Vale assistir? A leitura
dinâmica do UFC Orlando

Thiago Sampaio | 22/02/2018 às 15:25

Depois de um domingão com direito até a bitoca na vovó do rival e discurso de Derrick Lewis dizendo que “ia fundo” na esposa (oremos pela saúde dela!), vamos para mais um card nem tão estrelado, mas com ótimas promessas.

O “UFC on Fox 28: Emmett vs. Stephens” acontece a partir das 18h (horário de Brasília) deste sábado (24), na Amway Center, em Orlando, Flórida.

Quem estiver de passeio pela Disney e gostar de MMA, pode até passar para ver de perto a luta principal entre Josh Emmett e Jeremy Stephens, pelo peso pena.

No co-main event, a brasileira Jéssica “Bate-Estaca” Andrade enfrenta Tecia Torres, podendo carimbar, além de uma foto com o Mickey, a passagem para uma nova disputa de cinturão do peso palha.

Mas vamos lá aos destaques!

Who the fuck is that main event?

Muita gente nem sabia quem raios era Josh Emmett (13-1, 4-1 UFC) até ele tapar o buraco deixado por José Aldo, que enfrentaria Ricardo Lamas, em dezembro do ano passado. Total azarão, acabou desligando o ex-desafiante ao cinturão dos penas ainda no primeiro round.

Com ascensão meteórica, já faz sua primeira luta principal num card da Fox, no córner vermelho, contra o também veterano Jeremy Stephens (27-14, 14-13 UFC), que vai para o seu quarto main-event (o segundo em seguida), prometendo, no mínimo, violência.

Apesar de sempre alternar vitórias e derrotas, Stephens teve uma atuação bem convincente contra Gilbert Melendez, massacrando a perna do adversário e levando por decisão unânime. Contra Dooho Choi, arrancou um nocaute no segundo round.

Se Emmett mostrou ao mundo a mão pesada que tem ao nocautear Lamas, na luta anterior, contra Felipe Sertanejo, já havia dado um aperitivo ao aplicar quatro knockdowns ainda no primeiro round. Antes peso leve, se mostrou um forte peso pena.

Acontece que o atleta da Team Alpha Male diminui o ritmo quando os rounds se avançam e tal poder de nocaute vai encolhendo a barra de força. Stephens já mostrou que aguenta pancada! Só foi nocauteado uma vez em 41 lutas como profissional.

Um velho problema do Lil’ Heathen é partir afoito para o ataque sem tanta precisão, desperdiçando o punch que tem. Mesmo contra Choi, deu inúmeros golpes no vento ou de raspão, gastando força e energia nos pombos sem asa, até se encontrar no segundo round. Encontrou a distância e o nocaute.

Mesmo com background no wrestling, Stephens dificilmente amarra as lutas. Com chutes e joelhadas perigosas, algumas vezes arrancou o nocaute quando levava a pior, como contra Dennis Bermudez.

Emmett, que tem carreira como wrestler universitário e é faixa azul de jiu-jítsu, deve partir para a luta agarrada se não a mão não funcionar logo. Daí, tem mais chances. Já mostrou ter bom clinch e sabe cadenciar o gás, como nas vitórias sobre Jon Tuck e Scott Holtzman.

Com garantia de boa pancadaria no início, não duvidem se o vencedor ficar próximo de uma disputa pelo cinturão de Max Holloway. Afinal, vai ficar logo atrás na fila do vencedor do duelo entre Frankie Edgar e Brian Ortega.

Já acabou, Jéssica?

Jéssica Andrade (17-6, 8-4 UFC) não era favorita contra Cláudia Gadelha, mas teve uma atuação de gala, fazendo a compatriota parecer uma boneca de pano. Foi agressiva em pé, escapou de finalizações, derrubou e bateu no solo. Bateu muito!

A performance foi tão convincente que, se vencer Tecia Torres (10-1, 6-1 UFC), muito dificilmente não terá nova chance de disputar o cinturão da categoria palha novamente, oportunidade que teve e perdeu para Joanna Jędrzejczyk, em maio de 2017.

