Vale assistir? A leitura
dinâmica do UFC 230

Thiago Sampaio | 01/11/2018 às 01:00

É, pouca gente deu moral para o card de Moncton, que não estava dos mais atrativos e as atenções dos brasileiros estavam voltadas para as Eleições. Se o que está por vir pode não ser tão esperançoso, fica a expectativa por algo de bom. Ah, estou falando do UFC!

Tem evento numerado neste fim de semana no tradicional Madison Square Garden, em Nova York. O UFC 230: Cormier vs. Lewis acontece a partir das 19h30 (horário de Brasília) deste sábado (4), marcando a terceira passagem da organização pela arena.

Na luta principal, o que o UFC conseguiu arrumar foi Daniel Cormier colocando o seu cinturão dos pesos pesados em jogo contra o bizarríssimo Derrick Lewis, indo contra as forças do universo que apontavam que ele nunca chegaria lá.

No co-main event, uma interessante disputa entre tops da categoria peso médio: o nova iorquino e ex-campeão Chris Weidman luta diante dos conterrâneos contra o brasileiro Ronaldo Jacaré.

A decepção fica por conta do não acontecimento do combate entre Dustin Poirier e Nate Diaz, previsto para acontecer no co-evento principal e caiu por conta de lesão do The Diamond, para a decepção geral.

Mas vamos lá aos destaques!

Vivemos para ver isso…

Triste dizer, amigos, mas esse momento chegou. Estamos vendo Derrick Lewis (21-5-0-1, 12-3 UFC) disputando o cinturão dos pesos pesados! E só mesmo por ser contra ele que Daniel Cormier (21-1-0-1, 10-1-0-1 UFC) aceitou salvar esse card, mesmo se recuperando de fratura na mão.

O Ultimate enrolou uma vida para oficializar a luta principal deste evento, chegando até a anunciar Valentina Shevchenko x Sijara Eubanks pelo cinturão vago da divisão mosca feminina. Viram que não iriam conseguir nada com isso, então, apelaram para Cormier.

DC está muito bem da vida, ostentando dois títulos, das divisões dos meio pesados (pelo menos até Jon Jones e Alexander Gustafsson se enfrentarem no UFC 232) e dos pesados. Estava no aguardo da money fight da sua vida contra Brock Lesnar, mas topou quebrar esse galho.

Muito pelo baixo risco contra um adversário que depende unicamente da mão pesada para vencer e que vem de atuações deprimentes!

Na última aparição, Cormier fez história ao nocautear Stipe Miocic, então campeão recordista de defesas de título dos pesos pesados, ainda no primeiro round. O único algoz da carreira é Jon Jones, para quem perdeu duas vezes (a segunda foi convertida para no-contest).

Como meio pesado, se tornou campeão ao vencer Anthony Johnson, defendeu o título contra Gustafsson, numa revanche com o Rumble e venceu Anderson Silva num duelo sem valer título. Depois do vai e volta de cinturão com Jones, defendeu contra Volkan Oezdemir.

Lewis, incrivelmente, vem de três vitórias, mas não convenceu em nenhuma. Nocauteou Marcin Tybura no terceiro round num combate em que estava levando a pior e fez contra Francis Ngannou uma das piores lutas dos últimos tempos, praticamente um duelo de encaradas.

Lutou exatamente um mês antes deste evento, no UFC 229, contra Alexander Volkov. Apanhou praticamente a luta inteira, estava puxando gás pelo vento como sempre faz, até que o russo mandou uma joelhada irresponsável faltando 10 segundos para acabar a luta. Terminou deitado!

Esse é a Besta Negra: luta na base da ignorância, sem técnica alguma, tem preparo físico vergonhoso (ele já falou que não gosta de treinar e, para esta luta, não é diferente), mas consegue definir combates com um único golpe.

Cormier é o oposto. É um wrestler fora da curva a ponto de fazer os adversários parecerem sacos de batata. Fazer isso com um cara de cerca de 130kg não é fácil, mas, ele consegue! Sem precisar cortar peso, mostrou contra Miocic que o punch também está em dia.

E aqui temos uma disputa de título com a disparidade técnica mais abismal dos últimos tempos.

DC pode ser 11cm mais baixo, mas tem tudo para controlar as ações através da boa movimentação e, principalmente, na luta agarrada. Cair no golpe fatídico é algo difícil de ser imaginado.

E oremos para que não aconteça essa catástrofe do universo! Ninguém merece ver o gigante das bolas quentes, que sequer tinha vontade de disputar o título, como campeão!

