Vale Assistir? A leitura
dinâmica do UFC Argentina

Thiago Sampaio | 16/11/2018 às 14:17

É, amigos, vocês ainda devem estar em êxtase após o nocaute avassalador de Yair Rodríguez em cima do Zumbi Coreano no último segundo. O card nem prometia muito, mas nos brindou com essa!

Agora, tem mais, seguindo o ritmo de maratona. Em clima de nervos aflorados quando Boca Juniors e River Plate disputam a final da Taça Libertadores da América, o UFC aterrissa pela primeira vez na Argentina.

O UFC Fight Night 140: Magny vs. Ponzinibbio acontece a partir das 21h (horário de Brasília) deste sábado (17), no Estadio Mary Terán de Weiss, em Buenos Aires, país do Messi!

Na luta principal, o nome mais famoso dos hermanos, Santiago Ponzinibbio, enfrenta o “pau pra toda obra” Neil Magny, em duelo válido pela categoria dos meio médios.

No co-main event, Ricardo Lamas e Darren Elkins se enfrentam para bater o martelo de quem não vai disputar o cinturão dos penas daqui em diante.

Mas vamos lá aos destaques!

Gente Boa será o Maradona do MMA?

A estreia do UFC na Argentina não poderia ser sem Santiago Ponzinibbio (26-3, 8-2 UFC), primeiro e mais popular representante do país, na luta principal. Mas não foi fácil achar adversário para ele. Para isso, foi preciso remanejar Neil Magny (21-6, 14-5 UFC).

O Gente Boa bem que provocou muito Rafael dos Anjos, que não quis saber de lutar longe dos Estados Unidos, onde mora. Magny estava escalado para enfrentar Alex Cowboy no último card de São Paulo e, tirá-lo dali foi a solução encontrada.

Desde que foi nocauteado por Lorenz Larkin, em 2015, o hermano vem de nada menos que seis vitórias em seguida. Enfileirou Andreas Ståhl, Court McGee, Zak Cummings, Nordine Taleb, Gunnar Nelson e Mike Perry.

Popular no Brasil após a participação no TUF Brasil 2, em que só não lutou a final pois fraturou a mão, além de já ter morado em Santa Catarina, Santiago é o principal encarregado da missão de emplacar o MMA no seu país natal.

Porém, o atleta da American Top Team não luta desde dezembro do ano passado, quando travou uma violência com Perry. Faria o main event do UFC Chile contra Kamaru Usman, mas se lesionou e teve que ceder o lugar para Demian Maia.

Magny é aquele tipo de cara que não tem tempo ruim e luta contra quem vier. Tem vitórias sobre nomes como Kelvin Gastelum, Hector Lombard, Johny Hendricks e Carlos Condit. Vem de triunfo por nocaute sobre o limitado estreante Craig White.

Favorito, Ponzinibbio tem tido atuações cada vez mais convincentes, com destaque para o nocautão em Gunnar Nelson. O muay thai agressivo e com muita precisão tem lhe garantido vitórias rápidas, mas também sabe cadenciar e lutar de maneira estratégica.

O orelhudo também costuma manter os combate em pé e, no alto dos seus 1,91m e envergadura de 203cm, utiliza bem os longos braços e pernas para controlar a distância. Algo que vai ser bastante necessário para evitar a aproximação do argentino.

Apesar de ser faixa preta de jiu-jítsu, levar para o solo não é bem o estilo de Santiago. Magny tem quatro das seis derrotas por finalização. Mas por incrível que pareça, aqui é o americano quem pode utilizar das quedas para pontuar, como fez contra Condit.

Missão: afastar uma queda brusca no ranking

O rótulo de veteranos do peso pena, por mais que ambos venham de resultados negativos, garantiu o posto de co-evento principal para Ricardo Lamas (18-7, 9-5 UFC) e Darren Elkins (24-6, 14-5 UFC).

Lamas, que lutou com José Aldo pelo cinturão lá em 2014, também perdeu para o atual campeão Max Holloway em 2016. Vinha de duas boas vitórias, sobre Charles do Bronx e Jason Knight, até ser nocauteado por Josh Emmett, numa das maiores zebras de 2017.

