Rafael dos Anjos e o triunfo da mão na massa

Lucas Carrano | 16/03/2015 às 14:57
Por pouco, derrota para Griffin não selou sua demissão

Por pouco, derrota para Griffin não selou sua demissão

Em abril 2009, até o próprio Rafael dos Anjos concordava que a corda estava apertando o seu pescoço.

O motivo? Ele havia estreado no UFC menos de seis meses atrás e já colecionava duas derrotas consecutivas, para Jeremy Stephens e Tyson Griffin.

Hoje, quase seis anos depois, este mesmo Rafael é o primeiro campeão brasileiro da história dos pesos leves, após uma surra histórica sobre ninguém menos do que Anthony Pettis.

O que mudou neste meio-tempo? A resposta é: quase tudo.

Faixa-preta condecorado do mestre Roberto Gordo, Rafael sempre teve no jiu-jitsu seu carro-chefe.

Antes de estrear no Ultimate, ele tinha um cartel de duas derrotas e 11 vitórias, das quais apenas uma única havia sido conquistada por nocaute técnico – ainda assim, devido a um corte em seu adversário no “Juiz de Fora Fight 2”.

Mas o próprio Gordo já deu a dica de que seu pupilo é um aprendiz incansável e que jamais se contentaria com a pecha de “grappler unidimensional”.

O mais importante na carreira do Rafael foi o fato de ele nunca se acomodar. Ele está sempre procurando melhorar. Para isso, ele se dedica ao extremo. Não tempo ruim com ele quando o assunto é treinar. Ele treina muito mesmo e está sempre procurando desenvolver a parte técnica”, contou Gordo, em entrevista ao PVT.

Rotina suada do campeão

Rotina suada do campeão

Na declaração em questão, por “ele se dedica ao extremo” leia-se “é capaz de passar um bom tempo a mais de 16 mil quilômetros de casa treinando em três turnos para aprimorar sua trocação”.

A cereja do bolo, que já crescia com consistência, veio com a mudança para os Estados Unidos e os camps na Kings MMA, ao lado de Rafael Cordeiro, sem sombras de dúvida o melhor treinador de MMA da atualidade.

Aliás, já que falei de Cordeiro, peço licença para abrir aqui um parêntese.

Se já era renomado por sua atuação à frente da Chute Boxe, protagonista nos tempos do Pride, Rafael soube se reinventar e é um dos poucos nomes que conseguiram executar um trabalho tão brilhante quanto (ou até mais) do que na era do MMA no Japão.

Além de Rafael dos Anjos, no portfólio do curitibano consta o desenvolvimento impressionante na luta em pé de nomes fortemente ligados à arte suave, como Fabrício Werdum e Beneil Dariush – que também venceu no UFC 185 dominando na trocação um striker com maior lastro que ele, no caso Daron Cruickshank.

O que poderia resultar da união de um hard worker incansável com um treinador desse calibre? A resposta foi dada no último sábado, mas não sem anos de trabalho e dedicação antes.

O Rafael evoluiu demais. Ele chegou à Kings MMA com um jogo bom em pé e um jiu-jítsu excepcional. Mas esse cara trabalha demais, é um profissional exemplar. Ele se dedicou demais, ouviu e aprendeu muito, e esse é o segredo do crescimento dele no jogo em pé. Hoje o Rafael é completo, e isso é graças ao trabalho feito, claro, mas principalmente à dedicação dele”, contou Rafael, em entrevista ao Combate.com.

Dominando o Showtime

Dominando o Showtime

Rafael não é só mais um campeão brasileiro no UFC, o décimo primeiro da história (incluindo aí os dois títulos interinos de Rodrigo Minotauro e Fabrício Werdum nos pesados), ele talvez seja o melhor campeão que o país pudesse ganhar neste momento.

Além do óbvio reforço no interesse pelo esporte no país, fortemente atrelado à presença ou não de atletas no topo de suas categorias, e também a abertura do leque de opções para o pay-per-view que vai rolar por aqui, Rafael é um exemplo.

Com 17 combates no UFC, ele foi o atleta que levou mais lutas até faturar o cinturão na história da organização – o segundo lugar fica com Robbie Lawler, outro lutador cuja trajetória é marcada pela superação, que demorou 14 apresentações para levar o título.

O niteroiense não pegou atalhos, mas percorreu todo o (longo e árduo) caminho, mostrando que é possível chegar lá, desde que investida a dose certa de trabalho e dedicação.

Rafael dos Anjos certamente não será o campeão mais popular do UFC. Avesso à superexposição midiática, o novo detentor do título dos leves é um homem caseiro e reservado.

Bastante ligado à família, não é figurinha carimbada em eventos sociais ou sequer os próprios compromissos do Ultimate – algo que, mesmo que em menor escala, deve mudar daqui pra frente.

