Pensando alto, a análise
informal do UFC Pittsburg

Lucas Rezende | 17/09/2017 às 14:06

Foi noite de reviravoltas, nocautes e mal vencendo o bem, em Pittsburgh, no estado da Pennsylvania, terra natal do dramático Rocky Balboa. Coincidência?

Além dos exemplos de superação de Uriah Hall, Anthony Smith e Luke Rockhold, os barões que desembolsaram suas preciosas verdinhas para testemunhar tamanha violência e selvageria ao vivo e a cores ainda tiveram sua sede de sangue saciada pelos nocautes brutais, cortesia de Gilbert Durinho, Kamaru Usman e Mike Perry.

Em suma, uma tristeza infindável para os fãs dos duelos truncados.

Luke Rockhold x David Branch

A distância do octógono esteve presente e personificada no Luke Rockhold engessado e perdido do primeiro assalto, e tão acentuada que o nunca-foi-striker David Branch até conectou diversos golpes limpos no rosto do surfista, numa demonstração de que, para sua sorte, queixo não enferruja. Sobrevivente, no assalto seguinte Luke reverteu as intenções e usou o grappling contra o próprio grappler. Uma vez nas costas e tempestuando socos sobre o adversário esparramado sobre o tablado, a interrupção do juiz parecia iminente. Mesmo assim, David Branch preferiu incrementar o amargo da derrota ao pedir a conta mais cedo, batucando a mãozona e se entregando. De minha curta memória, recordo somente lutadores já combalidos se enveredando por essa rota. Casos como o de Rafael dos Anjos de mandíbula fraturada, contra Clay Guida. Ou o estraçalhado Mauricio Shogun, contra Jon Jones. Apesar do revés, faltava apenas um minuto para o fim do assalto. Pegou mal? De toda forma, Luke Rockhold retorna maiúsculo, ainda que com ressalvas, para uma categoria carente e envelhecida. Agora que sacudiu a ferrugem, é hora de correr atrás de reaver um certo cinturão perdido para a soberba e umas boas bordoadas no queixo que hoje não o deixou a ver navios, ou seriam estrelas?

Mike Perry x Alex Reyes

Que obrigação o pobre Alex Reyes teria senão a de morder o protetor bucal, disparar uns golpes na direção geral de Mike Perry e esperançar o melhor? Por mais odioso – e talentoso nessa função, aliás – Perry seja, não há razão em negar a potência que consegue gerar a cada golpe. Joelhos, cotovelos, mãos, pés, o homem de moicano, tatuagem facial e imitações de galinha apuradas demais para o meu gosto atira tudo contra seus adversários, e eles dificilmente resistem. Ele desdenha, sacaneia, debocha e desrespeita, mas sempre deixa um corpo estatelado no chão, todos ligam a TV na torcida de que na próxima será ele, e enquanto isso, sua audiência cresce. Não à toa desafiou o maior nome que ele pode encabeçar, dentro das suas limitações: Robbie Lawler. E em nome de toda violência desenfreada, quem não teria vontade de assistir a esse encontro?

Anthony Smith x Hector Lombard

Hector Lombard não disfarçou seus intuitos assim que a buzina inicial permitiu que os cavalheiros se trucidassem. Endiabrado, o cubano fez todo o possível que seus 39 anos de idade e 45 combates profissionais permitiram. Não deu. O nanico destoa de lutas prolongadas como se fizesse parte de seu código genético. Pelo menos desde sua chegada atrasada e deveras decepcionante ao UFC. Anthony Smith, por outro lado, não representa o néctar da técnica e exerceu sua colossal vantagem de envergadura com a maestria de um Stefan Struve. No entanto, enfrentar Hector Lombard, a esta altura, se resume a lutar segurando um cronômetro e ser paciente. Quando o alarme tocou, no terceiro round, bastou um simplório jab e direto da escolinha de boxe para deitar aquele outrora considerado ameaça real e iminente ao trono de Anderson Silva. O tempo passa. Agora são uma, duas, três e quatro derrotas consecutivas, três por nocaute, e cartel negativado no UFC. E aí? O coroa que jamais cumpriu o que prometeu merece uma quinta chance?

