Vale assistir? A leitura
dinâmica do UFC Moncton

Thiago Sampaio | 25/10/2018 às 22:31

Lá se vão três semanas sem evento do UFC desde o histórico UFC 229 e os brasileiros nem aguentam mais tanta ansiedade.

Mas não por esse retorno sem apelo, mas pelo clima amargo que circula entre milhões de cidadãos que vão às urnas.

Para tentar aliviar, voltamos para a luta de maneira literal e regulamentada com este evento nem tão bombástico, mas que pode quebrar um galho para aquietar os ânimos. E numa das principais estadias do UFC, o Canadá!

O UFC Fight Night 138: Volkan vs. Smith acontece a partir das 19h30 (horário de Brasília) deste sábado (27), na Avenir Centre, em Moncton, New Brunswick.

Na luta principal, os meio pesados nocauteadores Volkan Oezdemir e Anthony Smith vão se chocar buscando um lugar ao sol contra o campeão da categoria, seja lá quem for, em 2019.

No co-main event, o mito! Sim, Artem Lobov está lá, contra tudo e todos! Enfrenta o veterano e nem tão embalado Michael Johnson, pela categoria peso pena.

Mas vamos lá aos destaques!

À procura da batida perfeita

É o que temos para encabeçar esse card: uma luta legalzinha entre dois caras que são incógnitas para o futuro de uma categoria rasa. Afinal, até onde Volkan Oezdermir (15-2, 3-1 UFC) e Anthony Smith (30-13, 6-3 UFC) podem chegar?

Apesar de Volkan ter chegado a uma disputa de cinturão, quando foi dominado e nocauteado com certa facilidade por Daniel Cormier, só conseguiu o title-shot pela escassez de desafiantes. Fora isso, o que ele mostrou? Ter uma mão pesada!

A estreia foi com uma vitória morna por split-decision contra Ovince Saint-Preux. O que impressionou foram os dois nocautes que vieram em seguida em apenas 70 segundos. Apagou Misha Cirkunov em 28s e Jimi Manuwa em 42s. E foi daí para o topo!

Smith tem a chance de provar que é capaz de vencer um atleta da elite dos meio pesados que não esteja aposentado em atividade. Desde que subiu para os 93kg, nocauteou Rashad Evans em 53 segundos e, depois, Maurício Shogun em 1m29s.

Lutando como peso médio, teve a principal vitória no Ultimate nocauteando um decadente Hector Lombard no terceiro round. Depois, proporcionou uma boa anarquia com Thiago Marreta, mas nesta foi ele quem acabou nocauteado.

Como o pôster puxa como chamariz os nocautes mais rápidos de cada um, a expectativa é justamente de uma boa explosão e vai surpreender se o resultado for para as papeletas. Ambos são strikers que não costumam perder tempo.

O suíço tem um estilo não convencional, movimentação esquisita, troca de base o tempo todo e uma mão de pedra em que basta um golpe para apagar a luz alheia. Mas se não consegue, já mostrou contra St-Preux que não tem o gás dos melhores.

A bomba de Oezdemir é um perigo e tanto para o Lionheart, que costuma aceitar a trocação franca e partir para o infighting, muitas vezes sem se preocupar muito com defesa.

O americano, por sua vez, tem um muay thai mais técnico, gosta de chutar, tem potência nos punhos, cotovelos e joelhos. Vai para o matar ou morrer, mas neste caso, partir para o clinche pode ser uma estratégia inteligente.

Das 30 vitórias da carreira, 17 foram por nocaute e 11 por finalização. Venceu apenas duas por pontos. Na contramão, nas 13 derrotas, foi nocauteado sete vezes e finalizado cinco, perdendo só uma por decisão.

E a divisão é tão horrenda que é bem provável que algum dos dois possa encontrar Jon Jones ou Alexander Gustafsson em 2019. Coitados!

Some os carteis e você verá o seu R.G.

O protegido de Conor McGregor, Artem Lobov (13-14-1-1, 2-4 UFC), segue com o emprego graças ao padrinho. Ele faria uma espécie de “vingança pobre” contra Zubaira Tukhugov, amigo de Khabib Nurmagomedov que se envolveu na confusão do UFC 229.

