Vale assistir? A leitura
dinâmica do UFC Hamburgo

Thiago Sampaio | 20/07/2018 às 00:13

A maratona de eventos do UFC em todo final de semana continua, chegando na Alemanha, que viu sua seleção de futebol fazer um papelão, caindo na primeira fase da Copa do Mundo. Pra quem gosta de luta, pelo menos pode ter algum prazer no esporte.

O UFC Fight Night 134: Shogun vs. Smith acontece a partir das 11h30 da manhã (horário de Brasília) deste domingo (22) – presta atenção, não é sábado! -, na Barclaycard Arena, em Hamburgo.

Na luta principal, o ex-campeão dos meio pesados Maurício “Shogun” Rua enfrenta Anthony Smith, que vem embalado após vitória fulminante sobre outro que já deteve o cinturão da categoria até 93kg.

No co-main event, o também brasileiro Glover Teixeira busca engrenar a segunda vitória em sequência contra Corey Anderson, que aceitou o desafio em cima do laço.

Trata-se do sexto evento na terra de Michael Schumacher, o segundo seguido em Hamburgo. Antes, o UFC realizou cards em Cologne, Oberhausen e duas vezes em Berlim.

O último, o UFC Fight Night 93: Arlovski vs. Barnett, em 2016, inclusive, aconteceu no mesmo palco deste domingo, trazendo nomes como Josh Barnett, Andrei Arlovski, Alexander Gustafsson, Jan Błachowicz, Ryan Bader e Ilir Latifi.

Mas vamos lá aos destaques!

Tremei Cormier, Shogun vem aí!

Aceitem! O campeão voltou! Poucos ou ninguém apostaria nisso, mas Maurício Shogun (25-10, 9-8 UFC) pode disputar o cinturão dos meio pesados do UFC em pleno 2018 se vencer Anthony Smith (29-13, 5-3 UFC). Os fatores conspiraram a favor.

Primeiro, o adversário original, o suíço da mão pesadíssima Volkan Oezdemir, que era o franco favorito, foi retirado do card e empurrado para enfrentar Alexander Gustafsson no UFC 227. No lugar dele entrou o sequer ranqueado e bem mais vencível Smith.

Depois, Daniel Cormier informou que só poderá defender o seu recém conquistado cinturão dos pesados contra Brock Lesnar em 2019 e, no fim deste ano, defenderia o título até 93kg. E disse que gostaria de enfrentar quem? Sim, nosso amigo da sunga branca. Falta só fazer a parte dele.

Os resultados têm sido positivos. Vem de três vitórias em seguida, sobre Rogério Minotouro, Corey Anderson (tá, bem duvidosa, eu sei!) e Gian Villante. Mas a frequência é baixa, sendo apenas uma luta por ano de 2015 para cá.

Anthony Smith chega com a missão de franco atirador ao aceitar esse desafio com pouco mais de duas semanas de antecedência. E de quebra pode anotar a segunda vitória seguida sobre um ex-campeão da categoria, já que nocauteou e aposentou Rashad Evans no UFC 225, em junho, em 30 segundos.

Antes lutando como peso médio, teve a principal vitória no Ultimate nocauteando um decrépito Hector Lombard no terceiro round. Depois, proporcionou uma pancadaria das boas com Thiago Marreta, mas nesta foi ele quem acabou nocauteado, no segundo round.

Aos 36 anos, existe aquele temor se o Shogun que vai se apresentar é o que pareceu que escorregou num skate e foi nocauteado por Ovince St-Preux em 34 segundos.

Aquele cara com muay thai agressivo e instinto assassino que foi campeão do GP dos médios do Pride e aniquilou o então campeão Lyoto Machida no UFC não existe mais.

Desde que voltou a treinar sob a tutela de Rafael Cordeiro, tem se mostrado mais cauteloso e protegendo melhor o queixo que já sofreu um bocado ao longo da carreira.

Tem atuado mais na longa distância, voltando a aplicar chutes altos e, quando necessário, partindo para o grappling, amassando na grade.

Mudança necessária no atual estágio e que tem dado certo. Das últimas vitórias, bateu apenas o limitado Villante por nocaute e no terceiro round. Contra um striker como Smith, mais um vez esse estilo conservador deve ser o caminho para evitar um fim desastroso.

