Pensando Alto: a Análise
Informal do UFC Sydney

Lucas Rezende | 19/11/2017 às 14:50

Em noite de luto na Austrália, após o lendário Malcolm Young acelerar com tudo na Highway To Hell definitiva, a poucos quilômetros dali, na mesma cidade de Sydney, os bravos pagantes presentes que compraram seus ingressos antecipados, prevendo uma divertida tarde de domingo, começavam a torcer o rosto e reclamar conforme o card principal do UFC Fight Night 121 devorava as horas que não recuperariam.

Com as seis atrações principais estourando o relógio sem reservar muitas surpresas por parte dos combatentes, a mais recente viagem do UFC a Sydney deixou a desejar e serviu como pequeno lembrete para Dana White, que adora repetir a bravata “não reclame da composição do evento antes de assisti-lo”.

Não foi ruim, mas apenas um evento implacavelmente apático, esculpido por uma sequência de vitórias por decisão e pouca emoção em cada uma delas, como se sentar em um rodízio de carne e descobrir que todas as carnes estão insossas.

Os destaques e bônus da noite, todos responsabilizados pelos lutadores preliminares, condensam o que veio depois, e também explicam – mas não justificam – o motivo desta análise ter se atrasado. Peço desculpas, mas este jornalista não foi capaz de manter os olhos despregados.

Sem mais delongas, debulhemos o que resta da última viagem do UFC à Sydney.

Fabrício Werdum x Marcin Tybura

A maior surpresa destes 25 minutos de joelhadas pouco eficazes, chutes altos sem potência e apenas uma tentativa de finalização foi que, ao soar do último gongo, o capitão Renato Rebelo tinha razão nos obrigou a morder nossas respectivas línguas quando Fabrício Werdum abateu Marcin Tybura por decisão unânime. Nada de espetacular quanto a última atuação do gaúcho, que guardou o braço de Walt Harris no bolso na primeira chance que se ofereceu, mas um desempenho conciso do quarentão, que provou, ao menos, ter preparo físico para disputar cinco assaltos contra um polonês oito anos mais moço e 12 lutas a menos em sua carreira profissional. Sem papagaiada, sem rostinho de tonto, sem voadora no primeiro segundo de combate ou ataque de oportunidade com bumerangue, Werdum demonstrou maturidade no apogeu de uma carreira gabaritada. Pisou no octógono como quem bate ponto na empresa, preencheu relatório e às 18h em ponto já estava no elevador da firma. Dificilmente será promovido após uma atuação feito esta, mas tudo bem, já era evidente que outros estavam à sua frente na fila, mesmo. Engordar o cartel com bois mais magros não me parece má ideia, por ora. Caso apareça a chance num futuro mais longínquo, será melhor recebe-la com vitórias do que com derrotas.

Jessica Rose-Clark x Bec Rawlings

Reservar a vaga de co-main event para Bec Rawlings é praticamente garantir que os australianos voltem para casa desgostosos, a não ser que outro compatriota preencha o main event ou que a própria Rawlings enfrente um canguru ou um coala. Foi exatamente o caso da também australiana, Jessica Rose-Clark. Além de estreante, a combatente desbancou a superestimada Rawlings com raspagens no solo, melhor posicionamento e striking um pouco menos selvagem que o de um aborígene, esvoaçando o coqueiro roxo de Rawlings sob os holofotes a cada bordoada. A derrota não só deixa Rawlings com o negativo cartel de 2-4 no UFC, como também com cartel equivalente de 7-7 na carreira. Para os fãs de Rawlings, recomendo reassistir suas duas vitórias no UFC com muita estima, ou então correr para o torrente mais próximo para saborear seu sotaque nos episódios do TUF 20, pois creio que será a última vez que veremos Rawlings dentro de um octógono.

Belal Muhammad x Tim Means

Wrestling contra muay thai num combate que por vezes pareceu saído diretamente das edições primordiais do UFC. Belal Muhammad dançou ao ritmo de Tim Means, utilizando dos punhos para acompanhar as joelhadas e pontapés longilíneos do Pássaro Encardido. Em 15 minutos onde cada segundo foi disputado, a decisão dividida chegou até cantada quando a tela se dividiu antes do anúncio de Bruce Buffer. Por mais que parte de mim tenha interpretado vitória de Means, não há margens para debate. O próprio voador, no Twitter, reconheceu. Muhammad merece crédito. Perfurar os 1,91 de envergadura do adversário, com seus 1,83 é tarefa ingrata, mas o dono deste que possui um nome que levaria qualquer um dos membros do Casseta e Planeta a um Nirvana de oportunidades para piadas infames, saiu pela tangente com resultado positivo embaixo do braço. O terceiro seguido, aliás.

Elias Theodorou x Dan Kelly

Se você não admira o estilo travoso feito banana verde de Dan Kelly, pelo menos admire sua resiliência. O judoca caseiro compensa o que lhe falta mistas em suas artes marciais com uma carga inegável de força de vontade, andando para cima, independente do oponente.  O incolor Elias Theodorou, em uma versão moderna de Sansão, onde os cabelos não precisam ser cortados, mas apenas trançados, para que sua força descomunal se esvaia, reprisou o que fez desde o princípio da carreira e com auxílio de um triou de jurados composto por Mr. Magoo, Stevie Wonder e Shiryu de Dragão após sua passagem pelo Vale das Trevas, o canadense foi premiado com o demente placar de 30×26,30×28 e 30×27. Resultado este que só serve para Elias andar para o lado até que o próximo oponente mais tarimbado o empurre para trás quando ameaçar um passo para a frente. Dan Kelly, que por metade de um round, ameaçou Theodorou com um mata-leão justo, levou para casa apenas o farelo do biscoito e a segunda derrota consecutiva. Seria hora de pensar em parar ou ainda é tempo de aceitar mais um combate em casa e pendurar as luvas com uma vitória?

