Vale assistir? A leitura
dinâmica do UFC 219

Thiago Sampaio | 28/12/2017 às 15:03

Adeus ano velho, feliz ano novo! Ah pessoal, acabou a maratona de eventos do UFC em 2017.

Mas antes, temos o card que marca a despedida desse ano encardido para a política e para o Jon Jones.

O UFC 219 acontece a partir das 22h (horário de Brasília) deste sábado (30), na T-Mobile Arena, em Paradise, Nevada, Las Vegas.

Na luta principal, Cris Cyborg defende o cinturão do peso pena feminino contra a ex-campeã do peso galo, Holly Holm.

No co-main event, Khabib Nurmagomedov volta após mais de um ano de inatividade contra o embalado brasileiro Edson Barboza.

E o card conta com chamarizes como o retorno de Carlos Condit, o duelo feminino Cynthia Calvillo x Carla Esparza, entre outros.

E vamos lá aos destaques!

Agressividade x Técnica

Todos sabem que Cris “Cyborg” Justino (18-1-0-1, 3-0 UFC) percorreu uma jornada e tanto até conseguir o cinturão do UFC, apesar de ser a única lutadora de fato da categoria peso pena feminino.

Mas logo na primeira defesa, ela tem em Holly Holm (11-3, 4-3 UFC) um dos maiores desafios da carreira em anos.

A brasileira é uma máquina mortífera. E mesmo sendo uma nocauteadora de primeiro round, característica que marcou sua carreira, tem tido no UFC atuações até mais cautelosas, casos das vitórias sobre Lina Länsberg e Tonya Evinger.

Esta última, quando faturou o cinturão que Germaine de Randamie se recusou a defender contra ela e foi destituída do título.

E mesmo com um muay thai de luxo, mãos potentes e estilo agressivo, Cris é faixa marrom de jiu-jítsu. Tem ótima defesa de queda e só não mostrou ainda o real potencial no solo porque não precisou.

Sem perder desde a estreia no MMA, em 2005, é soberana por onde passou, seja Strikeforce, Invicta FC ou agora no UFC.

Mas mesmo com várias veteranas amassadas por ela no currículo, como Gina Carano, Marloes Coenen e Leslie Smith, é talvez Holly Holm quem represente maior perigo à brasileira.

Sem falar que, se a loira multicampeã de boxe puder dizer que já venceu Ronda Rousey e Cris Cyborg…bom…automaticamente já pode ser considerada uma das lutadoras mais emblemáticas da História, não só do boxe, mas também do MMA.

Depois que chocou o mundo ao humilhar Ronda no UFC 193, em 2015, Holly até que amargou uma má fase, sendo depois finalizada por Miesha Tate, dominada por Valentina Shevchenko e derrotada numa decisão controversa para Germaine, na luta que valia o cinturão inaugural dos penas (sem a Cyba só por implicância de Dana White).

Mas na última aparição, reencontrou a vitória com um belo nocaute com chute na cabeça em Bethe Correia.

A “Filha do Pastor” tem a mesma altura da brasileira (1,73m) e a movimentação pode ser a chave para a vitória. O jogo de jab/direto, esquiva para a lateral, movimento de cabeça, podem confundir a brasileira.

E no MMA, ela já mostrou que o high kick é uma arma bastante funcional.

Claro que Cris é favorita e tem chance de acumular mais um nocaute para a coleção. Mas desta vez, além do papel de caçadora, precisará de mais paciência do que de costume. Se os rounds se prolongarem, a tendência é que o quadro fique favorável para a americana.

Se Holly não voltar a cometer o erro agarrar na grade quando mais precisa do resultado, emoção não vai faltar!

A hora do vai ou não vai

Escondam o tiramisu, guardem aquele chapéu tosco para que ele não escorregue, prendam Khabib Nurmagomedov (24-0, 8-0 UFC) numa jaula até a hora da luta. Só assim para termos certeza que ele vai se apresentar para o co-evento principal contra o brasileiro Edson Barboza (19-4, 13-4 UFC).

O russo, invicto no MMA, há anos é considerado um dos pesos leves mais perigosos do mundo. Mas até hoje não conseguiu uma disputa de cinturão por causa das inúmeras lesões e a baixa frequência de luta.

Nos últimos três anos, só lutou duas vezes, ambas em 2016, nocauteando Darrell Horcher e finalizando Michael Johnson numa atuação dominante.