Mas a Pequena Tornado (que apelido medonho!) tem um jogo pra lá de chato e funcional. Faixa preta de karate e taekwondo, sabe jogar nos contragolpes e explorar os erros da adversária com bons chutes e golpes de encontro. Tem a paciência que pode faltar para a brasileira.

Não à toa a única derrota da carreira foi para a atual campeã Rose Namajunas (quem ela já venceu no Invicta FC). A única vitória que não foi por pontos foi quando finalizou a apenas esforçada Juliana Lima. Na última, teve atuação bem convincente contra Michelle Waterson.

A agressividade e o poder de nocaute diferenciado da Bate-Estaca sempre serão um perigo. Mas o estilo conservador do americana pode complicar se não conseguir terminar logo, algo bem provável que aconteça.

Ainda assim, Jéssica mostrou que está longe de ser unidimensional. Tecia até tem um chão justo, é faixa azul de jiu-jítsu, mas Claudinha é uma grappler infinitamente superior e a Bate-Estaca não ficou nada perdida. Pelo contrário, ditou o caminho.

Namajunas e Joanna, que estão com revanche marcada para o UFC 223, já podem assistir a esse duelo cientes do que pode vir em seguida.

Detalhe: a brasileira virá mordida para honrar o nome da Paraná Vale Tudo depois da avalanche de críticas sofrida após o atropelo da Priscila Cachoeira pela Valentina Shevchenko.

Macumba ou montada em mamute?

A categoria dos meio pesados anda tão sucateada que o vencedor desta luta fica próximo de um title-shot. E Ovince Saint Preux (22-10, 10-5 UFC) estava tão determinado a enfrentar Ilir Latifi que o combate foi reagendado do card anterior da Fox, em janeiro, para agora.

E aqui temos dois caras de potencial mas que não podemos esperar nada. Começando pelo aprendiz de macumbeiro que faz aquela pose esquisita com as mãos e a língua. De quase demitido após perder três em seguida, agora vem de três triunfos.

Mas alto lá: finalizou um fraquíssimo Marcos Pezão e um combalido, destreinado e bem mais leve Yushin Okami. Na última apresentação, vinha levando um atraso e tanto de Corey Anderson, até tirar um chutão da cartola e arrancar o nocaute no terceiro round.

Já o sueco que gosta de postar fotos fofinhas nas redes sociais com seu cachorro ou até montando um mamute, ainda se recupera da viagem para o espaço que fez em 2016, cortesia do joelho de Ryan Bader. Lutou em setembro de 2017 e venceu por decisão o bom, porém ainda verde, Tyson Pedro.

Neste duelo em que tudo pode acontecer (de errado) com qualquer um dos dois, a disputa está equilibrada. Saint Preux é um striker mais versátil, tem maior envergadura e mobilidade. Tem contundência e o sueco já foi nocauteado algumas vezes.

Tem como marca registrada a rara Von Flue Choke e sempre oferece perigo se cair por cima, ainda que a missão mais complicada seja encontrar o pescoço de Latifi (ele tem?!)! Mas o filho de haitianos já mostrou sérios problemas na luta agarrada, inclusive contra o mediano Corey Anderson.

O The Sledgehammer é um wrestler de berço, forte como…um mamute…e pode muito bem controlar as ações por três rounds ou até arrancar um nocaute técnico. Trata-se do caminho natural, porém, também tem um boxe decente e uma mão que não é leve.

Quem levar a melhor tem grande chances de encontrar o ex-campeão dos meio pesados, que aguarda a sua hora para o retorno triunfal. Jon Jones? Não, Maurício Shogun mesmo.

A dor pode quebrar a platina?

Mike Perry (11-2, 4-2 UFC) é um cara sinistro. Já mostrou que se um golpe dele entra em cheio, em você, sua carcaça vira um meme tipo o Jake Ellenberger após a cotovelada assassina que levou. É um lutador empolgante, mas também mostrou que não tem nada de invencível.

Nocauteador nato com carreira no muay thai amador e boxe profissional, impressionou também nas vitórias sobre Hyun Gyu Lim, Danny Roberts e Alex Reyes. É preciso estar consciente que onde ele bate, não nasce mais cabelo, espinha, ruga, micose ou o que for.

