Por menos “dar porrada” e mais estratégia e execução

Felipe Paranhos | 18/03/2015 às 15:02
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Blitz de Rafael em Pettis

Duas semanas após termos visto um dos maiores fracassos táticos da história do MMA – a atabalhoada tentativa de joelhada voadora de Cat Zingano, que terminou com o armlock relâmpago de Ronda Rousey -, testemunhamos o triunfo da estratégia em várias lutas do UFC 185.

Incluindo a luta principal, que terminou com o título dos leves nas mãos de Rafael dos Anjos.

Desde sábado, um monte de gente já detalhou a suprema execução de todos os aspectos do jogo por parte do niteroiense.

Por isso, quero falar aqui de como a aplicação de um bom plano de luta pode determinar vitória ou derrota.

Dos Anjos, que tem como uma de suas características assumir postura ofensiva no primeiro round, certamente sabia – provavelmente com a ajuda de seus treinadores, Rafael Cordeiro e Roberto Gordo – que a maior falha de Anthony Pettis em sua última disputa de cinturão, contra Gilbert Melendez, foi o recuo excessivo à grade, consequência da tática de focar nos contra-ataques.

Isso, inclusive, fez com que Showtime perdesse o primeiro assalto daquela luta, antes de finalizar nos minutos seguintes.

Assim, em 25 minutos, RDA aperfeiçoou o que deu certo para Melendez: pressionar desde o início, dando pouco ou nenhum espaço para que Pettis crescesse e escolhesse seus ataques da média pra longa distância – tirando proveito de envergadura superior.

O acerto na estratégia se mostrou no nítido desconforto do americano, que abriu espaço para as entradas de queda de Rafael, daquelas de não deixar dúvidas nem no pior juiz sobre quem venceu o round.

E o resto da história vocês conhecem.

Overeem não se expunha quando atacava

Overeem atacando com responsabilidade

Mas quando falo que o UFC 185 foi o triunfo daquilo que os americanos chamam de gameplan, não me refiro simplesmente à vitória de Dos Anjos.

Alistair Overeem foi outro a aplicar a melhor tática possível. Vejam bem. Vi alguns comentários que diziam que o holandês “correu” de Roy Nelson.

Pois, amigo, se você fosse um striker extremamente apurado e cheio de recursos em pé, além de bem maior que o adversário, iria entrar na zona de conforto do rival e correr o risco de levar uma porrada na têmpora, sabendo que seu queixo (poder de absorção de golpes) está longe de ser confiável?

Como sei que a resposta de vocês é não, detalho um pouco mais as saídas de Overeem.

Assim como fez contra Frank Mir, anos atrás, Alistair adotou postura mais cautelosa, sem medo das vaias por jogar na longa distância.

Usando o famigerado pisão no joelho quase como um jab, mantinha Nelson longe e, de quebra, fragilizava a já problemática movimentação do gordinho.

Sem confiança e desgastado fisicamente pelos frequentes chutes médios do holandês, Roy passou a telegrafar seu principal golpe – o overhand de direita. Assim, ficou bem mais fácil proteger o queixo de vidro e encaminhar uma vitória relativamente tranquila.

Johny no caminho de menor resistência

Johny no caminho de menor resistência

A situação de Johny Hendricks era bem menos complicada, já que, hoje, seu striking no mínimo equivale ao de Matt Brown (apesar de possuir envergadura muito inferior).

Mas, ainda assim, o ex-campeão dos meio-médios optou pelo mais tranquilo: contra um adversário que assombrou rivais de patamar mais baixo, mas sofreu quando subiu de nível, Hendricks usou a trocação apenas para fazer Brown se engajar e abrir as brechas para seu wrestling de alto nível.

Pra que se arriscar a apanhar na cara se pode facilitar as coisas? 1 a 0 é goleada quando se persegue o title shot

Por outro lado, o mau uso de uma estratégia também pode destruir um lutador.

Tudo bem que Carla Esparza pareceu já ter entrado derrotada — cês viram a cara da moça durante a locução de Bruce Buffer? —, mas a execução do que havia planejado para a luta foi desastrosa.

Relutando a entrar no clinch e deixando de fazer a movimentação lateral e o ataque angulado que fez, por exemplo, contra Rose Namajunas, Esparza insistiu em entradas de queda muito distantes, deixando suas ações extremamente claras — o que favoreceu a boa, mas não excelente, defesa de Joanna Jedrzejczyk.

O resultado vocês viram.

Eventos como o UFC 185 mostram quão anacrônicos são os lutadores — muitos brasileiros — que se orgulham em dizer que sua estratégia para a luta X é simplesmente “entrar lá e trocar porrada”.

