Receita do Cappelli: Maia e sua suavidade dominante

Fernando Cappelli | 23/03/2015 às 21:30

Meus amigos, a edição mais propensa a narizes torcidos de um UFC na Cidade Maravilhosa até agora não deve ser lembrada daqui alguns meses, mas até que cumpriu tabela de forma satisfatória.

Para o contento geral da nação grappler, tivemos um festival de finalizações, além de uma lição de dominância na arte suave promovida por Demiam Maia, que faturou a vitória em cinco rounds após neutralizar e moldar Ryan LaFlare de forma monstruosa no chão.

O que vocês conferem a seguir é a minha visão livre sobre chaves, passagens de guarda, imobilizações.

Não sou propriamente o cara mais indicado a isso, mas como estamos em plena era do MMA moderno – e sou viciado em toda e qualquer ciência de luta -, é preciso ‘jogar nas onze’, certo? Vamos lá.

Na mesma dimensão

SnappyWiltedBlowfishNo MMA moderno, Demian Maia é um tipo de ‘último dos moicanos’ entre os lutadores de essência unidimensional que ainda obtém sucesso dentro das oito paredes.

Seu jiu-jitsu é tão vasto que o possibilita controlar ações usando os recursos do ground and pound de forma reduzida.

O padrão em pé de Maia é elaborado para abrir brechas para o grappling e facilitar os takedowns. Óbvio.

Mas se entre os médios o lutador fez um esforço monumental para ser um striker mais lapidado – e muitas vezes pagou o preço disso via descaracterização técnica -, na divisão até 77kg o paulista contenta-se em ser funcional, com movimentação simples, jogo ofensivo voltado da média para a curta distância, trocas de níveis constantes, muitos jabs fintados e diretos ou cruzados de esquerda ocasionais.

Mesmo sob a visão mais simplista exigida nas adaptações para o MMA, o jiu-jitsu é uma modalidade ‘chata’ nos detalhes.

Um bom repertório calcado nas variações do básico é essencial, e as lições no mundo sem pano e das luvas de quatro onças (que modificam pegadas e encaixes) é o clichê de sempre: a pura expertize economiza esforço e cria vantagens substanciosas.

FatherlyDimpledBangeltigerExemplos disso apareciam quando o brasileiro cravava a meia-guarda e esperava a reação deslocar o quadril (ou fazia o ‘camarão’, como se diz o jargão) para reestabilizar rapidamente a posição e usar a perna esquerda do adversário como ponte para progredir até a montada.

Nos primeiros três assaltos, Maia silenciou o adversário tecnicamente com variações do recurso descrito acima.

Ele só relutou nas tentativas de finalizações, com tentativas tímidas de kimurakatagatame.

No geral, esperava mais do norte-americano.

Tanto que, pelas circunstâncias (Maia vindo de lesão séria e quase um ano parado), apostei nele em nosso tradicional palpitão.

O norte-americano tem como principal setup mandar um cruzadão de esquerda para em seguida atacar com single legs.

Mas com o timing totalmente embaralhado, cometeu erros que facilitaram – e muito – o trabalho de Maia de colocá-lo na horizontal.

Diversas vezes ele tentou envolver o pescoço do adversário de qualquer forma durante as investidas, desestabilizando a postura e anulando qualquer chance de criar espaço para evitar o giro de clinch do paulista, que alcançava o solo com a meia-guarda já engatilhada.

Rapidão

CircularUnripeCardinalKevin Souza precisou de pouco tempo para descolar um nocautão clássico contra o japonês Katsunori Kikuno, um misto de carateca paradão e porralouca que tem ignorado o fundamento guarda e dado muita sopa para o azar.

Com vasto handicap de envergadura, o brasileiro abusou da sagacidade.

Encurralou o oponente mudando de níveis, primeiro ciscou para a esquerda e depois soltou um diretaço de direita angulando para a esquerda.

Tão óbvio e tão eficiente.

  • João Guilherme

    Quanta modéstia Capelli… Análise perfeita!

  • Simei Ferreira

    Excelente texto, Cappelli!

    Foi uma boa vitória do Demian Maia, mas creio que esse estilo não o levará a um title shot tão cedo nos meio-médios. Você acha que ele ainda pode se reiventar a ponto de se tornar um lutador completo como o Rafael dos Anjos?

    Abraço.