Mas nas derrotas para Alan Jouban e Santiago Ponzinibbio, se mostrou suscetível contra adversários com adversário com estratégia bem definida, que sabem jogar na distância e engolindo-o com volume de golpes.

Max Griffin (13-4, 1-2 UFC) parece ser o tipo de adversário ideal para manter o Platinum em alta. Não é tão famoso, precisa de vitória e, principalmente, não vai fazer antijogo. Vai na porrada para buscar o nocaute.

Eliminado ainda na fase preliminar do TUF 16, em 2012, Griffin estreou no UFC em 2016, esmagado no ground and pound de Colby Covington. Depois, venceu por nocaute Erick Montaño em menos de um minuto.

Na última, perdeu por decisão dividida para Elizeu Capoeira na melhor luta do UFC São Paulo, em outubro de 2017. Kickboxer nato e faixa preta de Bok Fu (uma mistura de Kenpo, Taekwondo e kung-fu), não foge da luta em pé. Tem sete das 13 vitórias por nocaute.

Com o sugestivo apelido de Pain (dor), resta saber se vai bater forte o suficiente para quebrar a platina. O bad boy Perry é franco favorito, mas numa briga de serra elétrica, vai levar quem sobreviver.

O campeão voltou?!

Parece que foi há décadas a declaração de Dana White que “Eu ainda tenho dúvidas e vou e volto em relação a Jon Jones e Renan Barão, mas eu não tenho dúvidas de que Renan Barão (34-5-0-1, 8-4 UFC) é o segundo melhor lutador peso por peso da atualidade”.

Mas foi em 2014, pouco antes de T.J. Dillashaw arrancar a alma dele no UFC 173. Perdeu ali não só o cinturão, mas a aura de invencível. De lá para cá, só venceu Mitch Gagnon e o enfermeiro Phillipe Nover, com atuações bem longe de serem impressionantes.

Depois de se aventurar na categoria dos penas, resolveu voltar para os galos, porém, foi barrado pela Comissão Atlética da Califórnia e enfrentou Aljamain Sterling no peso casado de 63,5kg. Perdeu por decisão unânime numa atuação sofrível!

Agora finalmente ele fará o retorno a divisão em que foi campeão. E Brian Kelleher (18-8, 2-1 UFC) parece ser um adversário na medida para o brasileiro reencontrar o caminho para o paraíso.

Kelleher estreou surpreendendo ao finalizar o experiente Iuri Marajó ainda no primeiro round no UFC 212, em junho de 2017. Depois, foi finalizado por Marlon Vera e, na última atuação, venceu por nocaute técnico Damian Stasiak numa luta bem movimentada, em outubro.

Se antes a defesa de quedas de Barão era infalível (nunca tinha sido derrubado até então), contra Sterling falhou que foi uma beleza. Porém, há de convir que ele nunca havia enfrentado um wrestler como o Funk Master que, de fato, botasse a luta olímpica para valer.

Kelleher aceita a trocação e é faixa roxa de jiu-jítsu. Contando com sete vitórias por nocaute e oito por finalização, é perigoso em todas as áreas, apesar de não ser excelente em nenhuma. Se tivermos lampejos daquele Barão que passou quase 10 anos invicto, o brasileiro leva a melhor.

Deve buscar defender as derrubadas e, na trocação, evitar ficar como alvo fixo (algo que tem sido recorrente). Usando o boxe em linha, alternando com chutes baixos, sem encurtar em demasia, é sucesso. Mesmo no chão, é perfeitamente capaz de finalizar.

Desta vez com o camping feito por inteiro na American Top Team e com papo de dieta em dia, foco e corrida por cinturão (calma!), fica a expectativa se realmente veremos mudança. Acabou espaço para “paraibagem”.

Card completo

Josh Emmett x Jeremy Stephens
Jéssica Andrade x Tecia Torres
Ovince Saint-Preux x Ilir Latifi
Mike Perry x Max Griffin
Renan Barão x Brian Kelleher
Sara McMann x Marion Reneau
Angela Hill x Maryna Moroz
Ben Saunders x Alan Jouban
Sam Alvey x Marcin Prachnio
Rani Yahya x Russell Doane
Eric Shelton x Alex Perez
Albert Morales x Manny Bermudez

Vale assistir?