  • Tiago Nicolau de Melo

    Até curto quando um lutador e seu staff dizem que não analisaram muito a maneira do adversário lutar e, sim, buscam melhorar a própria maneira. Óbvio que olham, mas não pode ser a maior preocupação. O mesmo se aplica no futebol, mal comparando. Pouca gente consegue ficar 3 rounds, quem dirá 5(?), sem fugir da estratégia traçada… méritos totais aos treinadores e aos atletas que conseguem… raramente saem derrotados e quando saem é uma derrota vendida muito cara. Óbvio que vários lutadores que perdem suas lutas acabam lutando dentro da estratégia passada , porém não dá certo (Chad, Lamas e Edgar contra o Aldo), mas na maioria das vezes rendem bons embates. No aguardo por mais lutas no nível desse último evento.

    • Raphael Pinheiro

      O início do teu comentário me fez lembrar da declaração da Cat Zingano pouco antes da luta com a Ronda: “não tenho um gameplan exato, sei me virar lá dentro”. Momento no qual você simplesmente levanta a sobrancelha…

      • Tiago Nicolau de Melo

        Verdade. Por isso escrevi o “Até curto”, mostra confiança. Mas até eu quando vou treinar ou jogar bola com amigos busco na memória o que um ou outro tem de bom/perigoso. Imagina nesse nível.

      • Rodrigo Tannuri

        Cerrone também pensa assim, o que acho um erro.

        • Carlos Montalvão

          Por isso o Cerrone nunca vai ter o cinturão, ele entra lá com o pensamento simples do “vamos sair na mão e ver no que dá”, não é assim que um campeão trabalha

      • Felipe Paranhos

        No caso, quem virou ela foi a Ronda. rs

  • Matheus

    Por isso que sou o único que não acho a mínima graça quando o Renan Barão diz que vai ganhar do TJ “na paraibagem”

    • Renato Rebelo

      Pois é. Contra o TJ – ou contra o Cruz-, vai ser difícil levar “na paraibagem” msm…

      • RicardoVivas

        De repente, ele só tá querendo dizer que vai com vontade… sei lá…

        • Renato Rebelo

          Tomara!

    • Carlos Portela

      Se o Barão for com essa de estratégia “paraiabagem” pra cima do “Coelhinho da Duracell”, vai tomar outro atraso.

    • William Amaral

      Acho que ele vai tentar levar a luta pro chão.

  • Rodrigo Tannuri

    Eu sou um grande fã de atletas estrategistas. O plano de jogo é muito importante no MMA, ainda mais o atual. Não basta apenas ser lutador. Tem que se ter todo um staff competente. Não à toa, o mito Georges St-Pierre está no meu hall de atletas preferidos.

    • Renato Rebelo

      O GSP é um mestre em achar brechas e explorar sempre o caminho de menor resistência (para isso, obviamente, teve que se tornar um lutador completo).

  • Diego Cavera

    Muito bom o texto como sempre, estratégia é tudo e o Rafael dominou todos os ramos da luta , beirou a perfeição, sério concorrente a exibição do ano, só um adendo o Pettis finalizou o Melendez não nocauteou nos minutos seguintes no mais perfeito.

    • Jonas Angelo

      Yep. Una Guilhotina.

    • Felipe Paranhos

      Verdade, galera. Mole meu. Tô ficando é velho. Já pedi pro Renato corrigir lá 🙂

      • Renato Rebelo

        Corrigido!

  • Bruno

    Royce em 93 ja fazia uso do “gameplan”!

  • Carlos Portela

    Se o Barão for com essa de estratégia “paraiabagem” pra cima do “Coelhinho da Duracell”, vai tomar outro atraso.

    • Elias Silva

      kkkk, coelhinho duracell….

    • Lucas Andrade

      Vi comentários de conterrâneos do Barão que o mesmo antes da luta com TJ em algumas ocasiões era visto na Paraíba em baladas e farras com amigos. Bom, não sei até que ponto isso procede mas vi inclusive também em comentários de fãs dele nas redes sociais. Também cada um faz da vida oque quer. Mas se for realmente verdade acho que até demorou pra ele cair.

  • Jonas Angelo

    Dos campeões atuais do UFC, talvez Lawler seja o que menos segue estratégias (se é que segue alguma), e possivelmente (na minha opinião) o primeiro que perderá o cinturão…

    • Felipe Paranhos

      Verdade, mas acho que não muito por ser “teimoso”, mas por ser, ainda, o campeão menos refinado tecnicamente.

      • Lucas Andrade

        Porém dos mais empolgantes rsrs.

  • Gabriel Freitas

    Jo um ajuste Felipe Paranhos , ali na luta do Gilbert Melendez , tu falou que ele perdeu o primeiro round , mas nocauteou Alguns minutos depois, quando na verdade ele finalizou

    • Felipe Paranhos

      Sim, verdade, Gabriel! Daqui a pouco o Renato corrige!

  • Regis Nogueira

    Ouvir Barão falando em paraibagem e Cigano dizendo pro médico que a estratégia dele era “dar uma e derrubar” me davam nos nervos. Até hoje tenho um pé atrás com o que vi do Cigano naquele coundown. Até o Pezão usou uma estratégia, por mais arriscada que fosse, pra derrubar o Overeem.

