Flashback: quando Jones ainda
não era o melhor de todos

Lucas Carrano | 03/08/2017 às 14:59

Amigos do Sexto Round,

Se vocês acompanham minhas colunas há algum tempo, lembra que lá em 2015 (há mais de dois anos e meio), eu batia na tecla que Jon Jones é o melhor de todos os tempos – algo que voltou a estar em voga após o UFC 214.

Como o título da coluna é “Flashback”, logo, não olharei para o futuro do Cabuloso, mas sim para seu passado, justamente para os momentos que precederam sua ascensão ao topo do mundo do MMA.

Antes do MMA profissional

A trajetória de Jones começa na região norte do estado de Nova York. Lá, o jovem Jonathan Dwight Jones frequentou o ensino médio na Union-Endicott High School.

Chandler, Arthur e Jon Jones

Filho do meio de uma família de esportistas natos, Jon tentou seguir os passos do irmão mais velho Arthur Jones, que atuou como jogador de linha defensiva no time de futebol americano do colégio.

Porém, devido a seu porte físico esguio e alto, ele acabou apelidado de Bones por um de seus treinadores – o que, posteriormente, viria a ser também o apelido que levaria para dentro do octógono.

Sem repetir o sucesso de seu irmão mais velho, ou do caçula Chandler Jones, que também fez carreira no futebol americano e junto com Arthur hoje é um atleta profissional da NFL (ambos, aliás, tendo sido campeões do Super Bowl), Jon dedicou-se ao wrestling.

Embora não tenha sido brilhante, em termos de conquistas nacionais e internacionais (como Daniel CormierMatt Lindland, Henry Cejudo, Sara McMann, entre outros que competiram no UFC), Jones teve uma trajetória decente, com títulos estaduais, nacionais de divisões inferiores e boas lutas contra nomes importantes.

Um dos pontos altos de sua carreira no wrestling foi um torneio da NHSCA Senior Nationals, quando ele ainda era um atleta colegial, no qual terminou em quarto lugar na categoria até 189 libras, atrás somente de Max Askren, irmão de Ben AskrenMike Pucillo, 4x All-American e campeão da NCAA; e Jake Varner, 4x All American, 2x campeão da NCAA e medalhista olímpico em Londres 2012.

Enquanto estudava Criminologia (baita ironia do destino, diga-se de passagem) na Iowa Central Community College, Jones foi apresentado ao MMA por seu colega de quarto nos dormintórios universitários, o ex-campeão do Bellator e desafiante ao cinturão do UFC Joe Soto.

Eu era colega de quarto de um cara chamado Joe Soto. O sonho dele era ser um lutador de MMA. Nós ficamos no mesmo quarto e esse cara só sentava lá e assistia vídeos no YouTube e falava sobre lutar o tempo todo. Ele meio que me introduziu ao esporte, mas eu não tinha interesse naquela época. Eu achava ele louco por ser tão corajoso a ponto de lutar com outras pessoas. Agora, nós dois nos tornamos bons lutadores. É meio maluco como as coisas aconteceram”, disse Jones ao Sherdog em 2009.

Após transferir seu curso (a ironia persiste, pois o sonho de Jones era ser um policial em sua cidade-natal Rochester) para a Morrisville State College, Jon acabou desistindo da universidade e passou a dedicar-se em tempo integral ao MMA.

Um início arrasador

Você já ouviu o termo ascensão meteórica em diversas oportunidades, mas poucas vezes ele se aplicou de forma tão apropriada quanto ao falar do início de carreira de Jon Jones.

De sua estreia no MMA profissional à primeira luta no Ultimate foram exatamente 17 semanas, o que não chega a completar quatro meses.

Admita: o troféu que só não é pior que o boné

A primeira luta profissional de Jones aconteceu no dia 12 de abril de 2008, na quarta luta das onze programadas para o evento Full Force: Untamed 20 , diante de Brad Bernard – que se aposentou após o revés com um cartel de 0-2.

Absolutamente sem nenhum susto, Jones obliterou o pobre Bernard. Chute baixo, queda, vai para as costas, quase finaliza no mata-leão, ground and pound, volta de pé, clinch, joelhada na linha de cintura, suplex maravilhoso, ground and pound e fim. Esse é o resumo da luta, tudo, obviamente, em favor do futuro #1 P4P.

Como nem chegou a suar em sua estreia profissional, Bones pensou: “Estou tão inteiro que lutaria até semana que vem”. E não foi força de expressão.

Sete dias depois, ele entrava novamente no cage, desta vez em Atlantic City para sua estreia no peso meio-pesado contra o brasileiro Carlos Eduardo “Cachorrão” (que posteriormente lutaria pelo Bellator).

O duelo foi o nono do card de 17 lutas do Battle Cage Extreme 4. Dessa vez, no entanto, o norte-americano teve mais dificuldades.

Em uma luta com rounds de três minutos, Jones chegou a ser ameaçado pelas entradas de queda do rival, embora não tenha cedido nenhuma ao longo do combate.

