Flashback: o primeiro cinturão
interino criado pelo UFC

Lucas Carrano | 19/08/2017 às 15:06

Amigos do Sexto Round,

Depois de uma breve pausa em virtude da fight week do Brave 8 em Curitiba, retorno à coluna Flashback esta semana para falar de um tema que divide opiniões entre os fãs: os cinturões interinos.

Às luzes do anúncio da mais recente edição de um cinturão provisório no UFC, com a recém-confirmada peleja entre Kevin LeeTony Ferguson, pus-me a revirar a história do esporte que tanto amamos para encontrar o primeiro registro de um duelo pelo título de tal ordem.

O início dessa história data de 2003, portanto, bem antes do boom do Ultimate como organização, e até do MMA como prática esportiva no ocidente. O episódio, aliás, tem mais semelhanças do que vocês podem imaginar com o cenário atual.

Se o interino atual existe para suprir a ausência de Conor McGregor, o primeiro título provisório do Ultimate foi criado para ocupar o vazio deixado para o “McGregor de sua época” (como descrevi para aqueles que não acompanhavam o esporte no início dos anos 2000): Tito Ortiz.

Relação sempre foi conturbada

Sempre com uma relação de amor e ódio com a organização, e, principalmente Dana White, Ortiz encontrava-se em meio a uma tremenda disputa contratual e, pasmem, não estava muito afim de defender seu cinturão contra o próximo da fila.

No lugar disso, o então campeão dos meio-pesados perseguia uma superluta, no caso contra o pioneiro do esporte Ken Shamrock.

Além disso, havia outro grande problema aí: o nome do tal adversário que ele preferia não enfrentar.

Tratava-se de um rapaz então 12-1 no MMA, com bem menos nome do que viria a ter no futuro, Chuck Liddell.

Ex-companheiro de treinos de Liddell, Ortiz se recusava a enfrentar o amigo, principalmente pela grana oferecida pela Zuffa e chegou a convidar o amigo para juntar-se a ele nessa contestação à organização.

Em adição ao desejo de faturar mais grana para lutar contra um colega, Ortiz também alegou de um tudo: lesões, compromissos comerciais e problemas com as datas.

Foram, literalmente, meses de tentativas frustradas entre o UFC e sua maior estrela naquele momento até que a direção do evento, leia-se Dana, perdeu a paciência e resolveu tomar uma atitude drástica: criar um cinturão interino já que o campeão linear não defendia seu título.

A solução encontrada

Com o intuito de atrair ainda mais atenção para o duelo, o escolhido para enfrentar a estrela ascendente Chuck Liddell foi o ex-campeão dos pesos-pesados Randy Couture.

Olhando hoje, essa parece ter sido uma luta que empolgou os fãs à época, mas, na realidade, não foi bem assim. Para entender o porquê é preciso compreender o momento vivido por Couture.

Todos sabem que Randy estreou tarde no MMA e, naquela altura, em 2003, já se encontrava com 39 anos.

Some-se a isso um retrospecto recente nada animador na divisão de cima, outrora dominada por ele.

Em março de 2002, Couture partiu para sua terceira defesa de cinturão na divisão até 120kg diante de Josh Barnett. Mesmo começando muito bem, ele acabou nocauteado na reta final do segundo assalto e perdeu o título.

Posteriormente, Barnett viria a ser flagrado em um exame antidoping pós-luta e teria seu título retirado. O episódio abriu caminho para que Randy voltasse a disputar o cinturão vago, seis meses depois, diante de Ricco Rodriguez.

Má fase de Couture na derrota para Ricco

Para decepção do wrestler da primeira divisão da NCAA, a história se repetiu.

Dominância na maior parte do tempo nos assaltos iniciais e um nocaute avassalador para Rodriguez, que abriu a caixa de ferramentas e baixou uma série de cotoveladas pra cima do rival, no quinto round.

Vindo de duas derrotas consecutivas em situações muito semelhantes e prestes a se tornar um quarentão, Couture era um grande ponto de interrogação, principalmente diante de um atleta seis anos mais jovem e que vinha de dez vitórias seguidas, nove delas no UFC (incluindo os brasileiros Murilo BustamanteVitor Belfort e Renato Sobral).

O duelo foi então marcado para a luta principal do UFC 43: Meltdown, no dia 6 de junho de 2003, no Thomas and Mack Center, em Las Vegas, Nevada.

Poster

Pouco mais de 9 mil fãs estiveram presentes à arena e outros 49 mil adquiriram o pay-per-view (lembre-se, os tempos eram outros e esses não eram números desprezíveis).

