Vale assistir? A leitura
dinâmica do UFC São Paulo

Thiago Sampaio | 26/10/2017 às 12:18

Opa, achou a Polônia longe? Pois esse sábado (28) o UFC volta ao Brasil, no terceiro e último evento no país em 2017.

É o “UFC Fight Night 119: Brunson vs. Machida”, que acontece a partir das 21h no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo.

Trata-se da sexta passagem do maior evento de artes marciais mistas em São Paulo, incluindo aquela em 1998 (a única que não aconteceu no Ibirapuera), quando Vitor Belfort demoliu Wanderlei Silva, no ginásio da Portuguesa.

A atração principal deste evento é o retorno de Lyoto Machida após dois anos sem lutar contra Derek Brunson. No co-evento principal, o também veterano e ex-desafiante aos títulos dos médios e meio médios, Demian Maia, recebe a promessa Colby Covington.

E ainda há a presença de vários outros atletas que contam com a simpatia do público brasileiro, como John Lineker, Francisco Massaranduba, entre outros.

Mas vamos lá aos destaques!

O retorno do Dragão

Na falta de grandes nomes para encabeçar um card no Brasil, o UFC encontrou no retorno de Lyoto Machida (22-7, 14-7 UFC) a solução. Se em outros tempos Derek Brunson (17-5, 8-3 UFC) seria uma presa fácil, hoje existe uma grande interrogação nesse encontro.

Isso porque o ex-campeão dos meio pesados vem de dois anos longe dos cages, após pegar uma suspensão de 180 dias pelo uso da substância 7-keto-DHEA. Antes disso, vinha de duas derrotas contundentes em 2015, para Luke Rockhold e Yoel Romero.

Brunson, que chegou a emplacar cinco vitórias em seguida, perdeu duas (nocauteado por Robert Whittaker e para Anderson Silva numa decisão bem polêmica), mas se recuperou na última exibição nocauteando Dan Kelly em pouco mais de um minuto.

Lyoto é um dos queridinhos da torcida brasileira pelo jeito ético de ser, sempre respeitando os adversários. Como ele vai voltar após esse hiato é uma incógnita, porém, o brasileiro sempre foi muito profissional e nunca parou de treinar nesse período.

Aparentemente está em forma e cheio de vontade para voltar a ser uma ameaça aos tops do ranking do peso médio. Mas ritmo de luta é algo que pesa. E contra alguém efetivo como Brunson, pode ser crucial.

Carateca de raiz, se consagrou pelo estilo pouco ortodoxo, lutando com guarda baixa e na base dos contragolpes. Em tempos áureos, o estilo agressivo como o do americano cairia como uma luva para ele.

Mas desde que mapearam o jogo de contragolpes dele, o desempenho não é mais o mesmo. Os reflexos, hoje com 39 anos, também não. Brunson tem mãos pesadas para nocautear e um wrestling de qualidade para derrubar e massacrar no ground and pound.

Mas vamos lá: Machida é um cara que sempre impôs respeito seja lá contra quem for e, perder para Rockhold e Romero não é demérito algum. Se voltar com 70% da qualidade que tem, pode vencer e reiniciar sua trajetória.

Choque de grapplers monstros

Muitos foram pegos de surpresa quando Demian Maia (25-7, 19-7 UFC) aceitou retornar apenas três meses após perder para Tyron Woodley na disputa pelo título dos meio médios. O adversário, Colby Covington (12-1, 7-1 UFC), pode até não ter um nome tão forte, mas periga ser uma encrenca para o brasileiro.

Aos 29 anos, o americano só perdeu uma vez na carreira, quando foi guilhotinado para Warlley Alves em dezembro de 2015. Vem de quatro vitórias em seguida, sendo a última, com atuação dominante sobre o experiente Dong Hyun Kim, em junho.

All-American, tem no wrestling sua principal arma. Domina os adversários no solo de um jeito que parece fácil e ainda arranca boas finalizações (metade das suas vitórias foram assim). Está em alta e integra o forte time que promete renovar a categoria até 77kg, como o parceiro Léo Salles apontou.

Todos sabem que Demian tem o melhor jiu-jítsu adaptado do MMA, que o jogo dele é partir para as pernas, tentar a queda, grudar, mochilar e blá, blá, blá. Não é porque não conseguiu fazer isso com Woodley que ele deixou de ser impecável no que faz.