Porém, seu maior recado já foi dado, e passou quase despercebido, antes mesmo do triunfo no UFC 185.

Não tenho muita habilidade, mas treino duro. E isso não me incomoda não. É um ditado que eles falam muito aqui: Quem treina duro ganha do talentoso (se ele também não trabalhar duro). Eu treino forte”, disse Dos Anjos, em bate-papo com a imprensa no Media Day em Dallas.

Quem concorda em gênero, número e grau com Rafael é o maior favorito a ser seu primeiro desafiante: o russo Khabib Nurmagomedov, que, aliás, havia previsto que o brasileiro “esmagaria” Pettis antes do duelo.

Se quiserem ser campeões, vão para academia, amigos, não para festas”, sentenciou o inimigo número um dos ursos do Daguestão, por meio de seu perfil no Twitter, logo após o triunfo de Rafael.

Abraços.

  • Fabricio Alves

    Simplesmente fantástico e inspirador!

    • mazzaropi

      Verdade.

      Acho que ele nem acreditou na hora.

  • Fabricio Alves

    Um fim de semana fenomenal: O trabalhador RDA ganhando o cinturão com propriedade e o povo trabalhador saindo as ruas contra a demagogia populista do PT.

    • Fulano de Tal

      Bem observado.

    • mazzaropi

      O clima das manifestações foi tão grande, que hoje uma mulher espirrou no ônibus e eu gritei “saúde”, ela gritou “educação”, e logo em seguida todos começaram a cantar o hino nacional… Foi lindo!

      (risos)

  • Rafael Cunha Caroline Reis

    Perfeito o texto!

    O que foi feito no sábado foi fantástico, mas será que o meu xará vai manter o nível nas próximas apresentações?

    No aguardo da análise técnica e do podcast!!

    • Bruno P.

      Ele mantém esse nível há pelo menos 4 lutas. Não tem mais motivo nenhum para duvidar dele.
      E não pegou nenhuma moleza, somente pedreira.

    • Fulano de Tal

      Hoje ainda tem hangout com Lucas Carrano no Youtube.

  • Lucas Andrade

    Excelente, sem mais!! Puts, quero que saia podcast em texto =[

    • Bruno P.

      Podcast em texto ai você zoar com a galera do site, hahaha

  • Ramon Reis

    Esse moleque, num é aquele que perdeu pro Gleison Tibau, um tempo atrás, não?

    • Tiago Figueiredo

      acho que de igual só o nome… O moleque virou um gigante!!

      • Ramon Reis

        Deixei o comentário pra saber se alguém sabia da derrota.

        Moleque, foi para deixar o comentário ácido.

  • abner albuquerque

    Excelente. Essa foi uma das melhores apresentações que eu vi na minha vida, a dedicação vencendo o talento,foi simplesmente fantástico. Vai ficar na minha memória pra sempre.

    • mazzaropi

      Como será enfrentar o russo?

      Este é o próximo passo.

      • abner albuquerque

        Pois é…. Vamos esperar as análises dos colunistas

  • Felipe

    Sem contar a parte atlética inacreditável. O próprio Pettis já havia entregado que não gostava de luta franca, visceral, como a que aconteceu com Melendez contra o Sanchez. Pettis gosta é de cadenciar lutas, de adversários que dão 3 golpes em sequência e recuam. Domingo ficou claramente perplexo com o touro bravo que enfrentou, e já tinha se dado mal da mesma forma no primeiro round contra o Melendez. Acontece que o Rafael teve foco e fôlego para fazer isso durante 5 rounds, enquanto o Melendez só resistiu por 8 minutos.

    A velocidade do Rafael também estava muito superior à do Pettis, que sempre foi mais preciso do que rápido. Sinceramente, pra mim é um golpe no estomago do UFC na tentativa de criar mais um “gênio do MMA”. A construção da lenda Pettis foi por água abaixo domingo. Não importa a reviravolta que ele dê, não vai mais atingir o status pretendido de Deus do MMA.

    • mazzaropi

      Essa coisa de criar “gênios” é típico de fã ou jornalista… kkk! O UFC patrocina as figurinhas certas e se errar na escolha muda rapidinho de opinião… No mundo dos negócios é assim, mexe aqui e ali… Se o russo se tornar campeão nada me tiraria da cabeça que também poderia ser uma estratégia para entrar no mercado russo de MMA ou eles boicotarão o russo até ele “morrer”… Sei lá! Quanto tá o preço do barril de petróleo hoje?

      (risos)

      • Felipe

        Pois é. Todo mundo tem suas birras. Muita gente torce contra gringos, outros contra brasileiros (por conta da mídia pacheca, penso). A minha birra é com a tentativa de hype do UFC. Até concordo que a empresa está certa em fabricar seus produtos, mas como birra é algo irracional, pra mim é inevitável rs.

