O UFC pode (e deve) fazer mais contra o doping

Lucas Carrano | 17/02/2015 às 13:37

Sempre que comentei a, assim chamada, “epidemia de doping” no MMA, ou mesmo nos demais esportes, disse que tal cenário era fortemente motivado pela sensação de impunidade, que por sua vez tem relação direta com a inviabilidade de se testar todos os atletas, ou mesmo algo próximo de um volume aceitável e com exames eficientes.

Recentemente, o jornalista Ariel Helwani, do site norte-americano “MMA Fighting”, revelou uma conversa com um comissário da NSAC (Comissão Atlética de Nevada) na qual o funcionário do órgão regulamentador expõe a condição da entidade de forma a sustentar tal linha de raciocínio.

Custa-nos 400 dólares para testes de urina e 1800 para exames de sangue. Eu não posso bancar 2200 dólares para testar todo mundo pela urina e sangue!”, lamentou o comissário.

E é bem por aí mesmo. As comissões atléticas nos Estados Unidos são órgãos governamentais e, discussões sobre a eficiência do serviço estatal à parte, têm de se custear e ainda regulamentam os demais esportes de combate, e não só o MMA.

Além disso, existe a já bastante debatida relação de interesses conflituosos entre as entidades e os eventos que regulamentam, já que o grosso dos rendimentos das Comissões vem das parcelas de renda das promoções que sancionam, e suas ações acabam tendo influência direta nos resultados das mesmas – e, consequentemente, no seu próprio faturamento.

Acontece que esta não é a única alternativa disponível e confesso que recebi até com certa surpresa um relato do mesmo Helwani, durante a edição de número 63 do podcast “MMA Beat”.

Um representante da VADA, a Agência Voluntária Antidoping, me contou que custa a eles 3600 dólares por ano para fazer testes surpresa em um atleta, para fazer tudo que precisa ser feito com um lutador por um ano. Então, se você tem 500 lutadores no elenco, isso dá aproximadamente 1,8 milhão de dólares, ou algo assim. Isso não é tanto assim, certo?”, disse o jornalista canadense.

Dana, sobre Silva: "Isso me deixou desorientado por alguns dias. Eu era um grande fã de Anderson Silva"

Dana, sobre Silva: “Isso me deixou desorientado por alguns dias. Eu era um grande fã de Anderson Silva”

Deixando a informação ainda mais precisa, pelo menos de acordo com os dados formais, hoje, segundo o site da organização, o UFC conta com 601 lutadores sob contrato (ok; sabemos que há controvérsia nessa lista, mas seguiremos a fonte oficial). Assim sendo, o investimento total seria de US$ 2.163.600,00 (pouco mais de R$ 6 milhões, pela cotação atual).

Não ficou detalhado, embora tudo indique que não, se nos tais custos “para se fazer tudo que precisa” estão incluídas despesas com eventuais viagens ou correspondentes e envio para exames fora dos Estados Unidos – já que hoje cerca de 54% dos lutadores no evento são estrangeiros (apesar de nem todos treinarem em seus países-natal).

Como dito acima, até pelos valores, parto do pressuposto que este seria um custo adicional, mas que, mesmo que dobre o montante citado, fazendo a soma chegar à casa de US$ 4 milhões, ainda não o transforma em um impeditivo – especialmente se levarmos em conta que isso cobre testes surpresa para TODOS os atletas, sem exceções ou distinções.

A título de sugestão, a despesa com antidoping, ou parte dela, poderia, por exemplo, ser negociada com um patrocinador. Afinal de contas, qual marca não gostaria de se associar a uma cruzada tão nobre e positiva para sua imagem?

Além do mais, mesmo que tenha que cortar na própria carne, o valor demandado não chega a corresponde sequer à comercialização de 45 mil pacotes de pay-per-view – um número tão irrisório que a última vez que a organização ficou abaixo deste limite foi no longínquo ano de 2003, com o UFC 45, encabeçado por Matt Hughes e Frank Trigg.

Aliás, falando em cortar na própria carne, existe outra concessão que o Ultimate terá invariavelmente que fazer se quiser caminha nesta direção, já que muitos eventos podem acabar sendo alterados e grandes estrelas podem ficar fora de ação devido a eventuais casos de doping.

Novamente, um risco calculado e um preço que a Zuffa deve estar disposta a pagar se de fato quiser pensar em começar a moralizar o esporte. Ademais, a perspectiva de benefício a médio e longo prazo é real.

