Flashback: as duas derrotas de Fedor no Rings

Fernando Henriques | 15/08/2015 às 18:50
Arona montado no russo

Arona montado no russo

Isso mesmo, duas, você não leu errado. Apesar de só uma delas ser contabilizada em seu cartel (contra Tsuyoshi Kosaka), Fedor Emilianenko perdeu duas vezes lutando pelo finado evento japonês .

Falo da luta contra o brasileiro Ricardo Arona, que dominou o russo com seu jogo de quedas e solo excelente, mas não levou a vitória oficialmente, graças às regras diferenciadas do evento japonês.

Arona não teve seu braço erguido ao final de três rounds contra Fedor, mas levou a fama, pelo menos aqui no Brasil, como se tivesse sido o vencedor oficial. Convenhamos, fama merecida.

Mesmo sem a anuência dos juízes, que nada mais fizeram do aplicar um complicada e estranha regra, Arona obteve um feito que demoraria 11 anos para se repetir.

Arona reclamando do resultado

Arona reclamando do resultado

Quando lutaram, em 2000, Fedor fazia apenas sua quarta luta profissional de vale-tudo, mas já dava sinais de que vingaria no esporte. Ninguém imaginaria, porém, que se tornaria o maior de todos os tempos – na opinião de muitos .

Durante todo seu imbatível reinado no Pride, a cada luta que vencia com propriedade, fãs hardcore e especialistas lembravam apenas daquela luta no Rings e de como só Arona havia conseguido parar o russo até então.

Eu mesmo, à época, revia essa luta de seis em seis meses, sempre que a invencibilidade de Fedor vinha à tona.

Com a notícia do retorno do russo, depois de três anos parado e com 38 anos, cogitando lutar no UFC, o que eu fiz? Revi esta luta, ora. Os quatro pontos abaixo são insights que tive a respeito de tudo que ela envolveu:

1) Regras da Fighting Network Rings

Maeda x Karelin em 99

Maeda x Karelin em 99

Rings é o apelido da empresa Fighting Network Rings, criada pelo lutador de (pro) wrestling japonês Akira Maeda. Maeda, que também viria a ser uma estrela de seu evento (único homem a ter tido a honra de enfrentar a lenda russa Aleksandr Karelin numa luta de MMA), criou a marca para promover lutas de Puroresu e concorrer com a UWF de Nobuhiko Takada, que promovia lutas do mesmo estilo e nascia no mesmo ano.

Foi somente partir de 1995, após o sucesso do UFC americano, que o Rings começou a promover lutas de MMA. Só que com regras bem distintas daquilo que se viu em solo americano e mesmo do que temos hoje.

Menos “violento” do que o vale-tudo popularizado pelos Gracies, o evento de Maeda trazia peculiaridades herdadas do Puroresu, entre elas o fato de não valer golpear a cabeça quando ambos os lutadores estão no solo.

Em pé, não valiam também cotoveladas de qualquer tipo. Fora isso, era o striking normal, quando em pé, e o grappling solto, livre do temor dos golpes, quando no chão. A ideia de Maeda era misturar as artes de uma forma mais pura, digamos assim.

Mas a regra principal mesmo, que foi diferencial para Arona não sair vencedor, era a forma com que pontuavam a luta no solo. Tentativas de finalização recebiam valor exacerbado, ao passo que posições de domínio e quedas não valiam tanto.

Assim, com alguns botes de guilhotina que não levaram perigo algum, Fedor parece ter impressionado mais.

2) A importância do Rings para o Pride

Rickson x Takada no Pride 1

Rickson x Takada no Pride 1

Quando o Pride surgiu, em 1997, estampando o ícone Rickson Gracie em sua luta principal, foi beneficiado pela existência de um já pujante mercado de lutas mistas.

Diferentemente do cenário americano antes do UFC, no Japão já existiam três eventos anteriores ao Pride, com circuitos permanentes: Shooto, Pancrase e Rings.

Destes circuitos saíram muitos que futuramente seriam grandes nomes no Pride. Nomes como Minotauro, Dan Henderson, os irmãos Overeem, Kiyoshi Tamura, Arona, Gilbert Yvel, o próprio Fedor, só para citar aqueles oriundos do Rings.

Como as primeiras estrelas (Rickson, Royler, Taktarov, Dan Severn), que fizeram nome nos primórdios do esporte ou mesmo nas modalidades de base, não seguiriam por muito tempo no Pride, os pelotões do Rings, Pancrase e Shooto foram muito bem-vindos.

