhamos apenas lutadores formados e já experientes. Lutadores do UFC e treinadores conhecidos, como Marc Laimon, que durante o programa teve uma discussão com Serra por conta de Royce Gracie (Serra defendia sua importância e Laimon minimizava), funcionaram como consultores.

E na hora das lutas, eram os próprios participantes que funcionavam como coaches uns dos outros.

Não à toa, a edição chamava-se “The Comeback” (O retorno) . “The Ultimate Fighter 4: The Comeback”, mais precisamente.

E para motivar tais lutadores, que por suas “bagagens” poderiam muito bem retornar ao UFC por outras portas, ou mesmo fazer nome e dinheiro em outras freguesias, o grande prêmio da edição, além de um pomposo contrato e outras benesses financeiras, era uma oportunidade de disputar um cinturão.

Os 16 lutadores seriam de duas categorias, meio-médio e médio, e os campeões entre eles receberiam a chance de encarar os monstros Georges St. Pierre e Anderson Silva. Está bom para você?

Para muitos dos convocados para o elenco do programa, nomes como Travis Lutter, Jorge Rivera, Rich Clementi, Scott Smith, Pete Sell e Chris Lytle, esta seria – e realmente foi – uma chance única. Eles deveriam brigar por ela. E a briga foi boa.

Campeão do TUF

Campeão do TUF

Para chegar à final dos meio-médios, o ex-peso leve Serra – que em sua categoria de origem já havia perdido para BJ Penn-, precisou bater Pette Spratt e seu antigo algoz, Shonie Carter.

Na final, um lutão com o aguerrido Chris Lytle, que vendeu cara a apertada derrota – decisão dividida.

Pronto. Contra todas as probabilidades, estava garantido que o pequenino Serra iria de encontro ao campeão Georges St. Pierre.

Entre os médios, o campeão foi Travis Lutter, que bateu o membro da BTT-Canadá Patrick Côté na final (Côté foi o único dessa leva que conseguiu disputar o cinturão depois, graças ao gás modorrento de Ricardo Cachorrão, que perdeu para ele numa “title eliminator” em 2008) e depois protagonizou o papelão de não bater o peso na disputa contra Anderson Silva, no UFC 67, que acabou não valendo o título.

Uma surra do campeão canadense no atual técnico de Chris Weidman não causaria espanto, mas quis o destino que um soco vadio adiasse a tal sova.

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Ida…

Distante de dominar a luta até o surgimento do golpe salvador (foi inesperado também o fato dele ter mão pesada, algo que não havíamos visto antes; ele jamais havia nocauteado alguém), Serra tornou-se o campeão incontestável, depois do duro nocaute imposto à St. Pierre.

A luta marcou ambos.

É ponto pacífico dizer que St. Pierre mudou um tico o seu jogo, já conservador, depois desta derrota. E é também pacífico dizer que Serra, como campeão, foi (muit0) zebra contra o agora desafiante St. Pierre, um ano depois (lesões de Serra adiaram a luta seguidas vezes).

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… volta

A tal surra, enfim, veio. Mas Serra já havia escrito seu nome na história do UFC. Primeiro por ganhar um “former” em todos os anúncios de suas lutas, dali em diante, segundo pelo carimbo de maior zebra da história. Não apenas do UFC, mas do MMA.

O feito de Serra marcou a segunda vez que um peso-leve subia aos meio-médios para por fim a um reinado na categoria. Na primeira, foi BJ Penn que fez história contra Matt Hughes.

Só que Penn tinha bem mais consistência que Serra e depois do feito caminhou para outros mais, o que jamais nos permitiu avaliar sua vitória no UFC 46 como um acidente de percurso, como foi o caso de Serra.

(Confesso que quando Rafael Dos Anjos demonstrou interesse de fazer lutas na categoria cima, outro dia, cheguei a me animar).

Até o boneco de Serra carrega sua famosa expressão de surpresa

Até o boneco de Serra carrega sua famosa expressão de surpresa

Quando encarou St. Pierre, Serra trazia nas costas o escore de 5-4 no UFC, sendo 1-1 entre os meio-médios. Bem diferente de Holm, que, alem de ser uma das maiores pugilistas de todos os tempos, é invicta tanto no MMA quanto no kickboxing e tinha 2-0 no UFC quando esbarrou em Ronda.

(Seu único peso negativo no cartel foi ter vencido a barrigudinha Rachel Pennington, que está bem longe do topo da categoria, “apenas” numa decisão dividida).

A trajetória do segundo Matt que foi campeão meio-médio do UFC é única e, considerando o nível da competitividade nos dias de hoje, provavelmente não será repetida.

