Flashback: Rich Franklin, o quase dominante

Fernando Henriques | 01/10/2015 às 16:30
A origem do apelido

A origem do apelido

Na última segunda-feira, 28/09/2015, o ex-campeão Rich Franklin oficializou sua aposentadoria. Sem lutar desde 2012, quando perdeu para Cung Le (outro que já se foi) no UFC Macau, e desde 2014 atuando como dirigente do One FC, esta era uma aposentadoria mais do que esperada.

O que não diminui o pesar por sua ausência, já sentida há três anos. A categoria em que Franklin sagrou-se campeão e entrou para história hoje em dia é muito bem povoada, mas o professor de matemática de Cincinnati, Ohio, era um lutador diferenciado.

Apelidado de “Ace” em função da notória semelhança com o astro do cinema Jim Carrey (um dos primeiros grandes papéis do ator foi o detetive amalucado ‘Ace Ventura’), Franklin poderia ter sido “Anderson Silva”, se este não existisse.

Oi, Shamrock?

Oi, Shamrock?

Quando começou no UFC, em 2003, Franklin lutava como meio-pesado. Foi nesta categoria, vencendo o já moribundo em 2005 Ken Shamrock – que patinou ao arriscar um chute alto e abriu brechas para levar um TKO -, que Ace conquistou o direito de lutar pelo cinturão dos médios, na época em poder de Evan Tanner (hoje finado).

Tanner havia se tornado campeão ao derrotar David Terrell (aluno de Cesar Gracie que fez certo barulho no UFC no começo dos anos 2000 e depois sumiu), virando assim o terceiro campeão dos médios (até 84kg) do UFC – a categoria foi aberta apenas em 2001.

Antes dele, Murilo Bustamante, o segundo campeão, havia tomado a cinta de Dave Menne, o primeiro, e defendido apenas uma vez, contra Matt Lindland, antes de migrar para o Pride e ser destituído do título.

Era uma categoria vazia e fraca. Franklin então desceu para enfrentar Tanner, a quem já havia derrotado há dois anos, no UFC 42.

Rich maltratando Tanner

Rich maltratando Tanner

E a luta foi um banho de sangue. Ace, que sabia usar muito bem os ainda impopulares cotovelos, abriu um corte em Tanner no 4º Round, o que obrigou os médicos a interromperem a luta e decretarem um TKO em favor do novo campeão.

Posteriormente, Franklin defendeu a cinta com sucesso por duas vezes, contra Nate Quarry, em quem aplicou um nocaute histórico, e contra o canadense David Loiseau – decisão unânime.

Naquela época não havia quem fizesse sombra a ele no UFC. Estrategista, forte para o peso e versátil (para os padrões da época, tinha bom solo e trocação melhor ainda), ele sobrava.

KO de Quarry

KO de Quarry

Os adversários que poderiam fazer frente ao ex-professor, que, frisa-se, é um autodidata das artes marciais (aprendeu a lutar vendo fitas de vídeo, segundo o próprio), estavam no Pride. Assim, a previsão era de que ele reinaria no peso médio como Matt Hughes reinava no meio-médio.

A história, porém, caminhou de forma distinta. Com a categoria carente de desafiantes (a escolha de David Loiseau como contender comprova), o UFC foi buscar no mercado europeu alguém que pudesse enfrentar Franklin de igual para igual.

Já agenciado por Joinha, Anderson Silva quase desistiu de lutar no UFC depois de inicialmente ter concordado com a ideia. Tanto é que, mesmo depois do acerto verbal, voltou a lutar pelo evento inglês Cage Rage, defendendo seu título contra Tony Friklund.

Campeão dos médios

Campeão dos médios

É que foi o Cage Rage que acolheu o brasileiro depois do rompimento com os japoneses do Pride, que sofriam chantagem da Chute Boxe para impedir que Anderson lutasse por lá (se botassem o Anderson, Wanderlei Silva não lutaria mais, ou algo do tipo), e por isso Spider detinha especial gratidão com o evento.

