Flashback: Ases do jiu-jítsu que não vingaram no MMA

Fernando Henriques | 28/08/2015 às 17:47
Royce, campeão do UFC 1

Royce, campeão do UFC 1

O jiu-jitsu está presente no MMA desde o começo. Foi exatamente para provar sua eficácia num combate real, ou naquilo que esportivamente fosse mais próximo, que a Família Gracie, ao longo de todo o Século XX, promoveu desafios contra outras artes marciais, culminado no UFC 1, em 1993, nos EUA, idealizado por Rorion Gracie.

Mesmo quem é recém-chegado ao mundo do MMA sabe que história do esporte se confunde com a do jiu-jitsu brasileiro, pois foi a partir do antigo vale-tudo que este ganhou o mundo.

Em meados da década de 90, após o boom dos primeiros UFCs, quando parte do mundo descobriu que as acrobacias de Van Damme e Bruce Lee talvez não fossem o suprassumo da eficiência marcial, o jiu-jitsu reinou como arte marcial dominante em combates com regras mistas.

Os atletas que representaram a arte venceram a grande maioria dos primeiro torneios organizados, salvo algumas exceções (o maior adversário do jiu-jitsu no Brasil foi a luta livre, que mesmo sendo a única a promover lutas disputadas e vencer alguns confrontos, jamais teve a mesma projeção internacional).

Rickson no Pride 1

Rickson no Pride 1

Os lutadores de jiu-jitsu daquela época, que protagonizaram tais triunfos no MMA/vale-tudo, ficaram merecidamente conhecidíssimos – por sairem na porrada com qualquer um, independente do peso ou arte marcial que representasse, com as mãos nuas.

Como no começo falar em jiu-jitsu sem citar o nome “Gracie” era quase impossível, inicialmente foram os principais lutadores da família que se destacaram: Royce Gracie e Rickson Gracie – estrela do primeiro Pride- primeiro, Renzo Gracie um pouco depois.

Mas logo vieram outros, também representando a arte suave, como Wallid Ismail, com todo o seu folclore, e o disciplinado Murilo Bustamante -ambos pupilos de Carlson Gracie-, protagonista de uma guerra inesquecível contra o gigante Tom Eriksson no MARS em 1996, e galgaram também seu sucesso.

Bustamante: campeão dos médios no UFC

Bustamante: campeão dos médios no UFC

Foi um época de ouro para o jiu-jitsu, que a partir deste sucesso organizou-se, passou a ter mais equipes, academias e torneios – além de instituir uma competição com titulação “Mundial”.

O outro lado da moeda, porém, é pouco comentado. Nem todos que foram grandes no pano e tentaram a vida no MMA se deram bem. Aliás, ao contrário do que se imagina, ser um vencedor no jiu-jitsu nunca foi garantia de sucesso no MMA.

Nesses pouco mais de 20 anos de história, muitos craques da arte suave tentaram carreira no MMA e deram com os burros n’água.

Os motivos para os resultados adversos que encurtaram a carreira de uns ou mesmo a não sequência de outros, mesmo com vitórias, não vêm ao caso aqui.

O elenco que segue apresenta alguns casos emblemáticos de lutadores que foram incríveis lutando de pano ou sem, mas que não foram expressivos MMA.

As conclusões e porquês de cada caso deixo para vocês, na caixa de comentários.

Marcelo Garcia:

001056bTalvez o caso mais marcante – e frustrante, para quem aprecia o grappling no MMA. Multicampeão de jiu-jitsu (5x campeão mundial na faixa-preta) e submission (4x vezes campeão até 77kg do ADCC), habilidosíssimo tanto por baixo quanto por cima, considerado por muitos como um dos melhores grapplers de todos os tempos, Marcelinho fez apenas uma luta de MMA e parou.

A experiência parece ter sido desagradável.

Cria a Alliance, de Romero Jacaré e Fábio Gurgel, Marcelinho foi desde as faixas menores um exímio competidor. Venceu tudo que pode no jiu-jitsu e submission, até que o MMA pareceu uma evolução natural.

Para a única luta fez, Garcia se preparou na America Top Team. O script seguia correto e tudo contava para que ele fosse mais uma ótima contribuição do jiu-jitsu brasileiro ao MMA.

