Flashback: de volta ao UFC 1 com Royce x Shamrock

Fernando Henriques | 12/11/2015 às 17:55
Royce vitorioso no UFC 1

Royce vitorioso no UFC 1

Royce Gracie começou no vale-tudo para provar que era possível o mais fraco vencer o mais forte e terminou lutando para encher o bolso, apenas. Nada contra.

Em ambas as empreitadas, o mais bem-sucedido filho de Hélio Gracie teve sucesso. Assim como o Pai – que tinha biótipo similar – já havia feito no passado, Royce provou realmente que o Gracie Jiu-Jitsu dava conta dos brutamontes da época.

Era o começo dos Anos 90, época áurea do ainda embrionário MMA. Foi quando Royce cravou seu nome na história deste que viria a ser o esporte predileto de muita gente. O pioneirismo e a coragem do Gracie lhe renderam fama e, claro, dinheiro.

E é este último que o trará novamente a um octógono, mais de oito anos depois desde a última vez que atuou (contra Kazushi Sakuraba, em 2007).

Não se engane e não caia na conversa – elegante sim, porém um tanto quanto escapista- do Gracie, que afirmou que retorna ao MMA com o mesmo objetivo que o moveu no UFC 1:

Esse é o ponto, alguém menor poder não perder para outro que é maior e mais forte. Eu estava tranquilo de não lutar mais com Ken porque estou na frente no placar, mas o cara vem perdendo o sono por 22 anos. Como pode um cara com aquele tamanho e físico perder para uma pessoa menor? Estou aqui para provar que a técnica de defesa pessoa do meu pai continua funcionando, mesmo para um homem mais velho.”

Scott Coker, que não deve nada aos seus colegas promotores de circo, o convenceu com uma oferta milionária que em momento oportuno certamente ficaremos sabendo de quanto foi. E novamente repito: não há nenhum mal nisso.

Royce é um homem adulto, saudável e apto a ganhar o seu pão. Então… Let’s Get It On!

(Pensem comigo, poderia ser pior se Royce levasse a cabo o discurso de que está apto a enfrentar qualquer campeão atual. Aos 48 anos, Royce?! Nem aos 35! Menos, por favor).

Hughes dominando Royce

Hughes dominando Royce

Esta improvável revanche com o também vovô Ken Shamrock não é uma luta de encher os olhos, mas pensando no legado do brasileiro, é um alívio saber que não será com um novo Matt Hughes. Pois sabemos que Royce seria louco suficiente para pôr-se em risco de tal forma.

Não aconteceu, ainda bem. Que venha o confronto dos veteranos, que no melhor dos cenários nos fará ao menos recordar o começo desta história nos EUA. Não pelo que podem apresentar tecnicamente, dentro do octógono, mas apenas pelo mero anúncio da luta.

Obviamente, esta é a intenção de Coker. Aproveitar todo o saudosismo possível que envolve ambos e estourar de audiência mais um Bellator. São dois “Hall of Fame” do UFC, afinal, que estavam no começo desta história.

Começo este, inclusive, que é hoje frequentemente diminuído. Não raro, leio análises que apontam como o esporte evoluiu e abandonou o clima de barbárie dos primeiros UFCs. Tudo bem, era algo próximo de uma barbárie mesmo, mas a análise que vêm junto a esta, que tenta taxar os envolvidos no começo desta história como pangarés, é inverídica.

Royce x Jimmerson - que lutava com uma luva de boxe

Royce x Jimmerson – que lutava com uma luva de boxe

Dentre os oito participantes desta primeira edição, tínhamos três grapplers e cinco trocadores. No primeiro time, Royce Gracie, Ken Shamrock (sim!) e Teila Tuli. No segundo, Art Jimmerson, Kevin Rosier, Zane Frazier, Patrick Smith e Gerard Gordeau.

Excetuando Tuli e Jimmerson, que realmente não deveriam ter passado por ali naquela noite, tínhamos seis “animais” escalados para realmente matar ou morrer ali dentro. E não estou exagerando.

Ken Shamrock era o mais experiente lutador dentre os oito, mais do que Royce, que só havia lutado a portas fechadas. Quando ultrapassou a porta do inovador octógono do UFC 1, Shamrock já havia feito três lutas com misturas de artes marciais na tradicionalíssima organização japonesa de “Hybrid Wrestling” (é como já chamavam a mistura por lá), Pancrase.

Foram três vitórias por finalização para Shamrock – a primeira contra Masakatsu Funaki, aquele mesmo que foi escolhido como “super campeão japonês” digno de enfrentar Rickson Gracie em sua despedida, no Colosseum 2000.

E mais interessante ainda, as três ocorreram num espaço de um mês e meio e a última apenas quatro dias antes do UFC 1!

Ele praticamente veio direto do Japão para o UFC. Decerto, era o favorito para muita gente, já que o poderio dos Gracies ainda era uma incógnita.

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Ken batucando

E Shamrock vinha tão confiante em seu jogo de solo – santa ignorância! – que foi ele a puxar a luta para esta área, quando esbarrou em Royce na semi-final do torneio.

Ele jamais poderia imaginar os truques do Gracie, que o finalizou com uma gravata inédita até hoje no MMA, aos 57 segundos de luta.

Aliás, nesta luta, ficou eternizado o esporro que Royce deu em Shamrock que, antecipando Chael Sonnen em 17 anos, bateu ao primeiro sinal de incômodo no pescoço e depois tentou continuar na luta, ignorando o tapa desistente que havia dado no solo.

Royce, bravo que só (aquela cara de mau dele era impagável), deu-lhe uma enquadrada e não deixou que a luta seguisse. Saiu vencedor por finalização.

