Vale assistir? A leitura
dinâmica do UFC Moscou

Thiago Sampaio | 13/09/2018 às 16:14

Na semana passada, Tyron Woodley calou a boca de muitos críticos (muitos de nós do Sexto Round, inclusive) e atropelou Darren Till. Agora, a maior organização de MMA do mundo finalmente chega a um dos seus principais mercados: a Rússia!

Mas, do contrário do que muitos imaginavam para este marco histórico, os principais nomes do país não estão no card, casos de Khabib Nurmagomedov, Alexander Volkov, Zabit Magomedsharipov, Islam Makhachev, etc.

Fédor Emelianenko? Vitaly Minakov? Esses é que passam longe do UFC desde sempre mesmo!

Na base do “vai com o que tem”, o UFC Fight Night 136: Hunt vs. Oleinik acontece a partir das 11h30 (horário de Brasília), no Olimpiyskiy Stadium, em Moscou. Lá fora, o evento será todo transmitido pelo UFC Fight Pass (…).

Na luta principal, os vovôs Mark Hunt e Alexey Oleinik se enfrentam pela categoria dos pesos pesados. No co-main event, a atração é o retorno de Nikita Krylov, que enfrenta o polonês Jan Błachowicz.

De resto, vários lutadores locais que já mostraram seus valores dentro do próprio UFC e, por isso, devem garantir a festa da torcida.

Mas vamos lá aos destaques!

É o que temos para hoje, Rússia

Se essa não era a luta principal dos sonhos dos russos, espera-se que Mark Hunt (13-12-1-1, 8-5-1-1 UFC) ou Alexey Oleinik (56-11-1, 5-2 UFC) se esforcem para encerrar ela pela via rápida. Afinal, somados, são 85 anos de idade para cinco rounds!

Hunt, substituindo Fabrício Werdum que foi flagrado em exame antidoping fora de competição, parece incansável na missão de empatar o próprio cartel em número de vitórias e derrotas. Já são 19 anos desde que estreou no kickboxing e 14 no MMA!

Aos 44 anos, o Super Samoan venceu apenas Derrick Lewis nas últimas quatro lutas. Perdeu por decisão para Brock Lesnar (resultado depois alterado para no-contest), foi nocauteado por Alistair Overeem e, na última, foi dominado por Curtis Blaydes.

Representante da casa, o russo Oleinik não fica atrás em bagagem. Com 41 anos, já são quase 70 lutas como profissional nas artes marciais mistas desde 1996! Porém, chegou ao UFC apenas em 2014, após vitória sobre o veterano Mirko Cro Cop.

Finalizou Anthony Hamilton, Jared Rosholt, Viktor Pešta, Travis Browne e Júnior Albini. No meio do caminho, perdeu para Daniel Omielańczuk por decisão e foi derrotado numa estranha interrupção médica para Curtis Blaydes.

Apesar das trajetórias infinitas, o neozelandês parece apresentar mais sinais de cérebro chacoalhado. Até já revelou uma série de sequelas, perda de memória e disse que provavelmente “morreria lutando”.

Mesmo gritando por uma aposentadoria, o veterano do K-1 e do Pride ainda é um cara perigosíssimo em pé. Se o soco entrar em cheio, qualquer um pode cair fora de sintonia e depois ele só se vira de costas e sai caminhando.

Com as costas no chão, Hunt é tão efetivo quanto uma tartaruga com o casco no solo e também não vai ameaçar finalizar. Antes ele não era levado para o solo com tanta facilidade, evitando as entradas com golpes de encontro. Mas contra Blaydes, foi anulado.

É justamente onde Oleinik pode buscar a 47ª (!) finalização da carreira. Tem como especialidade a ezequiel choke, tão rara no MMA pela ausência da pegada na manga do quimono. No Ultimate, venceu duas vezes assim e ninguém mais conseguiu.

O The Boa Constrictor tem títulos no sambo, derruba com eficiência, ainda que conseguir isso com um cidadão de cerca de 130kg como Hunt não seja brincadeira.