Gregor Gillespie x Jason Gonzales

Guerra travada em terra, céu e mar, Gregor Gillespie e Jason Gonzalez praticamente definiram o primeiro “M” de MMA, e sem pausas para ir ao banheiro. Arisco, o par quicou e rebateu por toda a jaula desferindo pontapés e socos incessantes, protagonizando a melhor batalha da noite. O mais polido da dupla, Gregor Gillespie, confirmou o favoritismo e preservou a invencibilidade, estabelecendo a superioridade técnica no solo em um katagatame bem trabalhado, no segundo assalto. Dez lutas, dez vitórias, é um prospecto para não perder de vista. Não obstante, é necessário que procure tapar algumas lacunas defensivas que ainda apresenta em pé. Também não machucaria se alguém da equipe o pedisse para ter um pouco mais de calma da próxima vez. Trincar os dentes e cair dentro contra o lado de lá do peso leve, da maneira que fez hoje, não lhe conseguirá nada a não ser uma manchinha vermelha no cartel.

Kamaru Usman x Sérgio Moraes

Entendo que Serginho Moraes não precisava aceitar a trocação desenfreada contra Kamaru Usman e até reconheço que uma estratégia mais conservadora lhe evitaria cair cambalhotado e desmaiado poucos minutos depois. No entanto, também reconheço que Serginho confiava nas mãos que André Dida lhe deu e simplesmente não possuía a proficiência técnica para levar um wrestler como Kamaru Usman ao chão. Uma falha clássica de muitas feras do jiu-jitsu no MMA: a falta do meio de campo. Não é à toa que dizem que wrestling define o rumo de um combate e também não é à toa que Serginho era a maior zebra da noite. Encurralado, Serginho não teve escolha a não ser reagir. Francamente, um nocaute explosivo também não era de se esperar de Usman, que vencera todos os seus entraves no UFC e no TUF fazendo uso da sua capacidade de abafar e esmagar os oponentes. O momento é todo do nigeriano, dono da atual maior sequência de vitórias do meio-médio, após fazer do brasileiro a sua sexta vítima consecutiva.

Menções honrosas

  • Daniel Spitz aposentou o sempre disposto a ser nocauteado Anthony Hamilton aos 24 segundos do primeiro round, se recuperando bem da estreia com derrota para Mark Godbeer. Jovens novidades no peso-pesado são sempre bem-vindas.
  • Krzystof Jotko espancou Uriah Hall até botar os bofes para fora, mas não conseguiu despachar o jamaicano. Pagou o preço no segundo round ao beijar a ponta de um belo direto destro de Hall, em mais uma belíssima síntese do que é uma luta de Uriah Hall. Por ora, Hall se livra da degola.
  • Sei que Gilbert Durinho evoluiu em pé, mas também não acho que seja tanto quanto o próprio imagina. Jason Saggo levava a vantagem com chutes pontuais e defesa de queda em dia, mas quis o destino que um dos 94 pombos sem asa inspirados no mestre Roy Nelson, desses que você abaixa a cabeça e reza pelo melhor, acertassem o americano em cheio. Balaço recebido e Saggo já desmoronou frio. Primeiro nocaute de Durinho no UFC chegou com brutalidade.

Para os demais resultados e a resenha antes, durante e depois do evento, é só dar um pulinho no tópico do UFC Pittsburg no nosso fórum.

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Rockhold, Perry, Smith, só a nata do mal venceu ontem kkkkkk.