A eficiência dos exames surpresa é indiscutível, principalmente como prática preventiva – já que a taxa de atletas flagrados é muito alta, beirando os 40%.

Ainda não é o passaporte biológico (mapa e controle de informações genéticas de cada atleta, como é feito no ciclismo), mas possui decente relação custo x benefício.

As comissões atléticas foram muito importantes no passado, especialmente na transição da “Dark Age”, para que a prática do MMA profissional fosse permitida em praticamente todos os estados norte-americanos – hoje só Nova York ainda considera ilegal.

Apesar disso, pelo menos no que tange a política antidoping, o UFC deve tomar a iniciativa e romper com as Comissões – mesmo que as entidades sigam regulamentando o esporte e realizando, vá lá, os testes pós-luta.

Aproximar-se de órgãos antidoping conceituados e com grande expertise, como a WADA (agência mundial), a USADA (agência norte-americana) ou mesmo a já citada VADA, é um passo crucial neste momento, em que a situação clama por uma resposta imediata e efetiva por parte da organização.

Nesta quarta-feira (18), o UFC convocou uma entrevista coletiva para tratar do assunto e a promessa do presidente Dana White é de que as medidas necessárias serão tomadas.

Vamos esperar pela coletiva de imprensa quarta-feira em Las Vegas. Só posso dizer que muita coisa ruim vai acontecer. Nós não vamos falar sobre coisas divertidas, vamos falar sobre o que vem acontecendo recentemente, o que vamos fazer e o que vai acontecer daqui pra frente”, disse o careca, na coletiva de imprensa após o UFC em Broomfield.

Veremos.

  • Franklin Stein

    Parabéns pelo txt Lucas! Estava conversando exatamente sobre isso, falam que testar todos os atletas é um custo que o UFC não pode arcar mas ninguém soma pra saber realmente quanto sairia a conta, sendo que o próprio lucro do UFC por evento é algo meio nebuloso (PPV, patrocinadores, apostas etc). Ia acrescentar uma outra opção, caso o UFC não possa arcar com os exames, esses custos ainda poderiam sair das bolsas dos atletas/patrocinadores… enfim to sendo extremo aqui mas resta saber realmente qual o interesse em diminuir isso ou se é essa declaração de quarta vai ser somente pra esfriar a discussão.

    • Marcelo

      O UFC pode lidar com os custos sim… Cara, isso aí é uma enrolação, é uma mentira, é só porque eles não querem arcar com esse custo e não se importam se os atletas estão usando ou não EA’s – desde que não sejam pegos.
      E eles não pegam nenhum lutador de propósito, eles só tem a perder quando isso acontece e eu estou falando estritamente do ponto de vista financeiro, nem me refiro a parte da reputação da promoção. Eu falo isso porque principalmente com o caso Anderson, vejo muito nego falando que foi de propósito, foi armado e etc… Também com relação ao Wand que tem muitos fãs.
      Os termos financeiros da Zuffa não são tão nebulosos assim. Já foi divulgado que a Zuffa (o UFC é uma marca deles) perdeu 30% da arrecadação no ano passado e entraram o ano de 2015 com dívidas. Mas se você olhar os valores, US$ 4 milhões ao ano é bem menos do que o UFC tira por MÊS.

  • clailton

    Bom texto, a idéia sugerida é plausível e viável (apesar que gosto de ver mesmo são os grande lutadores, complicado se eles começarem a ser pegos e punidos). Comecei a rir quando li essa parte…, disse o careca, na coletiva de imprensa… kkkkkkkkk

  • Lucas Natan

    – Isso das comissões receberem dinheiro dos eventos tem que acabar;
    – Como vc bem colocou, mesmo que o UFC tivesse que tirar do próprio bolso, não seria algo que mataria a empresa;

    Eu digo que testem todos, e que se virem pra pagar os testes. Até pq o prejuízo (e a moral) que perdem quando alguma estrela é pega deve ser levado em conta.

    Os lutadores e seus parceiros precisam entender a mancha que o doping é pro esporte (ainda mais pra um ainda não consolidado). Assim, criem regras mais rígidas, e com o novo sistema de controle anti-doping (com testes surpresa pra todos) façam uma reunião com treinadores/líderes de equipes/lutadores pra passar a msg. Assim, os que ainda usam vão ser obrigados a parar pra não serem pegos nos testes que vão acontecer num futuro próximo.

  • Thiago Arruda

    Excelente texto Lucas, poderia sim ter um pouco de GSP, mas no final foi um excelente texto. Haha

    Testes da VADA não como os da WADA, mesmo assim a ideia é excelente.

