Vale assistir? A leitura
dinâmica do UFC Lincoln

Thiago Sampaio | 23/08/2018 às 17:38

Nossa, três semanas sem UFC parece uma eternidade para os fãs de luta. Finalmente a espera acabou, ainda que o card não seja daqueles que contamos os segundos para ele chegar.

O UFC Fight Night 135: Gaethje vs. Vick acontece a partir das 19h15 (horário de Brasília) deste sábado (25), na Pinnacle Bank Arena, em Lincoln, Nebraska.

Na luta principal, o sem noção do Justin Gaethje busca se recuperar de duas derrotas contra James Vick, que “estreia” em main-event promovendo um trash talking bizarro chamando o rival de bêbado e de Homer Simpson.

No co-main event, Michael Johnson tenta sair da péssima fase e afastar da possibilidade de demissão contra Andre Fili, em sua segunda aventura pela categoria peso pena.

Ah, mas quem vai lutar de brasileiro? Bom, se você quer torcer, nada menos que seis atletas do país vão dar as caras. Não precisa endoidar com o fato deles não serem tão famosos!

E vamos lá aos destaques!

Melhor defesa é o ataque?

Justin Gaethje (18-2, 1-2 UFC) possivelmente nunca será campeão do UFC, mas pelo estilo kamikaze, todo mundo senta na poltrona para ver o cara. Mesmo vindo de derrotas, ele faz seu terceiro evento principal em quatro lutas pela organização, pois o show é garantido!

Originalmente ele enfrentaria Al Iaquinta, que saiu por lesão. Foi a chance para James Vick (13-1, 9-1 UFC), com quem já vinha trocando provocações há algum tempo, deixar a luta que faria contra Paul Felder para encabeçar o seu primeiro evento.

O ex-campeão do extinto WSOF chegou ao UFC fazendo barulho num duelo repleto de reviravoltas contra Michael Johnson, em que venceu por nocaute no segundo round. Um dos melhores de 2017!

Depois, contra Eddie Alvarez, conheceu a primeira derrota na carreira em 19 lutas. Em mais uma pancadaria insana, foi acertado por uma joelhada no terceiro round que o levou à lona.

Mesmo assim, fez em seguida outra luta principal, contra o também agressivo Dustin Poirier, em abril. De novo saiu com grana extra no bolso faturando o terceiro bônus seguido de Luta da Noite, porém, acabou nocauteado no início do quarto round.

Vick teve uma trajetória mais discreta desde que integrou o time de Dominick Cruz no TUF 15. Chegou ao Ultimate com apenas quatro lutas como profissional e perdeu apenas uma vez, por nocaute para Beneil Dariush.

Desde então, vem em ótima fase, com quatro vitórias em seguida: sobre Abel Trujillo, Polo ReyesJoseph Duffy e Francisco Massaranduba. Agora, finalmente se encontra na 10ª posição da concorridíssima categoria dos leves.

Tendo Gaethje no octógono, é certeza vê-lo partindo para o nocaute, defendendo golpes com a cara e continuar andando para frente, mesmo seminocauteado. Das 18 vitórias, 15 foram por nocaute e apenas duas foram para a decisão.

Mas ele já viu que contra a elite, o buraco é mais embaixo. Se antes utilizava o forte background no wrestling apenas para defender quedas, ele já avisou que vai passar a usá-lo de maneira ofensiva. Mas entre o falar e o fazer existe uma interrogação do tamanho do Megazord.

No alto dos seus impressionantes 1,91m, Vick tem jogo para usar a envergadura que o favorece e controlar o The Highlight na distância, evitando o infight que ele tanto gosta.

O The Texecutioner tem boa mobilidade, o suficiente para circular até deixar Gaethje cansado. Apesar de ser apenas faixa azul de jiu-jítsu, tem cinco finalizações no cartel e, se for para o chão, tem potencial para tirar algo da cartola.

Mas Justin é tão divertido quanto aquele filmes de terror em que o monsto parece estar morto, mas acorda do nada para um ataque fatal. Para ficar ligado!

Ou vai ou racha. Mesmo!

Um possível último suspiro de Michael Johnson (17-13, 8-9 UFC) na empresa figura de co-evento principal, contra um também irregular, porém embalado, Andre Fili (17-5, 6-4 UFC). Apesar do cenário nada atrativo, o estilo da dupla justifica essa posição no card.