    • Lucas Andrade

      A forma como voce disse “creio que esse estilo não o levará a um title shot tão cedo” me fez refletir sobre outro ponto do Damião. O mesmo já não é tão jovem e se for analisar a evolução(?) que ele vem tendo no seu jogo…Nem tão cedo nem tão tarde!

    • Fernando Cappelli

      Simei, para o Demian esse lance de buscar se reinventar é mais complicado pelas próprias características do estilo dele. Ele já tentou isso na época dos médios e acabou se embananando todo. Pode (e deve, claro), agregar habilidades aqui e ali no striking, mas o mais seguro é focar no jiu-jitsu adaptado, que é o que faz de melhor mesmo, e aí sim buscar reinvenções dentro disso.
      abs!

      • Lucas Andrade

        Tendo em vista que o mesmo já tentou reformular o seu jogo e não obteve sucesso.. Não sei se ainda há tempo dele se reinventar de tal forma.

      • Vitor Torre De Avila

        Sugeriria 3 melhoras dentro do jogo dele:

        1 – Maior uso do Ground and Pound…ele mesmo admitiu na coletiva que é algo que ele não gosta muito de fazer e que precisa melhorar…Ele está kilometros na frente do resto da divisão no que diz respeito a transições no chão e tem uma facilidade incrivel em atingir posições…se ele batesse um pouco mais isso poderia facilitar o jogo de finalizações dele, ou, no minimo, acrescentar dano ao adversario…

        2 – Usar mais o clinch….ele tem uma boa entrada nas pernas, em geral com um tempo bom, buscando quedas de encontro, aproveitando o avanço do adversário e com boa mudança de direções para finalizar as quedas…. No entanto, depois de um tempo, essa entrada nas pernas fica manjada, principalmente se ele estiver mais cansado, vide luta com o Rory… Nas suas 2 primeiras lutas na divisão, contra o Kim e o Story, ele foi rapido em buscar o clinch na grade….creio que ele poderia explorar mais esse aspecto, buscando variar o jogo na grade para entradas nas pernas, idas as costas, varreduras de perna e golpes de quadril(investir no Judo adaptado), ou até, porque não, puxar pra guarda quando for preciso, mas num local onde pode se colocar mais pressão, ao invés do centro do Cage, onde o adversário só sai da sua guarda…

        3 – No Striking, aprender a dar chutes…nada demais, não precisa virar um grande chutador, a lá Pettis……ele tenta sempre usar o boxe, e eu entendo porque, faz muito sentido no jogo dele…..mas muitos adversarios, sabendo da sua qualidade no chão, entram uma uma postura bem baixa para defender quedas….o lado ruim é que isso facilita o jogo de chutes…se o Demian aprender a “magoar” as pernas dos seus adversarios, isso pode facilitar muito suas quedas…Alias, não faria mal jogar um chute alto de vez em quando….isso faria os adversários levantarem um pouco a cabeça, oq facilitaria as entradas de queda…Alias, se você chuta, vc atrai os chutes do seu adversário, que é tudo oq o Demian quer…

        Acho que, se ele souber usar bem o jogo dele, ele passa por cima da divisão toda….Ele poderia ter ganho do Rory, que tá disputando o cinturão, derrubou ele com 20 segundos de luta e montou com menos de 2 minutos….e até no terceiro round, onde tava apanhando um monte, ele chegou a derrubar….alguns ajustes pequenos, mas acho que ele pode ser campeão dessa categoria…

        • Fernando Cappelli

          Muito bom, Vitor
          abs!

  • abner albuquerque

    Kevin Souza merece o apelido “Anderson Silva dos penas”?

    • Fernando Cappelli

      hehehe… sempre dizem isso, Abner. Melhor não dar tanto peso pro cara. Acho o Kevin um cara de muito potencial, mas ele ainda é um lutador de MMA em formação, por isso acho interessante um bom intercâmbio. Sempre é.
      abs!

  • Matheus

    Discordo de todo mundo que disse que o Demian é massante, chato e tal. Pra mim foi uma aula de submission. Fazer o que ele fez com um wrestler daquele é muita coisa. Acho que não dão ao cara o valor que ele merece. É MMA o nome do esporte, não kickboxing

    • neylon

      Concordo Matheus. A galera parece que esquece dos primórdios do MMA. Sei que hoje não tem muito espaço para que só faz uma coisa. Mas se essa única coisa tá dando certo, pq parar?