Em pé, já se mostrou bem atabalhoado e corre o risco de desabafar se for trocar golpes buscando a aproximação. Vale lembrar que o adversário mais gabaritado que ele venceu no UFC foi Browne, que vinha em franca decadência.

Enfim, temos um interessante duelo de estilos entre dois veteranos pesados que vão partir para liquidar a fatura a qualquer custo, pois nem eles aguentam tanto tranco.

Reforço para categoria devastada

Muitos lamentaram quando o promissor Nikita Krylov (24-5, 6-3 UFC) optou por não renovar com o UFC. Mas agora ele está de volta e alçado para o co-evento principal contra Jan Błachowicz (22-7, 5-4 UFC) que, incrivelmente, vem em boa fase.

No Ultimate, o ucraniano Krylov começou como peso pesado. Mas desde que desceu para a escassa categoria dos meio pesados, chegou a emplacar cinco vitórias em seguida, até ser finalizado por Misha Cirkunov, em dezembro de 2016.

Depois, resolveu testar novos ares e ganhar uma grana extra. Fez quatro lutas e venceu todas. Finalizou Stjepan Bekavac e nocauteou Maro Perak, Emanuel Newton e Fábio Maldonado. Nesta última, faturou o cinturão até 93kg do Fight Nights Global.

Błachowicz, apesar de ter estreado nocauteando Ilir Latifi, perdia quando o nível do adversário subia um pouco. Assim foi superado por pontos por Jimi Manuwa, Corey Anderson, Alexander Gustafsson e Patrick Cummins.

Porém, o polonês vem embalado e vive o melhor momento no UFC, com três vitórias em seguida: finalizou Devin Clark e superou por pontos Jared Cannonier e na revanche contra Manuwa.

Conta com uma trocação razoável e conseguiu ser superior ao striker Manuwa na última luta. Ainda assim, deve tentar trocar golpes apenas o necessário contra Krylov. É forte no clinche e a tendência é agarrar, usar o bom wrestling e até buscar uma finalização.

Não é nenhum primor, mas ainda está acima do nível dos adversários que o The Miner enfrentou fora do UFC (sim, isso inclui Maldonado!). Se Nikita (que não é a música do Elton John…) vencer, já chega para embolar a parte de cima do ranking.

O jovem de 26 anos é um atleta completo em todas as áreas e só tem apresentado evolução. Não à toa, das 24 vitórias da carreira, nenhuma foi por decisão. Foram 10 por nocaute e 14 por finalização.

Faixa preta de karate kyokushin, joga bem nos contragolpes, tem chutes altos muito perigosos e também tem mostrado potência nas mãos. Também tem um arsenal amplo no solo, com finalizações com guilhotina, mata-leão, kimura, chave de braço, por aí vai.

Ainda assim, já foi finalizado quatro vezes. Błachowicz deve buscar desgastá-lo e tentar arrancar os quatro tapas, ainda que dificilmente vá conseguir o que fez com Devin Clark, vencendo com um mata-leão torto, em pé, sem nem passar os ganchos.

Na base da insistência

É estranho chamar Andrei Arlovski (27-16-0-1, 16-10 UFC) de ex-campeão do UFC, levando em conta que isso aconteceu em 2005. Mesmo em visível queda, ele não poderia ficar de fora dessa estreia na Rússia e encara Shamil Abdurakhimov (18-4, 3-2 UFC).

Só mesmo os fatos de ter um nome forte e a divisão dos pesados estar rasteira justificam ele não ter sido demitido após cinco derrotas consecutivas. Mas, foram para nomes do topo da categoria, com exceção de Marcin Tybura.

Parecia que o fim era iminente, mas o bielorusso de 39 anos se recuperou engatando duas vitórias por decisão, sobre Júnior Albini e Stefan Struve. Na última, voltou a perder, mas por pontos, para o garotão Tai Tuivasa, numa luta equilibrada.

Abdurakhimov está na medida para o The Pitbull voltar a vencer. Ele, que já teve a chance de fazer uma luta principal, contra Derrick Lewis, e nos entregou um dos combates mais horrorosos dos últimos tempos, em que acabou nocauteado no quarto round.