Muitos esquecem que ele fez wrestlers de primeira linha como Chael Sonnen, Rick Story, Jon Fitch e Ryan LaFlare parecerem amadores, sem falar em Gunnar Nelson, que conta com um excelente jiu-jítsu. Qualquer um que cometer um erro mínimo, vai ser finalizado ou dominado pelo brasileiro.

Mas a luta olímpica de alto nível de Covington pode ser suficiente para evitar as investidas de queda e manter a luta em pé, onde Demian é inferior. Há o risco de termos aqui um repeteco de Woodley x Maia e o americano levar por pontos.

De qualquer forma, esse duelo pode ser um divisor de águas para o brasileiro. Se vencer, será que se coloca ali de novo na fila pelo title-shot? Se perder, prestes a fazer 40 anos, uma aposentadoria pode ser cogitada? Cenas do próximo capítulo.

Não vá ao banheiro nessa luta

Sabe aquele duelo que o público em geral pouco dá atenção, mas tem grande potencial para ser um lutão?

Pois toma esse embate entre Pedro Munhoz (13-2, 4-2-0-1 UFC) e Rob Font (14-2, 4-1 UFC), 12º e 13º do ranking do peso galo, respectivamente.

Munhoz, ex-campeão da categoria no extinto Resurrection Fighting Alliance (RFA), só perdeu para os top 5, Raphael Assunção e Jimmie Rivera, ambos por decisão. Vem de três boas vitórias, sobre Russell Doane, Justin Scoggins e Damian Stasiak.

Já Font, que estreou com um nocautaço sobre George Roop, perdeu no meio do caminho por pontos para John Lineker, mas vem de dois resultados positivos, sobre Matt Schnell e Douglas D’Silva, este último no UFC 213, em julho.

O interessante desse combate é que os dois têm estilos bem parecidos, no que promete ser uma das lutas mais equilibradas da noite. Ambos são muito bons na trocação, mas também contam com muitas finalizações em seus cartéis.

No solo, o brasileiro tem uma leve vantagem, conta com uma guilhotina perigosíssima, mas não deve ter facilidade para finalizar o americano. Em pé, tem evoluído cada vez mais o muay thai desde que se mudou para a American Top Team.

Font pode até ter mais potência nas mãos, mas mostrou um certo despreparo quando acuado com volume de golpes, como aconteceu contra Lineker. Mas não é bem o caso de Munhoz, que é cauteloso e costuma se aproveitar dos contragolpes.

De toda a forma, fica a dica para você não ir fazer as necessidades durante esse combate. Dá uma chances para os baixinhos, pois eles não devem decepcionar.

À procura da marretada perfeita

Thiago Marreta (15-5, 7-4 UFC) perdeu a chance de fazer a sua primeira luta principal do UFC quando Michal Materla disse não para a organização e preferiu renovar com o KSW do que encabeçar o último card, na Polônia. O lado bom é que ele vai atuar em casa, contra um atleta cujo estilo favorece ele.

O sueco Jack Hermansson (16–3, 3-1 UFC), que já lutou em São Paulo no ano passado e foi finalizado por Cezar Mutante, se recuperou em seguida nocauteando Alex Nicholson e Brad Scott. Apesar de oriundo do wrestling, não costuma fugir da trocação, contando com 10 vitórias por nocaute.

O que é ótimo para Marreta, que é striker por natureza, com um muay thai que evoluiu o suficiente para os fãs esquecerem da pífia participação dele no TUF Brasil 2, quando atuava como meio médio.

Chegou a entrar para o top 15 do ranking do peso médio ao vencer quatro em seguida, mas sucumbiu diante de Gegard Mousasi e Eric Spicely. Depois, se recuperou vencendo Jack Marshman e Gerald Meerschaert, ambos por nocaute.

Esse é aquele duelo para quem adora um festival de pancadaria e espera que algum deles caia desacordado a qualquer momento. Marreta e seus chutes que quebram ossos podem definir, mas vale lembrar que nas duas últimas aparições, mesmo vencendo, teve dificuldades.

O adversário certamente vai aceitar a trocação de início para sentir até onde vai. Tem socos fortes e pode levar a melhor assim. Mas se tiver em apuros (ou não tiver apagado até lá), é ele quem tentará uma queda como plano B.