Quase um clássico fora de época

Chris Weidman (14-3, 10-3 UFC) faria neste co-main event a revanche contra Luke Rockhold, que voltou a se lesionar. No lugar dele, entrou Ronaldo Jacaré (25-6-0-1, 8-3 UFC), que lutaria no mesmo card, contra David Branch.

E assim teremos uma luta inédita, que por muito tempo foi ventilada, mas que chega sem tanta badalação!

O cara que chocou o mundo ao destronar Anderson Silva ainda é uma das principais ameaças das categoria dos médios, mas a baixa frequência o colocou numa espécie de limbo. A última vez que lutou foi em julho de 2017, quando finalizou Kelvin Gastelum.

Antes disso, havia perdido três em seguida, para Rockhold (quando perdeu o cinturão que defendeu contra três brasileiros), Yoel Romero e Gegard Mousasi. Os resultados irregulares e as constantes lesões o afastaram de uma nova disputa de título.

Jacaré, por sua vez, por muito tempo se pedia um title-shot para ele, mas ele batia na trave quando estava perto. Vem de derrota para Gastelum em maio, no UFC 224, numa decisão dividida bem apertada.

Apesar das vitórias com propriedade sobre Vitor Belfort, Tim Boetsch e Derek Brunson, os reveses para Romero (uma split decision bem contestada) e Robert Whittaker (um nocaute com sabor de choque de realidade) frearam as ambições.

Se esta poderia ser uma luta valendo título há alguns anos, o derrotado agora vai ficar longe de uma nova chance ao ouro. Principalmente o brasileiro, que já tem 38 anos e não consegue engatar sequência de vitórias recentes. O americano pelo menos tem a credencial de ser um ex-campeão!

Neste caso, temos um embate entre dois excelentes grapplers que corre o risco de decorrer a maior parte em pé. Weidman é All-American da divisão I da NCAA e faixa preta de jiu-jítsu de Renzo Gracie. Mas Jaca tem talvez, junto a Demian Maia, o melhor BJJ adaptado ao MMA do UFC.

O ex-campeão derruba com muita facilidade, mas, será que ele vai ter a ousadia de se embolar com Jacaré para trabalhar o ground and pound? O brazuca, por sua vez, pode arriscar usar a sua principal arma, mas quedar um wrestler do nível de Weidman é uma tarefa indigesta.

Se eles ficarem na trocação, a tendência é de equilíbrio. Weidman tem um kickboxing bem justo, inclusive conseguiu furar o labirinto de Lyoto Machida, além de ter nocauteado Anderson Silva e Belfort.

O brasileiro, que está treinando na pequena Fusion X-Cel, na Flórida, também evoluiu no muay thai, tem poder de nocaute, mas já mostrou falhas como guarda baixa, pouca movimentação de cabeça e arrisca overhands descuidados.

Nas casas de apostas, o americano está sendo apontado como favorito por pequena margem e a tendência é de um combate parelho. Qual jogo vai prevalecer?

Preenchendo tabela

Um dos maiores prejudicados com as baixas desse card foi David Branch (20-4, 4-3 UFC), que enfrentaria Ronaldo Jacaré, remanejado para o co-evento principal. Para não ficar de fora, vai enfrentar Jared Cannonier (10-4, 3-4 UFC), estreando no peso médio.

Branch, que já teve uma passagem apagada pelo UFC em 2010, voltou com a moral de campeão de duas categorias simultaneamente, médio e meio-pesado, do World Series of Fighting (WSOF). Nesta nova fase, ainda não mostrou grande coisa.

Reestreou com vitória por decisão dividida Krzysztof Jotko numa luta morna, foi nocauteado por Luke Rockhold a ponto de dar os três tapinhas pra parar de apanhar e, na última, teve o seu triunfo mais convincente, nocauteando Thiago Marreta no primeiro round.

Cannonier chegou lutando como peso pesado, desceu para os meio pesados e agora vai se arriscar na divisão até 84kg. Vem de reveses para Jan Błachowicz, por decisão, e pelo promissor Dominick Reyes, por nocaute.

O melhor adversário que venceu no Ultimate foi Ion Cutelaba. Também foi nocauteado pelo limitado Shawn Jordan e superado por pontos por Glover Teixeira.