Para surpresa geral, logo de cara, Randy Couture deu seu cartão de visitas a Liddell, neutralizando os perigosos cruzados do Iceman com golpes retos e muito wrestling.

A disciplina tática e surpreendente eficiência de Couture pegaram Chuck de surpresa e minaram o moral do favorito.

Com a luta já no segundo assalto, já ficava bastante claro que Couture não só não era a “carne assada” que se imaginava para o simpático dono do moicano mais famoso do MMA, como estava a caminho de vencê-lo e quebrar a banca.

Com poucos minutos no relógio no terceiro assalto, o veterano já sobrava na luta e conseguiu a montada.

Uma série de golpes no ground and pound depois e Randy Couture se tornava o primeiro atleta na história do UFC a conquistar dois cinturões em categorias diferentes.

A atuação de luxo e o resultado tão inesperado quando grandioso garantiram a Couture o apelido de Captain America, que ele levaria consigo até o fim da carreira.

O duelo contra Liddell foi o primeiro de uma trilogia que marcou época no MMA e pavimentou o caminho para uma rivalidade que monopolizou a era embrionária do UFC como nome forte das artes marciais mistas nos Estados Unidos e no mundo, e que levou ambos os envolvidos ao Hall da Fama.

A título de curiosidade, Couture enfrentou Tito Ortiz na unificação dos títulos interino e linear em setembro seguinte, no UFC 44.

Ele venceu por decisão unânime dos jurados em uma atuação dominante e marcou a primeira passagem de bastão da “Era Zuffa”.

Será que o vencedor de Lee vs Ferguson faz o mesmo?

  • Bernardo Oliveira

    Conor destrói Ferguson e Lee na mesma noite.

    • Vinicius Maia

      Pra isso ele teria que defender o cinturão. Então sabemos que não vai acontecer.

  • Vinicius Maia

    Excelente texto. Revi a luta do Randy x Chuck Liddel esses dias. Nem me toquei que foi o primeiro interino do UFC. Tito foi esperto, sabia que o jogo do Liddel era complicado para ele.
    Mas não acho que esse cinturão interino do Lee x Fergunson vá ser unificado. Conor não deve voltar pro MMA pra ganhar menos do que ganhou como boxeador.

    • Hyuriel Constantino

      A não ser que o contrato para ganhar 100 mi tenha o retorno como cláusula. hehe…

      • Malk Suruhito

        Minha aposta.

    • William Oliveira

      Cara, isso seria muito ilógico dele, essa é a maior luta de todos os tempos financeiramente falando. Esperar um retorno maior nas próximas lutas é doideira, óbvio que o Conor vai ter um reajuste absurdo onde ele vai ganhar muito mais a partir de agora, mas seja no MMA ou no boxe, ele não vai ganhar perto do que está ganhando nessa luta.

  • João Gabriel Xavier

    Randy Couture, Chuck Liddel, Tito Ortiz… Como eu gostaria de ter visto essa época

    • Vinicius Maia

      Faça o seguinte, veja no combate play mano. Rapaz, eu revi algumas lutas do Cro Cop do pride. PQP. Mano, Coleman tava do tamanho de um touro contra o Cro Cop veio pqp. Muito louco. Veja, recomendo muito.

    • William Oliveira

      Eu também, quando eu me interessei pelo esporte eles já estavam na terceira luta (2006), eu ainda era pirralho e o Chuck era meu lutador favorito, ficava até tarde assistindo com o veio, bons tempos.

    • Shotokan Karate

      Duas grandes feras do MMA foi uma luta memorável já vi e revi por mtas vezes foi a melhor época do UFC na minha opinião (entre 2003 e 2010)…

  • Igor Martins

    recordar é viver! muito bom…lembro dos vhs dos anos 90..com royce…ruas..e belfort..no inicio dos anos 2000 fiquei mais em off do mma, voltando nessa época. .do trio americano…tito..lidell..couture. e lá se vai 14 anos…direto do túnel do tempo…

  • Shotokan Karate

    Grande texto Carrano… Feito pros fanboys do irlandês palhaço e pro aspirador de pó que só eles mesmo pra dizer que é o “melhor de todos os tempos” kkkkkkkkkkkkkk

  • Weslei Alvarenga

    A contextualização é muito importante nessas horas, principalmente pros momentos históricos.

    É engraçado que numa DR, veio um recurso que na sua primeira aparição tem um casamento sem sentido e o inicio das rivalidades mais legais dos primórdios.

    Ps: Fergsun x Lee mesmo sendo um lutão, é muito sem sentido atualmente.

  • Carlos André

    Felizmente vi isso tudo acontecendo ao vivo e até antes, nos primórdios, quando chegavam os VHS e nem Premiere Combate existia.

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