Principalmente por alguém com seu perfil (Serra vinha de uma demissão no ano anterior, quando perdeu para Karo Parysian em sua estreia no novo peso – escolha feita para ganhar fôlego, uma vez que nos leves ganhava uma e perdia outra).

Holyfield bateu Tyson duas vezes - e de formas incontestes

Holyfield bateu Tyson duas vezes – e de formas incontestes

Holm, nem se quisesse, poderia equiparar o feito “zebrístico” de Matt, que num espaço de um ano brilhou como o sol e conquistou os dois maiores títulos de sua carreira, para depois voltar ao ostracismo costumeiro, com alguma popularidade e merecido respeito entre os fãs hardcore que já o conheciam antes, principalmente do circuito internacional de competição do jiu-jitsu (foi medalhista de prata no ADCC).

Com 19 títulos mundiais de Boxe nas costas, 10-0 no MMA, podemos dizer que Holm, com sua solidez, está mais para a Evander Holyfield do MMA.

Nota desnecessária, porém supostamente engraçada, do autor: Não é engraçado que a lutadora conhecida como “Filha do Pastor” tenha também na perna esquerda uma arma mortal, assim como outro lutador de apelido similar, desta vez brasileiro, conhecido como “Pastor”?

Se um dia vier a descobrir que Cro Cop também é cristão, passarei a acreditar que Deus é canhoto e gosta de ‘chutes’.

  • Lenny

    Matt Serra seria um excelente…Peso Pena.

    No mais; http://i.imgur.com/hPdjBTQ.gif

    http://i.imgur.com/hPdjBTQ.gif

    • Renato Rebelo

      Hahahaa o pessoal não se cansa!

    • Fabricio Alves

      hehehe

  • douglas karpinski

    uahuhauua, Rachei com o texto, muito bom, Matt Serra é figuraça, se imortalizou sendo um lutador bem, mas bem mediano, ta ai a prova que esse esporte é fenomenal, vc não precisa ser o melhor de todos pra ser alguém respeitável, temos exemplos de lutadores que fazem lutas fenomenais e nem tem um cartel tão bom como Mark hunt, Nick Diaz entre outros….

    • Nick tem um cartel bastante responsável. E o mais engraçado é perceber que o cartel não representa, muitas vezes, a realidade do que foi uma carreira. Muitas derrotas do Diaz, por exemplo, foram vendidas por um alto preço. Ele sempre foi competitivo, perdendo ou ganhando.

      No mais, é isso mesmo, seu argumento tá certinho.

  • Rafael Fiori

    Hahahah.
    Essa piada foi uma das melhores.

    • Sobre Deus e chutes?

      • Hyuriel Constantino

        Sim. kkk… Eu acho que vcs do Sexto Round andam tomando aulas com Groucho Marx. kk

        • Quem nos dera. Groucho é o único Marx famoso que presta.

          • Dow Jones

            Concordo plenamente!!

          • É isso aí.

          • Vinicius Maia

            Cacete, melhor comentário já feito no sextoround hauieahuiaehuiea.

          • Bom saber da anuência dos leitores numa opinião como essa.

      • Rafael Fiori

        Sua nota desnecessária trouxe risos no final da boa leitura. Foi perfeito.

  • Francisco Júnior

    Ótimo texto. Não vou reclamar novamente pela palavra “Ronda” aparecer por aqui.

    Mas acho que a palavra “zebra” se refere a algo completamente inesperado, impensável, fora de cogitação, independentemente das qualidades de quem a causa. A vitória da Holm foi uma zebra sim, mas não pela lutadora que ela é, e sim pelo fenômeno chamado Ronda Rousey. Era a trajetória arrasadora da Ronda que nos fazia acreditar que seria mais uma vitória fácil e rápida. Perceba que a Holm não foi subestimada por ninguém antes da luta. O fato é que esperávamos muito mais da Ronda e isso chocou a todos. Por isso considero uma zebra das grandes. Dana White fez esse comentário porque ama demai$ a Ronda Rousey e já começou a pensar na revanche na hora que o Herb Dean encerrou a luta.

    Agora essa do Matt Serra realmente é a zebra das zebras. Além do GSP já sinalizar ser um excelente lutador, ele estava enfrentando um cara que aparentemente não ofereceria qualquer perigo para ele. Absolutamente nada. Deu no que deu. Ainda bem que os deuses do MMA nos permitiram ter certeza que GSP é um dos maiores de todos os tempos.