O cartel cheio de derrotas de Johnson até pode passar a impressão de que ele é um mau lutador, mas já bateu nomes como Tony Ferguson, Gleison TibauJoe Lauzon e Edson Barboza. Nas últimas seis lutas, venceu só venceu uma (um nocautaço numa zebraça em cima de Dustin Poirier).

Depois do passeio sofrido para Khabib Nurmagomedov (sem surpresa!) e o nocaute na luta frenética contra Gaethje, resolveu testar novos ares, descendo da categoria dos leves para a dos penas. Na estreia até 66kg, foi finalizado por Darren Elkins.

Fili surgiu como uma grande promessa da Team Alpha Male, mas só agora, cinco anos depois que estreou no UFC, conseguiu vencer duas em seguida. Vem de triunfos por decisão sobre Artem Lobov (obrigação, né?!) e Dennis Bermudez (decisão bem equilibrada).

Nesse meio tempo, já foi finalizado por Max Holloway, por Godofredo Pepey, nocauteado de maneira brutal por Yair Rodríguez e superado por pontos por Calvin Kattar.

A tendência é que a maior parte do combate se desenrole na trocação e Johnson tem vantagem se conseguir colocar o bom boxe em prática, onde tem potência e um bom controle de distância. O problema é que muitas vezes tem a defesa vazada com golpes abertos.

O ponto fraco de The Menace é, sem dúvidas, o jogo de solo, onde foi finalizado oito vezes! Nesse montante, bote aí um festival de batucadas por triângulo, chave de braço invertida, guilhotina, kimura e mata-leão.

O pupilo de Fábio Pateta e Urijah Faber é habilidoso no muay thai, conta com chutes plásticos e um certo poder de nocaute. Usa o wrestling como ferramenta complementar, apesar de não ser um especialista no chão.

Ainda assim, tem um leve favoritismo se lutar de maneira estratégica, assim como fez com Lobov. Trocar apenas o necessário, intercalando com quedas, onde tem boas chances de levar a melhor.

Mas esse é um raro caso em que o espectador ganha com o fato de nenhum deles ter o melhor dos QI. Se resolverem travar uma pancadaria em pé, o negócio até que pode ser animado. Nesse cenário, Johnson consegue ser melhor brigador.

Viva as chances da vida!

Qual a principal qualidade de Jake Ellenberger (31-14, 10-10 UFC) atualmente? Com certeza é a boa relação que ele tem com a diretoria do UFC, pois nada justifica a permanência dele com o retrospecto atual. Nas últimas 10 lutas, ele perdeu oito!

Sabe-se lá como, ele recebeu mais uma chance e enfrenta Bryan Barberena (13-5, 4-3 UFC), que seria seu adversário original do card do dia 1 de junho, em Utica, mas foi substituído por Ben Saunders. Jake acabou nocauteado com uma sequência de joelhadas no clinche ainda no primeiro round.

Nos últimos anos, o The Juggernaut passou de possível desafiante da categoria dos meio médios a saco de pancadas dos famosos.

Só venceu os ainda mais combalidos Josh Koshcheck e Matt Brown, enquanto foi atropelado por Mike Perry, Jorge Masvidal, Stephen Thompson, Robbie Lawler, Kelvin Gastelum e por aí vai.

Pelo retrospecto atual, Barberena representa uma encrenca para o veterano, mesmo vindo de derrota por pontos para Leon Edwards.

Também perdeu para Chad Laprise e o atual/ex/sabe-se lá campeão interino Colby Covington, mas freou o ímpeto de astros em ascensão, casos de Sage Northcutt e Warlley Alves.

A estreia do Bam Bam no UFC, inclusive, tem uma ligeira familiaridade com o próximo adversário: nocauteando Joe Ellenberger, irmão gêmeo (e menos famoso) de Jake, que depois desse revés nunca mais deu as caras no MMA.

A diferença de idade é de apenas quatro anos (Barberena tem 29 e Jake tem 33), mas Ellenberger parece apresentar sinais claros de decadência, principalmente se tratando da absorção de golpes. No caso, o Bam Bam tem nove das 13 vitórias por nocaute.

Apesar da carreira sólida no wrestling, Ellenberger cresceu no UFC apostando no kickboxing, usando a luta olímpica basicamente para defender quedas. Pelo retrospecto atual, bem que poderia fazer as fazes com a luta agarrada e não tentar partir para o nocaute a qualquer custo se quiser vencer.