Na verdade, Khabib até teria a chance de disputar o cinturão interino contra Tony Ferguson no UFC 209, em março deste ano, mas pulou fora no dia da pesagem após passar mal e ir parar no hospital. Numa categoria estagnada por causa de Conor McGregor que luta quando bem quer, sobrou para voltar contra o quarto do ranking.

Barboza, que será eternamente lembrado por aquele nocaute com chute giratório em Terry Etim, vem em ótima fase, vindo de três vitórias consecutivas, sobre Anthony Pettis, Gilbert Melendez e Beneil Dariush. Esse último, vinha levando a pior até acertar uma joelhada avassaladora que culminou num nocaute no segundo round.

O muay thai do brasileiro é de encher os olhos, sem dizer que a qualquer momento ele pode tirar um nocaute da cartola. Em pé, Khabib já mostrou várias brechas, inclusive levando jabs com facilidade do semi-profissional Horcher.

Mas A Águia tem um jogo dificílimo de encaixar para Edson. O russo mistura o sambo com quedas de judô e wrestling de uma maneira que nenhum outro lutador do UFC faz.

Com um mínimo deslize, ele gruda o adversário no chão e lá o amassa até quando bem quiser. Assim o fez com Rafael dos Anjos, em 2014. E Barboza já mostrou que não reage bem aos próprios erros, como vimos contra Donald Cerrone e Tony Ferguson.

Contra um carrapato como Nurmagomedov, Barboza ficará limitado ao usar uma das principais armas, o chute, pois pode ser derrubado a qualquer momento. Evitar a queda é uma missão extremamente ingrata. Mas, se na trocação conseguir capitalizar a aplicar um dos seus golpes plásticos, tudo é possível!

Facilmente o vencedor dessa luta já sairia credenciado para uma disputa de cinturão. Porém, tendo Conor contando os seus dólares e Ferguson com o título interino, o futuro da categoria está mais difícil de enxergar do que cego em concurso de beleza.

Ex-campeã x Promessa

Se o UFC depositava suas fichas na mexicana-americana Cynthia Calvillo (6-0, 3-0 UFC) quando ela tinha um cartel de apenas 3-0, jogando-a em cards principais de edições numeradas, não é agora que está com três vitórias na organização, e enfrenta uma ex-campeã, Carla Esparza (13-4, 3-2 UFC), que vai ser diferente.

Apesar da curta carreira no MMA profissional, Calvillo já tem 30 anos e passou quatro anos no MMA amador, onde faturou dois cinturões, acumulando um cartel de 5-1, vencendo inclusive a promissora Aspen Ladd, hoje lutadora no UFC.

No mais famoso octógono do mundo, finalizou Amanda Cooper e Pearl González. Na última luta, venceu a veterana Joanne Calderwood por decisão unânime.

Esparza é o nome de mais peso da carreira dela até então. Primeira campeã da categoria peso palha ao vencer o TUF 20, quando finalizou a atual detentora do título Rose Namajunas. Mas logo na primeira defesa, foi atropelada por Joanna Jedrzejczyk, que viria a se tornar campeã dominante.

Praticamente esquecida, a Cookie Monster passou um ano fora, retornou com uma vitória por decisão para Juliana Lima, perdeu em seguida por decisão dividida para Randa Markos e, na última aparição, venceu Maryna Moroz, também pelas papeletas.

Carla tem uma luta agarrada de alto nível, foi All-American no Menlo College em wrestling e experiência no jiu-jítsu treinando com Rener, Ryron, e Ralek Gracie. Se cair por cima, tem boas chances de dominar a prospecto do UFC. Mas em pé, já mostrou ter uma trocação que beira a meia boca, cheia de brechas.

E é aí que a Cynthia, atleta da Team Alpha Male, pode levar vantagem. Apesar de não ter uma experiência no chão como a da rival, é mais completa de um modo geral. Tem um muay thai ajustado o suficiente para levar a melhor em pé e, se for derrubado, tem condições de não ser finalizada.

Em tempos em que muitas lutadoras estão cogitando subir para o peso mosca, a vencedora dessa peleja fica bem na fita na corrida para uma eventual disputa de cinturão do peso palha.

A volta do “Assassino por Natureza”!

Os lutadores empolgantes hoje estão escassos, botam boneco demais para lutar ou uma vez na vida e outra na morte surge um Justin Gaethje da vida?

Seus problemas acabaram! Pois o veterano Carlos Condit (30-10, 7-6 UFC), o The Natural Born Killer, resolveu não se aposentar e retornar após mais de um ano longe do octógono.