    6 milhões de reais, comparado a perda de moral da companhia e do esporte com o resultado positivo de algum atleta não é nada. Além disso, o poder do medo, que mais do que nunca está presente, vai fazer com que todos os lutadores, pensem mil vezes antes de ingerirem algo ilegal. Mesmo que a VADA não faça exames todo dia com todos os lutadores, o medo de ter a “sorte” de ser pego, vai fazer com que o doping seja a última coisa que o lutador vai pensar no seu camp.

    • Lucas Pereira Carrano

      Eu também diria que foi a falta de GSP, e não o carnaval, a principal causa da pouca movimentação de leitores neste texto em particular. hahahahaha

  • thetigereyes

    Se as lutas caem toda hora devido a lesões, imaginem sem os esteroides, some isso ao fato dos inúmeros casos de lutadores que serão pegos e veremos lutadores lutando uma vez por ano com sorte.

    • will

      Cerrone luta toda hora e não usa doping. O segredo dele é não abusar nos treinamentos.

  • mazzaropi

    Ótimo texto como de costume!

    A relação custo alto: quantidade de exames realmente é um empecilho, porém o maior controle pode ser realmente nas lutas de maior visibilidade onde os próprios atletas poderiam bancar, mesmo acreditando que isto deveria ser algo bancado pelo próprio evento.

    Não acho que o problema do doping será resolvido por ser uma problemática extritamente ética. O falso moralismo e a politicagem do esporte são maiores. Serão pegos aqueles que não corresponderem com os interesses do evento, quando na verdade o teste antidopagem deveria acontecer para a segurança da saúde do próprio atleta.

    Ótima matéria do Guilçherme Roseguini no Esporte Espetacular sobre o doping!

    Abração amigos.

  • Matheus

    Texto realmente mt bom. Só tenho uma dúvida. Td exame sanguínio é igual? Não tem vários diferenças?

  • Danilo Lopes

    The former middleweight champion tested positive for Oxazepam and Temazepam in a post-fight urine test administered on Jan. 31. Oxazepam is used to relieve anxiety, while Temazepam is an anti-insomnia medication. In addition, “The Spider” again tested positive from drostanolone metabolites . The Nevada Athletic Commission revealed the results of the second failed test on Tuesday.

    Previously, Silva tested positive for drostanolone metabolites and androsterone

    • Danilo Lopes

      Agora finalmente vou dizer o que acho que aconteceu.

      Pra mim, ele já sabia do resultado do exame pré-luta com drostanolona e se planejou desde então para tentar transformar essa cagada em algo mais “explicável”.

      Como acreditar que um cara com essa experiência também iria cair de gaiato no exame do dia da luta? Ciclou errado depois de 20 anos? Não sabia que esses ansiolíticos são proíbidos? Não se importou? Duvido muito de todas essas possibilidades.

      Pra mim não cola. Pra mim ele caiu, foi avisado e tratou de correr atrás de ciclar novamente junto com esses ansiolíticos pra ter o pretexto perfeito.

      3…2…1… ele dando entrevista pro fantástico deixando de lado os anabólicos e focando nos anti-depressivos. Dizendo que sucumbiu à pressão.

      Claro, não posso acusar, mas esse desfecho me faz crer que não é de hoje que ele vem fazendo isso.

  • will

    Exames surpresas em eventos numerados são suficientes por enquanto. Se um Zé ruela usar doping num FightNights tudo bem, o que não pode é um cara ganhar um cinturão na malandragem! Fico feliz com o rumo que as coisas estão tomando no UFC. Chega de malandro bombado!!!

  • Gus Hansen

    O jeito é testar todo mundo, gastar os tubos pra colocar o UFC como uma organização séria, digna de atrair os grandes patrocínios e se tornar uma força mundial. Porque do jeito que está a imagem do UFC, lutadores e todo o MMA (porque UFC é MMA pra maioria do povo) está em risco. Se antes era associada a violência e brigas, hoje o MMA está associado a doping. Está com a mesma moral que o fisiculturismo tinha um tempo atrás – isso na cabeça do público médio, como dizem.

    UFC tem que gastar, testar e fazer uma publicidade inteligente dessas ações.

    E, o AS?? Caiu com esteróides, analgésico e remédio para acalmar os nervos?? Pois, parece que nem queria passar no teste.
    E aí, ele chutou o balde? Pirou? Por que isso neste momento da carreira?
    Parece que este retorno estava custando muito mais caro a ele do que as belas imagens (Spider Life) mostravam.

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