Flashback: o primeiro choque
entre boxe e MMA

Lucas Carrano | 24/08/2017 às 15:27

Amigos do Sexto Round,

O momento que muitos duvidavam chegou: Conor McGregor vai realmente subir ao ringue e enfrentar Floyd Mayweather Jr. por (até) 12 rounds em combate válido pelas regras unificadas do boxe profissional.

Às vésperas do confronto que, se não promete ser um dos mais memoráveis choques de pugilistas da história, certamente será um dos mais lucrativos confrontos já promovidos, relembrarei aqui do primeiro grande encontro entre o boxe e o MMA.

Kimbo vs Mercer não entra na lista

É claro que, para isso, desconsiderarei a bizarra incursão do “Sr. Uma Luva” Art Jimmerson, pois, naquela época, o esporte sequer sonhava em ser conhecido pelo nome de artes marciais mistas. Também, claro, deixarei pra lá atletas que tiveram carreiras amadoras no boxe e migraram para o MMA.

O foco, então, para não deixar dúvidas, é em superlutas entre um grande nome das artes marciais mistas e outro astro do boxe – ambos já estabelecidos em suas respectivas modalidades e duelando em um dos esportes.

A título de curiosidade, o ex-campeão mundial da WBO Ray Mercer chegou a enfrentar Kimbo Slice (foi derrotado) em uma luta de exibição e Tim Sylvia em um duelo profissional, realizado no evento Adrenaline MMA 3 em 2009 (essa ele venceu), mas ambos os duelos tiveram pouco apelo e passaram longe da classificação de superluta.

Assim, voltamos ao ano de 2010, e, ao contrário do cenário hoje montado para MayMac,  não foi o MMA que foi ao boxe, mas sim o boxe que entrou no octógono e desafiou um lendário nome das artes marciais mistas.

Toney com seus três títulos mundiais

No dia 4 de março de 2010, o ex-campeão mundial e pugilista do ano pela revista The Ring por duas vez James Toney era oficialmente anunciado como mais novo contratado do UFC. Toney chegou ao MMA com 41 anos e um cartel no boxe de 72-6-3.

Toney marcou época no boxe por seu estilo old school, creditado na maioria das vezes ao trabalho do técnico membro do Hall da Fama Emanuel Steward, pautado em ágeis movimentos de corpo, muitos shoulder rolls e um infight perigosíssimo. Ele permaneceu invicto pelos primeiros seis anos, e 46 lutas, de sua carreira, até ser derrotado por Roy Jones Jr. em 1994.

Em 29 anos de carreira (acredite ou não, Toney ainda luta profissionalmente, tendo vencido Mike Sheppard no último mês de maio), James foi campeão em três categorias de peso diferentes pela IBF – seriam quatro se ele não tivesse perdido o título peso pesado após ser flagrado em um exame antidoping em 2005.

Visando a mudança par ao MMA, “Lights Out”, como era conhecido, fez sua preparação sob o comando de Juanito Ibarra, técnico que levou Quinton “Rampage” Jackson ao título dos meio-pesados – mas também a uma bizarra perseguição em alta velocidade. Logo após o anúncio da chegada de Toney ao Ultimate, Ibarra deu uma série de entrevistas sobre o assunto – veja se algo lhe soa familiar.

Eu gostaria de vê-lo descer para 93kg e lutar contra o vencedor de Chuck Liddell Tito Ortiz. Primeiro, quem sabe uma luta contra Kimbo Slice no peso pesado e então enfrentar o vencedor dessa luta. Eu acho que seria uma luta e tanto. Esperamos que essa luta aconteça por volta de junho. Acredite, como técnico e professor, eu não vou deixá-lo pisar no octógono sem estar preparado. Eu acho que ele vai chocar o mundo. Eu acredito nisso”, disse Ibarra ao Bleacher Report.

A previsão/desejo de Ibarra se realizou em partes. Toney realmente recebeu uma luta no peso pesado de início, mas seu adversário não foi Kimbo. Entretanto, o nome escolhido foi ainda mais importante: o duas vezes campeão dos pesos pesados e ex-campeão dos meio-pesados Randy Couture.

Estreia rolou no UFC 118

Em abril, Dana White foi pego de surpresa por uma série de tweets partindo de Couture dizendo que estava às vias de enfrentar Toney. A informação “vazada” pelo Capitão América desagradou o dirigente, que, com bastante ironia, disse ser “muito legal ver o Randy tuitando informações que não anunciamos ainda”, mas confirmou ao MMA Fighting que a luta realmente estava sendo planejada para agosto.

O palco escolhido para o duelo foi o UFC 118, no TD Garden, casa do Boston Celtics da NBA, e o primeiro evento no estado de Massachussets. O card, que coincidiu com a terceira edição da UFC Fan Expo, foi encabeçado pela revanche entre Frankie EdgarBJ Penn, pelo cinturão dos pesos leves.

Para reforçar a tese de que essa foi realmente a primeira superluta boxe vs MMA, é só olhar para os salários pagos no evento.

Somente a luta entre Toney e Randy custou US$ 750 mil (500 para o pugilista e 250 para o ex-campeão do UFC), o valor supera todas as outras bolsas do card somadas, que totalizaram US$ 702 mil, incluindo nomes como Nate Diaz, Demian MaiaGray MaynardJoe Lauzon, além de Frankie e Penn (mas é claro, é sempre bom considerar, os tempos eram outros e esses atletas, ou o esporte, não estavam no patamar de hoje em dia).

E como era o clima antes da luta?

Toney teve quatro meses para treinar

Bom, a expectativa era grande, afinal de contas, esse era um evento único, um choque entre a modalidade mais tradicional dos esportes de combate e o “irmão mais novo”, que já crescia exponencialmente naquele momento.

No entanto, havia um consenso entre os especialistas: Toney tinha o famoso puncher’s chance, encaixar uma mão pesada e derrubar Couture antes que qualquer coisa que remotamente lembrasse MMA começasse a acontecer.

Diversos nomes de ambas as modalides foram convocados à comentar e pareceram unanimes na opinião supracitada, entre eles Amir Khan, Miguel Cotto,  Andre BertoMichael BispingChad MendesPhil Davis – pra citar somente alguns.

Dois comentários, no entanto, saltaram aos olhos enquanto percorria às análises pré-luta. O primeiro deles é do ex-desafiante ao cinturão dos meio-médios e atual comentarista Dan Hardy.

“Eu respeito o Toner demias como pugilista e admiro-o por agir conforme suas palavras e entrar no octógono. O Floyd Mayweather fala muita m*** sobre os lutadores do UFC, mas, no fim das contas, ele nunca teve culhões pra honrar sua boca grande. O James Toney tem culhões”, disse Hardy ao The Telegraph.

A segunda declaração, vejam só, é de Paulie Malignaggi, também conhecido como o “melhor amigo de McGregor”, em uma opinião que, certamente, ele ainda mantém até hoje.

“O problema é que, a maioria dos pugilistas, mesmo no auge, não durariam no MMA. Esses caras sabem luta agarrada e chutam. A mesma coisa vale na direção oposta, nenhum lutador de MMA duraria em um ringue de boxe se estivessem boxeando. Você está indo para o domínio da outra pessoa”, declarou Paulie.

E as odds? Ora, como não poderia deixar de ser, Toney era um tremendo azarão diante de Couture. A cotação do ex-campeão de boxe era +450 (você ganharia 4,5 vezes o valor investido em caso de vitória), enquanto Randy aparecia com -700 (um retorno de apenas 14 cents para cada dólar apostado).

Essa foto resume bem o que foi a luta

A título de comparação, mas mais recentes odds de MayMac são as seguintes: +375 para McGregor (3,75 vezes os valor investido em caso de vitória) e -475 para Mayweather (21 cents para cada dólar apostado).

Isso, obviamene, diz muito mais sobre o quão loucas estão as odds de MayMac do que qualquer outra coisa – principalmente se levarmos em conta que as primeiras cotações foram +1100 para McGregor (lucro de 11 vezes o valor investido) e -2500 para Mayweather (4 cents para cada dólar apostado).

Ainda assim, é possível ter uma dimensão de como havia um consenso geral de que Couture só não venceria a luta caso uma tragédia sem precedentes acontecesse.

Apesar disso, havia ainda outro importante fator em jogo: o psicológico. Embora tivesse toda a vantagem possível, Couture carregava consigo a responsabilidade de defender seu esporte em uma luta que se punha como a resposta de uma das primeiras questões levantadas desde o surgimento do MMA.

“Eu, absolutamente, tinha todo o fardo da questão de jogar o MMA contra o bxe. Eu comecei a lutar em 97 e todas essas comparações foram feitas, então, eu senti a pressão. É algo que eu levei e forma bastante séria, pois estava representando todo o MMA naquela luta”, disse Randy à Sky Sports.

Já nas últimas horas do sábado, 28 de agosto de 2010, o gongo soou em Boston para a luta co-principal do UFC 118. Apenas três minutos e 19 segundos depois, em um desfecho pra lá de previsível, encerrava-se a breve passagem de James Toney pelo MMA profissional.

O Capitão América quedou em menos de um minuto e, uma vez no chão, ficou ainda mais claro que os quatro meses de preparação não foram suficientes para o ex-campeão mundial de boxe.

Em um misto de inexperiência e desespero, Toney virou alvo fácil para o ground and pound do ex-campeão do Ultimate, que só fazia melhorar sua posição a cada tentativa frustrada de se levantar do rival. Da montada, Randy partiu para um kata-gatame e pôs fim à luta.

Couture fez o que nenhum outro pugilista havia feito até então. Venceu James Toney sem deixá-lo lançar um soco sequer.

  • Beto Magnun

    4 meses… é realmente ridículo pensar que nesse pouco tempo um cara com uma longa carreira no Boxe aprenderia o mínimo pra evitar ir ao chão.
    E sou da opinião do BFF do Connor. O irlanda pode até vencer uns rounds afinal o cara não é nenhum leigo, mas vai ser o tempo pro May se adaptar e moer ele com contra golpes até o juiz interromper.