O apelido do ex-campeão interino dos meio médios fala por si: é o cara que vai para o matar ou morrer. Com um kickboxing de altíssimo nível, mesmo tendo alternado entre vitórias e derrotas nos últimos anos, sempre entrega combates eletrizantes, sem poupar sangue.

A última vitória foi em 2015, quando bateu Thiago Pitbull por nocaute técnico. Depois, perdeu para Robbie Lawler numa controversa decisão dividida valendo o cinturão dos meio médios, numa verdadeira guerra de cinco rounds na luta apontada por muitos como a melhor de 2016.

No mesmo ano, foi finalizado por Demian Maia no primeiro round. Depois de muito refletir se pendurava as luvas ou não, optou por retornar pelo singelo motivo de que precisa de dinheiro.

O adversário para o retorno está na medida para retomar às vitórias: Neil Magny (19-6, 12-5 UFC). Não que o vara-pau de 1,91m e 2,03m de envergadura não seja perigoso, mas por ter um estilo que encaixa com o de Condit.

Magny, que já acumulou sete vitórias em seguida entre 2014 e 2015 e já bateu nomes como Kelvin Gastelum, Hector Lombard e Johny Hendricks, costuma aceitar a luta em pé. Quando foi para o chão, já recebeu aulas de luxo de jiu-jítsu por Demian Maia e Rafael dos Anjos, sendo finalizado facilmente por ambos.

A incógnita é como Condit vai retornar após esse período de inatividade. Se não tiver com o timing em dia, tem tudo para adentrar a envergadura de Magny e levar a melhor, mesmo que ele seja melhor na longa distância. Chutes baixos e na linha de cintura devem minar o gás do orelhudo.

Aoutneil Magny (sim, esse é o nome dele!) costuma agarrar e levar para a grade, fazer vale o wrestling quando está levando a pior na trocação. Mas o Assassino Por Natureza tem “boa” (leia-se razoável) defesa de queda e, de novo, se tiver em bom ritmo, deve evitar as investidas.

Just bleed!

Card completo

Cris Cyborg x Holly Holm
Khabib Nurmagomedov x Edson Barboza
Dan Hooker x Marc Diakiese
Cynthia Calvillo x Carla Esparza
Carlos Condit x Neil Magny
Khalil Rountre x Michał Oleksiejczuk
Myles Jury x Rick Glenn
Louis Smolka x Matheus Nicolau
Marvin Vettori x Omari Akhmedov
Tim Elliott x Mark De La Rosa

Vale assistir?

Para o último card do ano, o UFC queria bem mais. Tentou a todo custo enfiar Conor McGregor no card e, depois de o irlandês arrumar treta com o árbitro Marc Goddard no Bellator (Scott Coker agradece!), cogitou até a absurda luta entre Tyron Woodley e Nate Diaz para esse evento.

Sem opções, coube depositar nas mulheres a confiança de capitanear o evento da véspera do réveillon. A saída de Jimmie Rivera também foi um ponto negativo e tanto. Primeiro contra Dominick Cruz, depois John Lineker, qualquer uma dessas lutas seria incrível. Não vai acontecer.

Papelão de Marlon Moraes, que se ofereceu para lutar, jogou pra galera, mas ele não esperava que Rivera fosse aceitar, até mesmo com 10 pounds de tolerância, em duelo no peso pena, uma categoria acima. O brasileiro recuou e ainda veio com história de que a luta teria que ser “nas condições dele”. Ficou feio.

Mas não tem como dar veredito negativo para um card que tem a maior nocauteadora do MMA feminino contra uma ex-campeã e uma das melhores boxeadoras peso por peso de todos os tempos.

Quem disser que a luta não está “em nível de luta principal” ou “não gosta de luta de mulheres”, é melhor rever o gosto por lutas.

Ver Khabib Nurmagomedov, podendo finalmente garantir uma continuidade contra um striker de alto nível como Barboza é uma atração e tanto. Ver Carlos Condit retornando é um presente para os fãs de luta sem amarração, pancadaria sem censura.

Falando em pancadaria, Dan Hooker x Marc Diakiese, promovida ao card principal após a saída de Rivera, promete emoção do começo ao fim entre dois caras talentosos, numa expectativa de nocaute a qualquer momento.

