Receita do Cappelli: sem fio nem meada em Porto Alegre

Fernando Cappelli | 23/02/2015 às 20:05

O UFC Porto Alegre arrebentou negativamente a banca brasileira da vez. Fato. Morno no geral, pelo menos o primeiro evento na capital gaúcha teve momentos mais que surpreendentes.

Ao melhor estilo ‘Gigantes no Gigantinho’ (sacou?), Frank Mir e Antonio Pezão travaram main event curto e que trará mais lembranças indigestas para o brasileiro.

No coevento principal, Edson Barboza se mostrou pouco inspirado e acabou engolido taticamente por Michael Johnson. Pareceres técnicos dos dois desafios a seguir.

Papum

Frank Mir Destroys Antonio Silva UFC Fight Night 61Básico, manjado ou o que for. O jab/cruzado com o mesmo punho que garantiu o nocaute para Mir é clássico nas modalidades em pé, mas ainda pouco explorado no MMA.

Combos do tipo servem como variação para o jab/jab, ou seja, uma sequência usada para cavar espaço a algum golpe derradeiro, como um direto ou um chute com a perna de trás (da posição de luta), por exemplo.

Pezão desviou o jab de Mir com um pequeno tapa de direita (ou parry, em inglês), e se desguarneceu imediatamente para o golpe que veio em seguida.

Um detalhe técnico comum – mas imprescindível – tornou a manobra do norte-americano letal: a alavanca natural que criou pivoteando o pé da frente para ampliar a potência do cruzado, colocando dose de força extra provenientes da projeção do ombro e quadril no soco.

Pode-se dizer que a natureza da manobra é similar à mecânica ‘soco com passo angulado’ dos overhands.

Pressão e mais pressão

Johnson-EdsonEdson Barboza se moveu solto pelo octógono o tempo todo, mas não impôs jogo de volume e velocidade consistente, os trunfos que mais saltam aos olhos nas melhores atuações.

O desenho canhoto (Johnson) x destro (Barboza) foi suficiente para bagunçar o senso de golpes do carioca, sobretudo com os conhecidos low kicks, praticamente nulos durante toda luta.

Sem utilizar setups para preparar chutes ou socos, Barboza apostava quase exclusivamente em golpes isolados, tornando-se previsível com o passar do tempo.

No geral, tivemos um caso claro no qual o treinador holandês Henri Hooft e equipe estudaram pra valer as atuações passadas do brasileiro para encontrar brechas e espaços que pudessem ser explorados.

Michael Johnson pode ser nome distante em qualquer estatística sobre ‘o melhor boxe do MMA’, mas soube manter um padrão tático sólido de punhos durante 15 minutos para vencer, em pé, um striker mais completo e mais habilidoso.

Tudo na esquerda

michael-johnson-edson-barboza-mma-ufc-fight-night-barboza-vs-johnsonO sucesso do jogo começou com o trabalho de movimentação para fechar o cerco constantemente.

Quando estavam da longa para a média distância, cenário ideal onde o carioca costuma disparar as famosas marretadas em forma de chutes e socos, o norte-americano se arriscava com moderação.

No centro do octógono, colocava sequências curtas e mais dinâmicas, angulando imediatamente o pé da frente (direito) por fora do pé esquerdo de Barboza para criar espaço e forçar o brasileiro a escapar para a esquerda.

Johnson aplicou a maior parte das sequências de socos terminadas com um cruzadão de esquerda. Aí que esteve o grande trunfo técnico estudado por seu time.

Quando ‘cortava’ o octógono e encurralava o adversário, acertava diversas vezes Edson quando este saía lateralmente do raio de ação para a esquerda (ou seja, de encontro aos golpes), momento em que o carioca também tem o vício de abaixar ou relaxar mais a guarda.

  • Tonny Varela

    Se pressionar o Barbosa ele se perde, é o que parece . me lembra o machida só que sem contra ataque .os eventos no Brasil ta cada vez pior de assistir , não suporto mais ouviu ‘ uhh vai morrer ‘ :@

    • Ramon Reis

      Os unicos que colocaram esse jogo de pressão no Lyoto com suceço foram o Shogun e o Weidman, jones finalizou ele, Rampage e Davis ganharam na garfada. O Lyoto não ficava perdido ele ficava sem espaço para trabalhar o contra-ataque, por causa da pressão imposta a ele. Já o Edson respeitou demais o americano, ele lutou a luta do oponente por 15 minutos, depois daquele cruzado de esquerda que raspou o olho dele, fiquei com a mesma impressão que ele tava perdido.