Menções honrosas:

  • Para alegria dos australianos, o debutante peso pesado local, Tai Tuivasa devastou Rashad Coulter com um low kick certeiro e uma joelhada voadora fatal ainda no primeiro assalto. A melhor notícia? Ele só tem 24 anos e não se chama Soa Palelei Jr.
  • Nik Lentz não vencia por finalização desde 2011 e guilhotinou a enorme garganta de Will Brooks, que a essa altura já está claro que só é mesmo utilizada para proferir ofensas que o corpo não consegue sustentar quando a porta do octógono se fecha às suas costas. Uma vitória em quatro lutas pelo UFC. Já posso falar com segurança que é a migração mais frustrada da história?
  • O peso mosca Ryan Benoit aproveitou as 4 libras que excedeu na balança para estalar o coco de Ashkan Mokhtarian no terceiro assalto da última preliminar em Sydney, num nocaute bonito de se ter em um highlight reel. Resta saber se o jovem que já nocauteou Sergio Pettis um dia engrenará, pois até então só alterna derrotas e vitórias.
  • Julio Varoni

    Demorou para escreve hein, Rezende.
    Pelo jeito fizesse feito eu: só assistiu [a algumas lutas] quando o dia amanheceu rsrsrsrs

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Soa Palelei Jr é paia kkkkkkkk, mas pior que ele parece.

  • Gabriel Kalinowski

    Bela resenha, só errou ao falar sobre o Bruce Buffer anunciar a vitoria do Belal, afinal ele não trabalhou neste evento..

  • Vinicius Maia

    kkkk ataque de oportunidade, vejo que alguém ai joga D&D kkk. Colby saiu da área de ameaça do vai cavalo e tomou o ataque de oportunidade kkkk.

    • DOTA 2 Rei Macaco

      pensei o mesmo kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk muito boa resenha.

  • Juan

    “uma versão moderna de Sansão, onde os cabelos não precisam ser cortados, mas apenas trançados, para que sua força descomunal se esvaia, reprisou o que fez desde o princípio da carreira e com auxílio de um triou de jurados composto por Mr. Magoo, Stevie Wonder e Shiryu de Dragão”
    hauahauha

  • bedotRJ

    Resisti até o fim, mesmo dando várias cochiladas durante o evento. Fica até difícil fazer um “lutas a casar” com o que saiu de Sidney. Quem vai dar bola para o Bilal chamando o Colby Boomerang na chincha ou querer especular sobre o próximo adversário do Ryan Benoit, do Tai Tuivasa ou do Nik Lentz (prá ficar naqueles que terminaram bem suas lutas)? Como sou insistente, vou cravar Lyoto vs Dan Kelly, talvez prá aposentar os dois, e Werdum vs Arlovski, para o brasileiro tentar limpar sem esforço uma das derrotas de seu cartel enquanto aguarda o vencedor de Overeem vs Ngannou lutar pela cinta. Junta essas duas e mais Borrachinha vs Mutante, pronto, já temos o card do Pará.

  • Lucas Venagas

    “Não foi ruim, mas apenas um evento implacavelmente apático”

    Para de força cara,evento foi horrivel

  • William Oliveira

    Kkk ando assistindo tanto MMA que nem achei o evento tão ruim, gostei da maioria das lutas, até de Theodorou x Kelly! Inclusive acho que o judoka dinossauro ainda tem lenha pra queimar.
    To virando purista, fodeu.

    RH vai bater forte nesse evento, espero.

  • Leo França

    Werdum parece ser o lutador que mais gosta de dar pequenos ataques cardiacos em sua torcida, no 5° round com a luta no saco, Vai Cavalo fica com a guarda baixa dando chance do Tybur encaixar seus chutes, e ainda por cima sai que nem um maluco ligando o ventilador… Mas de resto, dominou a luta e serviu pra fincar o nome pelo menos no top 3 da categoria.

  • magnuseverest

    Werdum precisa torcer pelo Francis,e que Miocic implore para lutar com o brasileiro,pois o Dana deve querer se livrar do brasileiro.

  • Lorenzo Fertitta

    Ótima análise Lucas, disse tudo. Realmente foi daqueles eventos que a expectativa é baixa e a entrega não é muito diferente.
    Ainda estou indignado com a garfada no Velickovic, pobre sérvio. Mr. Magoo, Wonder e companhia forçaram demais a barra para o atleta da casa.

  • Gilmar Nascimento de Souza

    Porra, e eu pensando que a cerveja que eu tinha tomado a tarde era a culpada pelo meu sono durante boa parte do evento. Me desculpe, cerveja rsrsrsrs

  • Bruno de Souza

    A USADA matou o Will Brooks?

  • Tiago Nicolau de Melo

    Will Brooks (Bella-UFC) ou Bendo (UFC-Bella), quem desapontou mais?

  • Juliano F. Mattos

    Evento tão apático que fiquei com preguiça até de ler essa análise.

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