Flashback: a carreira de
Roger Gracie no MMA

Lucas Carrano | 19/10/2017 às 12:23

Amigos do Sexto Round,

Na última semana, poucos meses após encerrar sua carreira na arte suave, um dos maiores nomes (para muitos, inclusive, o maior) do jiu-jitsu pôs um ponto final também em sua trajetória no MMA.

Roger estreou contra Ron Waterman

Para muitos, a lembrança de Roger Gracie nas artes marciais mistas é aquela apresentação apática diante de Tim Kennedy, em sua primeira e única luta pelo UFC, mas a verdade é que o carioca hoje radicado em Londres fez muito mais que isso.

Em apenas dez apresentações como profissional, Roger enfrentou grandes nomes do esporte, lutou por algumas das maiores promoções do planeta e encerrou sua trajetória com um título mundial.

Comecemos, como é de se esperar, pelo início. O ano é 2006. Menos de 12 meses após fazer história e se tornar o primeiro atleta a conquistar o ouro em sua categoria e no peso absoluto finalizando todas as lutas no ADCC, Roger Gracie anunciava sua migração para o MMA – tal qual tantos outros nomes importantes da modalidade fizeram no passado.

“O melhor Gracie desde Rickson chega ao MMA“, diziam algumas manchetes da época e, como acontece com a chegada de qualquer fenômeno do jiu-jitsu, houve muita expectativa para a estreia profissional de Roger.

Depois bateu Yuki Kondo

Sua primeira luta aconteceu no dia 2 de dezembro de 2006, diante do veteraníssimo Ron Waterman (com passagens pelo UFC, PrideWEC Pancrase), mas que na época já passava dos 40 – enquanto Gracie tinha 25. O confronto foi válido pelo evento Bodog Fight: USA vs Russia (estaria Roger representanto os russos?).

Vale destacar que a luta foi realizada em um ringue, e não um cage. Apesar de tudo contra, Waterman não pensou duas vezes e adotou a “melhor” estratégia: quedar Roger, que ainda apresentava uma movimentação – como não poderia deixar de ser – repleta de cacoetes do jiu-jitsu. Não deu outra: dois minutos depois, Roger saiu no braço e conseguiu sua primeira finalização antes do fim do assalto inicial.

O retorno demorou para acontecer. A segunda apresentação de Roger veio somente em 2008, meses antes do seu sexto título mundial de jiu-jitsu. Seguindo o caminho já conhecido por sua família, ele foi desbravar o Japão e mais uma vez seu rival foi um veteraníssimo.

O nome da vez era Yuki Kondo – que ainda luta e já soma mais de 100 (!) lutas profissionais (a título de curiosidade, a contra Roger foi a de número 76).

Estreia no Strikeforce finalizando Randlemann

Apesar da diferença de idade, Kondo é um faixa preta de kempo e Roger foi logo tomando a iniciativa. Poucos segundos no relógio e o brasileiro já estava clinchado, posteriormente levando a luta para o solo. Mais uma vez, em seu território seguro, foi só uma questão de tempo: mata-leão pra conta do brasileiro.

Apesar de mais uma vitória rápida, novamente o tempo afastado foi de dois anos. Desta vez, no entanto, a espera valeu a pena e, quando retornou às artes marciais mistas, Roger Gracie voltou com um contrato com o Strikeforce.

Nova promoção, velhor perfil de oponente. O rival da vez foi o veterano Kevin Randleman. Porém dessa vez, Roger pode mostrar, pela primeira vez na carreira, um arsenal mais variado de armas.

Na metade do segundo assalto, ele pegou Randleman com uma joelhada de encontro e partiu logo para a montada.

O saudoso ex-campeão do Ultimate ainda escapou de uma chave de braço, mas acabou batendo logo em seguida para um mata-leão. Após sua primeira luta mais longa, Roger explicou a estratégia.

Eu acho que o segredo para cada luta é a paciência. Um lutador tem que lutar com sua mente, não com o corpo. Eu sou uma pessoa extremamente paciente. Eu espero o momento certo e então eu pego”, disse Gracie, logo após o triunfo, que marcou sua estreia nos pesos meio-pesados.

Dessa vez o hiato foi menor e seis meses depois voltava a um card principal do Strikeforce. O oponente, novamente, um veterano do esporte: o sul-africano Trevor Prangley.

Invencibilidade mantida contra Trevor Prangley

Martelo Sul-Africano veio disposto a trocar e usar seu werstling para não ser levado ao chão.

Assim ele manteve a luta pelos dois minutos inciais, mas uma entrada um pouco mais afobada depois, no entanto, os dois se embolaram e Roger caiu por cima.

No solo, Prangley até usou a grade para se defender por um minuto, ou um pouco menos que isso, mas é difícil nadar contra a maré e ele acabou, como os dois adversários anteriores, finalizado em um mata-leão.

Por coincidência, ou não, deixo o julgamento por conta de vocês, o primeiro tropeço da carreira de Roger Gracie no MMA veio quando ele enfrentou um adversário que estava no auge de sua forma. Na terceira luta do brasileiro no Strikeforce o rival foi King Mo Lawal.