Uma história que você pode acompanhar melhor na biografia do lutador, “Anderson ‘Spider’ Silva – Um relato de um campeão nos ringues e na vida”, escrita por Eduardo Ohata. O livro é meio blasé, mas traz boas informações.

Mas, se a proposta não era tão interessante financeiramente, segundo o próprio Anderson, o era pelo fato de ser um chamado do UFC, marca onde tudo começou. Anderson aceitou, foi para o EUA, destruiu o ex-TUF Chris Leben logo na estreia e o resto da história você já sabe.

O brasileiro demoliu, literalmente, o guerreiro Rich Franklin em duas oportunidades e assumiu de vez o posto de rei da categoria.

Após duas surras do Spider, Rich estava destituído

Rich destituído após duas surras do Spider

Com isso, a carreira do até outro dia imbatível Rich Franklin estava estagnada, com o mesmo no auge. O que se repetia entre fãs e especialista era que Rich Franklin poderia vencer qualquer um com 84kg, menos o campeão. Ele estava no limbo.

Se você olhar os adversários que o brasileiro enfrentou na sequência, com exceção de Dan Henderson, realmente, Rich Franklin seria favorito contra todos eles. Chegou a vencer alguns, inclusive – Yushin Okami e Travis Lutter, ambos com certa tranquilidade.

A solução do americano foi retornar para o meio-pesado, categoria melhor povoada de estrelas, e fazer as chamadas “lutas que valessem a pena”, que podemos traduzir em “verdadeiros desafios para Ace”.

Encabeçou alguns cards, estrelou alguns PPVs e esteve na frente dos posters, mas não foi campeão.

Rich segue como VP do One FC

Rich segue como VP do One FC

Tal qual Pedro Rizzo, um dos caras mais legais do MMA nacional, Franklin é, na gringa, um cara muito respeitado e de bom trânsito em diversas academias.

Cristão, como o atual campeão dos médios (Chris Weidman), Ace sempre teve uma postura muito respeitosa dentro do octógono, para com seus adversários e os segundos deste, bem como ótimas relações com seus patrões no UFC, durante o longo período que lá esteve (nove anos).

Ele é o famoso “boa praça”, sujeito tranquilo fora do momento de luta. É como vamos nos lembrar dele, além de ótimo lutador.

No próximo dia 05/10, Ace completa 41 anos. É, foi uma boa ideia para pendurar as luvas. Sua mãe agradece.

  • Ramon Reis

    Fernando Henriques por que seus textos estão saindo na quinta-feira agora?

    • Salve, Ramon. Estou escrevendo às quintas a pedido do boss Renato Rebelo que, segundo me consta, teve um desfalque na equipe e precisou “preencher” esse dia.

      Daqui a pouco ele passa por aqui e te esclarece melhor.

  • Jonas

    Belo texto. Curto o Ace apesar dele ter vencido duas vezes o Wand (sou fã do lutador).

    • Obrigado. Mas então, já eu poderia dizer que curto o Ace exatamente por ter vencido o Wanderlei duas vezes. Rs. Na época do Pride, eu era um dos que acreditava, e estava certo, que quando o Wanderlei pegasse o Arona ia tomar um pau.

  • Vinicius Maia

    Porra, excelente, é bom ver o Rich Franklin tendo o reconhecimento do site. Sempre gostei do Ace.
    As lutas que mais gostei de ver foram contra Chuck Liddell, as duas contra o Wand e esse nocaute contra o Nathan Quarry , puta merda. Lindo demais.
    Excelente texto Fernando Henriques abraços.

    • Gostei da luta contrao Liddell também, mas fiquei super triste. Queria a vitória do Ice Man, que ia parar e vinha, afinal, dominando a luta.