O The Executive (que apelido!) é especialista no jiu-jítsu, faixa preta de Renzo Gracie. Conta com sete vitórias por finalização. Também não é leigo na trocação. Apesar de meio descuidado, quase nocauteou Rockhold no primeiro round e conseguiu o feito contra Marreta.

Já o The Killa Gorilla é essencialmente um striker que bate forte e pode complicar Branch se o duelo se desenrolar em pé. Tem um jiu-jítsu razoável e nunca foi finalizado na carreira, porém, é anos-luz inferior ao adversário nesse quesito.

Se David Branch não se empolgar com a onda de “nocauteador” contra um ex-peso pesado e fizer uma luta estratégica na base do clinche e buscando quedas, tem tudo para ganhar num combate nem tão animador.

Subindo mais um degrau

Com exceção do main-event anunciado às pressas, essa é a única luta de apelo do card principal que não sofreu alteração. Israel Adesanya (14-0, 3-0 UFC) segue sua ascensão gradativa diante de adversários mais difíceis, agora contra Derek Brunson (18-6, 9-4 UFC).

O nigeriano fez apenas três lutas pelo UFC, mas já chegou com hype alto por causa do talento na luta em pé, com credencial de um cartel de 75-5-1 no kickboxing, tendo disputado o cinturão do Glory. Também passou pelo boxe profissional, com cartel 6-1.

No MMA, havia vencido todas as suas lutas por nocaute quando chegou no UFC. A estreia foi com show: passeou contra Rob Wilkinson, nocauteando com uma sequência brutal de socos e joelhadas.

Contra Marvin Vettori, mostrou um pouco de dificuldade com a luta agarrada, mas venceu por decisão dividida. Já foi promovido para liderar o seu primeiro evento, contra o ranqueado Brad Tavares, e teve uma atuação dominante por cinco rounds.

Brunson é um veterano que há algum tempo tem servido como linha de corte entre os tops da divisão dos médios. Vem de derrota para Ronaldo Jacaré, nocauteado com uma bica na cabeça ainda no primeiro round.

Antes, vinha de vitórias rápidas por nocaute sobre Dan Kelly e Lyoto Machida. Já engrenou cinco triunfos em seguida, incluindo sobre Sam Alvey e Uriah Hall. No meio do caminho, foi nocauteado por Robert Whittaker e perdeu para Anderson Silva numa decisão controversa.

O The Last Stylebender luta sempre à vontade, lembrando até o Spider nos tempos áureos. Baixa a guarda, se esquiva com facilidade, tem envergadura que o favorece para deferir chutes altos, cotoveladas, etc. Contra Tavares, praticamente não deixou o havaiano se aproximar.

Derek é um wrestler da divisão II da NCAA e tem jogo para anular a promessa. Se for esperto, vai trocar o mínimo possível, buscar botar para baixo e massacrar no ground and pound.

Mas cobrar esperteza pode ser um pouco demais para Brunson que, sim, tem mãos bem pesadas e por isso adora partir para cima feito um louco para liquidar a fatura. Mas dispara cruzados bem abertos que podem abrir o espaço perfeito para um striker do gabarito de Adesanya.

Card completo

Daniel Cormier x Derrick Lewis
Chris Weidman x Ronaldo Souza
David Branch x Jared Cannonier
Karl Roberson x Jack Marshman
Derek Brunson x Israel Adesanya
Jason Knight x Jordan Rinaldi
Sijara Eubanks x Roxanne Modafferi
Julio Arce x Sheymon Moraes
Ben Saunders x Lyman Good
Matt Frevola x Lando Vannata
Shane Burgos x Kurt Holobaugh
Brian Kelleher x Montel Jackson
Adam Wieczorek x Marcos Pezão

Vale assistir?

Foram anos de batalhas judiciais para liberar o MMA em Nova York. Por isso, com justiça o UFC fez dois cards cheios de pompa no Madison Square Garden. Uma pena que isso não acontece neste terceiro check-in próximo à Estátua da Liberdade.

Se no UFC 205 tivemos Alvarez x McGregor; Woodley x Thompson e Jędrzejczyk x Kowalkiewicz; e no UFC 217 vimos Bisping x St-Pierre; Garbrandt x Dillashaw e Jędrzejczyk x Namajunas; esse UFC 230 está com cara de um Fight Night com uma disputa de cinturão como bônus.

A organização depositou tantas fichas no combate entre Khabib Nurmagomedov e Conor McGregor no UFC 229 que deixou a formação deste card em NY para escanteio. Tanto que tiveram uma dificuldade medonha para arrumarem uma luta principal.

