Vale assistir? A leitura
dinâmica do Bellator 206

Thiago Sampaio | 28/09/2018 às 01:30

Se surpreenderam com o alto nível de entretenimento do UFC São Paulo? Todos nós. E que bom! E se esse final de semana não tem UFC, não precisa chorar pois tem um evento bem legal.

Sim, a coluna Vale Assistir quebra um pouco o protocolo e faz uma prévia de um evento do Bellator, pela segunda vez, pois esse card está bem interessante e merece uma atenção especial.

O Bellator 206: Mousasi vs. MacDonald acontece a partir da meia-noite (horário de transmissão em Brasília), na SAP Center, em San Jose, Califórnia.

Na luta principal, dois ex-atletas do UFC fazem uma superluta. Gegard Mousasi defende o cinturão dos pesos médios contra Rory MacDonald, campeão dos meios médios, que sobe de categoria para tentar ser campeão de duas divisões.

No co-main event, um clássico! Nem tão bombástico pois os protagonistas estão respirando por aparelhos, mas Wanderlei Silva e Quinton “Rampage” Jackson vão se encontrar pela quarta vez.

Mas vamos lá aos destaques!

Nem o Bellator sonhava com isso!

Para quem considera o Bellator uma espécie de “Série B” do MMA, não é exagero dizer que essa luta tem nível para encabeçar qualquer card do UFC. Aqui temos dois atletas de nome, campeões dos médios e dos meio médios, fazendo História.

Gegard Mousasi (44-6, 2-0 Bellator) vinha em ótima fase no UFC desde a fatídica derrota para Uriah Hall. Venceu com propriedade Thales Leites, Thiago Marreta, Vitor Belfort, a revanche contra Hall e o ex-campeão Chris Weidman.

Por opção, não renovou e foi ganhar dinheiro na organização rival. A estreia não foi das melhores. Apesar da vitória por decisão unânime sobre Alexander Shlemenko, a atuação foi bem abaixo do esperado.

Mas já ganhou a chance de disputar o título dos médios e atropelou Rafael Carvalho ainda no primeiro round. Mais um cinturão para a coleção do iraniano radicado na Holanda, juntando na estante dele com os do Strikeforce, Dream e Cage Warriors.

Rory MacDonald (20-4, 2-0 Bellator) não saiu do Ultimate com vitórias como o adversário, mas teria o emprego garantido se quisesse, pois sempre proporcionou momentos emocionantes.

Um deles foi a violência contra Robbie Lawler, valendo o título até 77kg, sem dúvida uma da melhores lutas de todos os tempos. Depois dessa, perdeu por decisão para Stephen Thompson, quando optou por respirar novos ares.

Chegando com o status de estrela no Bellator, estreou finalizando Paul Daley e, na disputa de cinturão, venceu Douglas Lima por decisão unânime em mais um combate insano.

Mousasi tem a vantagem física, lembrando que lutou a maior parte da carreira como meio pesado e até já se aventurou entre os pesados. Tem 1,88m, contra 1,83m do canadense, que busca ostentar cinturões de duas categoria simultaneamente.

O iraniano com expressão de samambaia na seca é um kickboxer de mão cheia. Sabe usar o jab para controlar a distância como poucos e aperta o passo quando vê a oportunidade exata.

É forte no clinche e tem joelhadas perigosas. Como bom especialista em judô e sambo, derruba com certa facilidade, buscando finalizações.

O companheiro de treinos de Georges St-Pierre também é um striker, porém, mais ofensivo na luta em pé. Tem mãos rápidas e curte encurralar o adversário, deixando-o sem espaço. Também é bom no jiu-jítsu, tem sete vitórias por finalização e já disputou competições sem quimono.

Como são dois atletas muito técnicos, há o risco de ambos se estudarem muito, como na vitória de Rory contra Jake Ellenberger por detalhes. Mousasi é favorito até por estar na categoria dele, mas o The Red King nunca entrega uma derrota fácil.

