Vale assistir? A leitura
dinâmica do UFC São Paulo

Thiago Sampaio | 20/09/2018 às 16:54

Esse fim de semana tem UFC no Brasil e todo mundo está numa animação infinita para torcer pelos lutadores da casa, certo? Nem tanto!

Mais uma vez, o público de São Paulo ficou a ver navios na espera por um evento com nomes de apelo midiático. Mas se não estava animador, o quadro foi se transformando em algo ainda mais sofrível.

O UFC Fight Night 137: Santos vs. Anders acontece a partir das 19h30 (horário de Brasília) deste sábado (22), no ginásio Ibirapuera.

Na luta principal, que inicialmente seria Jimi Manuwa contra Glover Teixeira, acabou em cima da hora com Thiago Marreta contra Eryk Anders, pela categoria dos meio pesados.

Já o co-main event, que antes seria entre Ketlen Vieira e Tonya Evinger, acabou entre Alex Cowboy e Carlo Pedersoli pela categoria dos meio médios.

Além desses, há nomes conhecidos como Minotouro Nogueira, Renan Barão, Charles do Bronx e Francisco Massaranduba, mas que não são grandes o suficiente para alavancar o interesse.

Mas vamos lá aos destaques (sim, eles existem)!

Main event improvisado pelo MacGyver

Essa luta principal rodou mais que disco de DJ numa tertúlia. Estava tudo certo que Thiago Marreta (18-6, 10-5 UFC) substituiria Glover Teixeira, subindo para a divisão até 93kg, e enfrentaria Jimi Manuwa.

Eis que seis dias antes do evento, o nigeriano se lesionou correndo, já em São Paulo. Eryk Anders (11-1, 3-1 UFC) matou essa no peito e fará sua segunda luta principal no Brasil. E cá temos dois pesos médios lutando na categoria de cima.

Seria uma estreia crucial para o ex-TUF Brasil 2 na divisão, contra outro striker bem ranqueado, para saber se teria condições de ficar por lá em caso de vitória. Anders é menos experiente e deve voltar para os 84kg na próxima. Assim, o teste perde força.

Entre os médios, Thiago conseguiu ótimas vitórias por nocaute, sobre Jack Marshman, Gerald Meerschaert, Jack Hermansson e Anthony Smith. Foi nocauteado por David Branch no primeiro round, e, na última luta, venceu Kevin Holland por decisão.

Já Anders teve uma ascensão bem rápida na organização. O ex-campeão do Legacy Fighting Alliance (LFA) estreou atropelando o veterano Rafael Natal no primeiro round e, depois, venceu Markus Maluko por decisão unânime.

Logo em seguida, teve a chance de fazer o seu primeiro main event, contra Lyoto Machida, em Belém. Perdeu numa decisão dividida bastante questionável. Na última, nocauteou Tim Williams com um belo protótipo de “tiro de meta”.

Todos sabem que Marreta bate pesado, tem chutes perigosos e sempre vai partir pra nocautear, ainda que na luta contra Holland tenha mostrado que pode utilizar da luta agarrada para vencer, por mais limitado que seja no chão.

O adversário, que já foi jogador de futebol americano, tem um baita preparo físico, mas tem contra ele o fato de ter aceitado a luta praticamente sem nenhum tipo de treino direcionado.

Tem trocação justa e poder de nocaute, o que certamente vai permitir momentos de emoção nos rounds iniciais. Mas também tem um wrestling perigoso que pode ser decisivo contra o brazuca num confronto de cinco rounds.

Fica a curiosidade sobre como será o desempenho do cidadão da tatuagem horrível sem passar por um corte de peso tão sofrido. Vai perder em agilidade? Vai melhorar a absorção de golpes? O poder de nocaute ficará mais forte? Veremos!

Mais um louco para o Cowboy laçar

Uma das melhores lutas desse evento seria o embate entre Alex Oliveira (19-4-1-2, 8-3-0-1 UFC) e Neil Magny. Mas o orelhudo foi movido para enfrentar Santiago Ponzinibio no UFC Argentina. Em seu lugar, botaram o desconhecido Carlo Pedersoli (11-1, 1-0 UFC).

Aliás, para os fãs antigos dos filmes de ação brucutu ou de algumas “Sessão da Tarde” dos anos 90, o nome é até familiar. Ele é neto do falecido Bud Spencer, aquele que dava golpes de mão aberta e já foi até o gênio numa versão do Aladdin!

Eles, inclusive, compartilham do mesmo nome (Spencer era um nome artístico). Mas como lutador de MMA, o jovem de 25 anos ainda não tem uma história de cinema. Fez só uma luta no UFC, em que venceu Brad Scott por decisão dividida.