O Lionheart costuma aceitar a trocação franca e partir para o infighting, muitas vezes sem se preocupar muito com a defesa. Também gosta de chutar, tem potência nos punhos, cotovelos e joelhos. Vai para o matar ou morrer.

Não à toa, das 29 vitórias da carreira, 16 foram por nocaute e 11 por finalização. Venceu apenas duas por pontos. Na contramão, nas 13 derrotas, foi nocauteado sete vezes e finalizado cinco, perdendo só uma por decisão (para o brasileiro Cezar Mutante).

Se o curitibano tomar os devidos cuidados para não cair estirado, o caminho para o título está traçado. Depois é só passar por um tal de Daniel Cormier. Molezinha. Todos sabem que Shogun será franco favorito e só não vê quem não quer. E quem discordar é hater.

Glovão também de olho na brecha

Quem também está de olho no cinturão até 93kg é o Glovão! É sério! Se a luta fosse contra Ilir Latifi, que se lesionou, o co-main event poderia ser um title-eliminator. Mas agora, Glover Teixeira (27-6, 10-4 UFC) enfrenta o irregular, porém, top 10 (que categoria!), Corey Anderson (10-4, 7-4 UFC).

Depois que foi desligado em apenas 13 segundos por Anthony Johnson, o brasileiro venceu Jared Cannonier, foi totalmente dominado (e nocauteado no quinto round) por Alexander Gustafsson e, na última, se recuperou vencendo Misha Cirkunov por nocaute técnico.

Voltar a engrenar uma sequência de vitórias é essencial para conseguir uma nova chance de disputar o título, oportunidade que teve em 2014 e foi dominado pelo então campeão Jon Jones. Em terceiro no ranking, ainda é um dos caras mais duros da escassa divisão.

O sueco Latifi, que vem de duas vitórias, seria o adversário ideal a ser batido para se colocar ali na briga. Corey Anderson tem o seu valor, mas por ter aceitado o duelo com menos de duas semanas (menos tempo que Anthony Smith para a luta principal), está em clara desvantagem.

Após a duvidosa derrota por decisão dividida para Shogun no UFC 198, em Curutiba, venceu o já demitido Sean O’Connell por TKO, sofreu dois nocautes em seguida, para Jimi Manuwa e Ovince St-Preux. Na última, venceu Patrick Cummins numa decisão dominante.

O jogo do campeão do TUF 19 não é difícil de prever. É um wrestler de qualidade que consegue derrubar e ter bom controle no solo, castigando no ground and pound. Tem uma trocação meio atabalhoada e já mostrou que não tem a melhor das resistências (foi nocauteado por Gian Villante…).

Bom para Glover que vinha se treinando para outro wrestler e, por isso, não deverá mudar muita coisa na preparação. Falhas do passado contra atletas da luta agarrada, como quando foi controlado por Phil Davis, parecem ter servido de lição.

Contra Cummins e um resto de Rashad Evans, não se permitiu ser encurralado na grade e resolveu em pé. Tem um boxe de qualidade e poder de nocaute, apesar de um tanto estático. Se conseguir evitar as quedas de Anderson, tem tudo para levar a melhor na mão.

Também tem um bom nível no solo e tem condições de arrancar alguma finalização, algo que deve ficar em segundo ou terceiro plano. Se perder essa, melhor desistir de uma nova corrida pelo título. Quem sabe até possa se aventurar entre os pesados.

Pra ficar registrado no Youtube

Vitor Miranda (12-6, 3-3 UFC) é aquele cara talentoso, simpático com a imprensa e até tem mostrado jeito como youtuber. Mas como o UFC anda impiedoso, vai precisar passar pelo estreante Abu Azaitar (13-1-1-1, 0-0 UFC) para afastar o risco de corte.

Finalista do TUF Brasil 3, quando perdeu a final para Antônio Cara de Sapato, Vithai vem de duas derrotas, para Chris Camozzi e para Marvin Vettori. Antes, vinha de vitórias por nocaute sobre Jake Collier, Clint Hester e Marcelo Guimarães.

Veterano do muay thai, aos 39 anos, Vitor é aquele cara que não gosta de fazer luta ruim. Muito habilidoso em pé, sempre busca o nocaute. Tem mãos rápidas e chutes altos que, entrando em cheio, é bem difícil permanecer em pé.

Nas vezes em que perdeu, os adversário conseguiram amarrar ou então foram batalhas insanas, como nas duas lutas que fez contra Fábio Maldonado, ambas perdidas na decisão, ainda no cenário nacional.