E para quem acha que eles estão num nível diferente do UFC, aqui estão alguns nomes vencidos pela dupla: Nate Diaz, B.J. Penn, Demian Maia, Tyron Woodley, Ronaldo Jacaré, Mark Hunt, Renato Babalu, Dan Henderson, entre outros. É alguma coisa, né?

Rivalidade fora de época

Wanderlei Silva (35-13-1-1, 0-1 Bellator) e Quinton Jackson (37-13, 4-2 Bellator) possuem uma rivalidade de longa data. Mas tão longa que poucos se importam com essa quarta luta entre eles, no peso pesado (!).

As duas primeiras foram vencidas por nocaute pelo brasileiro no auge de ambos, no saudoso Pride, em 2003 e 2004. A primeira teve direito a “tiro de meta” e, na segunda, joelhadas deixaram Rampage estirado nas cordas. Imagem emblemática!

A terceira luta foi em 2008, já no UFC. Com direito a provocações e empurrão na pesagem, Jackson diminuiu o placar. Com um ganchinho de esquerda, o americano desligou Wand e ainda aplicou golpes duros no chão mesmo com o rival apagado.

De lá para cá, muita coisa aconteceu. Rampage foi para o Bellator, voltou para o UFC e foi de novo para a organização de Scott Coker. Wanderlei entrou em litígio com o UFC após a presepada de fugir do exame antidoping pelos fundos da academia.

O Cachorro Louco passou quatro anos sem lutar desde a vitória sobre Brian Stann, no Japão, 2013. Estreou pelo Bellator em junho de 2017, contra Chael Sonnen, com quem brigou com calça comprida e chinelo nos bastidores do TUF Brasil 3.

Visivelmente fora de ritmo, Wand foi amarrado pelo falastrão por três rounds, apesar de ter assustado com um knockdown.

Já Rampage, apesar de ter se mantido ativo, parece ter chutado o balde para a preparação física e subiu de vez para os pesos pesados. As últimas atuações foram apáticas.

Venceu Satoshi Ishii numa controversa decisão dividida, perdeu a revanche para Muhammed Lawal por decisão unânime e, na sua estreia no GP dos pesados, também foi dominado por Sonnen. Nesta luta, bateu impressionantes 115kg.

Hoje, com os dois mais pra lá do que pra cá (Wand conciliou os treinos com sua campanha para deputado federal…), é uma imensa incógnita como eles vão se apresentar.

O americano sempre teve o bom boxe como carro chefe, porém, tem se mostrado cada vez mais lento e sem tanta potência. Apesar do backgroung no wrestling, deixou de lado a luta agarrada como parte do seu gameplan a maior parte da carreira.

Mas todo mundo sabe o que Wand vai fazer: usar o bom muay thai e partir para cima feito um maníaco, buscando o nocaute. Dane-se a defesa! Por muitos anos funcionou até que o tempo passou e o queixo também foi se fragilizando.

Contra Chael, mostrou que ainda tem força nas mãos, ainda que nocautear Jackson continue sendo algo difícil. Se o americano resolver desenterrar o wrestling, é um caminho para vencer. Mas o condicionamento físico é um problema e tanto para os dois!

E oremos para que eles não se animem para a marcação de um quinto combate!

Trilogia dando o start no GP

Uma das atrações deste card é o início do GP da categoria meio médio. Os ex-campeões Douglas Lima (29-7, 11-3 Bellator) e Andrey Koreshkov (20-2, 12-2 Bellator) se enfrentam pela terceira vez, lembrando que estão com uma vitória para cada lado.

O histórico da dupla promete! Douglas se sagrou campeão da categoria em duas ocasiões. Na primeira, venceu por nocaute Rick Hawn e perdeu em seguida para Koreshkov. Recuperou o título um ano depois em cima do próprio russo.

Atleta da American Top Team, tem vitórias sobre nomes como Steve Carl, Ben Saunders, Paul Daley e Lorenz Larkin. Perdeu o cinturão para Rory MacDonald na última aparição, mas fez uma luta duríssima.

Koreshkov, após tomar o cinturão do brasileiro, fez uma defesa contra o ex-UFC Benson Henderson. Foram cinco rounds de passeio! Perdeu a revanche para Douglas, mas depois, conseguiu belos nocautes sobre Chidi Njokuani e Vaso Bakocevic.