De qualquer forma, esse é o momento para você deixar as análises técnicas de lado e esperar um foguete cair no octógono para só um deles sair vivo.

Pra deixar a derrota para trás

UFC no Brasil é sinônimo de Francisco Trinaldo (21-5, 11-4 UFC) no card, entendeu? E depois de ter a sequência de sete vitórias freada por Kevin Lee, o querido Massaranduba retorna não contra qualquer um, mas contra o veterano Jim Miller (21-1-0-1, 17-9-0-1 UFC).

Miller já esteve entre os principais nomes da categoria peso leve e algumas vezes bateu na trave para disputar o título. Vem de duas derrotas por decisão em seguida, para Dustin Poirier e Anthony Pettis. Hoje, mesmo tendo só 34 anos, não é mais o mesmo lutador, mas ainda impõe respeito.

Num passado bem recente, chegou a emplacar uma sequência de três vitórias, sobre Takanori Gomi, Thiago Pitbull e Joe Lauzon. Se há uns quatro anos ele seria franco favorito contra o piauiense, hoje a disputa é bem mais parelha.

O simpático Massaranduba, que já tem 39 anos mas, ao contrário do adversário, vem melhorando cada vez mais o desempenho, tanto na trocação como no solo, sob a tutela de André Dida na Evolução Thai. Venceu nomes como Ross Pearson, Yancy Medeiros e Paul Felder de maneira dominante.

O americano conta com um ótimo jiu-jítsu, porém, sua última vitória por finalização foi em 2014. Apesar de contar com um bom boxe, deve usar a trocação para se aproximar e buscar levar pro solo (ele também é wrestling NCAA Divisão 1).

Se Massaranduba conseguir evitar as investidas e atuar na média distância, capitalizando com seus golpes fortes, tem boas chances de sair com a mão erguida. Missão nem tão fácil como parece na teoria!

E fica a expectativa para mais um discurso cativante do humilde e carismático Massara ao final em caso de vitória…

Mãos e queixo de pedra

Como se não bastasse o apelido de “Mãos de Pedra”, John Lineker (29-8, 10-3 UFC) retorna quase um ano depois com o queixo de aço após cirurgia para reparar fratura na mandíbula. E Marlon Vera (10-3-1, 4-2-1 UFC) é um adversário na medida para voltar a vencer.

Depois que parou de apanhar para o maior rival, a balança, no peso mosca, o atleta de Paranaguá esteve a uma luta de disputar o título do peso galo. Venceu quatro em seguida até ser parado por TJ Dillashaw, em dezembro de 2016, quando, literalmente, quebrou a cara com tanta cotovelada no ground and pound.

Sem dúvida é o dono de um dos maiores poderes de nocaute entre os lutadores das categorias mais leves. Se acertar o overheand, Vera tem boas chances de acordar nos Contos da Cripta. Mas depende muito dessa pancada e muitas vezes acaba soltando golpes no vazio.

O equatoriano Marlon Vera sequer figura no top 15 da categoria, mas foi quem aceitou essa pedreira em pleno Brasil. Vem de três boas vitórias, sendo as duas últimas aposentando o veterano Brad Pickett com um belo nocaute com chute na cabeça e, depois, finalizando Brian Kelleher, em julho.

Em geral, ele costuma trocar só o necessário para encurtar, buscar a queda e tentar uma finalização. Estratégia que deve ser mantida contra Lineker, por motivos óbvios.

Mas o brasileiro também aguenta muita pancada (mesmo sendo massacrado por Dillashaw, aguentou até o fim) e tem um bom jiu-jítsu para evitar as investidas. Mesmo em boa fase, Vera é a maior zebra deste card principal.

Preliminar é a mãe!

A luta que fecha o card preliminar é, sem dúvidas, uma das mais promissoras. E se Luan Chagas se lesionou para a entrada do poliglota Vicente Luque (11-6, 4-2 UFC) contra o nocauteador americano Niko Price (10-0-0-1, 2-0-0-1 UFC), a atração ficou ainda mais divertida.

Por sinal, é estranho que o UFC não esteja aproveitando melhor o bom produto que é Price. Invicto com 10 vitórias em 11 lutas (o KO em Alex Morono foi convertido para no-contest por testar positivo para maconha), 28 anos, vindo de um nocaute brutal contra Alan Jouban em menos de dois minutos.