Na última aparição, fez uma luta equilibrada com Mirsad Bektić, em que perdeu por decisão dividida. Muitos apontam que ele já entrou na fase de declínio da carreira

O vesguinho Elkins é daqueles que pode vencer várias mas não ganha visibilidade, tampouco teve a chance de disputar o título. Falta a ele apelo comercial e o estilo pragmático não ajuda. Pelo menos a horrenda tatuagem “The Damage” virou uma referência folclórica.

Vinha de uma ótima sequência de seis triunfos, sobre Robert Whiteford, Chas Skelly, Godofredo Pepey, Mirsad Bektić, Dennis Bermudez e Michael Johnson. Mas na última, teve o ímpeto freado pelo ótimo prospecto Alexander Volkanovski, perdendo por decisão unânime.

Se trata de um wrestler de alto nível e por muito tempo foi marcado pelas lutas amarradas em demasia. Mas, recentemente até que surpreendeu com atuações de propriedade, inclusive virando combates em que estava levando a pior, como a finalização em Johnson.

A principal reviravolta foi na luta contra Bektić, em que estava levando uma surra homérica até arrancar o nocaute no terceiro round com um chute na cabeça. Não é um nocauteador, mas tem uma trocação justa.

O The Bully é bem ágil no kickboxing, que passou a adotar como carro chefe. É faixa preta de jiu-jítsu de Daniel Valverde, All American em wrestling da divisão III da NCAA. Um lutador completo que oferece risco em todas as áreas.

Se o combate se desenrolar a maior parte em pé, a tendência é que Lamas leve uma pequena vantagem. Elkins em algum momento vai tentar agarrar, mas derrubar o ex-desafiante não é tão fácil. De todo modo, vai surpreender se algum deles passear no combate.

Se livrou de uma barra?

De quase demitido e motivo de piadas pelo queixo duvidoso, Cezar Mutante (13-6, 9-5 UFC) chegou ao top 15 do peso médio. Pegaria aqui o dificílimo Tom Breese, que teve que se retirar e, então, sobrou pra ele recepcionar o estreante Ian Heinisch (11-1, 0-0 UFC).

Desde a tentativa de descer para os meio médios que só durou uma luta (foi nocauteado com uma “ombrada” por Jorge Masvidal), o pupilo de Vitor Belfort se recuperou vencendo três em seguida: Oluwale Bamgbose, Anthony Smith e Jack Hermansson.

Depois perdeu para Elias Theodorou numa decisão contestada, mas logo na próxima venceu o experiente e combalido Nate Marquardt por split-decision. Na última aparição, surpreendeu ao finalizar o embalado Karl Roberson no primeiro round.

Entrando com pouco mais de uma semana antes do evento, Heinisch chega com o papel de franco atirador, apesar de não aparecer nas casas de apostas como grande zebra.

Ex-campeão interino dos médios do Legacy Fighting Alliance (LFA) ao nocautear Gabriel Checco, chamou atenção no Dana White’s Contender Series nocauteando brutalmente Justin Sumter com uma sequência de cotoveladas na guarda.

Mutante tem se saído bem ao lutar de maneira estratégica, evitando se expor em demasia, já que a absorção de golpes nunca foi o seu forte. Tem trocado apenas o necessário, aqui e acolá arriscando os seus chutes de capoeira.

Mas é apostando no wrestling que vem garantindo os bons resultados. Aqui não deve ser diferente e deve pressionar na grade, capitalizar no infight, tentar derrubar e manter o americano com as costas no chão, buscando uma finalização.

Heinisch, que carrega o apelido The Hurricane (nossa, que criatividade!) é, em essência, um striker que bate pesado. Das 11 vitórias, quatro foram por nocaute. Não é leigo no solo, tem dois triunfos por finalização, mas é bem inferior ao brasileiro nesse quesito.

Levando em conta que não fez praticamente nenhuma preparação para a luta e ainda vai precisar cortar peso, o estreante vai partir para liquidar a fatura no início e, se não obtiver sucesso, a tendência é que o Mutante consiga controlar as ações.

Uma boa chance para Cezar retornar ao ranking. Mas bater um novato pode ser um baita de um passo para o lado!

Não vai ser uma novela

O público em geral pode até conhecer Poliana Botelho (7-1, 2-0 UFC) do episódio final da novela “A Força do Querer”, em que ela “lutou” contra a personagem de Paolla Oliveira. No UFC, ela tem agora em Cynthia Calvillo (6-1, 3-1 UFC) o maior desafio na carreira de verdade.

Contratada em 2016, esperou mais de um ano para enfim estrear por conta de lesões. Por enquanto, o retrospecto é perfeito. Venceu Pearl González por decisão unânime em 2017 e, em maio de 2018, no Chile, aniquilou Syuri Kondo em apenas 33 segundos.

A mexicana-estadunidense Calvillo chegou como uma aposta alta da empresa, sendo colocada em cards principais quando ninguém entendia o motivo. Mas os resultados vieram e venceu em seguida Amanda Cooper, Pearl González (coitada…) e a experiência Joanne Calderwood.

Então invicta em seis lutas profissionais (além de um cartel 5-1 no MMA amador), recebeu em seguida a ex-campeã Carla Sparza e sofreu o choque de realidade. Perdeu por decisão unânime e ainda foi suspensa após ser flagrada pelo uso do “cigarrinho da paz”.

Ela retorna cheia de vontade para limpar a imagem da última luta!

Para isso, deve estar com o wrestling em dia. Tem um muay thai bem decente e deve se arriscar em pé com a brasileira, mas é na luta agarrada que tem maior chance de êxito. No jiu-jítsu, consegue desenrolar boas posições e sempre tenta finalizar.

A mineira da Nova União gosta de botar o muay thai pra valer, se movimenta bastante, tira a estabilidade com chutes baixos e também tem socos rápidos.

O chute na linha de cintura que derrubou Kondo não foi um highlight trivial, pois ela costuma fazer isso. É faixa azul de jiu-jítsu, justo o suficiente para evitar as investidas da Cynthia.

Além de ser um interessante duelo de estilos entre duas atletas em jogo, ainda tem a rivalidade entre Nova União e Team Alpha Male, agora numa versão feminina. Vale a conferida!

Vencendo e cumprindo tabela

Se os brasileiros reclamam que Massaranduba não recebe a devida atenção que merecia, Michel Trator (25-2, 9-2 UFC) sequer é lembrado pelos mesmos fãs. E assim ele segue a saga, mesmo vencendo tudo, contra Bartosz Fabiński (14-2, 3-0 UFC), não deve levá-lo pra lugar algum.

Já são sete vitórias em seguida! Venceu Valmir Bidu, J.C. Cottrell, Gilbert Durinho, Josh Burkman, Mads Burnell, Demond Green e Zak Cummings. Nesta última, subiu da categoria dos leves para os meio médios após seguidas tentativas falhas com a balança.

Enfrenta um polonês que tem uma luta nos últimos três anos. Antes da vitória dominante sobre Emil Meek Webb, em que levou por decisão unânime, em julho, no card de Hamburgo, na Alemanha, a última aparição havia sido em novembro de 2015.

Vinha de vitórias contra Garreth McLellan e Hector Urbina, ambas por decisão. Nesse intervalo, teve duelo contra Nicolas Dalby cancelado.

O Açogueiro (esses apelidos…) é um atleta razoável na troca de golpes, mas tem maior efetividade no wrestling, derrubando e martelando no ground and pound. Tem oito vitórias por nocaute técnico. Tem um double leg eficiente, derruba com muita facilidade e busca vencer, sem se preocupar em empolgar.

Levando em conta que tem 1,82m e lutava como peso médio, o estilo vai ser um desafio para o brasileiro, que também é um grappler, porém, bem menor. O apelido não é propaganda enganosa. Ele é forte feito um máquina tuneladora, mas tem apenas 1,68m.