O card preliminar também conta com duelos interessantes, como Jury x Glenn e Smolka x Nicolau. O peso mosca Tim Elliott aceitou enfrentar o estreante Mark De La Rosa, pelo peso galo, pois deve estar necessitado. Se perder, vai ser uma zebra daquelas.

Sendo assim, guarda as energias para o dia 31. Reserva os champagnes caros, as cervejas gourmet para se deleitar na virada.

No dia 30, fica em casa e chama aqueles amigos que realmente curtem luta para ver esse ótimo evento. Para não ficar com sede, pode tirar da geladeira os refrescos populares mesmo!

Feliz ano novo e um 2018 de muita luta para vocês!

  • Nathan Dreak

    Khabib e Barboza acho uma luta muito boa. E Cyborg x Holm é a luta mais interessante do MMA feminino até hoje para mim. Bom evento então.

    • Thiago Sampaio

      Sem dúvida. Mais interessante, por exemplo, do que foi Ronda x Holly na época, quando todos apostavam em quanto tempo a Holm seria tratorizada pela Rowdy.

  • Thiago Augusto

    “Condit que tem boas defesas de queda”
    Que luta do condit que ele mostra boa defesa de queda? Tipo, de verdade.
    Todas as lutas ele é levado pra baixo com facilidade bicho hahaha

    • Thiago Sampaio

      Na verdade acho que “com facilidade” apenas GSP e Demian Maia derrubaram o Condit. Mas eles estão num nível diferenciado. Nem o Johny Hendricks no auge teve essa tranquilidade.

    • Leo França

      A defesa de quedas do Condit bate os 39%, na minha opinião é pouco mesmo

      • Thiago Sampaio

        De fato. Mas tudo é relativo. Por ele ser um striker por essência, é natural os adversários buscarem um maior número de quedas. Boa parte dessa porcentagem foi só na luta contra o GSP…haha

    • André Guilherme Oliveira

      Ele sempre apostou mais na guarda ativa e em bater e voltar do que em defender quedas. Ta ai um ponto fraco dele por toda a carreira, não dominar o meio campo.

  • Davi freitas

    so vale pelo khabib e barboza se fosse pela cydoping digo cyborg eu nem assistia

  • William Oliveira

    As baixas com Rivera, Lineker e Gokhan Saki foram pesadas mas continua um card imperdível, muito bom.

    Condit e Rountree devem trazer aquela violência que todos nós nunca abrimos mão, Cyborg pode se provar a melhor de todos os tempos no MMA feminino e Calvillo vencendo vai entrar pra elite do peso mosca.
    Quem vencer o duelo de Jury x Glenn é pra se ficar de olho também, essa é a luta mais difícil de se opinar na minha opinião, Jury é um cara que nunca se sabe o que vai acontecer haha

    Um pequeno detalhe,

    “Contra um carrapato como Nurmagomedov, Barboza ficará limitado “A” usar uma das principais armas, o chute, pois pode ser derrubado a qualquer momento”

    Acho que o correto seria “ao usar”, o significado muda bastante de um emprego pro outro kkk

    Bom 2018 de violência (no MMA) pra todos! Abraço.

    • Thiago Sampaio

      Bem lembrado…a saída do Saki também pesou, pois ele travaria uma briga bem divertida com o Rountree.

      • William Oliveira

        Pelo menos o Rountree deve nos entregar um corpo apagado, coitado do novato que pegou essa luta kkk

  • Petrus Radamés

    O texto ta ótimo, só discordo da parte em que fala que o Condit tem noa defesa de queda hahaha

    • Thiago Sampaio

      Essa parte gerou polêmica…haha

      Sustento que ser derrubado por GSP e Demian não é demérito. Mas se ele for derrubado pelo Magny, tenho nem o que dizer! Me rendo! Kkk

      • Davi freitas

        eu ia falar a mema coisa kkkkkkkkkkkkkkkk

  • GRMN0

    como o Condit não esta no pôster ? … ele é o maior desse card caraio !

    • Thiago Sampaio

      De fato, é um dos lutadores mais empolgantes que já passaram pelo UFC. Muito bom tê-lo de volta.

  • Silas K

    Edson não perde desde que atingiu a maturidade e completou 30 anos e a escrita se manterá! #muaythai #talentopuro #andnew #splitdecision

    • Thiago Sampaio

      Assim seja! Mas pelo estilo do Khabib, essa é de longe a luta mais difícil dele até agora.

      • Silas K

        Por isso #splitdecision kkkkk

Tags: , , , , , , , , ,