  • Leandro Mendes

    Ray Mercer vs Kimbo Slice, o dia q Kimbo Slice virou glaper!!! kkkk

    • Malk Suruhito

      Exato!!

  • Leandro Mendes

    Ray Mercer quase arrancou a alma do Silbia

    • Renato Rebelo

      Pra quem não viu Mercer x Sylvia:

      https://www.youtube.com/watch?v=eUx9OE7DZAo

      Detalhe pro shape da lontra…

      • Shotokan Karate

        Gordinho bom de briga Ray Mercer

      • Shotokan Karate

        Gordinho bom de briga Ray Mercer kkkkk

  • Rafael Alves

    E, apesar da superluta MMA x boxe o 118 foi, dentre 12 PPVs apenas o sétimo no ano.

  • Thiago_NCO

    Não entendo nada de apostas… mas se você ganha menos do que apostou em certo lutador, qual a lógica de se apostar nele? (se é que alguém o faz)

    • Lucas Toledo

      Você recebe seu dinheiro apostado acrescido do ganho.
      Tipo, se vc apostar 1.000 dólares no Floyd, vc recebe 1.210 dólares.

      Teoricamente é um investimento melhor que a poupança, por exemplo (0,5% ao mês contra 21% numa noite), o triste é se der zebra.

    • Lucas Pereira Carrano

      Thiago,

      É bem por aí como meu xará explicou, mas, só pra ficar bem claro: em caso de vitória, você sempre ganha seu lucro ( X vezes o valor investido ou uma porcentagem deste mesmo valor – dependendo se apostou no favorito ou no azarão) + o seu investimento inicial. Caso vc erre o palpite, a banca fica com sua aposta por inteiro.

      Pensando do ponto de vista do investimento, para responder sua segunda pergunta (qual a lógica de apostar no favorito):

      Favorito: é sempre um investimento mais conservador/seguro. O lucro é menor, mas as chances de ganhar são , teoricamente, maiores.

      Azarão: é sempre um investimento mais arriscado. Como as chances de ganhar são, teoricamente, menores, o retorno é sempre maior.

      Ex: DJ vs Ray Borg. Vc tem mil dólares dando bobeira e aposta no Johnson, essa grana não vai render uma fortuna, mas, ainda assim, rende alguma coisa (e mais que poupança, investimento direto, etc. e mais rápido).

      Essa seria a lógica de apostar em um favorito. Ainda assim, pessoas com know-how e experiência em apostar como meu amigo e colunista do 6R Felipe Paranhos, podem te explicar melhor, existe um cálculo a ser feito pra ver se uma aposta vale ou não a pena (se o favorito estiver rendendo abaixo de Y, não rola colocar grana, nem se for barbada. Ao passo que se o azarão estiver rendendo menos que Z, tbm não vale a pena, mesmo se as chances dele ganhar forem boas).

  • bedotRJ

    Já que é prá equilibrar as coisas, podem meter o CM Punk contra um boxer nas regras do MMA. Será que daria luta? o/

  • William Oliveira

    Só vale pontuar que Conor sempre treinou boxe, enquanto o Toney só teve 4 meses de treino de grappling defensivo. A diferença mora aí, mas claro, ainda sim as odds deveriam estar mais desparelhas.

    • Lucas Pereira Carrano

      William,

      De fato, sua observação faz muito sentido. Ainda assim, é importante salientar que há também uma diferença gritante do boxe como modalidade para o boxe como valência dentro do MMA – principalmente no que tange a dinâmica de luta (só a possibilidade de chutar e quedar já altera totalmente o cenário).

      Quanto às odds, é o poder do hype/marketing. É difícil ficar alheio, mesmo quando se é sério e ponderado, justamente porque a função da parada é te fazer abandonar a razão e encarar o evento da forma mais passional possível.

  • Hyuriel Empírico

    Mismatch Couture x Toney

    • Malk Suruhito

      “Hyuriel Empírico”… opa, PERA!

  • Gustavo Martinek

    Muito boa a reportagem. Mas acho que o Ray Mercer merecia uns parágrafos, lutou MMA e K1 depois de ser campeão mundial no boxe. Podia rolar uma reportagem sobre atletas de outras lutas em pé que foram para o mma.

    • Lucas Pereira Carrano

      Fala, Gustavo,

      Infelizmente, o lema pra quem escreve é: “dá pra dizer isso com menos palavras/caracteres”. Pelo bem da narrativa é preciso saber recortar bem, para não prejudicar o sentido e lançar um monte de informações que podem mais confundir do que acrescentar (além do mais, as colunas “Flashback” já são naturalmente maiores, por isso o cuidado tem que ser redobrado).

      De toda forma, guardarei a sugestão e quem sabe em um futuro breve Ray Mercer vs Tim Sylvia (ou mesmo a trajetória do Ray Mercer) não vira tema para uma coluna inteira?

      Abração!

  • Lero

    Ja teve campeã de boxe sendo campeã de MMA (Holm) e campeão de MMA sendo campeão de Kickboxing (Overdream). Falta um campeão de MMA sendo campeão de boxe. Mas isso parece muito longe de acontecer

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