A esperança estava em cima da lutaça Poirier x Diaz, requisitada por muitos fãs para que fosse promovida à main-event. Os próprios lutadores fizeram campanha para que o duelo valesse o cinturão da inexistente categoria até 165lbs. Não vai rolar!

Se a luta principal pode ser divertida por causa da imensa discrepância entre os dois, o co-evento entre Weidman x Jacaré promete uma disputa de alto nível técnico. Ainda assim, é de se lamentar a saída de Luke Rockhold do card.

Adesanya x Brunson tem tudo para ser uma violência animada que pode definir um candidato a pelejas mais altas na parte de cima do ranking do peso médio.

Lembrando aqui, inicialmente, haveria uma espécie de GP informal da categoria, que também acabou desfeito. Yoel Romero x Paulo Borrachinha é outra luta que havia sido anunciada, mas, o cubano pediu mais tempo e o duelo deve acontecer em janeiro.

No card preliminar, há vários casamentos de atletas com estilos empolgantes e que curtem brigas francas, casos de Burgos x Holobaugh; Frevola x Vannata; Arce x Moraes e Knight x Rinaldi; mas sem tanto apelo para puxar audiência.

Então, esse é a situação: um evento cheio de lutas legais, porém, fica a sensação de que poderia ser bem melhor. No fim das contas, o resultado deve ser um card numerado comum, sem muito alarde, mas que não deve deixar a desejar.

Não precisa desmarcar o encontro da sua vida para assistir, mas pode deixar para conferir a cinebiografia da ótima banda Queen, “Bohemian Rhapsody”, no domingo. Dá para chamar os amigos para uma noitada de jogo de tabuleiro enquanto a TV fica ligada.

Mas se deixar para conferir a reprise também não há risco de parada cardíaca. Aliás, se Derrick Lewis se tornar campeão, o apocalipse será pior do que todos imaginam.

  • Juan

    Esse vale deixar a TV ligada.

  • Igor Barbosa

    Imaginem o Lewis acertando um pombo sem asa no começo da luta e desliga o Cormier? Certeza que desbanca GSP x Serra I como maior zebra da história do UFC.

    • Thiago Sampaio

      Bate na madeira!

    • KRS Porlaneff

      Pior que não desbanca… ainda mais no começo da luta.

      Baranga ou não, Lewis terminou dois terços de suas lutas nocauteando, e um terço dessas lutas terminadas em nocaute foram no primeiro round. O poder de KO nas mãos é a única arma que ele tem, e nem de longe é a arma a ser desprezada porque é um nocauteador na HW com muita força. E por mais que a HW hoje seja rasa, Lewis também vem bem constante – embalou 6 vitórias até cair pro Mark Hunt e vem de vitória sobre o Ngannou que “acabou de disputar a cinta” e o Volkov que foi campeão HW do Bellator e estava invicto no UFC (inclusive vencendo o Werdum).

      Cormier tem um queixo fora do comum? Tem. Até hoje, só o Jon Jones anabolizado conseguiu deitar ele. Mas é luta de pesado, onde vale aquelas piadinhas dos comentaristas do Combate e do Esporte Interativo: “até jab nocauteia”, “onde bate o cabelo cai e a barba não cresce mais”…

      GSP VS Serra não foi por aí. Serra sempre era/foi inconstante, só conseguiu o TS porque deram TS pros dois vencedores do TUF 4 (ele e o Travis Lutter), e até aquele instante nunca tinha nocauteado alguém – o mais perto que ele tinha chegado disso foi fazer Shonie Carter bater em desistência enquanto apanhava. E na carreira, Serra só nocauteou mais um cara (Frank Trigg).

      Zebra hoje seria se Conor McGregor anulasse Khabib Nurmagomedov no wrestling e finalizasse o russo rssssssssssssss

      • Igor Barbosa

        Sim, mas o Lewis é aquele tipico desafiante que viu o TS cair no colo, e o fato dele ter esse cartel decente no UFC diz mais sobre o nível da categoria do que o próprio Lewis em si. Cormier tá num momento tão impressionante da carreira que fica difícil até imaginá-lo perder pra alguém que não seja o Jon Jones. Seria bem bizarro, mas não impossível, claro.

    • Malk Suruhito

      Ai logo depois o Lewis acorda com a lanterna no olho…

      • Thiago Sampaio

        Vale lembrar que Lewis já foi nocauteado pelo Matt Mitrione e pelo Shawn Jordan…

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