Ainda no primeiro assalto, Jones aplicou uma joelhada ilegal no brasileiro. No fim da parcial, ele conseguiu um knockdown para equilibrar as ações, e tomar a dianteira na pontuação dos juízes.

No segundo assalto, o americano até quedou o adversário, mas preferiu evitar o jogo de chão do faixa preta.  No fim do round, nova queda e dessa vez Bones sentiu confiança para ir para o solo, onde optou pelo castigo via ground and pound.

Com apenas 24 segundos no terceiro assalto, Jones acertou um direito certeiro no queixo de Cachorrão, apagando o rival imediatamente e garantindo sua segunda vitória consecutiva.

Você pode pensar que, depois de uma luta que foi terminar somente no terceiro assalto, Jones iria pisar no freio e diminuir o ritmo insano de lutas, certo? Errado.

Pois ele voltou a competir novamente seis (!) dias após a luta contra Carlos Eduardo Cachorrão. Depois foram apenas duas semanas e cerca de um mês para seus combates seguintes.

Jones vai para a queda contra Ryan Verrett

Por que eu reuni esses três duelos? Ora, pois se combinarmos o tempo total deles não teremos 120 segundos no relógio.

A primeira vítima (e a que resistiu mais) foi Anthony Pina, finalizado com uma guilhotina em 1 minuto e 15 segundos na metade do card de seis lutas do ICE Fighter.

Logo em seguida, Ryan Verrett foi nocauteado em apenas 14 segundos na luta co-principal do USFL 3.

O último, e mais impressionante, triunfo da série veio diante do ex-Bellator Parker Porter no WCF 3. Um knockdown assustador, e uma intervenção extremamente tardia do árbitro, depois e Jones já era oficialmente avassalador no circuito do nordeste norte-americano.

Faltava então coroar essa estrondosa chegada de Bones com um título. E ele veio três semanas depois do triunfo sobre Porter, na quinta edição do Battle Cage Extreme, novamente em Atlantic City, Nova Jersey.

Nocauteando Moyses Gabin no R2

O adversário de Jones, desta vez em uma luta com rounds de cinco minutos, foi Moyses Gabin – que após o revés, aliás, competiria na primeira edição do Bellator (como Bjorn Rebney gostava de vítimas do JJ, hein?).

Embora a vitória não tenha vindo de forma rápida e brutal como nas três lutas anteriores, a sexta luta profissional de Jones foi um monólogo.

Absoluta dominância em pé, ground and pound arrasador e, por fim, alguns lampejos do que depois se tornariam marcas registradas, como cotoveladas ascendentes, joelhadas poderosas no clinch e os famosos cotovelos de navalha.

No segundo assalto, dois minutos, e um belíssimo osotogari, depois e Moyses Gabin, como diz minha querida avó, já “estava pedindo a Deus pro mundo acabar em barranco, só pra morrer encostado”. Mais um nocaute técnico pra conta e cinturão dos meio-pesados da USKBA garantido.

Menos de duas semanas após o triunfo sobre Gabin e a conquista do título regional, Jones recebeu uma ligação do UFC. Tomasz Drwal havia se contundido e estava fora da luta contra o brasileiro André Gusmão no card preliminar do UFC 87, faltando 15 dias para o evento, realizado em 09/08/2008.

No dia 28 de julho de 2008, portanto somente 107 dias após se tornar profissional no MMA, Jon Jones assinava com o UFC. E o resto, como dizem, é história…

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Que artigaço! Deve ter dado um trabalho fazer, não sabia que a estréia dele tinha sido tão rápida, e nem que ele tinha pegado o Cachorrão na segunda luta dele, tá certo desse cara ser da mesma academia do Cerrone kkkk

    • Leandro Chiaratti Ayres

      Po, chapa, o Cachorrão que ele pegou não é o Ricardo Cachorrão não, viu!? =)

      • Idonaldo Gomes Assis Filho

        Eu sei qual é, o Carlos do Bellator, ia ser mismatch com o outro kkkkk

        • Leandro Chiaratti Ayres

          HAHAHAHAHA certamente

  • Eduardo Kovasc

    Excelente artigo! Se fosse postado no forum teria 15 dislikes (14 por clones do tal André Amorim), te xingariam e tudo mais.

    GOAT!!

  • Romulo Aleixo

    Parabéns Carrano, texto brilhante! Mto bom poder conhecer um pouco mais da origem do maior de todos os tempos.

    • Lucas Pereira Carrano

      Boa, Rômulo, vlw!

      Toda quinta agora tem história nova.

  • Lorenzo Fertitta

    Flashback sensacional, e olha que nem sou fã do JBJ. Interessante saber dessa ligação dele com o Joe Soto.