  • Jhon Smith

    Se o Barão ouvisse o Dedé contra o TJ e jogasse na longa distância, seria bem interessante a luta. Mas a gente sabe que o cara toma um jab e finca o pé até alguém cair. Desobedecer um plano de luta trabalhado por meses me transparece falta de convicção no trabalho do técnico.

    • Felipe Paranhos

      Às vezes não. Pode ser excesso de confiança no próprio talento, pode ser “sangue quente” e ímpeto de devolver logo a porrada recebida…

  • Luis Felipe Fabricio

    A cara da Carla Esparza no inicio da luta foi de uma derrotada, acuada, chegou a dar pena da moça; falta de estratégia e quem sabe até de motivação.

    • Felipe Paranhos

      Cara de medo, né?

      • Luis Felipe Fabricio

        justamente! não deu pra entender.

    • Carlos Montalvão

      Ela já admitiu ser fraca psicologicamente no TUF e semana passada disse que era a primeira vez que tinha sido ‘vítima’ de trash-talk, já perdeu a luta na encarada de quinta-feira. Pelo menos ganhou meu prêmio de música da noite com Harvester of Sorrow do Metallica hehe

      • Luis Felipe Fabricio

        Sim, eu acompanhei no TUF, só não achei que seria tanto assim.

    • Lucas Andrade

      Realmente, já entrou derrotada. E a surra? Mano, pau de dar em 10 caboclo ela tomou sozinha tadinha..

  • Frankie Edgar

    Cara, se eu disser que prefiro os porradeiros aos estrategistas corro o risco de passar por leigo ou coisa pior rs Mas como o nível das discussões por aqui é elevadíssimo, deixarei minha opinião. É inegável que essa tendência domine o esporte, a análise do Paranhos foi perfeita! Só acrescentaria que a surra que o RDA aplicou foi também um dos maiores atos de violência que tive a felicidade de presenciar no octógono em muitos anos! O russo terá que derrubar um urso por dia para bater esse cara!

    • Felipe Paranhos

      Não, oxente! Mas não é que como torcedor eu não goste de ver luta franca. Pelo contrário: também adoro porrada trocada. O ponto do texto é só em relação aos “caminhos mais fáceis” para vencer uma luta. Abraço!

    • Carlos Montalvão

      Luta franca é o melhor estilo de se assistir, desde que os caras saibam o que estão fazendo, se é pra sair na mão que seja bonito, tipo Melendez e Sanches, não fazendo feio igual o Cigano com o Velasquez ou Miocic

  • Elias Silva

    Na minha o opinião como leigo e admirador
    do MMA.

    Existem muitos estrategistas, muitos talentosos e raríssimos gênios. Genial no MMA é o cara que é tão excelente no que faz que quando sobe no ring e percebe a estratégia do adversário (oculta até aquele momento) consegue adaptar o seu plano de tal maneira que parece ser fácil lutar e vencer no maior evento de MMA do mundo contra atletas de elite (grandes campeões: medalhistas olimpícos, NACC, ADCC, etc.) .

    Então, quem são os gênios do MMA?

    Para mim são.

    FEDOR, GSP, AS, JONES

    Obs¹.: Velasquez é de outra categoria, a dos rinocerontes.

    Obs².: Sabe porque algumas pessoas acham as lutas do GSP chatas? Porque o cara é um artista marcial que faz tudo tão perfeito, mas tão perfeito, que até desanima ver e perceber que o outro cara não tem a menor chance…

    • Carlos Montalvão

      São chatas porque a estratégia dele é feia (mas eficiente). Mas eu acho que o Fedor não tem nada de estrategista, o jogo dele era meter porradão na grosseria e mais nada (e usar um BJJ mediano de vez em quando haha)

      • Elias

        Carlos, com todo o respeito, cada chute ou soco de GSP é uma aula de karatê, estou começando a treinar e percebo o quanto o cara é bom

    • Lucas Andrade

      Eu tiraria o JJ dessa lista. Mas o julgamento que eu tenho dele acho que não é partilhado pela maioria.. Enfim, só não acho que ele chegue a gênio.

  • Gefferson Nesta

    Texto perfeito, tive essa mesma visão das lutas e comentava isso com um colega ontem na faculdade e chegar hoje e ler um texto dessa qualidade faz com que perceba que to no caminho certo do entendimento do MMA de forma geral.
    Parabéns, Texto de qualidade!

  • Carlos Montalvão

    E nego me enche o saco quando eu digo que o luta no UFC 184 terminou daquela forma por uma estratégia acéfala que a Cat escolheu (aliás, a própria disse que não escuta o que o córner diz antes e durante a luta), só porque não gosto da campeã (mas eles mesmo puxam o saco e não analisam a cagada técnica que a adversária cometeu) haha

    • Renato Rebelo

      Acéfala é uma palavra forte, porém, muito engraçada hahah

      • Carlos Montalvão

        Troquemos por suicida, então. Sou fã da Cat, não vou deixar de ser depois dessa derrota, mas não tem como não classificar como extremamente burra a ideia dela, culpa do Makwan Amirkhani hahaha!

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