Pensando Alto: A Análise
Informal do UFC Calgary

Lucas Rezende | 28/07/2018 às 23:56

Para canadenses, o UFC on Fox 30, sediado na cidade de Calgary, não foi um sucesso completo.

Alguns atletas da casa, como Olivier Aubin-Mercier e Kajan Johnson, deixaram a desejar diante dos seus apoiadores locais, embora outros como Jordan Mein e Hakeem Dawodu fizeram suas partes para agradar.

No entanto, os combatentes nativos não se destacaram tanto assim nas geladas terras ao norte de Tio Sam. A boa notícia é que, ainda assim, houve muita entrega no Canadá.

Desde a redenção de José Aldo ao digno segundo capítulo de Dustin Poirier e Eddie Alvarez, também fomos presenteados com muita promessa de novos talentos no card preliminar.

Sem me adiantar demais, adentremos de uma vez nos detalhes.

Dustin Poirier vs. Eddie Alvarez

Desta vez, sem espaço para dúvidas.

Apesar do round inicial moroso, Dustin Poirier e Eddie Alvarez protagonizaram um segundo assalto digno do primeiro encontro que terminou sem resultado. Embora o Diamante tenha insistido demais em uma guilhotina afobada, contra a grade, a sorte estava ao seu lado.

Após uma cotovelada ilegal de Alvarez, o árbitro reergueu os cavalheiros e proporcionou a Poirier a oportunidade de metralhar o adversário com cotoveladas e murros, e desta vez, o rapaz não desperdiçou o presente.

A vitória acomoda Dustin Poirier em um lugar confortável dentro da categoria, com vitórias sobre dois ex-campeões, Anthony Pettis e Eddie Alvarez, além do saco de pancadas humano, Justin Gaethje. Um retrospecto invejável, como o próprio salientou.

Infelizmente, a categoria acaba de ser feita de refém mais uma vez por um certo irlandês, então Dustin terá de esperar, e torcer, para que Khabib Nurmagomedov amasse o leprechaun até o esquecimento. Mas não pode usar trevo de quatro folhas como amuleto.

José Aldo vs. Jeremy Stephens

A honestidade de uma careta pós golpe no fígado é de uma beleza ímpar no universo dos esportes de combate. Dificilmente algo se comparará ao puro desespero e dor de um rosto de um rosto contorcido por um golpe como o que José Aldo aterrissou no plexo solar de Jeremy Stephens.

O desfecho, no entanto, não conta a história completa. A vitória, ainda que veloz, conta uma história imprescindível para a atual fase do manauara. Brutalizado duas vezes por Max Holloway e abalado desde os 13 segundos contra Conor McGregor, duvida-se de que Aldo poderia ser capaz de voltar à antiga forma.

Após engolir um uppercut limpo de ninguém menos que Jeremy Stephens, e minutos depois, definir o combate com praticamente um só soco, Aldo presentou os fãs preocupados de que ainda não está pronto para se despedir do esporte. Não em tom de velório.

A vitória sobre Stephens é a melhor apresentação do brasileiro em muito tempo, e comprova que algum tempo longe da pressão do cinturão era exatamente o que precisava para respirar e pensar melhor. Se terá gás e estímulo para retomar o árduo caminho do cinturão, não sei, mas, talvez ninguém devesse se preocupar com isso.

Joanna Jedrzejczyk vs. Tecia Torres

A Pequeno Tornado não conseguiu soprar Joanna Jedrzejczyk para longe.

Dentre muito clinch, joelhadas e tentativas de queda frustradas, Joanna na certa curtiu os dez minutos de luta a menos. A polaca quicou no octógono com leveza e atingiu Tecia Torres sem receber a mesma cortesia de volta, na maioria das vezes. Forçada a dançar no ritmo da ex-campeã, a norte-americana ofereceu pouco perigo quando percebeu que não teria como arrastar a polonesa para o seu elemento.

Apesar da vitória tranquila, no entanto, também é óbvio que Joanna mais sentiu as derrotas para Rose Namajunas no psicológico. Sem maiores riscos, a polaca simplesmente não impõe mais a aura ameaçadora de outrora. Tornou-se humana. Perigosa, mas vencível, e não evita em demonstrar.

O queixo resistiu, a técnica ainda está ali, mas o olhar é outro, e a postura também. Ela pode provocar à vontade, mas agora tenho minhas dúvidas sobre uma reconquista do tão sonhado cinturão. Lembram quando a chamávamos de Joanna Violência? Pois é. Talvez tenha cravado a vaga ali no segundo lugar, ou até outra lutadora puxar a cadeira de Rose.

Dustin Ortiz vs. Matheus Nicolau

Existe um método muito eficaz para se descobrir quando um golpe é verdadeiramente potente: quando ele é amortecido pela guarda, mas derruba o ser humano do mesmo jeito.

A pernada que Dustin Ortiz arremessou contra a proteção bem erguida de Matheus Nicolau passou no teste, o mineiro mergulhou no octógono ainda no primeiro assalto e beijou mais umas belas bordoadas até que o árbitro se compadecesse. O brasileiro protestou, mas era apenas o calor falando.