O desafio oferecido por Lawal se assemelhava ao da luta anterior, mas com a diferença de que o nível de King Mo era superior ao de Prangley em todos os fundamentos e, como dito, o norte-americano estava no pico de sua forma.

Roger nocauteado por King Mo

O cenário indigesto acabou se mostrando como um quebra-cabeças que Roger não foi capaz de resolver.

Mesmo sendo 10 centímetros mais alto que o rival, o brasileiro teria que encurtar a distância se quisesse colocar seu carro-chefe em ação, e quedar um All-American com trocação superior e muita pegada não é uma tarefa lá das mais simples.

Resultado: após um primeiro round de pouca ação e muito estudo, Roger acabou pego por um overhand no minuto final e foi à lona. King Mo ainda lançou mais dois socos no solo, mas a verdade é que o campeão mundial de jiu-jitsu já estava fora de combate àquela altura.

O revés marcou um momento de reflexão e mudança na carreira de Roger no MMA. Diante da diferença de potência, o Gracie resolveu mudar de categoria e passou a competir no peso médio, onde teria ainda mais superioridade de altura e envergadura contra menos pujança física dos rivais.

Keith Jardine marcou a estreia nos pesos médios

O primeiro desafio na nova divisão foi contra Keith Jardine. O combate, realizado em julho de 2012, mostrou uma das apresentações mais sólidas da carreira de Roger, com a demonstração (óbvia) de seu jogo exuberante de solo e notória evolução na trocação.

O grande destaque desta contenda foi o segundo assalto, que rendeu ao brasileiro um 10-8 na opinião de dois jurados (e é bom lembrar que estamos falando da época das vacas magras de 10-8).

No terceiro round, porém, um pequeno sufoco por parte de Jardine, mas Gracie foi capaz de passar de forma segura pela tormenta e garantiu o triunfo por decisão unânime – o primeiro (e único) de sua carreira.

Havia a expecativa de que o Strikeforce e Scott Coker estivessem considerando construir o nome de Roger como um possível desafiante ao título dos médios. Infelizmente para o brasieliro, no entanto, a organização não durou tempo suficiente para que isso acontecesse.

Anthony Smith foi o rival no último card do Strikeforce

Com a compra da promoção pelo Ultimate e sua posterior absorção pelo evento de Dana White & cia, Roger não teve sua chance pelo cinturão, mas acabou escalado para o card final da organização baseada em San Jose, no dia 12 de janeiro de 2013.

O adversário foi Anthony Smith (hoje no UFC e que, aliás, entrou em uma excelente sequência desde então).

A luta foi marcada por uma controversa dedada no olho (acidental, na opinião deste pobre escriba), mas o resumo da ópera foi simples.

Roger teve dificuldades para se encontrar no primeiro assalto, porém sobreviveu às investidas do rival na trocação. Com seu jogo encaixado na segunda parcial, ele adicionou mais um pescoço à sua lista – chegando a sua quinta finalização no MMA profissional.

Derrota para Kennedy na única vez no UFC

A chegada de Roger Gracie ao UFC foi cerca de expectativa. O primeiro rival escolhido para o astro do jiu-jitsu foi um ex-colega de Strikeforce: Tim Kennedy.

Essa, que depois viria a se tornar a única apresentação de Gracie dentro do octógono mais famoso do planeta, foi também considerada o ponto baixo de sua trajetória nas artes marciais mistas.

É importante dizer que Kennedy também não foi brilhante (passou longe disso, aliás).

Roger começou melhor a luta e chegou a pegar as costas do ex-militar, mas, ao contrário do que parecia lógico, a finalização não veio.

Depois disso, o brasileiro não se recuperou na luta e, visivelmente estafado pelo esforço em vão nos minutos iniciais, sucumbiu ao jogo pragmático de Kennedy.

Derrota por decisão unânime e adeus prematuro ao Ultimate. O que, nas palavras do próprio Roger, não foi uma surpresa.

Meu contrato (que vinha do Strikeforce) acabou após a última luta e eu esperava ser liberado depois daquele combate. Eles conversaram com meus empresários, mas não chegaram a um acordo. Por fim, meu contrato não foi renovado. Ainda estou decidindo o que fazer a seguir. Vou seguir lutando MMA pois é o que escolhi fazer. Vou ver para onde vou agora. Não há nada decidido”, disse Roger, ao MMA Fighting, no fim de 2013.

A decisão sobre seu futuro veio poucos meses depois. Roger acertou com o ONE Championship, promoção do sudeste asiático baseada em Singapura. Com a nova promoção veio também o retorno aos pesos meio-pesados.

McSweeney sofreu único nocaute da carreira de Roger

O adversário foi James McSweeney e o duelo mostrou uma faceta diferente de Roger Gracie: a trocação.

Em um duelo majoritariamente em pé, Roger absoverveu alguns golpes duros e também encaixou bons ataques no britânico, que terminou a luta com um corte profundo no supercilio direito.

McSweeney sofreu uma lesão no tornozelo e na reta final do combate tinha dificuldades para se apoiar no solo.