Mas Luque, que é nascido em New Jersey (EUA), filho de mãe brasileira com pai chileno e criado em Brasília, é um ótimo teste para saber se Niko pode sonhar com voos mais altos. Versátil, 25 anos, busca se recuperar da derrota para Leon Edwards por pontos.

Participante do TUF 21, quando chegou à final e perdeu para Michael Graves, emplacou quatro vitórias em seguida, sendo duas por finalização e duas por nocaute e apenas uma passou para o segundo round. Assim como o americano, é faixa marrom de jiu-jítsu.

Por mais que ambos tenham peso nas mãos, trocar com Price não é a melhor das opções para o “brasileiro”, por mais que eles se equiparem no solo, mas é onde Luque tem uma leve vantagem. A dúvida fica se nenhum dos dois nocautear ou finalizar rápido, correndo o risco de o combate se alongar e perder emoção.

Na derrota para Edwards, Luque demonstrou uma forte deficiência com o gás, cansando rapidamente na segunda etapa. Já Price só chegou ao terceiro round uma vez, na sua única vitória por decisão na carreira.

De qualquer forma, num combate em que qualquer resultado, por qualquer método, não será surpresa, o espectador é quem mais sai ganhando!

Card completo

Derek Brunson x Lyoto Machida
Demian Maia x Colby Covington
Pedro Munhoz x Rob Font
Francisco Massaranduba x Jim Miller
Thiago Marreta x Jack Hermansson
John Lineker x Marlon Vera
Vicente Luque x Niko Price
Antônio Cara de Sapato x Jack Marshman
Hacran Dias x Jared Gordon
Elizeu Capoeira x Max Griffin
Deiveson Alcântara x Jarred Brooks
Christian Colombo x Marcelo Golm

Vale assistir?

A premissa de que o UFC faria menos eventos no Brasil, porém, prezando pela qualidade, parece estar sendo seguida à risca. À exemplo do ótimo card em Fortaleza, este não deixa em nada a desejar, mesmo com a saída da luta entre Glover Teixeira e Misha Cirkunov.

Lyoto Machida é um dos lutadores brasileiros mais populares e esse retorno, contra um bom atleta como Brunson, é crucial para medir o futuro do Dragão na tão carniceira categoria dos médios.

Demian Maia honrando o jiu-jítsu brasileiro com o respeito de sempre contra um wrestler prospecto como Covington é uma promessa de luta com muita técnica. Falando na arte suave, tem ainda o bom Antônio “Cara de Sapato” no card preliminar, gerando expectativa para mais uma finalização.

Há casamentos bem interessante e que prometem lutas movimentadas, como Munhoz x Font, Massaranduba x Miller, e as pancadarias entre Luque e Price, e Marreta contra Hermansson. Sem falar no retorno de John Lineker, já que esperamos um nocaute dele a qualquer momento!

Mas tem um problema grande: a situação do país! É, não está nada fácil para ninguém e é uma minoria que tem algum valor extra para comprar ingressos com valores salgados para ver de perto. Mas se você tem essa reserva, vai lá, porque o evento está bem legal!

Para quem não é de São Paulo e tampouco tem grana para comprar um espetinho no carrinho do tio da esquina, muito menos para viajar, fica em casa, chama os amigos e sintoniza no evento. O entretenimento é garantido. O petisco não!

Há, mas quando podemos ir ao banheiro, virar a carne na churrasqueira ou dar uns amassos no crush que veio assistir depois de muita insistência? Não se preocupem. Christian Colombo e Hacran Dias estão aí para isso!

  • Thiago Tanikawa

    Aquele momento em q o card do ufc SP ta melhor q o do ufc 212

    • Thiago Sampaio

      Concordo!

  • douglas karpinski

    ótimo texto, rachei o bico, e o evento ta fodastico!!!

    • Thiago Sampaio

      Haha…valeu Douglas!

  • magnuseverest

    Card bom,faltou uma luta feminina para completar o evento.

    • Thiago Sampaio

      Verdade. Bem que Ketlen Vieira, em ótima fase, poderia ter sido escalada.

  • William Oliveira

    Texto mt bem escrito brother, realmente o evento tá ótimo, ficou na medida. Que a volta do Dragão seja triunfal!

    • Thiago Sampaio

      Obrigado, William. Lyoto é bem superior tecnicamente do que o Brunson. Resta saber como ele está após dois anos parado.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , ,