Pensando Alto: A Análise
Informal do UFC Adelaide

Lucas Rezende | 02/12/2018 às 03:35

Foi uma noite ritualística na ensolarada Adelaide, Austrália.

Botando Silverchair e Men At Work para escanteio, os protagonistas da noite preferiram a musicalidade mais tradicional do continente oceânico. Em meio a hakas e danças aborígenes, o UFC Fight Night 142 trouxe cultura, reviravoltas e um card preliminar horrendo de arrastado.

Felizmente para os cangurus embriagados de Foster’s, a memória e a percepção da realidade já estavam turvas e nubladas quando Mark Hunt, Tyson Pedro e Tai Tuivasa foram, um a um, superados por seus adversários.

O que, por sua vez, proporcionou momentos de inigualável, embora um tanto preocupante, alegria para velhos nomes da casa como Maurício Shogun e Júnior Cigano. Suponho que seja sempre assim neste esporte imperdoável, não?

Pois bem, me acompanhem.

Júnior Cigano vs. Tai Tuivasa

Em ritmo de festa, Tai Tuivasa acabou sem beber do seu tradicional sapato fedorento cheio de cerveja. Pelo menos existe uma vantagem em ser derrotado? E Se existem vantagens na derrota, também existem vitórias cheias de pontos problemáticos.

Júnior dos Santos venceu, é verdade, mas não sem antes recapitular todos os seus velhos cacoetes que lhe custaram combates no passado. Um por um, o catarinense os foi marcando em uma lista imaginária, como quem aguarda a derrota ao chegar no rodapé da folha.

Guarda baixa? Confere. Insistência em colar as costas na grade? Confere. Queixo alto? Confere.

Não à toa, Tuivasa, que parecia mais animado em se apresentar diante de seus compatriotas do que preocupado em vencer, ainda conseguiu fisgar o primeiro assalto graças a uma blitz nos segundos finais do round.

E a maré não parecia que iria virar até Cigano aterrissar uma mão certeira e cimentar a vitória com um ground and pound que, de tão desesperado, me parecia que nem mesmo o brasileiro acreditava em tamanha posição de vantagem àquela altura da luta.

Triunfo emblemático para o brasileiro. Não pela superação, tampouco por ser seu primeiro nocaute em cinco anos, mas por demonstrar quem e aonde se encontra Júnior dos Santos na categoria dos pesados ao fim de 2018.

Me parece claro, não somente por hoje, mas por toda a trajetória de Cigano até aqui, desde as surras para Cain Velasquez, que o brasileiro trará consigo e para seus torcedores apenas um sentimento a cada nova entrada no octógono: preocupação.

Maurício Shogun vs. Tyson Pedro

Maurício Rua rolou os dados, brincou com o perigo e quase reencontrou seu velho amigo, o nocaute, de perto.

O garotão Tyson Pedro surpreendeu. Essencialmente um grappler, o australiano aproveitou a envergadura monstruosa para pegar Shogun desprevenido, massageando a carranca do curitibano com uma série de jabs e uppercuts, que, sinceramente, ainda não sei como não deitaram Maurício.

Seja lá como for, o QI decadente de Pedro então entrou em ação, aliado a um desgaste irremediável, e o brasileiro foi capaz de se recuperar. Cedo no terceiro assalto, Maurício repetiu aquilo que lhe consagrou a carreira e encaixou um tradicional jab e direto para dar cabo do jovem e conquistar uma virada cinematográfica.

Infelizmente, este tipo de vitória (onde se sai tão desfigurado que nem parece ter vencido) possui efeito contrário na mentalidade de vários lutadores e Shogun, que não tem um retrospecto assim invejável, já avisou que voltará ainda melhor. Seja lá o que isto queira dizer, já tenho medo desde agora.

Justin Willis vs. Mark Hunt

Não foi a aposentadoria dos sonhos de um ídolo como Mark Hunt, mas poucos são os lutadores que conseguem cavalgar até o pôr-do-sol de maneira triunfal.

Nem mesmo o intimidante ritual do haka fez diferença para o Super Samoano. Avariado após muitos anos dedicados a este esporte ingrato, não há tanto que um striker de 44 anos ainda possa oferecer. Não existem noites ruins ou performances inesperadamente decepcionantes a esta altura, é apenas uma questão de biologia.

Hunt fez o que pôde, e esta me parece ter sido a tônica de toda sua carreira dentro das artes marciais mistas, o que é refletido na irregularidade de seu cartel, que não, não conta uma história diferente, como tantos outros carteis por aí.

Justin Willis não é um atleta ruim, mas também não posso chama-lo de fantástico sem ser que o meu rosto trema. Mas foi inteligente o bastante para não engajar na única possibilidade de vitória que o combalido Hunt ainda possuía. Andou para trás, abusou dos jabs e pontuou quando não havia perigo.