    • Lucas Andrade

      Realmente, MMA o nome do esporte e não Jiu Jitsu!

  • Bruno Conde

    Não sei se vocês perceberam também, mas quando o Kevin estava comemorando começou a escorrer um bocado de sangue de seu nariz. Fiquei curioso e, quando vi o replay, ele tomou uma baita pancada de encontro do japa no focinho antes deste desmoronar.

    Acho comédia essas pancadas duplas em que um acerta melhor e o outro cai. Aconteceu também naquela luta do Condit com o Hardy e mais recentemente o Pettinho desceu com uma dessas.

    • Lucas Andrade

      Pois é, fico intrigado também com essa pancada dupla trocada (Pettis Jr levou a pior) hahaha. Mas se não vi errado a pancada do Kevin pegou no queixo do japa. Aí fica difícil ficar de pé.

    • Fernando Cappelli

      O braço mais longo do Kevin acertou primeiro ali e amenizou o prejuízo. Esse tipo de técnica é loteria mesmo, muito usada quando temos canhoto x destro (o que não foi o caso aí) também, pelo próprio desenho de posturas facilitar isso.
      abs!

  • Yuri David

    O Kikuno pegou o Ferguson e o Kevin que tem envergaduras monstruosamente maiores que a sua e insistiu nessa guarda baixa bizarra. Deu no que deu.

  • Rafael Cunha Caroline Reis

    Sou mais um que não acho o jogo do demian chato, acho o jogo dele ofensivo e por todos saberem do seu jiu jitsu, entram com a defesa em dia. Se não houver finalização é mérito do desafiante que conseguiu sobreviver ao jj do demian. Prefiro ver o jj brasileiro do que ver os americanos com o wrestler chato a lá Phill Davis.

    • Fernando Cappelli

      Com todo esse lance mercadológico predominante, estilos mais chamativos realmente têm peso extra, Rafael. O Demian tem se tornado cada vez mais a personificação do jiu-jitsu adaptado para o MMA: sem extravagâncias e direto ao ponto. As técnicas dele são justas e extremamente personalizadas. Para o grande público que acompanha o esporte, fatores como tática e técnica não significam muito mesmo.
      abs!

  • Vitor Torre De Avila

    Entrei pra ver o Capelli falando de Jiu Jitsu!!

    Sou seu fã!! Quando o Capelli me responde, eu tiro print e mando pra minha mãe!! kkk

    Sobre a passagem de guarda, ele usou também contra o Rory, espetando o joelho e avançando pra montada direto…

    Acho que mais uma que merecia menção e analise era a Amanda Nunes, o uso de fintas dela foi perfeito!

  • Thiago Marques

    Heresia não comentar o desempenho do ssj Pepey, o Mestre.

  • Pedro Duarte

    Sou fã do Demian, mas acho que seu maior problema está na própria mentalidade. Em diversos combates ele se encolheu muito na trocação e fez o adversário crescer. Não sei se aquela bomba do Nate Marquardt o traumatizou, mas dificilmente ele se impõe ou coloca algum receio no adversário na hora da trocação. Acho meio deprimente ver o cara ir tão bem em um round e no outro praticamente suplicar pelo chão, como foram contra o Rory e contra o LaFlare no último round.

  • Caio Abreu

    porra que disecada no jogo do Damian, e faz gosto de ver ese cara lutar, um jiu-jitsu perfeito começando com as quedas em um wresttler durissimo acho que o que falta a galera do jiu jitsu é exatamente brigar pela queda quando se pega um wrestler e isso o damian faz como poucos. uma vez no chão o único defeito é o ground and pound pouco agressivo, que é o que faz o cara abrir a brecha pra finalização, controle e passagens de guarda uma contudência com a cabeça e joelhos, e quadril solto de mais.Pra quem curte grappling foi um show a apresentação do cara. em minha humilde opnião é o melhor jiujitsu do UFC.

  • Mαykon Douglαs

    enquanto Demian for conhecido apenas como o cara do Jiu Jitsu, não vejo ele “alçando vôos maiores” em sua categoria, o MMA é um esporte multidisciplinar, lutadores grapplers que melhoraram sua trocação obtiveram resultados incríveis, cujo os exemplos são: Rafael, campeão dos leves, e Pepey, que venceu uma das maiores promessas dos leves.

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