Flashback: o primeiro UFC
com três cinturões em jogo

Lucas Carrano | 27/07/2017 às 20:56

Amigos do Sexto Round,

No próximo sábado, o UFC desembarca na Califórnia para um card que promete ser o maior do ano na organização, pelo menos até que se confirme uma eventual volta de Conor McGregor ou Georges St. Pierre (alguém aí falou Nova York?).

UFC 214 vai trazer algo raro para os fãs: três disputas de cinturão na mesma noite. Essa será apenas a terceira vez na história que tal marca será alcançada (embora tenha sido tentada uma quarta oportunidade, no UFC 200), sendo a mais recente no UFC 205 no Madison Square Garden.

Por isso, nesta semana, o Flashback da vez será para a primeira vez em que o Ultimate colocou três lutas valendo o título em um mesmo card, com o UFC 33, no longínquo ano de 2001.

Um pouco de contexto

Como dito acima, o UFC 33 aconteceu em 2001 e, se você se lembra bem, esse é o ano que ficou marcado por dois motivos: 1) ser o primeiro do terceiro milênio e do século XXI; 2) os atentados terroristas de 11 de setembro, que moldaram a história recente do planeta.

Curiosamente, ou não, ambos os fatos se relacionam com aquela edição do Ultimate e, por que não, com a atualidade.

Patriotismo andava exacerbado na época

Primeiramente, porque o card marcava os primeiros passos também da Zuffa, empresa fundada pelos irmãos Lorenzo Frank Fertitta e capitaneada por Dana White, e que recentemente havia adquirido os direitos sobre a marca Ultimate Fighting Championship, no comando do evento.

Não obstante, os eventos eram vendidos como The All New Ultimate Fighting Championship (ou, “O novíssimo Ultimate Fighting Championship”, em tradução livre), tentando separar a imagem da promoção, na época mais suja que pau de galinheiro, dos antigos donos da SEG.

Hoje em dia, como vocês todos sabem, o Ultimate está ainda na fase embrionária da transição da Zuffa para a WME/IMG, congolomerado que adquiriu a marca por incríveis 4 bilhões de dólares no ano passado.

No que diz respeito ao 11 de setembro, a relação é bem mais óbvia. O UFC 33 foi um dos primeiros eventos esportivos a acontecerem após os atentados em Nova York. O card aconteceu no dia 28 daquele mês, apenas duas semanas e meia após aquela terça-feira em Manhattan.

Os reflexos disso atualmente? O presidente Dana White decidiu por executar o Star-Spangled Banner (hino nacional norte-americano), também em homenagem às vítimas dos atentados (que também tiveram desdobramentos no Pentágono e na Pensilvânia). O resultado final, no entanto, parece ter evocado emoções que não agradaram o chefão.

Veja bem, ninguém… ok, talvez o Kid Rock, é mais patriota do que eu. Mas uma das coisas com que eu tive uma péssima experiência foi colocar o hino nacional em uma de nossas transmissões, no UFC 33 em Las Vegas, e eu não fiz mais isso desde então. Outros esportes fazem isso, mas, você não vai ver isso aqui, eu não vou fazer isso”, disse Dana ao 5th Round (cópia descarada, e mal acabada, do nosso Sexto Round).

Dentro do octógono

No que diz respeito às três disputas de cinturão postas no mesmo card, a iniciativa foi uma tentativa da Zuffa de impulsionar os negócios de sua recém-adquirida marca, que, até então, se apoiava imensamente sobre uma única figura: Tito Ortiz.

Se você não está tão familiarizado assim com aquele período, Ortiz era o McGregor de sua época – em uma escala compatível com o alcance e impacto do ainda incipiente MMA naquele tempo.

Pôster do evento ainda trazia Belfort

Com um estílo único, dentro e fora do cage, uma vida particular atribulada, muito carisma, ganhando lutas e colecionando fãs e desafetos, Tito havia sido agenciado por White e, antes que a relação dos dois azedasse, era a galinha dos ovos de ouro da companhia.

Desta forma, o Bad Boy de Huntington Beach, então campeão dos meio-pesados, foi escalado para encabeçar seu terceiro card, em quatro possíveis, nessa nova era do Ultimate. O adversário foi o bielorrusso Vladimir Matyushenko, que substituiu Vitor Belfort – originalmente escalado para o combate.

A luta co-principal marcou a defesa de título do primeiro campeão dos leves Jens Pulver, que enfrentou o (já naquela altura) veterano Dennis “Superman” Hallman. A terceira disputa de cinturão foi o título inaugural dos pesos médios entre Dave MenneGil Castillo.