        O Pettis é um grande lutador, pode voltar dando duplo mortal carpado no octógono. Mas a gente sabe que perante ao público, uma derrota
        dessas abala a imagem de quem queria ser uma lenda. Ele já falava em ser 2º do ranking ao final do ano, e Joe Rogan + Dana White já ensaiavam de chama-lo de melhor lutador da organização. Tudo isso aí já era.

        • Aconteceu algo parecido com o Barão, lembra? Nego passou a semana do UFC 173 dizendo que ele era o #1 p4p do mundo. Deu no que deu.

          • Felipe

            Claro! Foi na semana em que o Barão passou a ser magicamente “muito melhor que o Aldo”, na opinião do glorioso Dana White.

          • Carlos Montalvão

            Até eu embarquei no hype do Barão e após o UFC169 cheguei a ousar dizer que ele era melhor que o Aldo, devido a atuação de ambos no mesmo evento. Me fodi.

          • Do que o Aldo e o Jon Jones.

    • Jefferson França

      Ao contrário do que muitos ainda pensam, no esporte o esforço pode sim vencer o talento. Após Beckenbauer vencer Johan Cruijff no mundial de 74, ele disse algo fantástico: “Johan foi o melhor jogador mas eu sou campeão do mundo.” A derrota sofrida pelo Pettis não tira dele a aura de gênio. Mas é fato que o RDA não se intimidou pelo fato de ser “menos talentoso” do que o ex-campeão.
      E digo mais, a tendência do MMA é essa evolução aí. Cada vez menos lutadores unidimensionais tem espaço (Júnior Cigano, Phil Davis tem que se ligar). Quem quiser ser campeão no futuro vai ter que seguir os passos de lutadores como Werdum, TJ Dilashaw, Chad Mendes, Anthony Jonhson…

  • Jônatas Freitas

    Um grande exemplo a ser seguido por outros atletas do evento.

  • Rodrigo Tannuri

    Esse sim é um campeão que o Brasil merece ter. O Rafael não é tão popular, mas tem tudo que um profissional precisa pra ter sucesso. Eu sou muito fã e acho que os fãs têm que aprender a gostar dele. Ainda bem que eu acertai na minha previsão, quando disse que o dopping do Anderson poderia ser bom, porque assim os atletas daqui poderiam ter mais destaque, saindo de sua sombra. Como o Dos Anjos é um cara centrado e reservado. a tendência é que ele não caia no oba-oba e, com o cinturão em mãos, treine ainda mais. O Lucas foi muito bem ao dizer que ele não pegou atalhos pra chegar ao topo. A trajetória do Rafael foi muito bonita, derrotando inúmeros tops, não negando desafios, muito menos ficou chorando/implorando por um title-shot. O cara foi lá, quietinho, e fez! Na moral, quem não respeitar esse cara tem sérios problemas. Uma das histórias mais bonitas do MMA. De unidimensional a um dos atletas mais completos do esporte. Estou ansioso pra ver a revanche entre a dedicação em pessoa contra o mito russo.

    • Bruno P.

      Eu to torcendo para o russo, mesmo achando ele mais perigoso para o RDA, justamente por conta disso.
      Acho que nessa eventual revanche, o RDA vai vir cantando pneu assim como veio contra o Pettis. Ele ta com essa derrota engasgada (haja visto a entrevista do Cordeiro assim que a luta acabou).

      • Rodrigo Tannuri

        Será sensacional! E o UFC já até teria um material pra promovê-la, mesmo o Rafael não sendo de falar muito.

      • O problema de “ir cantando pneu” (muito boa expressão) é que o jogo contra o Nurmagomedov é outro bem diferente do que deu certo contra Pettis e Henderson. Sair pra pressionar o russo é tudo o que ele quer.

        • Carlos Montalvão

          O que complica é o tamanho do russo, não fosse isso era só o RDA entrar em modo Jedrzejczyk com sprawl n brawl, mas contra o destruidor de ursos isso não é tão fácil (nada fácil, aliás). Eu só assisti a luta deles ao vivo, então não lembro de quase nada, mas a vaga lembrança que tenho é de um Rafael mais passivo do que agressivo, não sei se estou enganado.

          • O que o Nurmagomedov mais quer é alguém tentando pressioná-lo. Ele nem vai ter trabalho de encurtar a distância pra agarrar.

    • Tiago Nicolau de Melo

      Bem isso, brother. Por mais que não seja um BUSINESSMAN, o RDA representa muito bem o que as artes marciais pregam. Mesmo nível do Aldo (que ultimamente tá mais ligado no lado comercial, mas nem tanto), apesar de eu achar que o Scarface parece ter mais “dom”. O Rafael, como ele mesmo diz, trabalha mais do que o talentoso. Esse é o dom dele: dedicação. Resultado que mais me deixou feliz no UFC, acho que desde o Ruas.