Se Lobov continua no UFC mesmo com cartel negativo e tendo participado do atentado contra o ônibus pré-UFC 223, Dana White garantiu que Zubaira seria demitido. Khabib ameaçou ele próprio sair caso o parceiro rodasse.

Enquanto a novela não é definida, pelo menos da luta, Tukhugov foi retirado. No lugar dele entrou o tarimbado Michael Johnson (18-13, 9-9 UFC), outro que não tem o cartel dos mais bonitos e está longe de se encontrar em boa fase.

O The Menace tem apenas duas vitórias nas últimas sete lutas. Ele, que já bateu nomes como Tony Ferguson, Gleison Tibau, Joe Lauzon e Edson Barboza, proporciona duelos bem divertidos (contra Justin Gaethje então…), mas nem sempre com bom resultado.

Desde que optou por descer da categoria dos leves para os penas, foi finalizado por Darren Elkins, mas na última, venceu Andre Fili numa decisão dividida bem questionável.

Lobov, todos sabem que ele não é grande coisa desde a participação no TUF 22, quando perdeu nas eliminatórias, mas Conor, treinador daquela edição, conseguiu chamá-lo de volta. Chegou à final, sendo derrotado por Ryan Hall.

Nunca justificou sua permanência no UFC. Perdeu para Alex White por decisão, mas depois bateu Chris Avila e Teruto Ishihara. Em seguida, fez um inexplicável main-event contra Cub Swanson, em que perdeu por decisão. Na última, foi superado por Andre Fili.

Tecnicamente, Johnson é bem superior. Tem um boxe afiado, potência nas mãos, sabe controlar no volume de golpes. Acontece que na divisão dos penas, parece ter perdido a contundência e o cardio anda mais problemático com o passar dos rounds.

O The Russian Hammer, o que ele tem de melhor é a marra mesmo, além do queixo duro. Mas é um cara bastante lento, que aposta em socos isolados e um ou outro chute baixo. É facilmente derrubado e, de costas para o chão, tem a efetividade de um Mark Hunt.

Mas falar de chão com Johnson é quase como chamar cego para tiroteio.

Já foi finalizado oito vezes, de diversas maneiras diferentes. Se em pé tem boas chances de dominar o protegido, também não será o apocalipse se a faixa azul de jiu-jítsu de Lobov arrancar os três tapas. Credo!

A certeza é que não vamos ter nenhum show técnico aqui, mas podemos ter uma boa diversão ou uma bizarrice daquelas.

Circo 9 x banguela

Misha é uma beleza de se ver. Mas me refiro à hoje aposentada ex-campeã Miesha Tate, pois Misha Cirkunov (13-4, 4-2 UFC) ainda não justificou todo o auê pela sua renovação.

Enfrenta um banguela que só entrou no UFC pois aceitou pegar Daniel Cormier com uma semana de antecedência sob o pretexto que já fez o gordinho chorar no treino. Esse é Patrick Cummins (10-5, 6-5 UFC).

O letão-canadense chegou a engrenar quatro vitórias em seguida no Ultimate, todas pela via rápida. Ameaçou não renovar o contrato, mas recebeu uma contraproposta animadora. Depois disso, perdeu as duas lutas que fez.

Partiu pra cima feito um louco contra Volkan Oezdemir e bastou um soco para cair nocauteado em 28 segundos. Depois, até estava levando a melhor em pé contra Glover Teixeira, até ir para o chão e sofrer um nocaute técnico no primeiro round.

Cummins, desde a fatídica estreia contra Cormier, quando tinha apenas quatro lutas como profissional e durou pouco mais de um minuto, oscilou resultados, mas quase sempre levando a pior quando pegava alguém de nível mais elevado.

Conseguiu vitórias apertadas nas papeletas contra Jan Błachowicz e Gian Villante, mas, na última, foi dominado por Corey Anderson.

Se falta a ele dente, o mesmo não se aplica ao talento na luta olímpica. É um wrestler de elite, divisão I da NCAA. Mas não é nada muito além disso, contando com uma trocação bem básica e não tem um queixo tão confiável.