O card estelar ainda contou com Chuck LiddellMurilo Bustamante Matt SerraYves Edwards – ou seja, outros três futuros campeões do Ultimate.

O card também foi histórico por outro motivo: assim como fez no UFC 205 para celebrar sua chegada a NYC, o Ultimate também brindou com três disputas de título sua tão aguardada estreia em Las Vegas.

O fato foi extremamente importante para a organização, que, posteriormente, se baseou na cidade e realizou ali mais de 40% de seus eventos. Mais do que isso, o card foi o primeiro a ser sancionado pela Nevada State Athletic Commission, que se tornou o principal órgão regulamentador para as Regras Unificadas do MMA – criadas originalmente pela New Jersey State Athletic Control Board em 2000.

Um enorme tiro pela culatra

Você deve estar se perguntando: como assim “tiro pela culatra”? Os caras conseguiram finalmente chegar em Vegas, montaram um card com três disputas de cinturão, a maior estrela da época e outros atletas importantes. O que pode dar errado?

Lutas do UFC 33 foram… zzzzZZZZ

A resposta é: tudo! E o motivo disso é que, aparentemente, a preocupação foi tão grande com todos os itens já mencionados, que eles se esqueceram de combinar com os atletas que eles deveriam entregar boas lutas.

Ok, sejamos honestos, a venda de pay-per-views não foi ruim. Os 75 mil pacotes comercializados foram o recorde da franquia até então – a marca só seria batida mais de um ano depois, em novembro de 2002, com a primeira luta entre Ortiz e Ken Shamrock (que vendeu 100 mil PPVs).

Entretanto, como esse evento é a prova concreta de que nada estão ruim que não possa piorar, até o bom número de PPVs, para a época, foi por água abaixo.

As cinco lutas do card principal foram para a decisão, o que deu um tempo total de evento de 105 minutos (mais os intervalos e entradas), estourando os 90 minutos de janela de PPV da Zuffa e fazendo com que a maior parte dos fãs que desembolsaram uma grana pra comprar o card não assistissem a metade final da luta principal entre Ortiz e Matyushenko – já que o sinal do satélite foi cortado.

Convenhamos, apesar do prejuízo financeiro, ninguém perdeu grandes coisas. E se você não acredita em mim, veja o que o próprio Dana White disse em oportunidades diferentes.

O UFC 33 foi o único evento que eu lembro em que todas as lutas foram um saco. (…) O UFC 33 foi o pior evento em que eu já estive. (…) Esse card (UFC 149) foi tão ruim que parecia que eu estava no UFC 33 de novo”, disse o careca em três coletivas de imprensa distintas nos últimos anos.

Aliás, a zica do UFC 33 é um dos principais motivos pelos quais o Ultimate esperou 15 anos para cogitar um novo card com três disputas de título – o UFC 200, que acabou só tendo duas, já que Jon Jones fez o favor de cancelar outra vez a revanche contra Daniel Cormier.

A expectativa, portanto, é de que nenhuma das duas coisas se repita em Anaheim no próximo sábado. Que Jones não faça outra m*** e evite um terceiro card capitaneado por um trio de disputas de cinturão e, principalmente, que as lutas não sejam uma porcaria e o UFC 214 passe a ser a referência de evento ruim daqui pra frente.

Abraços!

  • Matheus V.

    Dando aquela pesquisada básica, o Hallman, como bem dito já veterano em 2001, ainda luta. Ou tenta, pois nenhuma comissão atlética tá liberando ele mais – vem de 5 derrotas seguidas por nocaute no R1.
    Bem triste, e pensar que o malandro já finalizou o Matt Hughes duas vezes (em 37 segundos, somando as duas lutas). Merecia mais reconhecimento, acho que hj ele mais lembrado por o quer que isso tenha sido… https://uploads.disquscdn.com/images/ec13dde31d64b10dbbf0ef7db2597fb59ffc99fa8132a61f903ae19637628be6.jpg

    • Renato Rebelo

      Dana White disse pós-luta que pagou o bônus “tire essa sunga da televisão” pro adversário dele

    • Malk Suruhito

      Hall é o novo Dan Severn (em perseverança). Era treinador da Miesha Tate.

    • Beto Magnun

      E do outro lado tinha um maluco com uma seta depilada no peito. Hajaja até hoje nunca passei do Buffer apresentando o Hallman nessa luta.
      Enfim, não sabia dessa de que ele não é mais liberado. Realmente triste. Um cara que bateu o Matt Hughes, duas vezes que somadas não dão 1 minuto.

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