E no decorrer da história do Pride continuou assim: à exceção do Rings, que se pretendia como atração um maior porte e não resistiu a concorrência, encerrando suas atividades em 2002, os demais continuaram como celeiros de lutadores para o principal evento de lutas do MMA japonês, quase como funcionam hoje o Legacy e talvez o RFA para o UFC.

3) O primeiro pior dia da carreira de Fedor

Em 22 de Dezembro de 2000, em Osaka, Fedor subiu no ringue para enfrentar o brasileiro Ricardo Arona, temido pelo seu forte jogo de solo – Arona já era campeão do ADCC à época.

Na ocasião, Arona lutava com seus tradicionais 91Kg e Fedor, igualmente, com seus 106kg tradicionais. A luta foi válida pela semi-final de um dos torneio de duas lutas na mesma noite que compunham as fases do grande torneio anual do Rings, o King of Kings (open weight).

Bom, digamos que não foi um bom dia para o mais velho dos irmãos Emelianenko.

Depois de ficar embaixo de Arona por quase 15 minutos, sendo dominado no solo por um cara mais leve, mas obter a vitória na decisão apesar desse perrengue, Fedor enfrentou o lutador da casa Tsuyoshi Kosaka e conheceu sua “segunda” derrota no evento, dessa vez, fruto de uma fatalidade.

Interrupção médica garantiu derrota para Kosaka

Interrupção médica garantiu vitória de Kosaka

Aos 17 segundos de luta Kosaka acertou-lhe um soco à altura dos olhos , meio de raspão, que abriu um corte e impossibilitou o russo de continuar. TKO para o japonês, numa situação similar a Belfort vs. Couture 2.

O campeão do King of Kings Tournament 2000 (de outubro de 2000 a fevereiro de 2001), do qual ficaram para trás Fedor e Arona, seria ninguém menos que Antônio Rodrigo Nogueira, o Minotauro, que migraria posteriormente para o Pride com toda pompa de campeão dos campeões do Rings.

Veja como é rico de histórias o MMA: aquele Fedor que havia sido parado pelo destino, depois de burlá-lo contra Arona, encontraria este Minotauro que, ao contrário, nem o destino era capaz de parar, no Pride, quatro anos depois, e encerraria sua incrível sequência de 15 vitórias.

4) Dificuldades contra grapplers superiores

Pezão montado em Fedor

Pezão montado em Fedor

Fedor é um grappler de origem, com base em sambô e judô. Mostrou e provou isso em longa carreira vitoriosa. Sempre que o colocavam de costas no solo, ele virava o jogo e finalizava.

Pegou Kevin Randleman, que tinha wrestling superior e chão fraco, Coleman, que era da mesma escola e estilo, o judoca desengonçado Naoya Ogawa, Hong Man Choi, que é um gigante e nada mais…

Mas contra quem possuía um jogo de solo mais afiado e conseguia derruba-lo, tomou atraso. Foi assim com Arona, no começo da carreira, e com o enorme Antônio Pezão, no final.

E até suas outras duas derrotas foram impactadas por um movimento de excelência na luta agarrada:

A) Contra Werdum, óbvio, ele caiu no triângulo variando para armlock do gaúcho e deu seu primeiro tapinha de desistência depois de 10 anos de carreira.

B) Contra Dan Henderson, alguns podem não ter percebido, mas o movimento que fez Hendo sair do perrengue do ground and pound do russo por baixo e parar em suas costas, em condições de soltar sua Bomba H, foi um movimento de wrestling, que fluiu graças ao lastro de treino do americano na modalidade.

O bote de Werdum

O bote de Werdum

Mas contra Werdum e Hendo foram momentos que custaram a vitória, algo que pode acontecer com qualquer lutador, no auge ou não.

Para a reflexão que quero deixar, ficam as imagens de Arona e Pezão superando Fedor num jogo que muitos fazem bem na categoria meio-pesado do UFC, aonde muitos fãs queriam ver o russo.

Entre os pesados, considerando o UFC, talvez somente Cain Velasquez seria capaz. Frank Mir? Josh Barnett? Não sei.

O que sei é que, com 38 anos – quase 39-, Fedor faz bem em não vir para a cova dos leões que se tornou o UFC.

