Flashback: quando Ronda x
Cyborg não parecia absurdo

Lucas Carrano | 28/09/2017 às 14:18

Amigos do Sexto Round,

Nessa semana de hiato nos grandes eventos de MMA, poucas notícias chamaram tanto a atenção quanto a declaração do técnico Edmond Tarverdyan sobre o possível retorno de sua pupila Ronda Rousey ao octógono.

A luta contra a Cris Cyborg é a que eu queria para Ronda. Eu quero ver isso. Quando treinei a Ronda, sabia que ela podia vencer Cyborg. Eu sei disso. (…) Se tudo estivesse certo e não houvesse nenhuma lesão, nós pegaríamos essa luta e eu digo agora que ela é muito lenta para nós. Ronda venceria. Ela precisa de um desafio, precisa pensar em sua adversária como uma inimiga, como ela não é uma boa pessoa. Ela não teve isso com Holly Holm , mas contra a Cyborg seria diferente. A Ronda não gosta dela, acredita que ela usou esteroides e que machucou meninas desnecessariamente por causa disso”, disse o quase herdeiro do trono de ferro e pai dos dragões.

É claro, como quase tudo que vem de Edmon recentemente, a declaração não pegou bem e foi motivo de chacota na comunidade do MMA. Até mesmo nós demos nossos bem humorados dois centavos sobre o tema no Podcast do Sexto Round – que, aliás, se você ainda não se ligou, está também no YouTube.

Eu mesmo cheguei a cogitar se Tarverdyan não “estaria de olho no dinheiro do seguro de vida de Ronda”, em tom de brincadeira, é claro.

Alexis Davis caiu em 16 segundos

Pra ser sincero, no entanto, houve um tempo em que um possível duelo entre Rousey e Cris não parecia tão absurdo assim.

E o motivo para isso me parece claro: da mesma forma em que houve um certo exagero positivo sobre as capacidades de Rowdy no passado, há uma hipérbole negativa – muito influenciada pelas duas últimas apresentações, lamentáveis, da ex-campeã – neste momento.

Por isso, voltemos então ao não tão longinquo ano de 2015, mais especificamente ao dia 14 de novembro daquele ano, um dia antes do nocaute que quebrou a invencibilidade de Ronda e deu início à espiral ladeira abaixo na carreira da judoca olímpica.

Naquele ponto, Ronda tinha um cartel de 12-0 e vinha das três vitórias mais arrasadoras de sua carreira: nocaute em 16 segundos sobre Alex Davis, finalização em 14 segundos pra cima de Cat Zingano e o nocaute sobre Bethe Pitbull em 34 segundos na casa da adversária.

Zingano foi despachada em 16 segundos

Alguns meses antes, a Sports Illustrated, uma das mais conceituadas publicações esportivas do planeta lançou uma reportagem especial intitulada “The unbreakable Ronda Rousey is the world’s most dominant athlete“, ou “A inquebrável Ronda Rousey é a atleta mais dominante do mundo”.

No texto, assinado pelo jornalista Jon Wertheim, diretor executivo senior da revista, é destacado, além do sucesso esportivo de Ronda, inegável e incomparável até aquele ponto no WMMA, sua dedicação, foco e disciplina mesmo sob intensa artilharia promocional.

A grande verdade é que Ronda foi um divisor de águas na história do MMA enquanto esporte nos Estados Unidos.

Ela quebrou a última barreira ainda encontrada pelo esporte até aquele momento, fez sucesso em Hollywood, se tornou figurinha carimbada nos tapetes vermelhos, programas matutinos e canais de TV que até então se recusavam a falar do esporte.

Em um mundo pré-Conor McGregor, esse era o “bilhete de ouro” que todos queriam, inclusive, vejam só como são as coisas, até Cris Cyborg.

A Ronda já limpou a categoria dela e daqui a pouco vai ter enfrentar a Miesha Tate pela terceira vez, isso mostra pra gente como ela já limpou a categoria. Quando um campeão varre a divisão, todo mundo já viu isso, ele vai pra categoria de cima. Eu sou a campeã até 145 libras (do Invicta FC, à época), e posso baixar para 140 para lutar contra ela”, disse Cyba, à Fox Sports americana em 2015.

Apesar do status de ambas ser completamente diferente àquela altura, com a americana na crista da onda e a brasileira fazendo o possível e o impossível para conseguir o duelo, não dá pra dizer que a luta não se abalizasse também no aspecto esportivo.

Bethe foi nocauteada em pouco mais de 30s

Voltemos ao cartel de Ronda Rousey até o dia que antecedeu sua derrocada em MelbourneAustrália.

Foram 12 vitórias, 11 delas no primeiro round, sobre adversárias como: Ediane Índia, Chermaine Tweet, Julia Budd, Sarah Kaufman, Miesha Tate, Liz Carmouche e Sara McMann, além do trio já citado no início.

Se você pegar as sete lutadoras mais bem ranqueadas na categoria feminina até 61kg na data, somente uma, Jessica Eye, ainda não havia sido batida por Ronda (e, honestamente, quem não apostaria em Rousey contra Evil, especialmente naquele momento).