    • Então, Francisco o contexto que apresenta para a zebra está corretíssimo, tanto é que escrevi praticamente isso mesmo nesse parágrafo:

      “Vamos devagar, pessoal, foi uma zebra sim – não pela qualidade técnica de Holm, que se mostrou suficiente, mas pelo contexto inteiro ao redor da luta-, porém, bem distante de ser a maior que já vimos.”

      Só não foi a maior de todas.

  • Fernando Chaves

    Eu comecei a acompanhar MMA em 2007 e não tinha o acesso a informações que tenho hoje! Seus texto são muitos bons e agregam bastante. Diria que vc é o Nick Diaz do Sexto Round, xará !! Com todo respeito !!! A “marra” na escrita é muito massa !!

    • Rapaz, aí sim. Sou fã do Nick e tento, realmente, compartilhar do mesmo arrojo. Comum também em outros jornalistas donos de escritas que aprecio bastante, como Paulo Francis e Diogo Mainardi. Obrigado por observar.

  • Luis Coppola

    Concordo!!
    Matt Serra tem tamanho de um leve/pena,um grappler nocautear de forma avassaladora chocou mto mais que a filha do pastor. Com o nível atual da Welterweight, serra não seria nem top 30!

  • diego

    acho que seria zebra se holly holm finalizasse ronda, se ela nocauteou foi por mérito pois ela é 18 x campeã mundial de boxe.

    • Lucas Venagas

      e dai? se o spong ganhar do jones tu vai dizer que não é zebra? se um judoca multicampeao lutar com o aldo e vencer tu vai dizer que não é zebra?

      • diego

        não.

  • Fabricio Alves
  • Fabricio Alves

    Ouçam a voz da sabedoria!

    Floyd Sr: “She wasn’t shit anyway…”

    https://www.youtube.com/watch?v=qyTHlGba2pM

  • Fabricio Alves
    • Lucas vieira

      Kkkkkkk.

  • Shotokan Karate

    Fernando show de bola teu texto. Lembrando que o próprio Buster Douglas teve desempenho parecido com o do Serra. Imediatamente na luta seguinte tomou KO de forma acachapante ganhando o título a única semelhança desta luta do Buster Douglas com o Tyson com a luta da Ronda no sábado foi que Mike Tyson naquela oportunidade tb vinha relaxando demais nos treinos e fazendo exposições na mídia em excesso mas terminaram por aí as semelhanças. A Holly Holm tanto não é Buster Douglas do MMA pq sobrepujou a Ronda de forma categórica e inconteste fazendo-a pagar caro por seu relaxo nos treinos. Buster Douglas teve mais trabalho e mesmo assim chegou a tomar knockdown do Tyson só não tomando KO pq em seguida soou o gongo acabando o round. Compará-la com o Buster Douglas é até falta de respeito com a Preacher’s Daughter. Só não concordo com a comparação ao Evander Holyfield. Pra mim a Holly é mais do que o Holyfield. Holyfield ao meu ver tinha mãos de almofadas (podemos chamar de KO mesmo somente o da luta com o Tyson, vamos combinar uma coisa dar KO no Maguila não acrescentava nada no curriculo de nenhum pugilista, Maguila era o Stefan Stuve do boxe qq um de nós que comentamos aqui treinando um pouco de saco era capaz de conseguir dar KO nele hehehehehehehehe) e mtas vezes apelava para condutas meio sujas em uma luta. Pra mim a Preacher’s Daughter é a Sugar Ray Leonard do MMA Feminino. Acho que dos pugilistas tem o estilo mais parecido com o dela. A exemplo da Holly, Sugar era mto técnico e tinha mão pesada.

    • Boa comparação técnica com o Sugar. No caso, evoquei Holyfield para manter a comparação com um rival de Mike Tyson.

  • Paulo Zanchet

    Com certeza o Matt Serra está mais para Buster Douglas do MMA e a Holm não lembra em nada o cara, afinal é uma super campeã do boxe, com muita qualidade na trocação e que vinha tendo um desempenho legal no MMA. Agora, se formos falar em maior zebra, talvez o Grana White não esteja tão errado, depende o ponto de vista. Se formos pensar em disparidade técnica, concordo que o Serra foi bem mais zebra. Porém, o canadense, na época, não era ainda um capeão dominante, já a Ronda havia passado o carro em todo mundo e defendido o título inúmeras vezes. Nesse contexto, acho que a Holm foi uma puta zebra. Zebra mesmo no MMA foi o Fedor perder pro Werdum.

  • William Terres

    Porra, seria maneiro hoje em dia um TUF com lutadores do UFC. Pega o top 15 do peso leve e coloca numa casa, todos contra todos! hahahaha. Brinacadeiras a parte, do jeito que o atual formato do TUF está, seria legal uma inovação deste tipo

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