Apesar de nascido nos Estados Unidos, representa a Itália. Vem de oito vitórias em seguida, incluindo sobre o ex-UFC Nicolas Dalby, pelo Cage Warriors. Conta com três triunfos por nocaute, quatro por finalização e quatro decisão.

Pouco para o sorridente Alex, que vem da mais importante vitória da carreira, por finalização sobre um decadente ex-campeão interino Carlos Condit. Apesar da derrota para Yancy Medeiros numa lutaça, conseguiu antes ótimas vitórias sobre Ryan LaFlare e Tim Means.

Ainda assim, o embate foi promovido ao posto de co-evento principal pois ambos têm estilos brigadores, não gostam de perder tempo.

O Cowboy honra o bom muay thai que tem, não perde a oportunidade de trocar pancadas e tem poder de nocaute. Mas ele sabe atuar de maneira estratégica. Quando tem do outro lado outro striker perigoso, leva para o clinche, derruba e busca a finalização.

Pedersoli é maluco, não se preocupa tanto com defesa. Por isso, Alex tem boas chances de encaixar um golpe em cheio e deitar o Semento, com possibilidade de levar a melhor também no solo, área onde o italiano tem maior chance de vencer.

É animador que ao fechar a porta do octógono, os dois vão para o matar ou morrer como sempre fazem. Acontece que uma nova vitória do brasileiro sobre alguém não ranqueado vai ser um belo passo para o lado.

(Nem tão) firmes e (nem tão) fortes!

É um choque tantas lutas terem caído num mesmo card, mas Minotouro Nogueira (22-8, 5-5 UFC), o irmão gêmeo menos condecorado do Minotauro, segue nele, firme. Aliás, firmeza a depender da performance contra o freak Sam Alvey (33-10-0-1, 10-5 UFC).

Aos 42 anos, com cinco lutas nos últimos cinco anos, o Lil’Nog teima em não seguir o caminho do irmão, hoje executivo do UFC. Nesse tempo, venceu Rashad Evans por decisão lá em 2013 e Patrick Cummins, por nocaute, em 2016.

Mas nas derrotas, apenas a revanche contra Maurício Shogun, por decisão, foi parelha. Foi nocauteado brutalmente por Anthony Johnson em 2014 e, na última aparição, também em São Paulo, foi dominado e nocauteado no terceiro round por Ryan Bader, em 2016.

O sorriso ambulante Alvey é o oposto em termos de frequência. Vai para a 16ª luta no UFC em quatro anos! É o funcionário padrão que não dá show, mas aqui e acolá impressiona ao encaixar uma mão pesada, além de ser uma figura quase folclórica.

Após 13 lutas como peso médio, resolveu subir para a categoria dos meio pesados, onde está invicto. Nocauteou Marcin Prachnio no primeiro round e, na última exibição, venceu o também limitado Gian Villante por decisão dividida.

A grande incógnita é como Minotouro vai se apresentar fisicamente, pois se fosse há alguns anos, seria franco favorito. Tem ótimo boxe, com credencial de medalha de bronze nos jogos Pan Americanos de 2007, no Rio de Janeiro.

Também é faixa preta de jiu-jítsu, tendo finalizado Dan Henderson no auge do Pride. Mas o tempo paga o preço e hoje ele não conta com nem com a velocidade e nem a resistência de outrora.

O canhoto Smile’N, 10 anos mais novo, tem um punch capaz de nocautear com golpes singulares, apesar de não ter a técnica do Minoto. Tem um estilo esquisito com socos desengonçados e chutes na longa distância.

Tem um senso de urgência quase negativo. Ele espera demais e, quando do outro lado não parte para o ataque, temos bizarrices como foram as lutas contra Elias Theodorou e Ramazan Emeev.

Por isso, a tendência é que o experiente brasileiro seja o caçador na luta, buscando encurralar na base dos socos mesmo. Mas uma mão do loiro pode entrar e o papo sobre aposentadoria será iminente.

Sombra do Barão x Quem?

Se Marty McFly pegasse o seu DeLorean no ano de 2013 e caísse em 2018, ao ver Renan Barão (34-6-0-1, 9-5 UFC) num Fight Night brasileiro contra um estreante, sem sequer estar entre as atrações principais, iria acreditar num bug no universo!

É de impressionar a queda de nível do ex-campeão dos galos, que por conta das atuações ruins recentes, vai recepcionar Andre Ewell (13-4, 0-0 UFC), numa clara tentativa de colocá-lo de novo no caminho das vitórias.

Desde a fatídica derrota para T.J. Dillashaw em 2014, aquela em que ele “perdeu a alma”, só venceu duas lutas, contra Mitch Gagnon e o fraquíssimo Phillipe Nover. Mesmo nessas, as performances foram muito abaixo do esperado.

