Vale assistir? A leitura
dinâmica do UFC Japão

Thiago Sampaio | 20/09/2017 às 20:32

Pela quinta vez, o UFC retorna ao Japão. Mais precisamente na Saitama Super Arena, palco de tantos duelos históricos do Pride.

Dois anos após o UFC Fight Night 75: Barnett vs. Nelson, nesta sexta-feira (22), acontece o UFC Fight Night 117: Saint-Preux vs Okami, a partir das 20h30 (horário de Brasília).

Na luta principal, Maurício “Shogun” Rua faria a revanche contra Ovince Saint-Preux. Porém, uma semana antes do evento, pulou fora alegando lesão no joelho.

Para o seu lugar, Yushin Okami, que já disputou o cinturão dos médios do UFC e estava no Professional Fighters League, foi recontratado.

E o evento vai contar com uma lutaça entre as brasileiras Cláudia Gadelha e Jéssica Andrade, no co-evento principal, pela categoria peso palha feminino.

E vamos lá aos destaques!

A volta dos que não foram

O ex-campeão dos meio pesados do UFC e ídolo do Pride, Shogun sai por lesão e dá vez ao ex-desafiante ao título do peso médio, Yushin Okami (34-10, 13-5 UFC), que aceita subir de categoria num curto prazo para fazer a luta principal diante da torcida japonesa.

Alguma mentira na chamada acima? Nenhuma. Mas ela faria mais sentido se estivéssemos em 2011. No contexto atual, temos que nos contentar com Ovince St-Preux (20-10, 8-5 UFC) enfrentando o repatriado japonês de 36 anos no main-event.

Antes, Shogun faria a revanche daquela luta de 2014, quando foi nocauteado bizarramente por St-Preux em apenas 34 segundos, em Uberlândia. Mas se lesionou, perdeu a chance de vingar a maior “escorregada” da carreira, podendo engatar a quarta vitória seguida e, pasmem, se aproximar de uma nova disputa pelo cinturão.

Okami foi a única opção “de apelo” encontrada para substituí-lo. Apesar de vitórias sobre nomes como Evan Tanner, Mark Muñoz, Nate Marquadt e Hector Lombard, é mais conhecido no Brasil por ter perdido para Anderson Silva na primeira edição do UFC Rio, o UFC 134, em agosto de 2011.

Demitido após ser nocauteado por Ronaldo Jacaré em 2014, tentou a sorte no World Series of Fighting, onde foi freado pelos veteranos David Branch e Jon Fitch, mas retorna ao UFC após quatro vitórias seguidas em eventos variados (incluindo o WSOF, que virou o PFL).

St-Preux é aquele que sempre prometeu, nas ficou pelo meio do caminho. Vindo de finalização sobre Marcos Pezão após derrotas para Jon Jones (valendo um cinturão interino que ninguém engoliu), Jimi Manuwa e Volkan Oezdemir, protagoniza a luta principal apenas pelo apelo da revanche que faria com Shogun.

Apesar de experiente, Okami tem desvantagem pelo pouco tempo de preparação, além de lutar na categoria que não é a dele (ele fez, inclusive, lutas nos meio-médios). Judoca experiente, deve tentar a todo custo levar para a grade e buscar a queda. Travando e na base do ground and pound, pode ter chance.

OSP, o cara da tatuagem de ferradura feita com brasa está longe de ser um exímio lutador, mas está adaptado aos meio pesados e tem um certo poder de nocaute, além de boas finalizações (Von Flue Choke já virou sua marca registrada), algo que não deve ser tão efetivo contra um grappler como Okami.

Levando em conta que Yushin tem a simpatia de um vilão de filme de máfia japonesa e OSP é lembrado pela pose de língua pra fora e mãos envergadas para os lados…não há muita expectativa de luta bonita.

Brasileiras da elite

Um raro duelo entre as melhores brasileiras de uma mesma categoria desde a criação do MMA feminino vai acontecer. As ex-desafiantes de Joanna Jedrzejczyk, Cláudia Gadelha (15-2, 4-2 UFC) e Jéssica Andrade (16-6, 7-4 UFC) mostram que a competição está acima do patriotismo.