Embora haja hoje ainda mais – e mesmo naquele tempo houvesse – questionamentos sobre a (falta de) qualidade do jogo em pé de Ronda (exposta de forma crua e brutal por Holly Holm Amanda Nunes), uma coisa não mudou: Rousey era e, muito possivelmente ainda é, a melhor grappler desta faixa de peso.

Parecia que o reinado de Ronda não chegaria ao fim

Ela provou por a+b que, se a luta for parar no solo, mais cedo ou mais tarde, ela vai pegar aquele braço e encaixar um armlock.

Isso é bem diferente do puncher’s chance de um Roy Nelson da vida, pois não se trata de um socão pra apagar o adversário, mas um conjunto de técnicas tão bem alinhado que é capaz de subjugar todo e qualquer oponente – caso, é claro, chegue-se à condição de fazê-lo.

Além disso, a americana já havia lutado como peso pena – e até em um peso combinado de 150 libras – no início de sua carreira e, portanto, não era estranha à divisão de peso.

Voilà, está armado o cenário perfeito para uma luta entre Ronda e a maior e mais agressiva striker da história do MMA feminino, até então cercada de mistério e interrogações (por jamais ter lutado pelo UFC e seguir desequilibrando a balança fora do principal mercado do esporte).

…mas ele chegou

Não é nem necessário trazer aqui os relatos da época, pois simplesmente todos os veículos e analistas, de MMA FightingESPN ao moleque que escrevia um blog por diversão nos fins de semana, cravavam a mesma coisa: Rousey x Cyborg é a maior luta da história do MMA feminino (quiçá do esporte).

Essa luta fazia tanto sentido e renderia tanto dinheiro, aliás, que eu, pessoalmente, até hoje não entendo como ela nunca saiu do papel (haja vista que a desculpa “não queríamos queimar a Ronda” caiu por terra nos meses seguintes).

Tudo mudou, no entanto, quando soou o gongo no Etihad Stadium naquele 15 de novembro de 2015.

promo daquele evento, um vídeo que recomendo imensamente que vocês assistam, por se tratar de um dos melhores trailers de luta de que tenho notícia, diz que “toda revolução começa com uma luta”.

A revolução, naquele dia, para o azar de Ronda Rousey, passava pelo ponto final de sua era nas artes marciais mistas.

Abraços e até o próximo Flashback!

  • Lorenzo Fertitta

    Belíssimo texto, Carrano. É engraçado pensar, mas já houve muita dúvida acerca de quem venceria entre Ronda e Cyborg.
    Mesmo com o fim da hype de imbatível em cima da Ronda, hoje em dia essa ainda seria a maior luta feminina da história do MMA e as odds seriam equilibradas, creio eu.
    Valeu pela lembrança da promo para RR X HH, um dos melhores pré-luta já feitos.
    E o melhor, culminou com o pós-luta que mais comemorei na vida kkkkkkkkkkk

  • douglas karpinski

    esse video do final é um dos melhores com certeza!

    • Bruno Siqueira

      Rapaz, eu me surpreendi. Esse vídeo é realmente muito bom!

  • Nathan Dreak

    Eu lembro bem das declarações e das perspectivas da luta, e sempre ficou evidente que Ronda a evitaria de qualquer forma. Nunca foi criada muita expectativa dela sair. Era só ouvir a Ronda falar sobre a Cris que ficava nítido que ela nunca faria essa luta.

  • Walber Silva

    Este texto foi um dos melhores!

  • William Oliveira

    Nunca achei que sairia do papel e sempre achei que seria mismatch, esse Edmond é uma piada somente por cogitar isso depois de tudo haha

  • Renato Rebelo

    E digo mais: se tivesse rolado Ronda x Cyborg pre-Holly Holm ia ter mt gente indo de Ronda por armlock. Queria mt ter visto a porcentagem no Confere.

    • Paulo Zanchet

      Acredito que até alguns da equipe do sexto round apostariam nesse armlock… kkkkk

  • Guilherme Urquisa

    Parabéns pelo texto, Carrano.
    Cara, que vídeo promocional foda! Só n entendi pq colocaram um Herb Dean falsificado ali! Kkk.

  • Lee

    Ela tinha uma aura em volta, construída por vários fatores, mas principalmente, ao meu ver, pelo nível amador das lutadoras da época. Era como antigamente no masculino quando o jiu-jitsu dominava.

    Essa aura cegava as lutadoras, os fãs….as adversárias entravam com muito respeito, às vezes parecia que estavam até com medo, era tipo quando os caras enfrentavam o Anderson Silva.

    Eu acho que a própria Ronda fantasiava que era imbatível. Fica meio nítido quando ela foi surrada e o semblante de má (que sempre usava nas encaradas e nas entradas) virou uma face de gatinha assustada. Foi ridiculo!

    No nível de hoje a Ronda apanha de todo mundo, ainda mais porque nao sabe nem que estratégia deve seguir…

  • flavio israel

    Realmente o Trailer é massa viu!!

  • Joadson Carvalho

    Sensacional, Carrano! Sobre vídeos promocionais, lembrei de um que assisti que não foi feito pelo UFC, mas ficou absurdamente bom.

    https://www.youtube.com/watch?v=Bu3Mpe_RNiM

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