Ele recebe o alemão Azaitar, atleta que vai contar com a torcida a favor. Assim como o brasileiro, é um striker com experiência no kickboxing que não curte perder tempo. Das 13 vitórias da carreira, sete foram por nocaute.

Também é não é nenhum garoto (tem 32 anos) e não sabe o que é perder há nove lutas. As duas últimas foram pelo World Series of Fighting (WSOF), vencendo Danny Davis Jr. e Michael Arrant por decisão. A última vez que lutou foi em outubro de 2016.

Promessa de uma animada luta com muita trocação franca. Miranda tem bom controle de distância, sabe tirar a base dos adversários com chutes e vai como sempre buscar terminar pela via rápida, porém, todo cuidado com a defesa é pouco.

Apontado como favorito pelas casas de apostas, Azaitar também tem poder de nocaute, inclusive já derrubou muitos com um overhand que virou sua marca. Porém, também exibe brechas defensivas, com golpes muito abertos, que devem ser exploradas por Vitor.

Vale parar o que tiver fazendo para conferir uma divertida violência como essa.

Pra mandar a técnica para aquele lugar

Geralmente existe uma divulgação maior quando existem no card dois pesos pesados ranqueados. Mas esse não é o caso quando tratamos de Stefan Struve (28-10, 12-8 UFC) e Marcin Tybura (16-4, 3-3 UFC). Eles sabem que não podemos esperar nada deles mesmo.

Struve é aquele vara pau de 2,13m de altura e uma envergadura de 215cm que não sabe usar ao seu favor. Pelo tamanho dos braços e das pernas, ele poderia manter qualquer um na distância, mas não o faz e quase sempre permite o adversário encurtar e machucar aquele queixo nada confiável.

Se no passado já venceu até Stipe Miocic, as vitórias mais recentes foram sobre um moribundo Antônio Pezão e o fraquíssimo Daniel Omielańczuk. Vem de duas derrotas, por nocaute para Alexander Volkov e, na última, por pontos para Andrei Arlovski.

Já Tybura, apesar da aparência de tiozão que não sai do lado da churrasqueira e conta piadas infames, até que é um lutador que desenrola bem em todas as áreas.

Tem uma trocação razoável, com certa potência, conseguindo encurtar e sair, ditando o ritmo da luta. Tem sete vitórias por nocaute. Também gosta de chutes baixos para desestabilizar.

No Ultimate, a principal vitória foi por decisão sobre um decadente Arlovski. O feito o credenciou a fazer uma luta principal contra Fabrício Werdum e perdeu por pontos. Na última atuação, estava levando a melhor contra o bizarro Derrick Lewis até ser nocauteado no terceiro round.

A tendência é que Tybur consiga adentrar os braços de Boneco de Olinda do Skyskrapper e consiga magoá-lo, intercalando com amassadas na grade e golpes curtos ali, cadenciando a luta e sem deixar espaço.

Struve, por sua vez, vai atacar da maneira desengonçada de sempre, sem jabs, mas atingindo aqui e acolá. Nem todo mundo sai impune a um gigante como ele, mesmo cheio de limitações.

O polonês também é faixa marrom de jiu-jítsu, tendo vencido seis vezes por finalização. É bem possível que em algum momento o duelo vá para o solo. Mas ali, o holandês tem chances maiores de reverter. Das 28 vitórias, 17 foram por finalização.

Pelo menos no jiu-jítsu, sabe utilizar os membros compridos para finalizar, mesmo em posição de desvantagem. Difícil é cobrar dele inteligência. Se ele nocautear, o apocalipse chegou.

Preparem a pipoca para poder usufruir de algo bom nesse duelo.

Ainda em busca de Valhalla

Emil Weber Meek (9-3-0-1, 1-1 UFC) chamou a atenção ao nocautear Rousimar Toquinho em apenas 45 segundos pelo Venator FC. Foi contratado pelo UFC e ainda é um nome a ser observado. Bartosz Fabinski (13-2, 2-0 UFC) é o tipo de adversário ideal para voltar ao rumo das vitórias.

Meek, que tem o apelido de Valhalla e curte se promover com um estilo descontraído e um visual nórdico, estreou no UFC com vitória sobre Jordan Mein. Ali, foi prejudicado com uma lesão na costela, mas fez o suficiente para vencer por decisão.