Cirkunov é completo, tem um kickboxing bem decente, bate forte e tem chutes altos perigosos. A especialidade é o jiu-jítsu, como bom faixa preta, tem um vasto arsenal de finalizações, com triângulo invertido, triângulo de mão, chave de braço, etc.

A maior dificuldade vai ser levar um wrestler do gabarito de Cummins para o solo para tentar finalizar. Em pé, é superior e a resistência do Durkin não é das melhores. Mas também não vai surpreender se o americano conseguir amarrar por 15 minutos.

Segurança do Neymar pode com o Tarzan?

Sabe aquela luta que fica escondida e pouco falada, mas que promete uma pancadaria bem animada? Assim Nordine Taleb (14-5, 6-3 UFC) e Sean Strickland (19-3, 6-3 UFC) prometem fechar o card preliminar.

Além de terem o mesmo número de vitórias e derrotas no UFC e de ambos terem perdido para Santiago Pozinibbio, eles têm em comum o fato de serem strikers que andam pra frente e sabem defender golpes com a cara.

O francês residente no Canadá, Taleb, vem de derrota por finalização para Cláudio Hannibal, mas antes, nocauteou Danny Roberts com uma brutal sequência de chute alto, cotovelada e socos. Na anterior, superou Oliver Enkamp por decisão unânime.

Tem alguns brasileiros no currículo, valendo a lembrança do duelo contra Erick Silva, quando o “Índio do Amor” fingiu que iria tocar a luva mas mandou um soco. Pagou o preço e depois caiu desligado. Contra Warlley Alves, Nordine caiu na guilhotina fatal.

Já Strickland foi nocauteado pela primeira vez na carreira em sua última aparição, caindo num belíssimo chute rodado de Elizeu Capoeira. Na luta anterior, venceu Court McGee por decisão unânime.

No meio do caminho, foi amassado por Kamaru Usman (o que não é nenhum demérito), mas chegou a vencer em seguida Igor Araújo, Alex Garcia e Tom Breese.

Ex-campeão do peso médio do King of the Cage, Strickland tem um kickboxing afiado, com oito vitórias por nocaute, mas sem tanto punch nos golpes singulares. É burocrático e sabe jogar no erro do adversário.

Nordine, que já fez hora extra como guarda-costas de Neymar, tem maior potência nas mãos e tem maior chance de aniquilar com um golpe, apesar de ser improvável que isso aconteça. A mobilidade não é tão dinâmica como a do Tarzan.

Os dois são faixa marrom de jiu-jítsu, mas não se trata da especialidade de nenhum. Se o negócio apertar, é mais provável que Strickland, que tem quatro vitórias por finalização, recorra para a luta agarrada.

Catar peixinho dourado é crime?

Calvin Kattar (18-3, 2-1 UFC) é um ótimo lutador e aparece sem visibilidade neste card. Antes ranqueado no peso pena, recebe um estreante, o inglês Chris Fishgold (17-1-1, 0-0 UFC), que está longe de ser uma mamata.

O americano já estreou no UFC vencendo com propriedade o então Top 15 Andre Fili por decisão unânime. Em seguida, nocauteou no terceiro round o então invicto e embalado Shane Burgos. Mas na última, foi superado por pontos por Renato Moicano.

Fishgold, cuja tradução ao pé da letra é “Peixe Dourado” (inevitável perceber isso, né?), chega com a moral de ser o campeão dos penas do Cage Warriors, mesmo cinturão que um dia foi de Conor McGregor.

Mas diferente do Notorious, que nunca defendeu um título na vida, Fishgold teve uma trajetória digna como campeão. Conquistou a cinta ao finalizar Adam Boussif e fez três defesas, contra Jason Ponet, Nic Herron-Webb e Alexander Jacobsen.

Aqui temos um típico duelo de estilos. Kattar é oriundo da luta em pé, tem um excelente boxe e explora muito bem os contragolpes. Faixa azul de jiu-jítsu, sabe cadenciar levando para o solo quando precisa, o que não deve acontecer aqui.

