Flashback: A primeira incursão do UFC ao Japão

Fernando Henriques | 24/09/2015 às 17:27
1º cartaz

1º cartaz

Foi no longínquo ano de 1997 que o UFC desembarcou pela primeira vez em terras nipônicas, com um card recheado – se considerarmos os padrões atuais-, que trouxe um GP de quatro lutadores e duas disputas de cinturão.

Era ainda a segunda fase do evento americano, que começava a instituir campeões lineares – como primeira era assumo os quatro primeiros anos da marca, marcados pelo confronto de estilos e pelos GPs.

E a terceira seria de Dana White e Irmãos Fertitta em diante (2001).

No Japão, a temática de confrontar artes marciais já não estava tão presente, mas os GPs, adaptados, seguiam firmes e fortes como atração à parte (são úteis até hoje, afinal, como vimos no último final de semana com o Bellator, a fórmula tem seu glamour).

Estrelavam àquela noite ninguém menos que Kazushi Sakuraba, apenas em sua segunda luta de MMA, Vitor Belfort, Frank Shamrock, estreando no UFC, e Randy Couture, que enfrentou o striker (já veterano naquela época) Maurice Smith a luta principal da noite.

2º cartaz

2º cartaz

O card foi montado da seguinte forma:

Na semifinal do GP de pesos-pesados, o brasileiro Marcus “Conan” Silveira, faixa-preta de Carlson Gracie – e hoje treinador da American Top Team– enfrentava o até então desconhecido Sakuraba; do outro lado da chave, o folclórico David “Tank” Abott pegava o japonês Yoji Anjo (aquele que já lutou com Rickson Gracie à portas-fechadas).

Como luta reserva do GP, Tra “Trauma” Telligman (o homem de um peito só) contra Brad Kohler. E como super luta (usavam esse termo para lutas que não valiam nada), Belfort encarava o judoca veterano dos primeiros UFCs Joe Charles.

Para disputar o recém-criado cinturão dos médios (a categoria meio-pesado era assim chamada à época), Frank Shamrock, veterano do Pancrase e por isso conhecido entre os de olhinhos puxados, contra o campeão olímpico de wrestling Kevin Jackson.

Fechando a noite, o confronto já citado entre Randy Couture e Maurice Smith, valendo o cinturão da categoria peso-pesado que estava em poder de Smith.

Está bom para você? Nos moldes de hoje, teríamos pelo menos três main events “desperdiçados” na mesma noite. E como se pode ver, não é de hoje que americanos tentam conquistar o Japão. Entraram de sola.

Festival de armlocks

Belfort contra Charles

Belfort finalizando Charles

Se hoje não vemos tantos armlocks como gostaríamos – bom, eu pelo menos gostaria -, em Yokohama, naquela noite de 21/12/1997, teve de sobra.

De sete lutas no evento, quatro foram vencidas com ele: Tra Telligman, Vitor Belfort, Kazushi Sakuraba e Frank Shamrock usaram o golpe.

Parêntese: Posição favorável à aplicação deste golpe, a guarda é a grande contribuição do jiu-jítsu brasileiro para o mundo das lutas e, naquela época, ainda era um mistério para a maioria dos lutadores – o que levou o público japonês, especial admirador do jogo de grappling, à loucura. Foi realmente uma noite especial.

Mas não foi apenas essa chuva de armlocks que teve de incomum no Ultimate Japan, como foi chamado o UFC 15.5. No GP dos Pesados aconteceu um fato inédito até hoje no MMA.

Sakuraba vs. Conan duas vezes

Saku x Conan 1: a interrupção

Saku x Conan 1: a interrupção

Você não estranhou, lá em cima, quando relacionei a lenda Kazushi Sakuraba como um dos quatro integrantes do mini-GP dos pesados que aconteceu nesta edição?

Seu caso não foi parecido com o Lyoto Machida, que começou no MMA como peso-pesado. O mítico japonês jamais se apresentou fora de seus tradicionais oitenta e poucos quilos.

O que aconteceu na ocisão foi o seguinte. O GP traria inicialmente o pro-wrestler japonês Hiromitsu Kanehara, que lutava como pesado na época (antes de virar “bônus” da categoria meio-pesado do Pride).

Mas este lesionou, dando lugar à Sakuraba – que era seu companheiro de treinos- e seus 86kg.

Como se não bastasse a diferença de peso (Conan era um monstro, um dos maiores da Carlson Gracie Team), Sakuraba teve um empecilho a mais durante a luta. O juiz Big John McCarthy viu um nocaute onde não havia quando Saku mergulhou nas pernas de Conan em busca de um single leg.

A vitória foi erroneamente decretada ao brasileiro e uma polêmica se estabeleceu. Nos bastidores, depois de rever a luta, Big John voltou atrás e o resultado foi mudado para no contest. Para sua sorte, o destino, justo que é, tratou de ajuda-lo a corrigir seu erro.

Saku x Conan 2

Saku x Conan 2

Tank, que havia vencido Anjo via decisão após 15 minutos, machucou sua mão na luta e não pode retornar para a final. O UFC, então, aproveitou a oportunidade para desfazer a injustiça e colocou Sakuraba e Conan frente e frente novamente, valendo o título do torneio.