      • Vinicius Maia

        Nessa luta eu fiquei meio dividido, por que gosto muito dos dois, mas o Ace nocautear o Ice Man com o braço quebrado, puta merda, que raça veio. Eu baixei a luta e fiquei revendo o golpe, pra mim aquele golpe é tipo o nocaute do Hall contra o Mousasi, era pra acontecer assim, e só aconteceria naquela luta.

  • Felipe C.

    Belo texto, embora eu ache o Rich muito superestimado. Até mesmo para aquela época, outros campeões dominantes já eram tecnicamente muito superiores ao Ace. O citado Hughes mesmo, eu considero um lutador infinitamente superior. Iceman também era mais intimidador.

    • Mas repare, eu não enchi em demasia. Cito mesmo que ele seria dominante no UFC, se Anderson não tivesse migrado, por sobrar numa categoria vazia. No meio-pesado talvez não teve para ele.

      Sobre o Ice Man, acabou que mais a frente perdeu para ele.

      • Felipe C.

        Ah cara, o Liddel é o sujeito com a decadência mais meteórica da história. Não foi algo progressivo… Naquela situação ali, ele perderia para o Neil Magny

        • Lukas Andrade

          Hahaha boa, cara.

        • Sim, foi uma decadência meteórica, mas não exagere.

  • Lucas Natan

    Cara, seus textos são muito legais. Sério. Fico sabendo de muita coisa que não tenho a mínima ideia de onde poderia saber se não fossem eles.

    • Poxa, cara, muito legal saber do seu apreço. Legal mesmo, mega incentivo para seguir melhorando a coluna.

  • Tiago Nicolau de Melo

    Essa ameaça de jab-esquivinha marota-diretaço de esquerda vai estar em qualquer Top 10 de KO do UFC pelos próximos 10 anos.

    Gente boa demais o Ace, merece todas as honras.

  • Francisco Júnior

    Rich Franklin merece respeito (apesar que essa queda do Shamrock é pra teoria da conspiração nenhuma botar defeito). Mas a categoria dos médios sempre foi meio fraca de grandes talentos. Não é à toa que o “Ace” não é tão ídolo como Liddell, Couture, Hughes, Ortiz e vários outros ex-campeões. Não é à toa também que muita gente contesta a série de defesas de título do Anderson Silva (Leites, Maia, Coté, Okami, Sonnen, etc). Ainda bem que hoje podemos usufruir do que é talvez a melhor fase dessa categoria, apesar de ainda ser um pouco rasa.

    • diego

      meu Deus o que foi aquilo?

    • douglas karpinski

      rasa???? não concordo, estamos na melhor época da categoria, com 4 top com condições de ser campeão facil facil, e um campeão que apesar de subestimado tem se provando cada vez mais, sem falar que tem um tal de Spider que se voltar com foco em 2 ou 3 lutas briga de novo pela cinta…..

  • Hyuriel Constantino

    Queria ver como Rich Franklin ensinaria tabuada pros “dimenor” daqui… k

    Teria que ser na base do GNP mesmo, pq sendo boa praça ele não viraria não. kkk

  • André Guilherme Oliveira

    Belo texto cara, seria bacana se tivesse falado das grandes batalhas que ele teve após perder a cinta e também da longa sequencia que ele tinha antes de enfrentar o Spider.

    Grande lutador o Ace, merecia inclusive estar no Hall da Fama.

  • Gabriel Carvalho II

    Acho que o Franklin manteria aquele cinturão por mais 3 anos se não existisse um tal de Anderson Silva.

  • Fernando Chaves

    Ótima coluna, agrega muito !! E ae Renato, não teremos mais textos seus?

  • Gabriel Guimarães Calefi

    Gosto bastante do Rich Franklin, embora não conheça muito dele (mas ao ler este excelente texto, aprendi mais um pouco). O estilo de luta dele me agrada, ele me agrada e o fato dele ser parecido com o Jim Carrey também! kkkkk OBS: uma vez abri a foto do Rich e mostrei a minha irmã e disse que o Jim Carrey tava vivendo uma fase maromba. Ela acreditou! Mas depois desmenti kkkk

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