Barberena não luta desde setembro do ano passado e pode sentir o ritmo se o combate se prolongar. Mas se o Juggernaut permitir a trocação, ele sabe capitalizar em cima das brechas do adversário, levando-o ao desgaste. Se não conseguir o nocaute, pode até derrubar e buscar uma finalização.

Mas já que esse card parece estar pronto para fazer os pendurados encontrarem uma luz no fim do túnel…

Existe vida entre os moscas sem o Mighty Mouse

Agora que a categoria dos moscas tem um novo campeão, o momento é ideal para uma renovação. E um desses novos nomes que podem chegar com força na elite é o brasileiro invicto Deiveson Figueiredo (14-0, 3-0 UFC), que faz a luta mais difícil da carreira.

Invicto em 14 lutas e com três vitórias no Ultimate, ele encara John Moraga (19-6, 8-5 UFC), sexto do ranking, ex-desafiante ao título da divisão e que também vem embalado por três triunfos, louco por um novo title-shot, agora contra Henry Cejudo.

O paraense Daico vai lutar pela primeira vez fora no exterior. Depois que saiu do circuito nacional, chegou ao UFC batendo Marco Beltrán por TKO, venceu Jarred Brooks por decisão dividida e, na última, nocauteou Joseph Morales. Todas foram no Brasil!

Bem mais rodado, Moraga já enfrentou os melhores lutadores da categoria. As cinco derrotas que teve no Ultimate foram para o então campeão Demetrious Johnson, John Dodson, Joseph Benavidez, Matheus Nicolau e Sergio Pettis.

Após ter o sinal de alerta ligado ao perder três em seguida, se recuperou vencendo Ashkan Mokhtarian por pontos, nocauteou o prospecto Magomed Bibulatov em pouco mais de um minuto e, na última, bateu Wilson Reis por decisão unânime.

Apesar de termos um duelo de estilos, nenhum resultado vai surpreender, já que os dois atletas são eficientes em todas as áreas.

Moraga é wrestler da primeira divisão da NCAA. Costuma encurtar com certa facilidade, amassar na grade, capitalizar com golpes curtos. Consegue boas quedas e tem bom controle no chão, com oito vitórias por finalização na carreira.

Também tem uma troca de golpes justa e, apesar da boa movimentação, não é tão veloz como os atletas do top 5. É justamente em pé onde Deiveson pode levar a melhor.

O brasileiro é afiado no jiu-jítsu, tem cinco vitórias por finalização, mas não deve fazer frente a um wrestler gabaritado. Tem uma mobilidade até maior do que a do americano e deve a qualquer custo fugir da luta agarrada para usar o ótimo muay thai.

Nas casas de apostas, o atleta da Marajó Brothers, que fez o camping na Team Alpha Male, está sendo apontado como favorito. Pelo visto, o estilo solto oriundo da capoeira que já lhe garantiu sete triunfos por nocaute está sendo visto com bons olhos.

O futuro do MMA brasileiro voltou?

Se no desafio do Sexto Round, Warlley Alves (12-2, 6-2 UFC) subestimou o nosso amigo jornalista André Azevedo e foi derrubado, pelo menos no UFC ele tem mais uma chance de mostrar que pode ir longe, agora contra o experiente James Krause (25-7, 6-3 UFC).

O campeão dos meio médios do TUF Brasil 3 já foi apontado como a grande promessa brasileira, ideia que subiu à cabeça do próprio após as vitórias sobre Alan Jouban, Nordine Taleb e ninguém menos que Colby Covington.

O choque veio com a perda da invencibilidade para Bryan Barberena, seguido do revés para o carrapato Kamaru Usman. Porém, se recuperou com vitória sobre Salim Touahri numa decisão burocrática e por nocaute técnico sobre Sultan Aliev.

Krause foi eliminado na rodada eliminatória do TUF 15 em 2012. Mas foi contratado e está no Ultimate desde 2013, lutando sempre como peso leve. Aos 32 anos, acumula passagens por eventos como Titan FC, RFA, WEC e Bellator.

Curiosamente, foi escalado para participar do TUF: Redemption (vulgo Freakamption), que daria uma nova chance a lutadores que já participaram do reality show. Na época, ele seguia na empresa e vinha de duas vitórias, sobre Daron Cruickshank e Shane Campbell!