Vitória inteligente, ainda que maçante, mas que faz a promessa da categoria avançar, e agora com um nome como o de Hunt em seu currículo. A renovação continua e é tão inevitável quanto implacável.

Dentro de tantos ciclos existentes no universo do MMA, este é o mais natural deles.

Menções Honrosas

  • Tony Martin pediu e levou. Atrevido, o grappler americano invadiu território inimigo, atazanou Jake Matthews e quase levou a pior no primeiro assalto. No entanto, ainda vivo, o norte-americano azedou a festa australiana com um triângulo de mão sorrateiro, no terceiro round, e emergiu vitorioso enquanto o adversário se perguntava o que havia acontecido e recobrava a consciência.
  • Paul Craig se concretiza como especialista em finalizações nos segundos finais. Depois de estrangular Magomed Ankhalaev, em seu último combate, foi a vez do escocês devolver a gentileza para Jim Crute, que levou o braço do europeu para casa com uma kimura. Apesar do embate feio e displicente, o duelo conquista uma vaga nas menções honrosas desta edição somente por interromper a sequência de seis combates definidos por decisão. Coragem!
  • Boa notícia para os pesos-leves. O russo Damir Ismagulov, que debutou com placar de duplo 30×26 e um 30×25 ao espremer o local Alex Gorgees, revelou desejo de migrar para os penas em seu próximo combate. Ex-campeão do M1 Global, o eurasiano emplacou a décima segunda vitória consecutiva e não deve ter despertado interesse em nenhum adversário a fim de um contracheque mais fácil nessa profissão que já é indigesta o bastante por si só.
  • Julio Varoni

    O cara que perde para Maurício Rua vai empatar com quem?

  • Mauricio

    Sobre a luta do Shogun?

    Oooohhh o campeão voltou!!!

    Cadê o Laerte? Lutas a casar Shogun vs Gustavão/Jones II

  • Tairon de Oliveira

    Shogás vs Vencedor de Jones/Gustafsson 2

    • Douglas Karpinski

      kkkkkk, sem dó mesmo???

    • Juan

      Que mal o Shogun te fez?

  • Sergio Araujo

    Evento vai disputar com o UFC Moscou o título de pior evento do ano?

  • Douglas Karpinski

    Vamos la, Shogun tava até mais magro, coração falou mais alto, virou grapler, e convenhamos que o cara é tão bom que ta batendo em muleque de 20 anos, quer dizer muita coisa? não, ta na hora de aposentar mesmo, ainda esta lento e prolongar a carreira cedo ou tarde vai beixar a lona de novo.

    Ciganão fez um primeiro round legal, se movimentou bem, tava encostando no Ban ban que tava bem seguro, acho que por estar em casa e não ter perdido ainda, mas a falta de senso de urgencia somado a seu fisico que dura 2 rounds ia cobrar alto… cigano estava bem concentrado e é muito famoso pelo boxe e potencia…

    O que se tira dessas duas lutas? respeitem as lendas, apesar de velhos estão competindo no maior evento de mma,alto nivel onde não se brinca com esses caras…

    • Douglas Karpinski

      ah antes que me esqueça, shogun lutou com sunga cinza, se fosse com a branca nem preciso falar que o australiano teria vestido o paletó de madeira…

    • Wellington Fonseca

      Comentei no PbP da luta aqui no site que o Tuivasa precisa perder uns arrobas, pq tem muita banha sobrando. Dando uma secada, pode dar trabalho, pq tem uma mão pesadinha, viu.

      • Douglas Karpinski

        concordo, e é muito novo ainda, mas com aquele shape ta foda viu, a gente pega no pé no cormier estar gordinho mas o australiano ta o dobro, e isso afeta demais, o cara não pode contar só com a mão pesada, sem falar que o chão dele ta tipo -10…

        • Wellington Fonseca

          Cormier é ponto fora da curva. Ouro Panamericano, 4º colocado nas Olimpíadas de Atenas, então, o lastro dele como atleta está em outro patamar. E essa questão de banha em excesso cabe ao Willis também. Cara tem mais pneus do que a borracharia do Seu Zé da esquina.

          • Douglas Karpinski

            uahuahuahuahauhauha

  • Caíque Matheus

    Cigano não lutou bem. Fato. Mas não acho que venceu por “uma mão”. No processo para o Tuvasa cair, Cigano fez uma combinação de direto, swing, ganchinho e cruzado muita bonita. Os problemas estão lá, mas ele ganhou por sua eficiência no boxe e por ser um lutador mais técnico. Definitivamente, não foi por uma mão.

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