Só falou combinar com o adversário, o sul-coreano Dae Won Kim, que o venceu por nocaute (interrupção médica graças a um enorme corte provocado) no segundo round com uma dura joelhada no rosto. A luta foi em 2007, numa edição do K-1 Hero’s na Coreia do Sul.

Marcelinho jamais voltou a lutar, deixando bem claro, quando perguntado, que este não é mais seu foco.

Amaury Bitetti

not508181fd31b09Não se pode considerar a curta carreira de Amaury Bitetti no MMA um fracasso completo. Ele a encerrou, afinal, com um cartel positivo (5-2), e em sua última luta venceu um bom lutador (Dennis Hallman).

Mas para alguém como Bitetti, que tem o nome marcado na história do jiu-jitsu, tal retrospecto no MMA é pouco. Quando estreou, a expectativa sobre ele não era pequena.

Aluno do lendário Carlson Gracie desde novo, Bitetti era considerado um de seus mais técnicos pupilos, fato confirmado no começo da era dos mundiais de jiu-jitsu, quando foi bicampeão absoluto, em 1996 e 1997.

Foi difícil para o fã de jiu-jitsu de 1995, acostumado a ver seus ídolos passarem por cima de qualquer um, digerir a derrota de Amaury em pleno Maracanãzinho para um representante da capoeira (Mestre Hulk, na final do “Desafio Internacional de Vale Tudo“).

Não desmerecendo a capoeira, longe mim, mas no cenário do vale-tudo da época, a expressão da modalidade era pequena. Assim, quando Mestre Hulk nocauteou Bitetti, foi um choque geral, tanto que o árbitro central demorou séculos para intervir e decretar o fim do combate, pois ele próprio assistia seu desfecho incrédulo.

No ano seguinte, quando tentou a sorte no UFC, mais maduro e já ostentando um mundial de jiu-jitsu, Bitetti também não teve sorte. Foi parado em sua primeira luta na organização por Don Frye, no UFC 9.

Fernando “Tererê”

Captura de Tela 2015-08-28 às 16.37.02Tererê é um dos grandes personagens da história recente do jiu-jitsu. Conhecido por seu enorme carisma, bem como por sua técnica apurada, acostumou-se, desde a faixa-roxa, a conquistar a plateia dos ginásios em que lutava.

Ainda como faixa-marrom, Tererê já era um nome conhecido no meio por conta de sua postura arrojada e dinâmica nos tatames. Ao chegar a preta, manteve-se relevante, sendo também campeão mundial (já havia sido na azul, roxa – peso e absoluto em 98 – e na marrom).

Na final da categoria médio do mundial de 2003, foi o algoz de Marcelinho Garcia, vencendo-o com um triângulo. Posteriormente, no mundial de 2004, foi protagonista de uma das finais mais inusitadas da história, contra Fabrício Werdum na categoria pesadíssimo – segundo o próprio, se inscreveu no mundial como pesadíssimo (ele pesava 80kg) para “mostrar que a formiga pode ganhar da barata”.

106_0_tibauVirou lenda, se já não era.

E no mesmo ano que se sangrou bicampeão mundial na faixa-preta, 2003, quando vivia seu auge no jiu-jitsu, Tererê arriscou-se no MMA contra ninguém menos que Gleison “Tibau”, hoje veterano do UFC.

A luta, que aconteceu no Bitetti Combat Nordeste 2, foi parelha e Tibau venceu numa decisão dividida.

A partir dali, Tererê seguiu como competidor de jiu-jitsu até mergulhar numa série de problemas pessoais que o afastaram das grandes competições por quase 10 anos, retornando somente há pouco tempo, no Europeu de 2013.

Ricardo Libório

Captura de Tela 2015-08-28 às 16.45.29Libório é até hoje considerado o mais técnico faixa-preta de Carlson Gracie, em concorrência acirradíssima com nomes como Amaury Bitetti, José Mário Sperry, Murilo Bustamante, Ricardo De La Riva, Sérgio Bolão, Carlão Barreto e muitos outros craques.

Sempre que dá uma entrevista, alguém menciona tal façanha, talvez por ele ter recebido, no primeiro campeonato mundial de jiu-jitsu, em 96, o título de mais técnico faixa-preta da competição.

À época, ele sagrou-se campeão da categoria super pesado e perdeu a final do absoluto para o companheiro de treinos Amaury Bitetti. No submission, Libório não competiu muito. Disputou por duas vezes o ADCC, faturando prata (2000) e bronze (1999), na categoria até 88kg.