Apesar do apelido de “O Finalizador de Boston” que Calvin carrega, é o estreante europeu quem tem a luta de solo como principal arma. Das 17 vitórias da carreira, 12 foram por finalização.

Tem uma guilhotina perigosíssima que, se bobear, ele vai lá e pega. Apesar de contar com uma trocação só mediana, o objetivo dele é sempre abrir uma brecha para enroscar o pescoço do outro.

Será que ele vai conseguir driblar as mãos perigosas de Calvin (que não é o menino amigo do tigre Haroldo) e levar para a sua área? O negócio vai ser interessante de ver.

Card completo

Volkan Oezdemir x Anthony Smith
Michael Johnson x Artem Lobov
Misha Cirkunov x Patrick Cummins
Andre Soukhamthath x Jonathan Martinez
Gian Villante x Ed Herman
Alex Garcia x Court McGee
Nordine Taleb x Sean Strickland
Thibault Gouti x Nasrat Haqparast
Calvin Kattar x Chris Fishgold
Sarah Moras x Talita Bernardo
Te’Jovan Edwards x Don Madge
Arjan Bhullar x Marcelo Golm
Stevie Ray x Jessin Ayari

Vale assistir?

Sabemos que o Canadá é talvez o segundo mercado mais importante do UFC. Em 2018 já tivemos um ótimo evento em Calgary com Poirier x Alvarez e, em novembro, vamos ter o UFC 231, em Toronto. Este de Moncton é aquele para “cumprir tabela”.

É como aquele Fight Night em alguma cidade inédita no Brasil para testar a arena e o público, que você só paga o ingresso se realmente for fã. E se ficar em casa, ainda reflete se assiste ou não.

Fato é que, num ano em que a organização depositou todas as fichas em Khabib x McGregor e ainda terão boas disputas de cinturão até o fim do ano, este card foi montado só para fazer número, como tantos outros.

Artem Lobov de co-main event? Brincadeira, né?! Como se não bastasse isso de bizarrice, ainda tem o freak Gian Villante contra um desgastado Ed Herman, aos 38 anos, no card principal.

Batendo o olho nos nomes, não tem ninguém que chame atenção. Court McGee? O bonzinho Stevie Ray? Os brasileiros Marcelo Golm e Talita Bernardo? Nhé…

Com certeza fica a curiosidade se vai rolar um nocaute na luta principal, se Misha Cirkunov pode fazer algum barulho entre os meio pesados ou se Taleb x Strickland realmente vão fazer um duelo movimentado.

Vale a atenção para Calvin Kattar e o bom Nasrat Haqparast, vulgo sósia de Kelvin Gastelum, que vem de boa vitória sobre Marc Diakiese.

Mas em geral, ninguém vai se corroer se perder este evento. Só mesmo se tiver de bobeira em casa na véspera da Eleição, chorando por antecedência com o resultado, pode sintonizar para ocupar a cabeça e fugir das fake news nas redes sociais.

Mas se você quer evitar mesmo os ataques apocalípticos dos grupos de família do Whatsapp, carrega a pessoa amada para o cinema e confere o ótimo “Nasce Uma Estrela”, com Bradley Cooper e Lady Gaga. É bem na medida!

Mas e se quiser abraçar de vez o terror? O novo “Halloween” que chegou nas telonas está muito bom e a série “A Maldição da Residência Hill”, da Netflix, beira o espetacular! Bem melhor do que ver Villante e Lobov.

  • Igor Barbosa

    Difícil se empolgar com esse card… Vale mais pra combater a abstinência mesmo. O bom é que na semana que vem tem o UFC 230.

    • Thiago Sampaio

      Apesar de alguns casamentos interessantes, em geral o card tá bem fraco mesmo.

  • Mauricio
    • Thiago Sampaio

      The GOAT!

  • Saulo Henrique

    Esse Lobov maluco. .puta que me expandiu. .
    Espero que seja trucidado pelo Michael ” não como mais pão” Johnson.

    • Thiago Sampaio

      Basta Conor pedir, que o emprego do Lobov se torna vitalício, mesmo com trocentas derrotas.

Tags: , , , , , , , , , , , , ,