      • Fernando Cappelli

        Pois é, Ramon. Quando se tem pela frente um contragolpeador pela frente estilo Machida, o ideal é pensar em um jogo no qual você tem condicionar o adversário a responder alguma iniciativa sua já esperando para trabalhar em cima do contragolpe (resposta). Sim, é um papo bem de louco mesmo… hahaha
        abs!

      • Tonny Varela

        Sim Ramon , depois que ele sentiu a mão do MJ ele comecou a respeitar demais , sempre tive a opinião que o barbosa não é bom trocador e sim chutador .abraços

  • Gustavo Menor

    Vale ressaltar que o Johnson além de ter usado uma ótima estratégia de pressão o tempo todo, ele também se fez valer de sua boa absorção de golpes. Ele tomou uma meia dúzia de chutes na linha de cintura que muitos dobrariam. Dunham dobrou por bem menos. Achei o evento ótimo, pra acordar o MMA Brasileiro.

    • Nilo Júnior

      Falou tudo, brow.

  • Matheus

    Cara, o Pezão é um alvo fixo. Não existe movimentação de cabeça, de pés, lateral, nada. É só mirar e acertar (sem ser acertado). Sem o TRT é ladeira abaixo

    • Marllow

      Vendo essas lutas é que eu vejo quão estúpido foi o Overeem de ficar tentando Humilha-lo,em todas suas derrotas ele foi a lona com apenas um golpe.

    • Na verdade acho até que há uma movimentação de cabeça, mas ele abaixa a cabeça e desfere golpes..rs.
      Na luta com o Overbomba eles chegam até a dar cabeçadas. O Bigfoot tem esse cacuete, na luta ele chegou a dar uma cabeçada no peito do Alistar.

  • Luiz De Marco Freitas

    os lutadores da blackzilians estão monstros nessa coisa de cortar o octogono e sufocar os adversarios na pressao… rumble q o diga!

    • Fernando Cappelli

      Tão mesmo, Luiz. O Anthony Johnson segue um golpeador mais visceral, mas o Michael Johnson deu uma refinada monstra na movimentação e no striking.
      Isso aí, sparring sempre, meu camarada! Osu!
      abs!

    • Nilo Júnior

      Coach Henry não é brincadeira.

  • neylon

    Cappelli, você acha que o córner do Edson poderia ter feito diferença na luta, ou aquela bata só o Edson poderia descascar. Na minha humilde opinião, acho o Barbosa mais técnico que o Johnson, mas nosso brazuca ficou perdido, parecendo não ter um plano B.

    • Fernando Cappelli

      Até certo ponto sim, Neylon. Se não me engano do segundo para o terceiro assalto, o córner do Johnson o orientou tecnicamente, mas o do Barboza mandou um “seu pai e sua mãe estão aqui, vai pra cima dele”. Esse tipo de motivação é bacana de ser feito antes da luta e não quando a maionese está desandando dentro do octógono. Como você disse, faltou um Plano B, com certeza. Para o tipo de desenho que a luta se desenrolou (em pé), o Barboza tinha muito mais recursos do que o Johnson, mas realmente não estava em um bom dia.
      abs!

      • neylon

        Flw

  • Marcelo Santos

    Muito boa análise.
    Gosto sempre de ler seus textos.
    Me sinto numa aula sobre “trocação”. rs
    Um abraço mantenha o bom trabalho.

    Mas apesar da movimentação que vc explicou muito bem.
    Eu acho que Edson Barboza podia ser mais completo naquilo que é seu carro chefe.

    Não tem Thai clinch.
    O boxe dele é muito restrito.
    Nunca vi usar cotoveladas.
    Usa muio pouco joelhadas.

    • Fernando Cappelli

      Opa, valeu, Marcelo! Então, concordo contigo que o Barboza pareceu bem descaracterizado nessa luta. Ele prefere um jogo mais da média para a curta, mais estilão K-1 mesmo, com combinações rápidas, e talvez o caminho para não acontecer essas ‘panes’ como foi contra o Johnson seja agregar mais recursos mesmo no que faz de melhor.
      abs!

      • victor

        Pow não sei se o q vou falar e besteira, mas ao meu ver, o Edson não esperava q o mj tivesse todo este volume, e conseguisse encurtar tao facilmente… Por não esperar isso, não treinou uma forma de sair desta situação, juntando o fato do corner TB não ter ajudado, pois se não me engano, o corner e o cara q ele treina desde crianca may thau… Mas o q tinha q ter feito era usar o jab… Basicamente deslocar lateralmente e usar o jab… O mj ia engolir alguns e não conseguiria encurtar …

      • Marcelo Santos

        Acho que um jogo de clinch seria vital, já que ele tem treinado Wrestling.
        Tb acredito que precisa ser mais adaptável as adversidades com rolam durante as lutas.
        Não vejo plano B da parte dele.