De lá pra cá, foi nocauteado por Dillashaw na revanche e perdeu por pontos para Jeremy Stephens quando se aventurou pelo peso pena numa luta até animada, mas ao voltar para os galos, foi dominado por Aljamain Sterling (luta em peso casado) e Brian Kelleher.

Ewell chega como campeão do CES MMA e tem passagens por eventos como LFA e o KOTC. O apelido Mr.Highlight fala muito sobre ele: é o cara que entra para dar show. Tem sete vitórias por nocaute, quatro por finalização e só duas por decisão.

O discurso do Barão nas últimas lutas era que os treinos na American Top Team trouxeram foco de novo, a dieta estava em dia e tudo mais. Acontece que as atuações apáticas contra Sterling e o só mediano Kelleher não deram indícios para otimismo.

A defesa de quedas que antes beirava a perfeição, falhou muito. Sorte a dele que Ewell não é nenhum mestre no wrestling. Pelo contrário, ele sempre parte para a trocação buscando o nocaute, curte golpes plásticos e abre muitas brechas.

Tecnicamente, Barão ainda é bem mais completo. Se conseguir evitar ficar como alvo fixo, utilizar o bom boxe em linha, alternando com chutes baixos, tem boas chances de cozinhar um resultado positivo. No chão, tem um jiu-jítsu muito superior.

Mas se perder essa, definitivamente não haverá mais espaço para paraibagem no UFC.

Para ultrapassar Royce Gracie!

Um dos últimos reforços de algum peso nesse card foi Charles Oliveira (22-8-0-1, 11-8-0-1 UFC). Mas como é quase padrão aqui, o adversário não é ninguém de impacto. O escolhido em questão é Christos Giagos (15-6, 1-2 UFC), que retorna ao Ultimate.

Apesar de pedir para voltar ao peso pena, Do Bronx lutará de novo no peso leve. O paulista vem de boa vitória por finalização sobre o experiente Clay Guida no primeiro round, no UFC 225, tendo aceitado o combate com apenas 10 dias de antecedência.

Na ocasião, Charlinho vinha de uma dura derrota por nocaute para Paul Felder. Antes disso, havia vencido Will Brooks por finalização. Porém, ainda como peso pena, havia sido finalizado por Ricardo Lamas e Anthony Pettis.

Já Giagos inicia sua segunda passagem pelo UFC. Na primeira, venceu apenas o brasileiro Jorge Blade por finalização. Foi demitido após derrotas para Gilbert Durinho, finalizado com uma chave de braço, e para Chris Wade, por decisão.

Passou pelas organizações West Coast FC, RFA e ACB, conseguindo quatro vitórias (três sobre brasileiros) e duas derrotas. O último triunfo foi sobre Herdeson Batista pelo evento russo, em edição realizada também em São Paulo.

E aqui temos um típico duelo de estilos que o brazuca só perde se der algum mole tremendo. Por mais que tenha melhorado no muay thai, a guarda baixa é um problema recorrente, então, deve tentar trocar o mínimo possível.

Ele tem, sem dúvidas, um dos melhores jiu-jítsu do UFC e deve buscar uma finalização o mais rápido possível. Por sinal, se conseguir o feito, vai bater o recorde na empresa, pois atualmente está empatado com Royce Gracie, com 10 cada.

O The Spartan é basicamente um wrestler de colegial que se tornou um striker nas artes marciais mistas. Tem mãos pesadas, gosta de atirar mata-cobras, tem joelhadas perigosas e um ground and pound eficiente. Conta com oito vitórias por nocaute.

Tem um bom nível no chão mas, apesar de não ser derrubado tão facilmente, uma vez ali, a disparidade de nível entre os atletas é imensa. Lembrando que ele já foi finalizado três vezes.

Com direito a despedida, entendeu?

Indo para a sua 13ª participação em eventos no Brasil, Francisco Massaranduba (22-6, 12-5 UFC) mais uma vez preenche o card preliminar. Desta vez, será responsável pelo duelo de despedida de outro veterano, o americano Evan Dunham (18-7-1, 11-7-1 UFC).

O humilde e carismático Massara é aquele cara que tem o emprego garantido, aos 40 anos, apesar de não desfrutar de tanto prestígio. Já chegou a engrenar sete vitórias em seguida, até ser parado por Kevin Lee, que na época nem era ranqueado.

Passado o baque, venceu com propriedade o também experiente Jim Miller por decisão unânime, mas em seguida, foi superado por James Vick, também por pontos, numa luta monótona.