E a luta faz sentido, pois, independente da nacionalidade, Claudinha e Jéssica são número 1 e 4 do ranking peso palha feminino, respectivamente, enquanto Rose Namajunas, número 3, enfrenta a campeã no UFC 217, em novembro. Sem dúvida, elas estão na elite e na espreita de um novo title-shot.

Principalmente Claudinha, por ser considerada a segunda melhor atleta da divisão, mas pesa o fato de já ter perdido duas vezes para a polonesa (a primeira, sem título em jogo, com resultado pra lá de polêmico). Uma vitória convincente pode afastar o karma de “Joseph Benavidez versão feminina”.

Já a Bate-Estaca, após altos e baixos na categoria dos galos, se encontrou entre os palhas. Após três boas vitórias, conseguiu o title-shot.

No UFC 211, em maio, até teve um bom começo contra a campeã, mas acabou dominada pelo restante da luta, perdendo por decisão unânime.

Acho que ela não me respeitou muito quando foi lutar com a Joanna, falou algumas coisas por tabela, mas que, claro, não me ofenderam em nada. Eu sabia que a luta dela com a Joanna ia dar naquilo mesmo. Respeito meus adversários, não gosto de “trash talk” e não vou respondê-la com palavras. Somos do mesmo país, o mesmo trabalho e só tenho que respeitá-la. A Jéssica é uma lutadora de muito coração, de garra, mas acho ela sem técnica, muito brigona”, disse Cláudia.

Mostrando uma nítida evolução desde que deixou a Nova União para abrir a sua própria equipe na Pensilvânia, nos EUA, Claudinha é favorita.

No último confronto, no UFC 212, em junho, teve a sua melhor atuação no UFC ao finalizar a ex-desafiante Karolina Kowalkiewicz, número 2 do ranking, em apenas três minutos.

Faixa preta de jiu-jítsu, fez as pazes com as finalizações e deve usar o eficiente jogo de luta agarrada, usando um estilo mais agressivo no solo. Se o gás foi crucial na segunda derrota para Joanna, isso não deve ser problema, já que a luta tem apenas três rounds.

Jéssica, faixa roxa, também desenrola bem no chão, porém, ciente de que é inferior nessa área, deve evitar as quedas honrar o apelido de Bate-Estaca. Com um estilo violento e que já lhe rendeu bons nocautes (ainda que só Jessica Penne tenha caído pra ela no UFC assim), tem boas chances se o combate se desenrolar em pé.

Promessa de luta que, mesmo se não for emocionante, deve ser bem técnica. E se a vencedora se coloca ali de novo na boca do cinturão, o melhor caminho para a derrotada é migrar para o peso mosca. Se depender do desastroso nível das desafiantes no TUF 26, qualquer uma das duas será top 3 fácil!

Veterano da luta em pé vem aí!

Em tempos em que o astro do WWE, CM Punk, se aventura no MMA e Conor McGregor estreia no boxe profissional contra ninguém menos que Floyd Mayweather, será que Gokhan Saki (0-1), veterano do kickboxing, vai terá sucesso no UFC?

E o escolhido para enfrentá-lo é o brasileiro Luís Henrique da Silva (12–3, 2-3 UFC), o Frankenstein. Apesar de chegar ao UFC com duas vitórias, vem de três reveses em seguida, para Paul Craig, Jordan Johnson e Ion Cutelaba. Se perder mais uma, vai ser difícil não passar pelo RH.

A única experiência de Saki no MMA foi em 2004, quando sofreu um nocaute técnico para James Zikic. Mas no kickboxing, o holandês de origem turca, de 33 anos, tem uma vasta experiência.

É ex-campeão holandês, europeu e mundial, incluindo o GP do K-1 e o título do meio pesado do Glory.

Na luta em pé, ostenta um cartel de 83 vitórias (sendo 59 delas por nocaute), 12 derrotas e uma luta sem resultado. Já bateu nomes como Ray Sefo, Melvin Manhoef, Anderson Silva e Tyrone Spong. No UFC, ele já revelou o que vai fazer: lutar kickboxing no octógono e já fala até em título.