  • Renato Rebelo

    Textaço! Tem mt coisa aqui que eu não sabia…

    • Lucas Pereira Carrano

      Elogio do amigo vale dois (ou mais)

      • Leo França

        Elogio do boss vale o triplo

  • Bodhisattva

    Ouvi uma história engraçada sobre o apelido do Jones. Parece que no inicio da carreira, em suas primeiras lutas, ele entrava nos cages sob a alcunha de “Sweet Chocolat”….. Jon “Sweet chocolat” Jones (tem videos comprovando isso) e que o apelido “Bones” surgiu, coincidentemente, em 2009 após o lançamento de um filme, “Blood and Bone”, onde o protagonista se chamava Bones…..Verdade ou mito?

    • Lucas Pereira Carrano

      Cara, na minha pesquisa, o que achei foi essa história do Professor mesmo que o apelidou por causa do porte físico.

      Mas eu de fato vi que ele chegou a usar outro apelido mesmo.

      See bobear foram até as duas coisas (já tinham chamado ele assim e depois adotou após o filme. Vou ver se acho algo sobre o assunto)

  • Hyuriel Constantino

    Jones lutando de semana em semana e os caras ainda falam que o Romero é freak. kkkkkkkkk… O melhor texto do Carrano que eu me recorde. hehehe…

    • Malk Suruhito

      No “profissional-amador”, o cara faz até 3 por noite se deixar. Brasil não é muito diferente.
      Ou como o Wand fala, “no tempo que os caras lutavam por um prato de comida”

      • Hyuriel Constantino

        Ah, isso é verdade. Mas a forma como o Jones fez isso e os resultados foram assustadores. Em menos de 4 meses o cara fez um 7-0 brutal, foi chamado pro UFC de estepe com duas semanas de aviso e já chegou vencendo.
        Sem contar que ele tb foi estepe na disputa pelo cinturão substituindo o Rashad. Ou seja: o cara parece que nasceu pronto. Só precisou do Joe Soto pra revelar o destino do garoto. haha…

        PS: sugestão para a coluna “E se”: “e se Joe Soto não tivesse aparecido na vida do Bones?” hahahaha…

        • Cerrone

          ele já tinha fracassado no futebol, provavelmente seria policial em Rochester, ainda bem que ele acabou se dando bem no MMA, ter 2 irmãos campeões do Super Bowl enquanto você come rosquinha fardado com um cassetete na cintura deve ser muito triste kkkk

          • Hyuriel Constantino

            Bom, vc fala do desdobramento da vida do Jones.

            Mas e da categoria dos Meio-Pesados? hehehehe… É bom imaginar o que seria da divisão se não fosse a presença do Bones. Dá uma boa coluna. hehe…

          • Cerrone

            DC melhor de todos os tempos haha

  • Wanderson Oliveira

    Texto incrível, parabéns Carrano, são textos como esse que despertam a vontade de aprender mais sobre a história dos atletas e do esporte. Que um dia vcs do SR se juntem e escrevam um livro sobre MMA, com mais textos assim

  • LucasHawk

    Diferentemente do Carrano eu fui ouvir falar do JJ ali por 2010 já no UFC mesmo. Aquele suplê no Stephan Bonnar foi lindo demais e me lembro quando ele e Bader tinham um cartel invicto e o Dana disse que quem vencesse aquela luta seria o futuro da divisão.

    Bom, tivemos ali uma luta de campeões.

  • Malk Suruhito

    A partir de qual luta ele entra para a Jackson-Wink?

    • Lucas Pereira Carrano

      Em 2009, Malk. Após o UFC 100. Ele já estava 9-0 (3-0) no MMA nessa época.

  • KRS Porlaneff

    Excelente texto, Carrano. Eu, que sou um entusiasta da história dos lutadores que sou fã, sempre sinto orgulho de ler um texto assim.

    • Lucas Pereira Carrano

      Vlw, mano. Toda quinta, tamo aí na área. Hahaha

  • Edu Goes

    Muito bom! Podiam fazer mais textos assim. Sugiro um sobre a Cris Cyborg, a maior lutadora feminina de todos os tempos.

  • Victor Cazzoli

    Jornalistão da porra!

  • Lero

    Escutei que o Cormier quer descer o braço no Joe Soto.

    • Marco antônio

      HAHAHAHAHA. Boa!

    • William Oliveira

      Kkkk o Cormier mata o Soto até por sufocamento se ele quiser

  • Cerrone

    excelente bro, parabéns …. faz a próxima sobre os irmãos Diaz, a historias deles é foda

  • Tiago Nicolau de Melo

    Alguma info sobre o Jones ter graduação em alguma arte marcial, Carrano ou demais colegas Forenses? Ou é só na base do LOOK-SEE-DO?

  • Jonny Bones

    Excelente texto Carrano eu nao conhecia essa historia do Bones de 107 dias brilhantes do GOAT ( só tinha visto algumas lutas e uns highlights dessa epoca ) . Eu apoio a ideia do Cerrone o proximo ser um Flashback dos irmão Diaz

  • Andhré Lannes

    Jon Jones não é o melhor de todos tempos. Anderson é.

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