      • Carlos Montalvão

        Se ele vencer o Russo ou o Cowboy (tomara que seja o Cowboy, porque seria uma maravilha ver o Cerrone acabando com o Khabib, além de ser uma luta mais fácil para o Rafael, na teoria), eventualmente ele vai aprender a se soltar mais com a mídia, especialmente porque mora nos EUA e a agenda dos caras por lá é muito maior do que para os campeões que moram no Brasil e Polônia. Seria uma boa oportunidade dele mesmo se fazer mais popular.

  • Matheus

    Excelente texto Carrano. Já q o Rafael é avesso a badalação é papel de vcs da imprensa tb construirem a imagem do cara ne?

  • João R. Magalhães

    Todas as glórias para RDA!
    Eu acompanhei o evento, praticamente como sempre, desde a pesagem, vi os embedded. Cá entre nós, não sei se foi impressão minha, nas encaradas, o Pettis fazia cara de medo,uma expressão meio estranha, que até então eu não tinha visto o showtime fazer. E nos embedded, aparentava estar desfocado E subestimando as habilidades do hardworker, RDA.
    De fato, e sem sombra de dúvida, foi a maior opressão (desde Cain x Cigano), que eu presenciei, um conterder espancar tanto um Campeão. O showtime, foi oprimido em todos os fundamentos da luta (Striking – clinch – grappling).
    Ps: E de quebra, levei uma boa grana do pessoal lá do CTJ

    • Rodrigo Tannuri

      Acho que a surra do Jones no Shogun ainda foi maior do que essas kkkkk

      • João R. Magalhães

        Hahahahahahaha! A surra dos jones foi foda mesmo. Porém, a maior opressão RECENTE que um campeão sofreu, foi essa de Pettis x RDA! Sem dúvida! Hahahaha

        • Gui Barros

          Não esqueçam da surra do Dilashaw no Barão, pra mim a pior.

      • Mas não durou nem 15 minutos. A de sábado (e a do Velasquez) duraram 25.

  • João R. Magalhães

    Parabéns, também a Joanna “The champ”!
    O que foi aquilo, meu Pai do céu?!
    Esculacho total da polonesa! Carla ” wrestler unidimensional” esparza, não teve a minha chance, sucumbiu a trocação sufocante de Joanna. Essa mulher corta o octogono muito rápido. Podia reforçar os trabalhos da galera da Blackzilians, hahaha!
    Também ganhei uma graninha, graças a joanna.

  • will

    Minhas condolências a todos que sofrem. Alexandre Matos esse vídeo é pra você.
    https://www.youtube.com/watch?v=MpC75OczGr0

    • Fulano de Tal

      Se é para o Alexandre, por que você não vai fazer isso no Site dele?

      • Porque eu não tenho nada a ver com isso hahahaha

      • will

        Já fiz no site dele. Talvez você não saiba, mas ele escreve e comenta no podcast do SextoRound. É só uma gozação com ele, que acha o Pettis um gênio.

  • will

    E esse vídeo é dedicado à todos aqueles que nunca duvidaram de você Rafael!
    https://www.youtube.com/watch?v=_1eDZSQV5wI

  • Ícaro Araújo

    Campeão incontestável. Performance irrepreensível. Calou a boca de muita gente. E depois desse atropelo, não estou mais tão interessado como antes com uma possível super-luta entre o agora ex-campeão dos leves e o rei dos penas. A ”mágica” simplesmente acabou depois dessa surra épica que o Rafael deu no ”Showtime”. Hahaha.

  • mazzaropi
  • Deivis Chiodini

    Eu não torço mais muito no MMA pra algum lutador (até quero que ganhe, mas não torrrço, fico mais assistindo e entendendo a luta). Mas pra esse cara eu torci. Mas torci muito. Acompanho ele desde o primeiro UFC em Jaraguá, onde tive o prazer de entrevistá-lo. Um cara muito, mas muito humilde e focado. Se você seguir ele no IG por exemplo, você só o vê treinando, treinando e treinando. Todo santo dia.
    Parabéns Rafael, você é um cara que tem meu respeito. Merece o cinturão. E sua postura pós luta, com o recado que mandou pro Pettis só reforça isso. Digno demais.

  • Filipe C.

    Rafael dos Anjos e Robbie Lawer, 2 lutadores que são exemplos de superação e dedicação! Vida longa aos reis dos leves e meio médios!

    • Marquim

      Não se esqueça do Anthony Johnson tambem, que pode não ser campeão ainda, e talvez nem seja, mas deu uma reviravolta enorme na carreira, se tornando o adversário mais perigoso do campeão atual

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