Além dessa tortura em que a maior competição era pra saber quem se cansava mais do que o espectador, o russo estreou sendo nocauteado pelo bigodudo Timothy Johnson. Porém, tem vitórias sobre os fraquíssimos Anthony Hamilton, Walt Harris e Chase Sherman.

Se por um lado Arlovski tem uma base forte de sambo e kickboxing, o queixo nunca foi dos mais confiáveis. Shamil bate forte, contando com oito vitórias por nocaute. Mas o ex-campeão até que aguentou legal nas últimas, mesmo levando golpes duros de Tuivasa.

O Abrek também não é nenhum bebê, tem 37 anos, e é aquele clichê do pesado que não tem boa mobilidade. Um típico russo duro, praticante de wrestling freestyle que migrou para o kung fu e se tornou pentacampeão nacional em Sanshou (vulgo boxe chinês).

Até derruba com certa eficiência, mas Andrei sempre teve uma defesa razoável e só foi finalizado uma vez na carreira (para Josh Barnett). Então, a tendência é que eles testem quem tem a resistência menos ruim na base da pancada.

Se não sucumbir, o The Pitbull tem boas chances de levar a melhor na base de contragolpes, chutes baixos, intercalando com clinches e pressão na grade.

E se vencer, não seria má ideia se deixasse a luva no meio do octógono e anunciasse o fim da carreira de maneira honrosa. Seus “vizinhos” na arena certamente iriam curtir.

Pitbull x Carcaju

Já que estamos falando de lutador com apelido Pitbull e com sinais de fim de carreira, o evento dá uma nova chance a Thiago Alves (22-12, 14-9 UFC). E mandaram pra ele um estreante cascudo, o russo Alexey Kunchenko (18-0, 0-0 UFC).

O cearense, no UFC desde 2005 e que disputou o cinturão dos meio médios em 2009, quando perdeu para Georges St. Pierre, coleciona lesões ao longo da carreira. Vai lutar pela segunda vez no ano, algo que não acontecia desde 2015.

Em 2016, até quis se reinventar numa tentativa tardia e falha de descer para os leves, mas perdeu para Jim Miller por decisão. De volta aos 77kg, até venceu o veterano Patrick Côté por pontos, mas, na última, foi nocauteado por Curtis Millender.

Depois de Millender, mais uma vez ele recepciona um novato que adora liquidar lutas de maneira rápida. Atual campeão dos meio médios do M-1 Global, está invicto em 18 lutas, 13 vitórias por nocaute, uma por finalização e quatro por decisão.

Faturou o cinturão da organização russa vencendo Murad Abdulaev por nocaute técnico, defendeu ele na revanche ganhando por decisão, depois ainda venceu Maksim Grabovich por pontos e nocauteou Sergey Romanov e Alexander Butenko.

Visivelmente o Wolverine (até o apelido do cara é estiloso!) está sendo jogado nesse card principal, contra um nome conhecido mas longe do auge, já na expectativa de um show diante da plateia.

Pitbull não é tão velho (tem 34 anos, mesma idade do adversário), mas está no MMA desde 2001, além de competir no muay thai desde a infância. O agora treinador da American Top Team é um guerreiro que carrega as consequências desses anos de batalhas.

Ainda assim, não tem como negar que vê-lo em ação é empolgante. Tem um muay thai de alto nível técnico, gosta de cair pra dentro buscando o nocaute, mas também sabe a hora de sair do raio de ação do adversário.

Contra outro nocauteador doido para mostrar serviço, não seria uma má ideia se botasse pra valer a faixa marrom de jiu-jítsu. Clinchar, usar a isometria e até tentar levar para o solo como parte da estratégia na atual fase é questão de bom senso.

Que o sangue nordestino tenha a bravura necessária para esta anarquia!