Chegou a ter combate anunciado contra Nordine Taleb, mas saiu por lesão. Provavelmente ele devia alguma grana alta para o matchmaker Sean Shelby, pois inexplicavelmente casaram ele contra o belzebu Kamaru Usman logo em seguida!

Como esperado, o nigeriano amassou o barbudo por três rounds sem precisar usar nem metade do potencial que tem. Relegado ao card preliminar, o noruguês recebe o polonês Fabinski, que apesar de bom lutador, não luta há quase três anos.

No Ultimate, venceu as duas lutas que fez, contra Garreth McLellan e Hector Urbina, ambas por decisão. Foi prejudicado por uma série de lesões e a última aparição foi em novembro de 2015. De lá para cá, teve duelo contra Nicolas Dalby cancelado.

O Açogueiro (esses apelidos…) é um atleta razoável na troca de golpes, mas tem maior efetividade no wrestling, derrubando e martelando no ground and pound. Tem oito vitórias por nocaute técnico.

Pelo tempo parado, Fabinski deve sair na mão o mínimo possível. Nas últimas duas lutas em que venceu, conseguiu nada menos que 16 quedas. Tem um double leg eficiente e, se conseguir manter Meek ali, tem chances de levar.

Porém, o Valhalla é um striker perigoso e, uma vez que o combate começa em pé e o polonês está totalmente sem timing, pode desgastá-lo já de início. Das nove vitórias dele, sete foram por nocaute.

Contra Mein, Meek mostrou que segura a barra na luta agarrada quando precisa, ainda que a força de Bartosz ali seja maior. Desponta como favorito, mas se perder, corre o risco de ser jogado no hall das promessas que não vingaram.

Card completo

Maurício Shogun x Anthony Smith
Glover Teixeira x Corey Anderson
Vitor Miranda x Abu Azaitar
Marcin Tybura x Stefan Struve
Danny Roberts x David Zawada
Nasrat Haqparast x Marc Diakiese
Nick Hein x Damir Hadžović
Emil Weber Meek x Bartosz Fabiński
Khalid Taha x Nad Narimani
Justin Ledet x Aleksandar Rakić
Davey Grant x Manny Bermudez
Jeremy Kimball x Darko Stošić
Damian Stasiak x Liu Pingyuan

Vale assistir?

Ter brasileiros ancorando as duas lutas principais é um atrativo para o público brazuca, sem dúvida. Porém, por mais que Shogun tenha chance de adquirir um title-shot, há de reconhecer que ele não tem mais o apelo que tinha no passado.

Fato é que o evento foi bastante prejudicado pelas perdas. Volkan Oezdemir é um atleta no topo do ranking e, se o queixo do curitibano resistisse à mão de pedra do suíço, provaria a evolução e um eventual merecimento de disputar o cinturão em caso de vitória.

Smith foi uma solução para tapar buraco, mas privilegiou o brazuca e, de certa forma, os espectadores que esperam por um duelo mais equilibrado. Pode ser divertido, mas não faz sentido esportivamente.

A luta de Glover também perdeu peso com a saída do mamute Ilir Latifi. O vencedor poderia até furar a fila para uma possível luta contra Daniel Cormier no fim do ano. Contra o limitado Corey Anderson, o duelo segue apenas para não desfalcar o card.

Para piorar, o cover de Cristiano Ronaldo, o bom striker Alan Jouban, que sempre proporciona lutas legais, também se retirou por lesão, deixando para Danny Roberts mais um estreante pra fazer volume, o alemão David Zawada.

Não é dos piores card e, sim, as lutas principais têm seus valores, além de outros duelos que prometem agressividade, como Vitor Miranda x Abu Azaitar e Emil Meek x Bartosz Fabiński, além de Marc Diakiese (mais um jovem talentoso prejudicado pelo hype)  x Nasrat Haqparast.

Mas para o primeiro domingo à tarde sem Copa do Mundo e com um calendário de próximos eventos do UFC bem recheados, este pode ser reservado para as obrigações sociais, nem sempre legais. Como caminhar pela praia, ou pela feira, ou tomar uma água de coco olhando para o nada.

 

  • Fred Bolognani

    Se Shogun vencer e não rolar a luta com DC por alguma razão, eu gostaria de ver Shogun x Glover, se este também vencer. Só uma correção, Shogun tem 36 anos.

    • Thiago Sampaio

      Corrigido. Valeu!

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