Roger capitalizou bem sobre a vantagem e com um frontal certeiro na linha de cintura, deixou o inglês em posição fetal e partiu pra cima, garantindo aquela que seria sua única vitória por nocaute técnico na carreira.

Último rival foi Michael Pasternak, no ONE Championship

Em maio de 2016, Roger Gracie subiu ao cage do ONE para a primeira disputa de cinturão de sua carreira, diante do então invicto polonês Michal Pasternak.

O polonês, que, como dizem em Minas Gerais, de bobo só tem a cara e o caminhado, veio disposto a trocar com Roger e evitar a qualquer custo o jogo de chão.

E ele conseguiu êxito em sua empreitada… por 50 segundos. A transição da esgrima na grade para o chão foi rápida e dali pra montada tudo foi mais rápido ainda.

Poucas coisas na vida devem ser mais desesperadoras do que estar sob a montada de Roger Gracie e, por isso mesmo, Pasternak se debateu como um peixe fora d’água – em vão, devo observar.

Roger se despediu com o cinturão meio-pesado do ONE

Roger praticamente teve a chance de escolher como finalizaria o rival e o fez com um belíssimo katagatame.

Oitava vitória como profissional assegurada e título dos pesos meio-pesados do One Championship garantido.

Quase um ano depois, ainda sem defender seu cinturão e, como dito, com sua carreira no jiu-jitsu de competição também encerrada, Roger anunciou que estava se aposentando do MMA profissional aos 36 anos.

Ao todo, foram 10 lutas e um cartel de 8 vitórias (seis finalizações e um nocaute) e duas derrotas. Seu tempo total dentro do cage foi de 78 minutos e 4 segundos (ou 1h18m4s, como queiram).

Eu encerrei minha carreira em alto nível. Eu teria mais a perder do que a ganhar seguindo no MMA. se eu tivesse a mesma paixão no MMA como eu tinha no jiu-jitsu, eu continuaria, mas minha única motivação para seguir competindo era o dinheiro, e eu sou contra fazer algo focando somente na remuneração. Eu não acho que daria 100% nesse caso, então decidi me aposentar e focar em outras coisas na minha vida”, declarou Roger.

Abraços e até o próximo Flashback!

  • Mauricio

    Foi bem até, fez poucas lutas… Acho que foi prematuro demais ele ser liberado do UFC após uma luta.

    • Lucas Pereira Carrano

      Como o próprio Roger comentou na época, Maurício, foi um pouco de azar ou timing, como preferir.

      Ele tinha só mais uma luta no contrato que foi herdado do Strikeforce (e não sabemos exatamente quais eram os números desse acordo prévio – Scott Coker é meio desregulado).

      A luta morna não ajudou, assim como o resultado negativo, e deu-se a saída.

  • Jefferson Rosa

    Excelente texto!!! Roger Gracie é monstro no jiu-jitsu! Oss

    • Lucas Pereira Carrano

      Que bom que gostou, Jefferson.

      Não vou mentir. Deu bastante trabalho (já tinha visto várias lutas dele, mas tive que ir e assistir cada uma de novo, procurar textos da época e tal — o resultado, como vc viu, foi um texto bem maior que o convencional).

      hahahahaha

      Abraço!

      • Jefferson Rosa

        Excelente! Ótimo trabalho!! Curti tbm a riqueza de detalhes e fatos embasando a sua redação… Muito bom ver o sexto round evoluindo dessa forma!! Agora todo dia tem coisa nova no site, textos bem escritos (prefiro qndo escrevem do que qndo trazem a notícia de outros sites).

  • Tiago Nicolau de Melo

    Pegou o Kennedy, que até então era um lutador de bom nível (logo adiante deu um calor no temido Romero, que teve que fazer um intervalo duplo entre rounds). Devia ter continuado no UFC por mais uma ou duas lutas, de preferência na LHW.
    No chão, ainda venceu o Buchecha no “rematch”, nada mais a acrescentar!
    Mito, ídolo!

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Seria bom ver ele nos 93kg no UFC, foi mancada em liberar ele do contrato, enfim saiu bem do esporte com título do ONE (que não é mta coisa nessa categoria principalmente), e numa idade tranquila. Eu torço demais é pro Kron levar MMA mais a sério e chegar a um UFC, as lutas dele foram muito interessantes no Rizin dominando os adversários.

    E sobre os adversários kkk o Yuki Kondo ganhou do Minowaman em julho e McSweeney vai lutar com o legítimo prospecto Mariusz Pudzianowski, só craque!

  • thai verdadeira

    Só venceu carne assada , sempre que pegou um atleta bom, levou pau, FATO!

  • Rudá Corrêa Viana

    Muita gente falando que ele daria muito caldo e tal, mas nao da pra ter como parâmetro os adversários q ele pegou. Os melhores fizeram ele perder. Teria q ter mais umas cinco lutas no UFC pra realmente saber qual o seu nível no esporte. De todo modo, espero q seja feliz na nova caminhada.

  • Lorenzo Fertitta

    Excelente texto Carrano, o monstro do jiu-jitsu merecia um flashback a altura de sua carreira. Fiquei curioso: o Lionheart já era um barangão raçudo àquela época?

Tags: , , , , , ,