Foi a primeira e única vez na história do MMA que uma revanche foi concedida na mesma noite.

Detalhe: Muita gente pensa que foi este no contest a primeira luta de Sakuraba no MMA, inclusive o nosso querido Alexandre Matos e a Wikipedia, mas não foi.

Ele já havia perdido para Kimo Leopoldo (ele mesmo!), numa luta de vale-tudo organizada dentro do S-Cup de 1996, tradicional evento de trocação da organização Shoot Boxing.

Os três campeões da noite

Frank ostentando

Frank ostentando

O primeiro campeão da noite foi Frank Shamrock, que em 16 segundos despachou o dourado Jackson para entrar para a história como o primeiro campeão até 93kg do UFC.

Na sequência, foi Sakuraba que ganhou seu primeiro cinturão no MMA (com um surpreendente armlock num faixa-preta do Carlson), ao vencer um GP de pesados sem ser pesado e tendo lutado duas vezes com o mesmo adversário.

E, por último, Couture tomou o cinturão peso-pesado de Maurice Smith depois de 21 minutos de luta, na decisão.

UFC Fight Night 75: Barnett vs. Nelson

Neste final de semana o UFC retorna pela oitava vez à Terra do Sol Nascente. Como luta principal, Josh Barnett, muito conhecido por lá por ter lutado no Pancrase, no Pride e eventos de pro-wrestling, enfrenta o gordinho Roy Nelson.

Como na primeira vez, são os pesados que estão em destaque. E o evento deve até trazer bons combates (Mousasi vs. Hall?), mas nada que se compare a primeira vez.

  • Luis Felipe Fabricio

    A tropa do sexto round ta ficando boa em alfinetarem uns aos outros, ahahahahahah.
    Zueira Never Ends.

  • James Williams

    Sakuraba e o Mir marcou época finalizando faixas pretas de nome no jiu. Saku era muito talento lutando e pegou muitos na sua clássica americana.

    • Luis Felipe Fabricio

      Só o fato de finalizar o Royler e o Renzo Gracie já diz muito.

      • Renato Rebelo

        “Gracie Hunter” total. Quebrou o braço do Renzo, finalizou o Royler, forçou o corner do Royce a jogar a toalha e ainda deu tapa na bunda do Ryan (literalmente). Sinistríssimo.

        • Luis Felipe Fabricio

          Rickson só não consta neste seleto grupo porque é arregão.
          Lutas que o mundo quis ver e não aconteceram: Rickson x Marco Ruas e Sakuraba x Rickson, queria ver ele perdendo essas duas ter toda essa mística em torno do nome do homem.

          • James Williams

            Pois é. Rickson é uma lenda criada, que nunca foi testado ao público. Rei na arte de matar frango.

      • Renzo ok, Royler foi estranho.

    • Mas o Mir é do Jiu-Jitsu. No caso do Saku, que é catch-wrestling, tem mais peso ainda seus feitos.

      • James Williams

        Era apenas um faixa azul, eu acho. O Renato pode saber melhor. Aposentou o Roberton Traven:) que era uma esperança do jiu no peso pesado.

  • Mauricio

    Cara, muito legal ler esse “release” e o Sakuraba encarnava o espírito dos samurais japoneses como ninguém!!

    Maurice Smith era porradeiro, caia pra dentro mesmo e lutou até 2013 se não me engano, andou até vencendo uma luta com seu temido chute alto.. tem um cartel castigado mais pelas inúmeras guerras mesmo!

    Frank Shamrock merecia um posto no Hall of the fame do UFC.. uma pena isso nunca acontecer, Dana tem ele como um desafeto declarado…

    Legal pra caramba, saudade de alugar os VHS

    • Os VHSs foram o começo de tudo pra mim.

      • Mauricio

        Eu ganhei um Dreamcast em 2000 e veio com o jogo do Utimate, ai fui procurar me inteirar mais do que era aquilo e comecei alugar os VHS, lembro no game tinha uns caras mais street: Pete Williams, Ron Watterman, Mikey Burnett.. ai aluguei um VHS do primeiro UFC Brasil hahaha dá uma nostalgia do caramba!

    • Vinicius Maia

      Rapaz, enquanto a vaidade do Dana Branco não deixar ele montar um Hall da Fama honesto, muitos lutadores que merecerem com folga encabeçarem ele nunca serão citados.

  • Jonas

    Minha coluna favorita (ao lado da Receita do Cappelli). Parabéns ao autor

  • Vinicius Maia

    Excelente texto. Porra, não sabia que o Sakuraba tinha feito a revanche mais rápida do MMA. O legal do sexto round que em todo texto dos colunistas você aprende algo novo sobre o esporte.
    Estão de parabéns.

  • Kelion Almeida

    Cara, sua coluna é muito boa!

    Curto muito quando o site trás assuntos do mundo do MMA e não só o UFC (que também gosto muito!) como esses flashback’s ou as colunas do Bellator.

    Deixo uma sugestão: contar a origem (e porque não, o fim) de outros eventos como o Strikeforce, Jungle Fight ou até mesmo o Bellator.

    Parabéns.

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