Sua trajetória como competidor – que ainda não se encerrou, visto que enfrentará o ex-companheiro Mário Sperry numa superluta do ADCC 2015 – só não foi mais ativo porque na primeira metade da década de 90, Libório era um gerente executivo do Banco do Brasil  e não tinha ainda condições de abdicar deste salário.

Talvez por isso não tenhamos visto mais de uma vez seu talento no MMA. Na única luta que fez, empatou com o japonês Ikuhisa Minowa, em 2001, no Deep.

Hoje, ele é mais conhecido por ser head coach da American Top Team.

Saulo Ribeiro

Xande e Saulo Ribeiro

Xande e Saulo Ribeiro

Saulo Ribeiro é um dos maiores vencedores da história do jiu-jitsu. Faturou tudo que se possa imaginar lutando de pano; foi cinco vezes campeão mundial na faixa-preta, campeão pan-americano.

Obteve sucesso também lutando sem quimono. Por muitos anos foi figurinha certa nos ADCCs, faturando o título por duas vezes (na categoria até 88kg), e em 2008 sagrou ainda campeão mundial no gi (sem quimono).

Seu caso é parecido com o de Amaury Bitetti, pois a expectativa para sua migração para o vale-tudo/MMA também foi grande, numa época em que todos os outros ases da arte suave de sua geração faziam este caminho com sucesso.

Infelizmente, não foi o caso de Saulo. Em 1996 ele fez sua estreia, no chamado “Circuito Freestyle Carioca“. Venceu um adversário pouco expressivo. Mas foi no ano 2000 que, realmente, podemos considerar o debut e batismo de fogo de Saulo no MMA.

Renomado, Saulo foi escalado para enfrentar o experiente japonês Yuki Kondo, no Colosseum 2000, super evento que bancava o retorno, e a despedida, de Rickson Gracie do MMA.

O resultado não poderia ser pior: o faixa-preta de judô e jiu-jitsu foi nocauteado brutalmente em 22 segundos.

A derrota impactante o afastou do MMA por dois anos, quando esteve novamente focado nos eventos com e sem quimono, até que em 2002 ele fez sua última luta, novamente num evento menor – TFC -, contra Jason Ireland.

Venceu por finalização numa luta que poucas pessoas deram atenção. Acabava aí sua carreira no MMA.

Jean Jacques Machado

Jean Jaques é mestre do mestre de Joe Rogan (Eddie Bravo)

Jean Jacques é mestre do mestre de Joe Rogan (Eddie Bravo)

Quando vi Jean Jacques lutando pela primeira vez, no ADCC 2001, espantei-me pelo sucesso que conseguia mesmo portanto uma deficiência congênita na mão esquerda.

Membro da tradicional Família Machado (são primos dos Gracies), Jean Jacques, assim como seus irmãos, foi criado nos tatames.

Certamente o enorme lastro de treino que adquiriu ao longo dos anos, aliado ao seu ótimo QI de luta (termo novo, para um antigo estrategista da luta agarrada), o fizeram desenvolver um jogo que em nada é prejudicado por sua “deficiência”.

Seu histórico no jiu-jitsu (em época anterior aos campeonatos mundiais) e principalmente sua trajetória no ADCC comprovam.

Quando o evento de submission mais famoso do mundo começou a ser disputado, em Abu Dhabi, Jean Jacques rapidamente se destacou como um dos principais campeões do evento, ao ser campeão até 77kg em 1999 e duas vezes vice-campeão absoluto (2000 e 2001).

E qual não foi minha surpresa quando tardiamente descobri que ele já havia lutado MMA. A tal luta, única que fez na modalidade, foi contra um nome de peso, o experiente Frank Trigg, no Vale Tudo Japan de 1998.

Jean Jacques perdeu por TKO no terceiro round.

Márcio Feitosa

Marcinho montado em Mishima

Marcinho montado em Mishima

Cria da Gracie Barra, Márcio Feitosa foi um monstro no jiu-jitsu. Graduado faixa-preta aos 19 anos, foi por muitos anos nome certo no pódio do campeonato mundial – ao todos faturou três títulos e cinco vice-campeonatos.

Certamente, um dos grandes nomes no fim da década de 90, início dos anos 200, que ao lado de Vitor “Shaolin” e Léo Vieira formavam um trio que papava tudo entre os leves.