Dunham, de 36 anos, está no UFC desde meados de 2009! Tem uma vasta trajetória, com vitórias sobre nomes como Nik Lentz, Gleison Tibau, Ross Pearson e Joe Lauzon. Na última luta, foi nocauteado em apenas 53 segundos por Olivier Aubin-Mercier.

Já figurou no top 15 da categoria dos leves, mas sempre perdia quando recebia algum desafio de maior nível, como foi contra Rafael dos Anjos, Donald Cerrone e Edson Barboza. No passado, foi superado por Melvin Guillard e Sean Sherk.

É um wrestler de raiz e também faixa preta de Wellington “Megaton” Dias. Nos últimos combates, tem se arriscado a luta em pé a maior parte do tempo, ainda que ele seja mesmo efetivo controlando no solo e capitalizando no ground and pound.

Massaranduba é completo, eficiente no jiu-jítsu (saudade do “Massaratame”!), e, sob o comando de André Dida na Evolução Thai, foi se mostrando cada vez mais bruto na trocação. E é mesmo em pé que ele deve assumir o papel de agressor.

O brasiliense já mostrou em algumas ocasiões ter dificuldade quando está com as costas no chão, o que é o caminho natural a ser seguido por Dunham.

Ao final, o americano deve colocar as luvas no centro do octógono e curtir a vida sem se preocupar em levar pancada na cara todo dia. Já o nosso Trinaldo segue forte na eterna luta, independente do resultado.

Card completo

Thiago Marreta x Eryk Anders
Alex Cowboy x Carlo Pedersoli
Minotouro Nogueira x Sam Alvey
Renan Barão x Andre Ewell
Randa Markos x Marina Rodriguez
Charles do Bronx x Christos Giagos
Francisco Massaranduba x Evan Dunham
Luis Henrique KLB x Ryan Spann
Augusto Sakai x Chase Sherman
Serginho Moraes x Ben Saunders
Mayra Sheetara x Gillian Robertson
Thales Leites x Hector Lombard
Elizeu Capoeira x Luigi Vendramini
Lívia Renata Souza x Alex Chambers

Vale assistir?

Quando Thiago Marreta entrou para substituir Glover Teixeira, muitos acharam que a luta principal “caiu pra cima”. Mas à medida que vários outros combates foram caindo, o card de São Paulo, que já não estava grande coisa, ficou difícil de defender.

Por coincidência (ou não!), as lutas que caíram estavam entre as mais atrativas do evento: Neil Magny x Alex Cowboy; Antônio Cara de Sapato x Elias Theodorou; Ketlen Vieira x Tonya Evinger e Elizeu Capoeira x Belal Muhammad.

A tristeza aumenta quando lembramos que José Aldo x Donald Cerrone chegou a ser planejado para salvar o main event. Mas temos que nos contentar com Carlo Pedersoli, Sam Alvey, Andre Ewell e Christos Giagos contra alguns dos principais nomes…

Marreta x Anders promete? Sem dúvida! Mas não para puxar um evento e fazer um público desembolsar centenas ou até milhares de reais em ingresso, além do deslocamento. Imagina pagar por passagem de avião e hospedagem para quem é de outro Estado.

Claro, devem ter lutas boas, há expectativa de nocautes e finalizações. Tem a luta de despedida de Thales Leites contra o decrépito Hector Lombard que vale a assistida. O mesmo vale para o duelo de estilos entre Serginho Moraes e Ben Saunders.

Para fazer volume, usaram o card como “depósito” para os atletas saídos do Contender Series Brasil, casos de Augusto Sakai, Marina Rodriguez e Mayra Sheetara.

Sakai é um bom reforço para a envelhecida divisão dos pesados e a empolgante striker Marina impressionou no programa de TV, mas, aqui, são apenas complementos a serem observados.

Não seria surpresa se o UFC tivesse ligado para Vitor Belfort oferecendo um novo contrato. Até nomes batidos como Felipe Sertanejo (hoje na “A Fazenda”), Erick Silva, Gleison Tibau e Godofredo Pepey serviriam para preencher a festa. E William Patolino? Tá, nem tanto!

Sendo assim, se você é milionário ou tem grana de sobra em tempos de crise, vale ir ao ginásio pela ótima experiência de ver um UFC ao vivo. Caso contrário, espera pela próxima. E se tiver em casa? Só mesmo se tiver de bobeira e sem opções do que fazer.

Mas se você acha que esse card foi uma ofensa para o público paulista e apenas quer ignorá-lo? Não julgamos! Quer uma dica? Vá ao cinema e assista ao suspense “Buscando…”. Filmaço!

  • Julio Varoni

    Apesar de ruim no papel acho que esse UFC vai surpreender.

    • Thiago Sampaio

      Tem lutas que devem ser muito boas mesmo!

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