Imagina só você usar como desculpa para seja lá quem for que você vai furar os compromissos para ver Josh Emmett, Tecia Torres, Max Griffin, Rani Yahya e…Sam Alvey lutando de meio pesado contra o “famoso” Marcin Prachnio?

Se você preza pela vida e não deseja terminar como se estivesse recebendo uma surra do Yoel Romero, melhor não usar esse argumento. Mas como bom card da Fox, nesse até que eles mandaram bem nos casamentos propositalmente empolgantes.

Emmett e Stephens podem não serem nomes fortes para puxar um main-event na TV aberta, mas até quem não é fã de luta técnica vai curtir a pancadaria que eles devem proporcionar. Perry e Griffin então, nem se fala!

Jéssica Bate-Estaca vai ter um teste e tanto contra uma atleta burocrática para galgar mais uma briga pelo ouro. Renan Barão, por sua vez, terá um adversário mediano que servirá de termômetro para avaliar o que ele ainda é capaz de almejar.

O card preliminar perdeu o confronto entre Gilbert Durinho e Olivier Aubin-Mercier por problemas no corte de peso do brasileiro, mas ainda conta com duelos legais, como Saunders x Jouban, Hill x Moroz e McMann x Reneau.

Mas a melhor notícia está por vir: começa cedo! Por volta de 22h deve estar começando o card principal e você não vai precisar ficar acordado até de madrugada para ver o Stephens fazendo careta.

Sendo assim, já que o evento promete ser divertido, dá pra curtir um dia frio lendo um livro (brincadeira, Djavan não está entre minhas influências), assistir ao futebol da tarde e emendar com o UFC.

Se você for baladeiro mesmo, pode até ir depois de meia noite para a noitada sob a desculpa que veio de 35 festas no mesmo dia. Faz o filme com os Reis do Camarote, se é que isso paira como prioridade de alguém não unicelular.

Mas não vai usar o Emmett e companhia para juarificar a assistida. Não abra margem para comprovarem a vulnerabilidade da sua sanidade. Conselho de amigo.

  • Edinelson Santos De Oliveira

    Jessica Vai Espancar a Tecia Torres

    • Thiago Sampaio

      É favorita, mas nem tanto!

  • Edinelson Santos De Oliveira

    Pra Vocês, Quém Tá Mais Decadente, 1- Renan Barão? ou 2- Anthony Pettis?

    • Thiago_NCO

      Barão. Afinal, no auge, chegou a ser apontado como um dos melhores lutadores do planeta, coisa que o Showtime nunca foi.

    • Baixista Loko

      Hendricks

      • Thiago Sampaio

        Melhor resposta. Hendricks é o ex-campeão que dá cada vez mais vergonha de ver lutar.

  • Nathan Dreak

    Péssimo esse negócio que pegou de “arrancar a alma”. A decadência do Barão foi nítida e aconteceria mesmo se fosse derrota para outro lutador. Acho esse um termo bobo mas quando pega o pessoal usa até cansar.

  • Paul Kersey

    2018, o ano de cards não-numerados melhores do que os numerados.

    E a Tecia é um demoniozinho da Tasmânia. Ainda que tenha um cartel forjado quase que unicamente por decisões, ela é ligada no 220w o tempo todo. Jessica vai ter que deitá-la legal pra não deixar a moleca crescer nos momentos finais.

    • Thiago Sampaio

      Realmente os últimos card numerados estavam depositando as fichas totalmente nas disputas de cinturão. O restante do card estavam bem “Fight Night”. Mas o UFC 223 está excelente!

  • Leo Corrêa

    É tenso ver o Barão na pesagem. Esse corte de peso ainda vai acabar com a carreira dele.

    • Thiago Sampaio

      Eu era um que achava que não seria boa ideia retornar para o peso galo. Mas nesta luta ele me pareceu bem inteiro na pesagem. Vamos torcer para que o desempenho tenha melhorado também.

  • Marcelo

    Caprichou nos títulos hein? O do main event foi sensacional.

    • Thiago Sampaio

      Haha…eu tento! Valeu!

  • Victor Martins

    Card ótimo

    • Thiago Sampaio

      De fato, pode não ter nomes de muito apelo, mas os casamentos estão excelentes. Só lutão!

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