Fazendo sentido ou não, foi a primeira escolha do time de T.J. Dillashaw e foi eliminado nas semifinais, finalizado por Jesse Taylor. Baita zebra! Ainda assim, está com o emprego bem seguro e, depois do programa, venceu Tom Gallicchio e Alex White por decisão.

Agora, sobe para a categoria até 77kg (a mesma que lutou no TUF: Redemption), e, com 1,88m e sem precisar cortar tanto peso, deve vir mais forte. Assim como Warlley, é faixa preta de jiu-jítsu, contando com 14 vitórias por finalização.

O mineiro de Governador Valadares tem uma guilhotina que virou sua marca registrada, rendendo seis finalizações assim. Nas últimas lutas, mostrou a capacidade de resolver usando o muay thai de maneira cautelosa e até pragmática.

Depois que se mudou para a Team Nogueira, passou a dosar mais o gás, defeito antigo em que partia com tudo no início e caía de rendimento com o avançar dos rounds. Se lutar com essa estratégia bater e sair, intercalando com tentativas de queda, pode levar.

O americano também não é nenhum leigo em pé e já mostrou ter condições de trocar golpes com quase todos. No UFC, só foi nocauteado por Bobby Green há cinco anos. Teoricamente não bate tão pesado quanto o brazuca, algo que pode mudar na nova divisão.

Card completo

Justin Gaethje x James Vick
Michael Johnson x Andre Fili
Cortney Casey x Angela Hill
Jake Ellenberger x Bryan Barberena
John Moraga x Deiveson Figueiredo
Eryk Anders x Tim Williams
James Krause x Warlley Alves
Iuri Marajó x Cory Sandhagen
Andrew Sanchez x Markus Maluko
Mickey Gall x George Sullivan
Joanne Calderwood x Kalindra Faria
Drew Dober x Jon Tuck
Rani Yahya x Luke Sanders

Vale assistir?

É fato que tendo Justin Gaethje num evento, as chances de termos algo menos que empolgante são mínimas. Até porque Vick também costuma aceitar a trocação, ainda que bem mais pragmático.

Mas fora o main-event, a impressão é que o UFC pegou um pacote de lutadores pendurados e jogaram nesse card para uma espécie de “R.H. Eliminator”.

Michael Johnson, Jake Ellenberger, Andrew Sanchez, Joanne Calderwood, Kalindra Faria, George Sullivan parecem estar nesse pé. Antônio Braga Neto, que também estaria no card e mas saiu por contusão, seria mais um nessa situação.

Há lutas que podem ser interessantes, como Moraga x Figueiredo e Warlley x Krause, além das presenças dos brasileiros Rani Yahya e Iuri Marajó (figurinhas carimbadas de cards preliminares).

Outro ponto alto é a presença do bom peso médio Eryk Anders, que com apenas duas lutas no UFC, já fez uma luta principal e perdeu para Lyoto Machida numa decisão dividida bem polêmica. Tim Williams é um adversário bem na medida para ele voltar a ser apontado como um potencial ranqueado.

Mas sejamos sinceros, esses pontos não têm força suficientemente para mobilizar a vontade de encarnar o Superman do Christopher Reeve e girar a Terra no sentido contrário para conseguir assistir.

Sendo assim, é quase certo que ninguém vai se morder se perder esse monte de luta mais ou menos, a não ser que chame os amigos que nem conhecem o esporte e dizer que estarão lá um navio cargueiro de brasileiros.

Pelo bom senso, dá para cumprir os compromissos sociais e ainda voltar para ver a luta principal para dormir com o status de diversão alcançado.

Gosta de terror? Chegou “Slender Man” nos cinemas. Tem filho pequeno e não quer sair da sala ofendido? Assista “Christopher Robin” para ontem!

Depois pode resgatar a lista de quem foi demitido do UFC e de quem se livrou de encarar a fila do INSS.

  • Celso Braúna

    Boa Thiago! Só lendo seu texto msm pra ainda pensar em assistir esse card

    • Thiago Sampaio

      Valeu parceiro!

  • flavio israel

    Cadê a mãozinha indicando se vale ou não assistir rsrsrs , no mais , o card tá bem mais ou menos e talvez até assista hehehe!

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