  • Pedro Lins

    Fedor não perdeu essa luta contra o Arona. Ele venceu de acordo com as regras do evento que são determinadas ANTES da luta. Querer atribuir uma derrota baseada nas regras de eventos onde valia o ground n pound não faz sentido basicamente porque tanto o Fedor quanto o Arona sabiam que esse tipo de ferramenta não valia. Logo se permitiram ou pelo menos não se esforçavam pra cair em posições que naturalmente não permitiriam se de acordo com as regras combinadas previamente houvesse a chance de serem atingidos no ground n pound. Assisti essa luta diversas vezes, inclusive no auge de ambos, e nunca tive problemas em marcar a vitória para o Fedor. Fedor tentou mais finalizações e foi melhor em pé. Da mesma forma o Arona sabia das regras e teve diversas oportunidades de tentar pegar na americana ou na kimura e não conseguiu fazer. Montava e não evoluia pra nenhuma tentativa de finalização. Ele perdeu pro Fedor.
    As derrotas para o Pezão e Dan Henderson vieram basicamente porque desde a saída do Pride o seu desempenho já não era mais o mesmo. Fedor já estava com mais de 30 lutas de MMA contra adversários maiores e mais fortes e a quantidade de dano que ele sofreu e os anos de treinos já estavam cobrando a conta. Se o Fedor de 2005 enfrentasse o Pezão ou o Henderson, venceria os dois. Contra o Werdum ele caiu em uma armadilha, méritos do Werdum.

    • Denilson Bezerra

      É isso aí, será que o Arona não sabia da regra tão bem quanto o autor do texto? Arona perdeu, simples assim.

      • Saber, ele provavelmente sabia. A questão ali foi o estilo de luta agarrada de ambos. Arona só tentaria uma finalização se visualizasse a possibilidade de êxito, é dele isso, já Fedor, até por estar por baixo, buscou tais posições com mais frequência, para ter um respiro, para equilibrar a luta… Aí, deu no que deu. Arona, por não ter se sentido em perigo, certamente achava que estava ganhando a luta. Quando viu que não estava, no terceiro round, já tava sem gás.

        • Victor Afonso

          Nossa ! Galera difícil hein ?!
          Eu entendi perfeitamente o que quizeste dizer e concordo.
          Tanto que a primeira vez que vi a luta não sabia das regras e me perguntei assim como toda a galera dos comentários, como os juízes haviam dado a vitória ao Fedor ?
          Alguém respondeu que foi pelas regras e é isso aí.

    • Não atribui derrota ao Fedor baseado em regras onde valiam o ground and pound coisa nenhuma! O ponto não é esse, meu foco não foi o GnP ou a ausência desse recurso no RINGS. Insinuar que sim beira a falácia.

      Releia e confirme que não expressei isto no texto, não escrevi que acreditava na vitória do Arona justamente por isso, pelo contrário, comentei da diferença de valorização do que aconteceu no solo. Só.

      Ainda assim, convenhamos, se não estamos entre tietes do Fedor, não é nenhum absurdo reclamar a vitória do brasileiro mesmo nas regras do RINGS.

      É óbvio que Arona sabia das regras, não foi esse o seu problema e sim a forma com que a luta foi pontuada no solo. O problema na marcação original foi a consideração de praticamente qualquer guilhotina como um bote perigoso, caracterizando o tal do “catch”. E não foram perigosas, Arona não esteve em perigo real em praticamente nenhuma guilhotina, tanto o é que Fedor soltava a posição sozinho. A melhor posição do russo, na verdade, foi a chave de pé no 2R, se não me engano.

      E se a luta transcorreu a maior parte do tempo no solo, sem posição de finalização que realmente levasse perigo, vantagem daquele que esteve mais tempo em posições de vantagem. O primeiro round evidencia isso, pois o juiz deu dois “catchs” para cada (sendo que, no caso do Arona, um porque ele simplesmente laçou o braço do russo sem levar perigo algum numa americana, e o outro porque pegou as costas e deu uma incomodada no queixo do Fedor) e este round provavelmente foi para o Arona, já que a luta, prevista para dois rounds, inicialmente empatou – como no segundo round só o Fedor teve “catch”, acredito que levou este. Assim, foi preciso um terceiro round onde outra guilhotina que Fedor nem chegou a puxar, apesar de ter dado um aperto em pé, garantiu-lhe outro “catch” e a vitória — este round, para mim, foi talvez o único do russo. E o Arona não foi pior em pé claramente, como afirmou. No round 3, encaixou uma joelhada limpa, e ao longo da luta conseguiu tirar sangue do russo (o que necessariamente não demonstra superioridade mas é, sim, argumento, num combate de onde poucos socos acertaram o alvo).