Já venceu atletas com passagem pelo UFC, como Lyman Good (que está lá até hoje) e Nah-shon Burrell. Tanto Douglas como Andrey já perderam para Ben Askren.

Apesar de faixa preta de jiu-jítsu de Roan Jucão, o brasileiro assumiu a veia de striker no Bellator. O muay thai ficou cada vez mais apurado, com socos potentes e alternando muitos chutes nas pernas e na cabeça.

Tem 14 vitórias por nocaute, sendo desta maneira que conseguiu mais triunfos na organização. Conta com 11 finalizações, porém, a última foi em 2010, pelo Maximum Fighting Championship.

Russo com sobrenome terminado em “ov” e com apelido The Spartan tem tudo para ser casca grossa, não é? Andrey Koreshkov não é diferente! Assim como o adversário, também curte uma luta em pé. Tem títulos nacionais e mundiais no Pankration.

Também tem mãos pesadas e tem 12 vitórias por nocaute, algumas delas que lhe garantiram bons highlights, com joelhada voadora, cotoveladas e o chute giratório na sua última exibição. Porém, é bem superior na luta agarrada e, fazendo o jogo de pressão, tem boa chance de levar a melhor.

O brazuca é mais técnico e deve usar da maior movimentação para capitalizar. O russo é mais preciso e tem mais ferramentas caso esteja levando um atraso na trocação.

Adrenalina à vista!

As fases do jogo vão dificultando

Poucos atletas geraram tanta expectativa para a estreia no MMA como Aaron Pico (3-1, 3-1 Bellator). Embalado, ele recebe agora talvez o maior desafio no seu “novo” esporte, o brasileiro Leandro Higo (18-4, 1-2 UFC).

A moral não é por menos! Pico é condecorado no folkstyle, freestyle e wrestling greco-romano, com título nacional nos três estilos, nos níveis Cadete e Junior.

Foi o único medalhista de ouro na Equipe dos Estados Unidos, no Campeonato Mundial de Cadetes e colecionou medalhas em vários eventos de nível superior, quando ainda era adolescente.

Como se não bastasse praticar wrestling desde os quatro anos, passou a treinar boxe aos 10. Foi campeão nacional de boxe e do National Junior Golden Gloves no sub-12. Também conquistou o Campeonato Europeu de Pancrácio.

O menino sempre foi sinistro em tudo que se metia! Não à toa o Bellator pensou na frente da concorrência e tratou logo de contratá-lo, deixando ele à vontade para fazer a transição para o MMA e estrear quando se sentisse pronto.

A estreia, aos 20 anos, aconteceu no card principal no maior evento da empresa, na estreia em Nova York. Mas o resultado foi bem diferente do que se esperava.

Pegou Zach Freeman, que já tinha nove lutas de MMA e havia disputado o cinturão do RFA. Deu bobeira e foi finalizado com uma guilhotina em apenas 24 segundos.

Passado o baque inicial, mostrou um pouco do potencial, mesmo recebendo adversários longe de serem “barangas”. Venceu Justin Linn, Shane Kruchten e Lee Morrison, todos por nocaute brutal no primeiro round.

Leandro Higo tem uma carreira mais longa, pelo menos no MMA. Ex-participante do TUF Brasil 4, foi campeão peso galo do RFA, defendendo o título na junção com o Legacy contra Steven Peterson (hoje no UFC), na primeira edição do LFA.

Ao ser contratado pelo Bellator, já foi alçado para disputar o título dos galos contra Dudu Dantas, porém, não bateu o peso e luta não valeu o título. Perdeu por decisão unânime.

Na próxima, o atleta da Pitbull Brothers venceu Joe Taimanglo, também pelas papeletas e, na última, foi finalizado por Darrion Caldwell.

O brasileiro sobe para a divisão dos penas para enfrentar o prodígio e chega como azarão. É de longe o atleta mais experiente que Pico já enfrentou, mas vai precisar decifrar um labirinto para arrancar a vitória.