  • Diogo Correa

    Excelente análise, aliás como de praxe. Só um comentário a respeito de um erro do Pezão. Se você reparar bem, logo depois que o Mir joga um jab seguido do tal jab/cruzado, o Pezão, no momento em que recebe o golpe, anda com o pé esquerdo para trás, ao invés de recuar com o direito, como manda o manual. E o que ocorre? O golpe pega ele em uma posição em alguns aspectos semelhantes à do Anderson com o Weidman (aliás, o Weidman também nocauteia o Anderson com esse golpe híbrido de jab/cruzado). Digo isso porque eu acho que o erro na movimentação das pernas foi determinante para que um golpe sem tanta potência tenha colocado tão facilmente o Pezão abaixo.

    Abraço!

    • Fernando Cappelli

      Muito bom, Diogo!
      abs!

    • Nilo Júnior

      No ponto.

  • Dahora, Cappelli! Seus textos nos traz uma clareza ao ponto de acharmos que também temos algo a dizer e abaixo vai a minha singela opinião..hahaha

    Espero não falar nenhuma besteira, mas esses hits precisam ser melhores usados no MMA. Poucos usam com qualidade como Anderson, Nick Diaz, José Aldo e citaria Melendez também. Só que o tamanho das luvas proporciona Knockdowns com golpes não tão expressivos, diferente no boxe onde os combos são de até 6 golpes, neh? E não é simplesmente sair desferindo 4, 5 ou 6 golpes, tem todo um estudo de abrir guarda, avariar um determinado ponto etc.

    Vejo muita luta do Canelo Alvarez, ele tem um trabalho muito bom! Achei que seria o cara que destronaria o Mayweather, enfim.

    Acredito que o MMA sempre tem sua fase de descoberta ou podemos falar “foco em determinada técnica”, a meu ver estamos vivendo a do Wrestling e acho que a próxima será algo focado no boxe, que tem tanto ou mais a adicionar. Espero que seja mesmo. 🙂

    🙂

    • Fernando Cappelli

      Davidzão, pode ter certeza que a coisa mais legal é ler outros pontos de vista sobre o mesmo assunto. Valeu a leitura, meu camarada!
      abs!

  • Danyel P Lorenzo

    Cappeli vc junta a fome com a vontade de comer, além de lutador um excelente colunista. Analise é com vc mesmo.
    Na minha opinião no Main Event, Pezão foi traido pelo clássico de acreditar que o Mir iria levar p chão esquecendo que o mesmo foi o primeiro a nocautear um de seus mentores. Já o Edson Barboza me frustou, pensei q seria a luta do noite, porém como vc mesmo disse a estratégia do Johnson fez diferença tirando p nada a metralhadora de golpes do ganhador do Oscar.

    Abração, arrebentando como sempre.

  • Fernando Cappelli

    Pra quem curte material de treino, o Johnson fez parte do preparo para o Barboza com Nieky Holzken, fera braba no kickboxing holandês. Deem uma olhada.

    https://www.youtube.com/watch?v=tIJKVz4yPjs

    • Nilo Júnior

      Esse camarada aí “só” porrou o Raymond Daniels, mais nada. *rs

      A propósito, com uma estratégia de pressão semelhante á do Michael Johnson.

      • Fernando Cappelli

        Esses holandeses têm carteis extensos. O Holzken é cria do Ramon Dekkers. A luta contra o Davit Kiria, em 2012, pelo Glory, se não me engano, é muito boa.
        abs!

        • Nilo Júnior

          Valeu pela dica. Vou caçar.

  • Nilo Júnior

    Oscar De La Hoya pegou muita gente com esse jab-hook. O fato de ser um canhoto atuando na base ortodoxa traz um perigo a mais pra esse combo. Frank costumava lutar como canhoto, acredito que tenha se beneficiado disso também ao mudar de base.

    Quanto ao Barboza, vi uma movimentação muito previsível e pouco volume de golpes (ainda mais se tratando de quem treina com Mark Henry). Um outro ponto que me chamou a atenção foi a falta de fintas pra soltar os chutes (nem mesmo uma tentativa de controle da mão da frente ao ser enfrentar um canhoto), de modo que pra cada chute no corpo que ele acertava, o Michael Johnson vinha com 3, 4 golpes por cima.

    Mais uma análise e discussões muito bacanas nesse artigo.

    Abraço!

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