O brasileiro estava confortável em tomar tal atitude, muito diferente de Murilo Bustamente, em 2002, quando passou pelo mesmo problema contra Matt Lindland (esses americanos…) em território hostil, pois o juiz da luta era o brasileiro Hélio Vigio, notório faixa-preta de Carlos Gracie, amigo de longa data da família e delegado carioca.

Royce reforçando ao juiz que Shamrock bateu

Royce reforçando ao juiz que Shamrock bateu

Outro animal que encarou Royce naquela noite foi Gerard Gordeau. Não se engane com ao fato dele ser leigo no solo, o que certamente facilitou o trabalho do brasileiro. Isso é um detalhe, quando lembramos que ele é até hoje um dos caras mais perversos que já lutou MMA.

Em apenas quatro lutas profissionais, ele desdentou o “sumoca” Teila Tuli e cegou o japonês Yuki Nakai, no primeiro Vale-Tudo Japan (1995). Era um representante legítimo do Savate, arte marcial nascida nas ruas da França.

Pobre de Nakai, talentosíssimo judoca – depois veio ao Brasil aprender Jiu-Jitsu e tornou-se faixa-preta, a mesma que futuramente daria a Shynia Aoki, seu pupilo – que endureceu a final deste mesmo evento, já cego, contra Rickson Gracie, teve sua carreira encurtada.

Patrick Smith, que perdeu rapidamente para Shamrock, e Jason DeLucia, que venceu a luta reserva mas não teve a oportunidade de substituir ninguém, seguiram carreira no MMA depois do UFC 1.

Ambos lutaram no UFC 2, e perderam para Royce (Smith foi finalista), e algumas edições mais do UFC – no caso de Smith, DeLucia só a segunda mesmo. Em paralelo e posteriormente, seguiram carreira no Pancrase. DeLucia, inclusive, foi vencedor de um torneio na organização japonesa.

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Royce x Gordeau na final

E a luta entre os strikers Kevin Rosier (kickboxing) e Zane Frazier (karatê)? Nenhum dos dois fez nada de mais relevante depois do UFC 1, encerrando suas carreiras com cartel negativo, mas o embate que protagonizaram no primeiro UFC marcou-os para sempre.

Foi uma trocação insana, extremamente violenta. A luta não durou muito, mas suas imagens estão na minha cabeça até hoje. Principalmente o momento em que Rosier apoia-se na grade e desfere pisões na cabeça de Frazier. Bruto!

Foi o que lhe garantiu a vitória, na primeira vez que vimos uma toalha voar para dentro do octógono, nesta que segue sendo uma das lutas mais violentas da história, páreo duro com “Kimo x Royce”, no UFC 3.

E tínhamos Royce, claro, o herói daquela edição. O menor entre os oito, mas o que estava melhor preparado para o cenário que viria – as lutas que Shamrcock fez, no Pancrase, apesar de contarem como “MMA”, tinham outra pegada.

Merecidamente, o brasileiro entrou para a história e sua trajetória é ainda mais marcante por ele não ser, nem dentro de sua família, o mais técnico lutador. Ou mesmo o mais forte. Ainda assim, foi lá e fez o que tinha que fazer.

Aproveito também para derrubar um mito: Como fica aquele papo de que apenas Royce sabia “chão” quando lembramos que Shamrock finalizou Smith com uma chave de calcanhar? Ou, ainda, que Jason DeLucia, teoricamente representante do kung fu e que já havia – pasmem! – enfrentado Royce a portas fechadas venceu a luta reserva do GP com um mata-leão?

Mesma encarada de 1993 - 22 anos depois

Mesma encarada de 1993 – 22 anos depois

Pois é, amigos, as coisas eram um pouco mais coloridas do que geralmente contam.

O UFC 1 não apresentou a mistura sublime das técnicas agarradas e de striking que vemos hoje, mas cada lutador, na sua área e com o que sabia, contribuiu para que o interesse por essa mistura se perpetua-se e se expandisse a cada nova edição do UFC e nos eventos posteriores.

Royce e Shamrock, aos 49 e 52 anos, idade que estarão em fevereiro próximo, quando a nova luta no Bellator acontece, não estarão aptos a nos oferecer animalidade similar ao do primeiro UFC e nem mesmo a técnica apurada (vamos dar essa moral para o Tio Shamrock) de outrora.

Mas certamente estaremos todos com o “focinho” colado na TV para saber que bicho vai dar deste terceiro encontro. Digo, quem será que cai morto primeiro?

  • Bruno Conde

    Dá dó do Royce nesse GIF, meu deus…

    • Ele não para de apanhar nunca… Hahaha!

      • Matheus V.

        Que cruel, cara. Fiz leitura dinâmica nessa parte do texto só para parar de ver o GIF, haha.

  • Jonas

    Royce toquinhando na final do UFC 1 hem

    • Dinho

      Kd a comissão pra punir ele com dois anos de gancho (brincadeira!)

      • Renato Rebelo

        Será que o Gordeau provocou antes da luta? Rolou um soco “vadio” dps?

  • Tiago Nicolau de Melo

    Preferia ver ele no Metamoris, mas… serei mais um focinho colado na tela.

    • Cara, acho que para ele é melhor lutar MMA. Nunca foi nada demais puramente no grappling. Wallid que o diga.

  • Francisco Júnior

    Acho que meio mundo vai assistir a essa nova luta. Já que o Bellator não vende por ter os melhores lutadores, tem que vender pensando puramente no entretenimento. Mas não dá para esperar muito, tecnicamente. O Shamrock parecia um amador medroso na última luta. Se essa durar um round é muito.

    • É certo que não passa de um round. Se bem que… Será que Royce tem pressão naqueles braços finos para pegar?

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