Card completo

Mark Hunt x Alexey Oleinik
Jan Błachowicz x Nikita Krylov
Andrei Arlovski x Shamil Abdurakhimov
Thiago Pitbull x Alexey Kunchenko
C.B. Dollaway x Khalid Murtazaliev
Petr Yan x Jin Soo Son
Rustam Khabilov x Kajan Johnson
Mairbek Taisumov x Desmond Green
Magomed Ankalaev x Marcin Prachnio
Jordan Johnson x Adam Yandiev
Ramazan Emeev x Stefan Sekulic
Merab Dvalishvili x Terrion Ware

Vale assistir?

Foram anos de espera para o UFC finalmente pousar na Rússia, um dos mercados com maior potencial financeiro e material humano a ser explorado nas artes marciais mistas.

Justamente por causa disso, essa vinda sem as principais estrelas do país deixa um gosto amargo, deixando até uma impressão de desprezo com esse evento. Montaram ele com as peças que tinham à disposição, sem maiores esforços.

Se a expectativa era ver Khabib Nurmagomedov x Conor McGregor num estádio, a realidade com os velhinhos Hunt x Oleinik exibido num Fight Pass é um tanto decepcionante, por mais que seja um curioso choque de estilos.

Ter Nikita Krylov de novo no plantel é digno e as presenças dos veteranos Andrei Arlovski e Thiago Pitbull (este servindo de isca para o empolgante Alexey Kunchenko) conferem algum peso. Mas é pouco.

Fica a curiosidade para os bons nomes no card preliminar, com destaque para o excelente peso galo Petr Yan, ex-campeão do ACB. O nocauteador faria ótima luta contra Douglas D’Silva, que se lesionou e sobrou para o estreante Jin Soo Son ser jantado.

Mairbek Taisumov é outro da mão pesada que sempre garante uns highlights. Ramazan Emeev é um ótimo lutador, vem de boas vitórias sobre Sam Alvey e Alberto Miná, e figura como mais um a ser observado com atenção.

O carrapato Rustam Khabilov está encarregado de arremessar pra lá e pra cá o mediano Kajan Johnson, como punição por zoar o Dana White na pesagem da última luta.

Então, essa é a situação: um card legal, cheio de novos talentos e alguns que já passaram de sua época. Garante alguma distração como boa parte dos eventos europeus, mas dificilmente alguém vai rasgar a bolinha de controle de ansiedade. É apenas “mais um”.

Para uma tarde de sábado monótona, fica como opção, concorrendo forte com maratonar a excelente série de ação/espionagem “Jack Ryan”, da Amazon Prime Video. Se curte mistério e as obras de Stephen King, a série “Castle Rock” é obrigatória.

Aos iniciantes no esporte, certamente é mais empolgante ver as reprises das lutas do Khabib ou os combates de Fédor nos tempos áureos do Pride.

  • Sergio Araujo

    Cardzinho vagabundo. Tá pior q o de São Paulo. E pensar q uns meses atrás a galera Tava pilhada achando q teríamos Connor x Khabib nesse card…

    • Thiago Sampaio

      Como disse no texto, pareceu que a organização não se esforçou para fazer um um card de peso num mercado tão forte como a Rússia.

  • Levi Gonçalves Diniz

    Esse final de semana tem Canelo X GGG acho que vale mais a pena em

    • Thiago Sampaio

      Mas é bem mais tarde. Rola assistir os dois de boa!

    • Mauro

      Canelo não tinha sido pego no doping?

      • Thiago Sampaio

        Sim, mas pegou apenas seis meses de suspensão. Por isso a luta foi adiada para 15 de setembro (sábado).

        • Mauro

          Ah, valeu.

  • Vicente Fernandes

    Quem realmente é fã de mma consegue pescar lutas legais nesse card, pra uma tarde de sábado descompromissada da pra assistir, serve até como esquenta pra GGG vs Canelo.

    • Thiago Sampaio

      Sem dúvida. O card não está ruim. Inclusive a porção preliminar tem bons nomes como Ramazan Emeev, Mairbek Taisunov, Rustam Khabilov e, principalmente, Petr Yan. Só lamentamos quando imaginamos a grandiosidade que poderia ter sido esse card de estreia na Rússia, tanto com nomes como divulgação.

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