    Jotko bem imbecil, no round 1 o Hall entregue, só implorando pra ter o seu pescoço laçado, e não, ele fica em dúvida “ground and pound ou finalização?” dá agonia desses caras que não decidem o que fazem

  • Beto Magnun

    Acho que o Jacaré é o único cara da categoria que aguenta o Rockrold no chão. Surfista é sinistro ali. Agora estranho que só ontem fui reparar nessa postura dele com mão esquerda baixa. Um erro que ele deveria corrigir logo.
    E ri demais do maneira como Serginho caiu. Muito escroto. haha

    • Lyn

      Esse nocaute do serginho foi hilario. Entrou pro meu hall junto com o da beth correa de bunda pro alto, e do brendan schaub tentando puxar a alma pra guarda contra o ben rothwell

      • hhahahaha

      • Carlos

        “He’s trying to fight the invisible man” haha

    • Igor Martins

      concerteza..até pq o luke na primeira luta o tempo todo tentando evitando a queda.

      • Beto Magnun

        Uma luta de seis anos atrás… E o que quis dizer é que no chão o Luke vai passear em cima da maioria exceto Jacaré. Obviamente se a luta acontecer hoje o americano vai vir com a mesma estratégia da primeira, mas tem plenas condições de não fazer feio no chão.

        • Igor Martins

          sim concordo contigo, tem condição mesmo se fosse pro chão com jaca de pelo menos defensivamente se impor, mas sabemos que caras como jaca, demian, werdum e até o proprio serginho foram forjados no jogo de chão ao longo de suas carreiras como lutadores..

  • Saulo Henrique

    Mais um ótimo texto. Mas ficou a impressão de que o Sr do norte escreveu de terno e gravata. ” Feel like a Sir. ” hahahah. Os estilos são muito diferentes. .e isso que é legal. Parabéns, Lucas!

    • Malk Suruhito

      Tipo isso. Comecei a ler e depois tive que voltar ao cabeçalho para ver quem tinha escrito, haha

  • William Oliveira

    Haha que resenha, texto muito bem escrito meu caro!

    Concordo totalmente sobre o Durinho, vi uma galera ficando animada e elogiando a evolução dele, mas eu não vi isso tudo não, se esse golpe não entra ali nos últimos segundos eu teria marcado 2 rounds pro Saggo, que na trocação não serve nem pra professor de escolinha juvenil.

    Grande noite de lutas, pra ter sido perfeita só faltou o estreante peso pesado destinar um desses pombos sem asa na cara do Ledet e em cheio, botando ele pra dormir, aí quem sabe ele nunca mais ficasse tentando cozinhar lutas no peso pesado. Quem diabos quer ver isso?! Haja paciência.

  • José Luiz Cavalcante

    Confesso, depois do ótimo evento para fechar a conta só faltava a presente resenha. Parabéns Lucas Rezende!

  • Gabriel Quintanilha

    Por falar em Uriah Hall ai nas menções…li q ele recebeu premio de performance ..putz q criterio foi esse???? O cara foi surrado, levou 10 a 8 no round 1 provavelmente, ou qse isso…ai do nada acerta uma patata, e recebe premio, entre os melhores a se apresentarem na noite?? Kamaru Usman e Daniel Spitz por exemplo mereceram bem mais

    • William Oliveira

      Acho que é uma prêmio por não ter desistido e por ter dado a volta por cima, no caso. Mas concordo totalmente que esses dois mereciam mais, principalmente o Usman.

    • Malk Suruhito

      Ele já tá cotado para a Virada do Ano, vc acha que não foi nada demais?

    • Malk Suruhito

      Sacanagem foi o Perry que pegou um estreante de ultima hora, que entrou só para ser sacrificado e ganhou o bonus também.

  • Paulo Couto

    Nenhuma surpresa, rockhold sempre entra meio “frio”, foi assim que perdeu o cinturão para o bisping e também tomou uma atraso do Weidman. Mais ainda é um postulante com certeza. Espero vê-lo disputando o título novamente e acabar com esse falso reinado do Sr. Bisping. Osss.

  • Lero

    Overeem também batucou embaixo do G&P do Shogun.

Tags: , , ,