Eu enfrento qualquer um. O maior, o menor, o mais pesado, com o mesmo peso que eu… Não estou nem aí. Só me preocupo comigo mesmo. Não quero saber dos outros lutadores. Mais cedo ou mais tarde vou nocauteá-los de qualquer maneira. A ordem das lutas não me preocupa. Eu sei o que posso fazer. Sei que, se eu quiser alguma coisa, vou me matar de trabalhar até conseguir. Agora, o que eu tenho em mente é que, daqui a um ano, nessa mesma data, estarei disputando o cinturão dos meio-pesados do UFC. Já estou pronto”, disse Gokhan Saki.

O brasileiro é um bom desafio para testar o nível de Saki antes de falar em cinturão. Apesar de não ser um atleta da elite e vir em má fase, tem bem mais experiência nas artes marciais mistas. Faixa roxa de jiu-jítsu, finalizou Joachim Christensen em sua segunda luta no UFC.

Se tiver um mínimo de bom senso, deve buscar queda e tentar arrancar a batucada do adversário, atento de que Gokhan é também perigoso no clinche. Por isso, espremer na grade não é a melhor das opções.

Acontece que Frankenstein também é oriundo do muay thai, tendo 11 das 12 vitórias por nocaute. É bem provável que ele vá tentar se provar contra um experiente trocador e partir para a porrada.

Aí, não vai ser surpresa se o virmos caído e depois todo remendado, fazendo jus ao apelido.

Formiga que trabalha

Demetrious Johnson já varreu todos os tops da categoria dos moscas, certo? Nem tanto. Pois Jussier Formiga (19-5, 5-4 UFC) estava lá desde o começo e sempre bateu na trave quando estava a uma vitória da disputa do título.

Foi assim quando perdeu para John Dodson, para Joseph Benavidez, para Henry Cejudo e, quando tudo indicava que a chance viria contra Ray Borg, perdeu. Em Fortaleza. E Borg, o nem tão popular adversário de óculos e com recorrentes falhas pré-lutas, foi contemplado.

E de novo, o atleta da Kimura/Nova União volta para o fim da fila. Nesse recomeço, jogaram alguém que sequer figura no ranking, mas sempre está rodeando nomes importantes: o japonês Ulka Sasaki (20-4-2, 3-3 UFC).

O japa estreou com uma ótima finalização sobre Roland Delorme, em 2014. Entre vitórias e derrotas, foi escalado contra Wilson Reis no UFC 208, em fevereiro. Perdeu, mas deu trabalho!

Na última exibição, estava levando a pior contra Justin Scoggins, em junho, mas arrancou uma bela finalização no segundo round. Com o mesmo mata-leão que já lhe garantiu 10 vitórias ao longo da carreira.

Entre dois especialistas da luta agarrada (Formiga é um faixa preta de jiu-jíu de mão cheia), fica aquela esperança para que o duelo não se transforme em uma disputa sem emoção na trocação, entre dois caras que dependem de uma explosão nuclear para ocorrer um nocaute.

Mesmo em pé, Jussier mostrou uma ligeira evolução na vitória sobre Dustin Ortiz, e até no revés contra Henry Cejudo. Lampejos difíceis de prever contra Sasaki, que não é leigo na trocação, inclusive tem dois nocautes na carreira, algo que o brasileiro ainda desconhece.

Apesar de favorito, desta vez Jussier vai ter que caminhar em passos de Formiga rumo ao título. Se o Mighty Mouse realmente bater o recorde de defesas de cinturão contra Borg no UFC 216, o futuro da categoria vai ficar indefinido.

DJ pode subir para os galos ou fazer superlutas. Mas Benavidez, Cejudo e Sergio Pettis seguem aí…

Card completo

Ovince Saint-Preux x Yushin Okami
Cláudia Gadelha x Jéssica Andrade
Takanori Gomi x Dong Hyun Kim
Gokhan Saki x Henrique Frankenstein
Teruto Ishihara x Rolando Dy
Mizuto Hirota x Charles Rosa
Keita Nakamura x Alex Morono
Jussier Formiga x Ulka Sasaki
Syuri Kondo x Chan-Mi Jeon
Shinsho Anzai x Luke Jumeau
Daichi Abe x Hyun Gyu-Lim

Vale assistir?

Com Okami servindo de “salvador do card” e fazendo uma luta principal em pleno 2017, esse evento tinha todo o perfil para um veredito negativo.