Também costuma usar da força e do jogo de pressão para levar a melhor, algo que vai ser ainda mais difícil na divisão até 77kg. Tem condições de evitar a derrubada e vencer na base da trocação, encurtando o tempo todo a distância? Tem. Mas o caminho é ardiloso.

Ainda assim, o paraense tem um jiu-jítsu bem diferenciado e, mesmo contra um wrestler funcional como Fabiński, é capaz de reverter situações e tirar coelhos da cartola. Das vitórias, 10 foram por finalização.

Doloroso é, se ele passar por mais um desafio difícil como esse, não enxergar nenhuma luz que o coloque perto de algum ranking, seja lá de qual categoria.

Card completo

Neil Magny x Santiago Ponzinibbio
Ricardo Lamas x Darren Elkins
Khalil Rountree x Johnny Walker
Cezar Mutante x Ian Heinisch
Guido Cannetti x Marlon Vera
Cynthia Calvillo x Poliana Botelho
Michel Trator x Bartosz Fabiński
Alexandre Pantoja x Ulka Sasaki
Humberto Bandenay x Austin Arnett
Laureano Staropoli x Hector Aldana
Devin Powell x Jesus Pinedo
Nad Narimani x Anderson Berinja

Vale assistir?

Para a estreia do UFC na Argentina, até que prepararam um card decente, levando em conta o apelo ainda limitado do esporte entre nossos vizinhos (vamos deixar a palavra rivais de lado pois basta de ódio, né, amiguinhos?!).

Conseguiram manter Santiago Ponzinibbio na luta principal, algo primordial, apesar da dificuldade para encontrar adversário. Magny não é nenhum primor, mas exige bastante respeito.

Lamas x Elkins é um duelo de tops da categoria que poderia aparecer em qualquer evento pelo mundo, não só na América Latina. Botelho x Calvillo, pelo potencial das duas, foi uma aposta certeira.

Também figura na porção principal o choque entre Khalil Rountree e o estreante brasileiro Johnny Walker, dois strikers que não esperam passar o tempo e sempre partem para o nocaute. No mínimo, vai ser divertido a ponto de deixar o celular de lado.

A recepção ainda é uma incógnita, mas pelo menos os atletas locais, o razoável Guido Canetti e o estreante Laureano Staropoli (eles tinham que contratar gente para fazer algum volume) devem garantir a festa da torcida fervorosa. Fanáticos, sabemos que eles são.

Em geral, está do nível de um Fight Night que chega pelo Brasil. Já estamos acostumados e até nos damos ao luxo de escolher qual merece pagar o ingresso caro para assistir ao vivo. Mas para a primeira parada, está bem aceitável.

O problema para os brasileiros é o maldito horário de verão. Mais uma vez, as lutas principais vão adentrar às quatro da madrugada. Se bater a insônia ou voltar tarde da madrugada, até merece lutar contra o sono. Caso o contrário, é entendível deixar para o dia seguinte.

Se optar pela dormida, não deixa de honrar esse momento marcante e marca um churrasco no dia seguinte com muita picanha argentina e embalado por tango, enquanto a TV fica sintonizada na reprise. Pode até deixar uns alfajores para a sobremesa.

Tenta convencer, seja lá quem for, a assistir “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindewald” durante a semana. Não é tão bom como muitos fãs alucinados imaginam.

  • Mauro

    O que fode e o horário, mas está um bom Figth nigth.

    • Thiago Sampaio

      Está do nível de um Fight Night de respeito no Brasil. Sendo o primeiro no país, valeria ver in loco. Mas, ficar acordado até 4h30 da madruga realmente não é para qualquer um.

      • Mauro

        Vou vê até aonde aguento isso, mas está um evento com lutadores melhores que aquele dos 25 anos…

        • Thiago Sampaio

          Em geral, está mesmo.

  • Sergio Araujo

    Vô no show do Shaman com a formação original aqui em Recife e ver se pego a luta principal na volta.

    • Thiago Sampaio

      Ótima escolha. Bem possível que, ao voltar, ainda esteja no meio do card principal.

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