Por muito tempo, só perderam entre si. Já no MMA, a minúscula trajetória de Feitosa é desconhecida do grande público. Ele fez apenas duas lutas, com um espaço de seis anos entre elas!

Uma no Shooto, em 2000, contra o duríssimo japonês Dokonjonosuke Mishima – empate -, e outra bem mais tarde, na IFL (defendeu o New York Pitbulls de Renzo Gracie) em 2006, na qual perdeu numa decisão divida polêmica para Bart Palaszewski.

Foi bem pouco, se considerarmos o tamanho e o peso de seu nome no jiu-jitsu.

E ainda deixou um gostinho de “quero mais”, dada a dureza dos adversários que enfrentou, sendo menos experiente que ambos, a luta dura que os entregou.

Naturalmente, existem ainda outros nomes que se enquadram no perfil levantado neste texto que não foram mencionados.

Fiquem a vontade para citá-los nos comentários. Pretendo fazer uma segunda parte e vocês podem me ajudar.

  • Ayrllys Allan

    Só esqueceu do mito Renato Laranja, mas ok! hahah
    E que artigo hein, pqp, me lembrou os especiais da Bleacher Report, parabéns Fernando!

    • Obrigado, Ayrllys. Deu um trabalho danado, fico feliz que tenha apreciado. Sobre o Renato Laranja, quem sabe não entra na próxima lista? Rs.

  • Luis Felipe Fabricio

    Muito legal, eu nem imaginava que o Marcelinho Garcinha já tinha se arriscado no MMA
    .Da geração atual não há como não mencionar o Roger Gracie e o Andre Galvão, gênios no jiu jitsu e medianos no MMA.

    • Verdade. Ambos foram medianos, mas os citados foram ainda pior do que isso.

  • Gabriel Osório

    Só aguardo uma possivel estreia do Buchecha no mma, já que ele tem feito treinos na AKA

    • Renato Rebelo

      Esse ano estreia a Gabi Garcia tb. E o Rodolfo (Vieira) já tem misturado os treinos há um tempo.

      • Ramon Reis

        O Rodolfo Vieira tá treinando aonde?

        • Heleno

          Por último está em Miami, treinando com o Cyborg pro ADCC.

      • Heleno

        O kron ainda é uma incógnita. Achei crú na trocaçao e sem cacoete algum. Tem muito talento, mas receio ter enturmado com uma galera que não vai deixar desenvolver todo esse potencial.

  • Renato Rebelo

    Pessoal, dicas para a parte 2 do Fernandão? Pensei em Dedé (Pederneiras), Fábio Gurgel, Daniel Moraes, Nino Schembri…

    • Heleno

      Boa lembrança do Nino. Sugiro Margarida, André galvao e Barral. Ainda uma parte 3 dizendo quem tem sucesso hoje e pode se dar bem na migração.

      • Renato Rebelo

        Excelente ideia, Heleno.

    • Rodrigo Kenok

      Roger Gracie

  • Gustavo Assad

    Texto irado, Fernando!!

  • bedotRJ

    Me junto aos que se amarraram no artigo. Trabalho brilhante, Fernando! Parabéns!

  • Edu Matemático

    Top o levantamento. Reportagem de alto nível, pro fã que curte a parada mesmo. Parabéns.

  • Matheus

    Q texto irado! Varias curiosidades q não sabia. Parabéns ao autor. OBS: O Andre Galvão é um supercampeão tb q não se criou

  • André Guilherme Oliveira

    Cara que texto bacana, alguns ai eu conhecia a trajetória, inclusive a do Bitetti pro mestre Hulk talvez tenha sido a derrota mais emblemática do jiu jitsu. Já o Terere e o Feitosa eu não sabia que haviam se aventurado no MMA. Ansioso pelo parte II.

  • Wellington Fonseca

    Excelente Flashback, como sempre. Parabéns!

  • Pedro Campelo

    E sobre o Andre Galvão? Uma lenda incontestável no mundo do Jiu Jitsu que também seguiu para o MMA (esperando ansiosamente a luta dele com o Cyborg amanhã), mas não sei como foi a performance dele. Não está faltando o nome dele ai não? Abs

    • Pedro Campelo

      Kkkkk agora vi os comentários e vi o nome dele citado para a parte 2. Valeu

  • João Washington

    Ótima pesquisa!

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