Mas antes que pensem que recebi uma “mala branca” de quem vai transmitir (abraço ao amigo André Azevedo!), aqui vão os motivos da avaliação positiva.

Me recuso a indicar que perca uma luta do nível de Claudinha x Bate-Estaca. Não só como valorização das melhores brasileiras da categoria dos palhas, como provavelmente ainda são as atletas que podem desbancar a campeã numa nova chance no futuro.

Você pode até não assistir às demais lutas pela falta de nomes tão atrativos, mas se for curtir a noitada de sexta, não esquece de sintonizar na luta das meninas quando chegar em casa de madrugada!

Fica a expectativa se Gokhan Saki vai vingar no MMA ou se será presa fácil para qualquer wrestler. O que não é bem o caso do desesperado brasileiro Henrique Frankenstein, mas fica o chamariz para esse combate.

Será que o cambaleante Takanori Gomi, ídolo do Japão e que não sabe o que é vencer desde que o Godzilla era calango, vai bater o “Maestro” Dong Hyun Kim e anunciar a aposentadoria diante de uma Saitama Super Arena lotada? Ou terá mais um gosto amargo?

Formiga x Sasaki promete ser um bom duelo na divisão dos moscas e também há outros duelos interessantes como Hirota x Rosa e Nakamura x Morono.

E se o japonês tarado Teruto Ishihara não merece audiência após ser dominado por Artem Lobov e Gray Maynard, teremos a volta do bom coreano Hyun Gyu-Lim, que já foi chamado de “Jon Jones asiático” e busca se recuperar de dois nocautes contra o estreante invicto Daichi Abe.

Então, até que vale passar aquela sexta-feira à noite em casa na companhia de quem gosta vendo um card até mais ou menos legal. E pra entrar no clima oriental, pede em delivery uns sushis e uns temakis. Mas cuidado para não exagerar no wasabi! Arde pra caramba!

 

  • William Oliveira

    O card preliminar eu vou passar, mas a partir da luta do Saki vale a pena mesmo, o Brasileiro disse em entrevista que pretende ir pra trocação atrás do nocaute. Se não conhecesse o seu QI de luta, diria que seria difícil de acreditar. Esse esporte é cheio de maluco mesmo.

    • Vinicius Maia

      kkkkk as vezes o cara ta louco na droga kkkkk. Pra que ir pelo caminho mais difícil? Sei lá acho burrice. Mas ele caiu fedendo rápido demais contra o Cutelaba creio que se entrar pra trocar vai cair tão rápido quanto.

      • William Oliveira

        Se essa luta durar mais que 2 minutos vou ficar muito surpreso.

        • magnuseverest

          Haha durou mais ou menos isso.

    • Thiago Sampaio

      Sair na porrada com o Saki, sabendo que ele é totalmente verde no MMA, é insanidade!

      • William Oliveira

        Ainda mais vindo de um nocaute sofrido contra o Cutelaba em menos de 30 segundos, enfim, quem procura acha, vai virar highlight.

  • magnuseverest

    A luta mais aguardada é Claudia vs Bate-Estaca,mas esta do Frankstein vai ser divertida.

    • Renato Rebelo

      Tb acho. Pode se resumir a uma entrada de queda, mas, como o Frankenstein é striker, de repente, o instinto de lutar no automático trai o cara…

      • William Oliveira

        Nem vai ser questão de instinto Renato, olha no UFC BR, ele fala que pretende ir atrás do nocaute e que quer uma luta de trocação mesmo, não vou ficar surpreso se ele sequer tentar um takedown.

        • Ícaro

          Mas ele tbm pode ter falado isso só pra criar uma expectativa positiva no adversário e chegar lá partir pro takedown. Vamos aguardar

          • William Oliveira

            Não acho q o Saki esteja vendo as entrevistas dele e mt menos confio na inteligência do Frankestein kkkk mas sim, vamos esperar..

          • Thiago Sampaio

            Saki pode até estar atento para o que o adversário diz…mas de fato…não tem como depositar muita confiança no brasileiro.

    • Thiago Sampaio

      Claudinha x Jéssica é uma luta tecnicamente bem melhor do que a principal!

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