Higo tem uma trocação razoável, mas sempre a usa para levar para o solo e colocar o ótimo jiu-jítsu em prática. Das 18 vitórias da carreira, 10 foram por finalização.

Tá, Pico foi finalizado na estreia e não é impossível que abra uma brecha, pois ainda não está calejado com a mistura das modalidades. Se Leandro cair por cima, as chances aumentam de maneira considerável.

Mas para levar para o chão um wrestler do nível do moleque é uma missão que até Ethan Hunt, personagem de Tom Cruise em “Missão: Impossível”, sofreria. Em pé, o boxe de Aaron é muito refinado e mostrou que tem muito poder de nocaute, principalmente se encurralar na grade.

Que o lutador de Mossoró trate de proteger a costela!

Card completo

Gegard Mousasi x Rory MacDonald
Quinton Jackson x Wanderlei Silva
Douglas Lima x Andrey Koreshkov
Aaron Pico x Leandro Higo
Keri Melendez x Dakota Zimmerman
Ignacio Ortiz x Jacob Ycaro
Abraham Vaesau x DeMarco Villalona
Arlene Blencowe x Amber Leibrock
Adam Piccolotti x James Terry
Gaston Bolanos x Ysidro Gutierrez
Justin Smitley x Jeremiah Labiano
Joe Neal x Josh San Diego
Chuck Campbell x Joseph Ramirez
Anthony Figueroa x Samuel Romero
Isaiah Batin-Gonzalez x Khai Wu
Ricky Abdelaziz x Laird Anderson
Don Mohammed x Salvador Becerra
Cass Bell x Ty Costa

Vale assistir?

Não é exagero dizer que Mousasi x MacDonald é a maior luta que o Bellator já casou. Pelo menos tecnicamente falando, já que os dois estão no auge e poderiam perfeitamente estar disputando o título no UFC.

É maior do que lutas de peso fora de época, como Wand x Sonnen, Tito Ortiz x Stephan Bonnar, Ortiz x SonnenFedor Emelianenko x Frank Mir, Royce Gracie x Ken Shamrock e, pasmem, Kimbo Slice x Ken Shamrock!

Pode ser uma luta monótona? Talvez. Deve ser tão eletrizante como foi Michael Chandler x Benson Henderson? Não creio. Mas ainda assim, é a que mais chama a atenção.

Mas como a casinha de Scott Coker não pode perder a tradição, trouxe aqui Wand x Rampage 4! Alguém pediu? Não! Mas já que vai acontecer, fica um pouco da curiosidade e nostalgia de quem via as lutas desses brutos no passado.

Mas como se empolgaram com o esquema de GP, o casting dos lutadores que vão disputar esse torneio dos meio-médios está bem respeitável e nada como dois brigadores de alto nível como Douglas Lima e Andrey Koreshkov para iniciar a corrida.

Aaron Pico é um fenômeno do MMA? Ainda não. Mas o Bellator está sabendo tratá-lo de acordo com o potencial que ele tem e Leandro Higo é um adversário de um nível que pode ser um divisor de águas se o jovem passar.

O resto do card não tem nada de interessante? Bom, como investir em card preliminar nunca foi o forte do Bellator e muitas vezes você tem que se virar para conseguir saber o resultado, aqui não há a preocupação para assistir, pois nem terá transmissão.

Sendo assim, pode até curtir à vontade o dia, maratonar séries (“Maniac” pode fazer o seu cérebro funcionar) ou até curtir um bar sem compromisso. Até meia-noite, rola chegar em casa e continuar os trabalhos com o que tiver à disposição na geladeira.

Mas não precisa juntar a galera que não curte tanto o esporte. Ter que explicar que MMA não é UFC e que o universo é bem maior podem tirar o seu conforto.

Nem a presença de Wanderlei, treinador de dois TUFs na TV aberta vai facilitar.

  • Douglas Karpinski

    Eita card bonito rapaz, A luta entre mousasi e red king vai ser insana, só digo isso…..

    • Thiago Sampaio

      Os dois poderiam perfeitamente serem campeões de suas divisões no UFC!

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