      Para mim, mesmo no RINGS, a luta foi claramente do Arona. Mas, infelizmente, o juiz central marcava o “catch” (é esse nome mesmo?), com o dedo em riste, para qualquer coisa.

      Enfim, imputar esta derrota ao russo foi um recurso atrativo desde o título, meramente provocativo, sem intenções mais sérias além de chamar atenção para esta história, visto ser uma das funções da coluna rememorar eventos passados.

      • Rafael Guedes

        Sr. Henriques, apesar de você já ter expressado seu ponto de vista na resposta acima, tive que vir comentar também que, não sou tiete do Fedor, mas que sua matéria diz sim, claramente, desde o título “As DUAS derrotas de Fedor no Rings”, que o russo haveria perdido a referida luta com o Arona, o que, de fato NÃO aconteceu. Também fui rever a luta, e aproveitei pra rever outras lutas do Rings e concluí que aquele era a maneira de pontuar no evento. Ponto. Como você mesmo

        diz no texto, uma mistura mais pura de luta em pé quando em pé e agarrada quando no chão.
        Logo, beira o sensacionalismo clamar uma vitória do Arona nessa luta, pois lhe faltou, no mínimo Q.I. de luta para tentar reverter o resultado a seu favor ainda no primeiro round (o que acredito ser perfeitamente possível de ser feito, inclusive).
        Respeitosamente.

        • Sr. Guedes, acredito que tenhamos um problema de interpretação de texto, tanto no texto como no comentário. Por óbvio, não neguei no comentário acima que tenha imputado a vitória ao Arona no texto, ora, afirmei que o fiz por mera provocação e belo ensejo ao flashback da semana. Funcionou muito bem, pelo visto.

  • Rodrigo Carvalho

    Já passou pela cabeça de vocês, que a manobra de Werdum vs. Cain II pode ser uma indicação que o UFC quer uma vitória do ex-campeão e, casar em uma sequencia: Cain vs. Fedor?

    Isso é muito louco, ou sei lá, plausível?

    • Frankie Edgar

      Teria sido uma manobra infeliz. Melhor seria dar logo a oportunidade do Cain enfrentar o Fedor e aí teríamos uma revanche foda de qualquer um dos dois com o werdum.

    • Renato Rebelo

      Rapaz…

    • Marco Aurélio

      Pra que isso aconteça é necessário a vitória do Cain, já estão dando como certa a vitória dele?Mais uma vez o Werdum é zebra e vai ter que provar que evolui?

    • Tiago Nicolau de Melo

      Seria mais fácil casar ele com o Cain agora, que ele não é campeão.

  • Vítor Câmara

    Passando só pra deixar minha admiração a Alexander “The Russian Experiment” Karelin.

    • Karelin era foda. Qualquer será tema de um flashback, ao lado de seu algoz, Rulon Gardner.

  • Chico Guazzelli

    ótima análise e ótima coluna!

  • Lucas Natan

    Fedor x Anderson, por favor. hahaha

  • bedotRJ

    Só sei que 2016 é o ano do Tigre! o/

    • Ayrllys Allan

      HAHAHA #voltaarona!

    • Mauricio

      2016 dizem que vem forte, hein!

      Seria melhor no Octoringue

    • Thiago Rodriguez

      THE TIGER IS BACK !!!!KKKK

  • Lucidio Gomes

    Desculpem minha ignorância, mas o Fedor já assinou com algum evento?

    • Renato Rebelo

      Ainda não, Lucidio. Assim que assinar, debateremos no fórum e nossos colunistas escreverão sobre = )

  • Rafael Guedes

    Obrigado pelo retorno no comentário anterior.
    Aproveito pra deixar uma pergunta talvez nem tão relacionada ao tema:
    Na época dessa luta e nessa época em geral, em todos os eventos, não havia muito estudo do adversário, pelos treinadores e análise “in loco” em tempo real das lutas, por parte dos córners, não é? Pois revendo algumas, chama atenção a grande quantidade de resultados que poderiam ser alterados com uma simples instrução no intervalo dos rounds! Nada de Dedés e Gregs antigamente, não?

    • Os treinadores ainda não se viam nesse papel, em sua maioria. Pelo córners brasileiros você pode notar que, basicamente, o papel do coach à época se resumia a incentivar o atleta de um round para outro.

      Até porquê, no caso do PRIDE, a dinâmica da luta com um round de 10 minutos era diferente.

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