Nicolau, que já ultrapassara alguns veteranos do peso-mosca, como John Moraga e Louis Smolka, ficou pelo caminho em seu terceiro teste contra o lado de lá da categoria obliterada por Demetrious Johnson.

Aos 25 anos de idade, Nicolau traçava um percurso interessante como um dos líderes da renovação brasileira no UFC, mas agora é forçado a dar um passo para trás. Resta saber como o rapaz retornará após o resultado inesperado.

Quanto a Dustin Ortiz, que há pouco tempo nocauteou Hector Sandoval em somente 15 segundos, fica a prova de que o americano também é mais do que apenas um wrestler amarrador dentro do octógono. Sua própria sequência de três vitórias consecutivas pode lhe levar a locais interessantes na próxima empreitada.

Menções Honrosas

  • Alexander Hernandez oficialmente adentra o meu radar. Já havia notado o garoto após o nocaute devastador contra Beneil Dariush, mas vitórias rápidas podem deixar impressão de golpe de sorte. Vencer Olivier Aubin-Mercier em 15 minutos, e na zona de conforto do adversário, é outra história. Se vingará, não sei, mas promete.
  • Batalha sangrenta entre os veteranos Ross Pearson e John Makdessi. Apesar das cinco derrotas em seis combates, o coração e a valentia do britânico seguem incomparáveis aos de muitos atletas juvenis. Apesar de Makdessi ter respeitado Pearson um pouco além da conta e aparentado não querer punir o adversário demais, ele também conduziu um próprio espetáculo à parte. Belo baile de dois pesos-leve sazonados, mas não ficaria triste se fosse o último de Ross Pearson.
  • Devin Powell finalmente conseguiu demonstrar suas habilidades em sua terceira, e até então, provavelmente última aparição no octógono. Com a corda no pescoço, o rapaz destruiu Álvaro Herrera com uma patada no abdome e ainda avisou que vai usar o dinheiro do bônus para comprar um fogão novo. Meio deprimente para um atleta do UFC, não?
  • EJR

    “após uma cotovelada ilegal de Alvarez, o árbitro reergueu os cavalheiros e proporcionou a Poirier a oportunidade de metralhar o adversário com cotoveladas e murros, e desta vez, o rapaz não desperdiçou o presente.” então a cotovelada foi ilegal ou o Poirier ganhou um presente? ou o juiz fez certo, penalizando uma ilegalidade e o Poirier, sem ganhar presente, foi totalmente preciso, como nas últimas lutas? aposto na segunda opção

    • Lucas Rezende

      Os dois.

      • EJR

        Ah desculpa! pensei que ao invés de presente ao Porier o juiz tivesse cumprido a regra. É que presente, pra mim, é o que o Jon Jones recebia em toda luta dele, ou seja, NÃO TER AQUELAS DEDADA NOS OLHOS DOS ADVERSÁRIOS REGISTRADAS COMO INFRAÇÕES, que muitas vezes faziam a luta pender pro lado do cara. MAS pra que tirar ponto. O cara é o GOAT!!!

  • Louis

    “Embora o Diamante tenha insistido demais em uma guilhotina afobada”

    Achei que ele fez bem. A guilhotina tava muito bem encaixada na primeira tentativa, e a luta poderia ter terminado ali se o Alvarez não tivesse segurado na grade de maneira acintosa.

    Poirier merece o TS. Se eu fosse ele, esperaria o vencedor de Khabib x Conor, caso ocorra.

    O Hernandez tem me agradado bastante, muito bom lutador e jovem ainda (em idade e em número de lutas no MMA); e achei que ele insistiu até demais nas quedas na luta, pois se mostrou melhor em pé, bem mais rápido que o canadense. Um combate contra o Barboza seria uma boa.

  • Thiago Tanikawa

    Me decepcionei muito com a atuação do Nicolau. Acho que ele tem um potencial gigantesco e ver ele nocauteado assim é de doer a alma…espero que ele refaça uma sequência de respeito e chegue na cinta em alguns anos.

  • Ton lima

    Incrivel como o Porier evoluiu depois do cascudo que levou do Irlanda, esse corte de peso menor ajudou muito na absorção de golpes do cara. Ele sempre foi empolgante, mas passou de paçoqueiro pra um verdeiro matador!!

  • Igor Barbosa

    Gente, sério… Alguém aqui que assistiu ás últimas performances do Poirier prefere ver McGregor enfrentando o Khabib? Coloca o palhação pra fazer money fights contra os Nate e Nick Diaz da vida e deixa os fãs saborearem a categoria dos leves, porque tá boa DEMAIS!

    Aldo tem genialidade de sobra, e foi exclusivamente isso que decidiu a luta. Ir pra pancadaria franca contra o Stephens foi tão bizarro quanto o Anthony Johnson querendo usar wrestliing pra vencer o Cormier.

    Tecia quis amarrar, e Joanna ao meu ver foi brilhante. A segunda luta dela contra a Claudinha Gadelha foi assim também. Nunca é fácil enfrentar alguém bem versado na “arte” da amarração.

    Quanto ao Matheus Nicolau, espero que ninguém faça terra arrasada. O chute pegou na guarda. Acontece

  • Rudá Corrêa Viana

    Troféu Anthony Johnson pro Álvarez ao querer aplicar aquela cotovela em plena montada.

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